Cerâmica Artística Vianense nas mãos de um colecionador – Hugo Sá Lima

Fábrica de Loiça de Viana, Meadela. Séc. XX. Coleção Hugo Sá Lima.

Está patente ao público no Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo, entre agosto e dezembro de 2026, uma exposição sobre a Cerâmica Artística Vianense.

É um conjunto notável de peças, em qualidade e em quantidade, que se inicia com as produções da Fábrica Cerâmica de Darque, em 1774, e que vem até aos nossos dias. É um acervo particular, pertença do colecionador vianense Hugo Sá Lima.

Viana, a bela cidade ao pés do rio Lima, sempre teve excelentes colecionadores, preocupados em preservar o património ceramológico local. Citemos apenas alguns nomes – Luís Figueiredo da Guerra, Luís Augusto de Oliveira, Serafim Mendes e a família Espregueira Mendes. Outros haverá seguramente.

Hugo Sá Lima, nascido na década de 1980, começou cedo a colecionar cerâmica, por influência dos seus progenitores. Confessou-me que na sua coleção existem peças da primeira fábrica vianense – a fábrica de Darque, fundada em 1774 –, adquiridas por seu pai, mas o que mais lhe agrada e motiva é a cerâmica modernista vianense.

Escreve ele: «na minha coleção, manifesto um particular interesse pelas peças modernistas, que se distinguem pelo seu elevado valor artístico, técnico e cultural. Longe de serem meras reproduções ou revisitações do passado, estas obras revelam um notável virtuosismo por parte dos artistas que as conceberam, afirmando uma linguagem própria e inovadora».

Viana tem de lhe agradecer o cuidadoso trabalho de recolha de peças e a investigação sobre as fábricas locais de cerâmica. A coleção, constituída por largas centenas de peças, dá a conhecer o trabalho das seguintes fábricas – Fábrica de Louça de Viana (em Darque); Fábrica Jerónimo Pereira Campos, filhos (em Alvarães); Fábrica de Loiça de Viana (na Meadela); Cerâmica Regional Vianense (em Alvarães); Ceral (em Alvarães); Olaria Artística de Lanheses ou Olaria de Lanheses (em Lanheses); Dévica (em Vila Fria); Alfe (na Meadela); Limaica (na Meadela); Vianagrés (no Carvoeiro); Grésvi (em Barroselas).

Esta exposição no Museu de Artes decorativas de Viana do Castelo torna possível que conhecer, pela primeira vez, de modo cronológico, a evolução da produção cerâmica vianense desde o final do século XVIII até aos nossos dias.

Os museus muito devem a alguns colecionadores que de modo criterioso, e ao longo de anos, vão recolhendo importante acervo ceramológico. Entre esses colecionadores alguns dedicam-se a recolher de modo sistemático as produções das sua terra natal. É o caso de Jorge Pereira de Sampaio, que não há muito tempo ofereceu a sua coleção de cerâmica de Alcobaça ao município local e o de Hugo Sá Lima com a sua coleção de cerâmica vianense. Felizes as terras que tais cultores possuem!

Esta exposição possui catálogo – «Cerâmica artística vianenses desde 1774», que em boa hora o município decidiu editar. Escrito pelo colecionador, através dele ficamos a conhecer as diferentes fábricas e as suas produções. Sobre cada uma delas há um texto e a publicação de imagens de algumas das peças.

Esta edição deve entender-se como uma primeira abordagem a estas produções, pois cada uma delas merecerá, no futuro, assim o desejamos, um estudo mais aprofundado e imagens de maiores dimensões.

Com os museus e a cerâmica no coração

Peça de loiça vidrada. Museu D. Diogo de Sousa

Quando se viveu tantos anos – 42 no total – a trabalhar em museus, agora que se goza a merecida aposentação, aquece sempre o coração voltar ao lugar onde se foi feliz.

Hoje o dia foi passado entre o Centro Interpretativo da Cerâmica, em Prado, do Município de Vila Verde (e que espero sinceramente rapidamente reúna as condições para ser chamado de Museu e poder integrar a Rede Portuguesa de Museus) e o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (Museus e Monumentos de Portugal).

Barreiro em Vila Verde

E ainda mais gratificante é poder aprender/conviver com excelentes técnicos. No Centro Interpretativo passei a manhã com o oleiro @José Correia, discutindo a qualidade do barro local e indo, de novo, a um dos barreiros para melhor conhecer os barros deste centro olárico centenário que é o extinto concelho de Prado (atuais concelhos de Vila Verde e Barcelos).

Barro pronto a ser usado e preparado pelo oleiro José Correia. Centro Interpretativo da Cerâmica em Prado (Vila Verde)
A conhecer os barreiros e o barro com o oleiro José Correia.

A tarde foi passada com a Clara Lobo num espaço que me aquece a alma – as reservas do Museu D. Diogo de Sousa – abrindo frequentemente a boca de admiração face às várias peças cerâmicas produzidas ao longo dos séculos em Prado ou nas redondezas. Os estudos estão em curso!

Com ambos José Correia e Clara Lobo aprendo sempre muito, mas também partilho o que fui aprendendo ao longo de anos.

O meu sincero agradecimento vai também para os dirigentes destes museus (um museu e um centro interpretativo da cerâmica que espero passe a museu!) que bem entendem que a partilha do conhecimento, e do muito que guardam os museus, é bom para todos – os museus, os investigadores e para aqueles que querem conhecer o muito que guardam e partilham os museus.

Vou voltar brevemente. Fica a promessa, que seguramente cumprirei!

Uma talha de Barcelos no restaurante Boémio, nas Taipas

De vez em quando sou surpreendida com peças cerâmicas em espaços públicos.

Serenas e discretas as velhas peças de olaria, que tanto uso tiveram nas casas de antanho, estão hoje utilizadas de modo bem diverso.

Numa ida ao restaurante Boémio, nas Taipas, ali não muito longe de Guimarães e de Braga, fiquei sentada ao lado de uma velha talha encordoada de Barcelos.

O meu marido pergunta – «Porque tens tanta certeza que é Barcelos»? Resposta pronta – «Seguramente que é Barcelos! Basta olhar para ela, observar o colo e o modo do bordo, olhar para a forma e para as cintas (encordoado) que a revestem». Uma bela e vetusta talha de Barcelos, sem dúvida. Terá servido para guardar azeite ou outro produto alimentar.

Hoje tem dentro um vaso com plantas, decorando o espaço onde se encontra.

Também num canto da sala, sobre a velha lareira, são visíveis pratos vidrados de Barcelos com quadras populares.

Vale a pena provar o bacalhau na brasa (mas há outras iguarias) e aproveitar para deitar um olho à loiça e à bela talha vidrada.

No dia da Mulher conheça-se o transporte da loiça à cabeça feita pelas mulheres de Vila Verde e Barcelos

Mulher de Santa Marinha de Oleiros na estrada de Prado para Braga. Transportando «um molho de louça à cabeça» (cântaros, panelas, chocolateiras). Parra proteger a cabeça e os ombros repare-se no uso da monelha. 7 de marçod de 1940. Fotografia de Joaquim Santos Júnior. Fundo Professor Santos Júnior. Centro de Memória de Torre de Moncorvo.

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher.

Aproveitando este dia, gostaria de mencionar o trabalho da mulher nas olarias, ao qual se tem dado pouca atenção, até porque delas não rezava a história.

No caso da olaria de outros tempos, o que podemos dizer é que salvo duas exceções – Pinela (Bragança) e Malhada Sorda (Almeida, Guarda) – o trabalho à roda era exclusivo dos homens, ajudando a mulher e os filhos, mas em trabalhos considerados menores, não executados pelo oleiro rodista.

O trabalho da mulher nas olarias

À mulher, para além dos trabalhos relacionados com o cuidar do lar – cozinhar, tratar da casa e da roupa, cuidar dos filhos e da criação, auxiliar nos trabalhos do campo – competia-lhe também ajudar na feitura da loiça.

Por exemplo, em Prado (atuais concelhos de Vila Verde e Barcelos), até ao final da primeira metade do século XX, a mulher, auxiliada pelos filhos, era responsável por amassar o barro com os pés no aloque, esmagar o barro no masseirão, ir à água e à lenha, ajudar na cozedura da loiça e no seu transporte à cabeça, para os locais onde a ia vender.

O transporte da loiça à cabeça

Quase sempre descalça, a mulher deslocava-se a pé, transportando à cabeça a loiça que ia vender nas feiras e mercados das redondezas.

Carregava à cabeça uma molhada de cântaros, podendo, noutras situações e para peças mais pequenas, transportá-las dentro de um cesto ou de um alguidar.

A primeira fotografia em que me apercebi deste modo de transporte da loiça foi publicada na Ilustração Católica, em novembro de 1918, e é da autoria de Augusto Soucassaux. Infelizmente foi impressa numa época em que devido à 1.ª Guerra Mundial, era muito má a qualidade do papel usado (ILUSTRAÇÃO CATÓLICA, 1918: 305).

Duas mulheres carregando molhadas de cântaros à cabeça e uma outra com um alguidar contendo testos. Fotografia de Augusto Soucassaux, publicada na revista Ilustração Católica, em 1918 (ILUSTRAÇÃO CATÓLICA, 1918: 305).

Anos mais tarde descobri no arquivo fotográfico de Santos Júnior, que se encontra no Centro de Memória de Torre de Moncorvo, o mesmo modo de transportar a loiça à cabeça feito pelas mulheres de Santa Marinha de Oleiros (Vila Verde, Braga), em março de 1940 (FERNANDES, 2012: 54; 2025: 79-81).

Para proteger a cabeça e a nuca as mulheres colocavam no alto da cabeça a rodilha e sobre a parte posterior do pescoço e das costas uma monelha, ou seja, um saco cheio de palha.

É interessante constatar que em Portugal a mulher transporta à cabeça, a prumo, ao contrário do homem que apoia o que transporta sobre as costas. Por exemplo, as mulheres de Bisalhães transportavam a loiça à cabeça e os homens sobre as costas, isso mesmo é demonstrando em fotografias de Santos Júnior datadas de 1955 (FERNANDES, 2012: 128).

Hoje, neste dia Internacional da Mulher, apenas decidimos dar-vos a conhecer este transporte da loiça, feito à cabeça pela mulher de Vila Verde e Barcelos.

Tempos duros…

Nota: Um agradecimento especial ao Centro de Memória de Torre de Moncorvo (Município de Torre de Moncorvo) que tem sabido cuidar do espólio documental e fotográfico de Joaquim Santos Júnior e o disponibiliza a quem o pretende.

Bibliografia

FERNANDES, 2013 Isabel Maria Fernandes – As mais antigas coleções de olaria portuguesa: Norte. Barcelos; Vila Real: Museu de Olaria, Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real, 2012. ISBN 978-972-9462-89-4

FERNANDES, 2025 Isabel Maria Fernandes – Vila Verde: terra de barro e de homens e mulheres que o trabalham. Vila Verde: Câmara Municipal, 2025. ISBN: 978-989-36307-2-3

ILUSTRAÇÃO CATÓLICA, 1918 Ilustração Católica: revista literária semanal de ilustração gráfica. Braga. 6: 283 (30 de novembro de 1918). P. 305.

Victor Santos e a sua Coleção de Cerâmica

Ontem, sábado, apesar de algumas peripécias, conseguimos visitar a exposição de arte popular recolhida ao longo de muitos anos, com gosto e deleite, por Victor Santos.

A exposição está sediada na Casa Amarela, um dos equipamentos culturais do município das Caldas da Rainha, situado no complexo que designam por «Centro de Artes Museus Municipais» e que se situa na Rua Dr. Ilídio Amado, nas Caldas da Rainha.

Por deformação profissional – a nossa paixão é a cerâmica – não iremos debruçar-nos sobre o acervo de latoaria, ferro forjado, miniaturas de embarcações, cestaria, arte pastoril e máscaras tradicionais.

Vítor Santos fez esta coleção ao longo de 45 anos, e acredito que ainda hoje continue «a ter o bichinho» para adquirir novas peças. São 45 anos de fascínio pela arte popular e pela profissão que abraçou – a de actor.

Se pretende conhecer um pouco melhor quem é Victor Santos e como ganhou o gosto por colecionar olaria e figurado não deixe de ler a breve nota autobiográfica que consta no folheto digital da exposição.

Em boa hora Victor Santos decidiu oferecer a coleção que tão carinhosamente foi criando ao município das Caldas da Rainha que a inventariou e a expôs.

A coleção de cerâmica é variegada, representa o País de norte a sul, e é composta por olaria e figurado. É quase uma centena de peças que nos permitem conhecer a variedade da produção olárica dispersa pelo nosso país, sendo que alguns dos locais produtores já se encontram extintos.

Não existe catálogo com o acervo oferecido ao Município das Caldas da Rainha por este colecionador, mas é facultado um código para sacar um interessante folheto digital onde se consegue vislumbrar a riqueza da coleção. Veja-se https://caldascidadecriativa.com/wp-content/uploads/2025/08/Brochura-Coleccao-Arte-Popular.pdf

A exposição desdobra-se em dois pisos no edifício designado como Casa Amarela.

No primeiro piso encontra-se latoaria, ferro forjado, miniaturas de embarcações, cestaria, arte pastoril e figurado de barro; no segundo piso, máscaras tradicionais, olaria das Caldas da Rainha e olaria tradicional portuguesa. Na escadaria e no vão de duas janelas, também se encontram peças de olaria.

Na exposição não existem fotografias dos autores das peças, mas através do folheto conseguimos perceber que Victor Santos ao mesmo tempo que as ia adquirindo, também fotografava os seus autores. E como é importante possuirmos quer as peças quer as fotografias de quem as concebe, documentando-se modos de fazer e perpetuando-se gestos.

Expõem-se várias dezenas de peças de olaria e figurado provenientes de diferentes locais de produção, aqui apresentados por ordem alfabética: Atalaia, Bajouca, Barcelos, Barreira (Meda), Beja, Beringel, Caldas da Rainha, Carapinhal, Creixomil, Estremoz, Lisboa, Mafra, Nisa, Pinela, Redondo, Ribolhos S. Miguel (Açores), S. Pedro do Corval e Sintra, e uma peça que indica como proveniência o Algarve.

Algumas peças são de autor desconhecido, mas a maior parte tem indicado o nome de quem as criou. Aqui deixamos, nomeados por ordem alfabética, os oleiros e barristas que figuram na exposição:

OLARIA – Adelino Silva (Mafra), Adriano Andrezes (Barreira, Meda), Álvaro Chalana (Redondo), António Campinas (Beringel), António Correia (Lisboa), António Louro Piedade (Nisa), Armindo Reis (Caldas da Rainha), Cerâmica Leite (Lagoa, S. Miguel), João Reis (Caldas da Rainha), João Reis (pai) (Caldas da Rainha), João Rosário Silva (Atalaia), Joaquim Oliveira (Creixomil), José Franco (Mafra), Luís da Silva “Santo” (Bajouca), Manuel Beijinho (S. Pedro do Corval), Maria Cândida Afonso (Pinela), Mário Lagartinho (Estremoz), Olaria Beira (Redondo). Olaria Patalim (S. Pedro do Corval), Quirino F. Santos (Carapinhal). Vítor Mendes(Caldas da Rainha) Xavier (Algarve).

FIGURADO – Ana Baraça (Barcelos), Fátima Estróia (Estremoz), Izaclino Palma (Beja), João Silva (Sintra), Josafaz (Sintra), José Maria Rodrigues (Ribolhos), Júlia Ramalho (Barcelos), Liberdade Conceição (Estremoz), Manuel Macedo (Barcelos), Maria Luísa da Conceição (Estremoz), Maria Sineta (Barcelos), Mistério (Barcelos), Rosa Côta (Barcelos), Rosa Ramalho (Barcelos), Sabina Santos (Estremoz).

A exposição merece ser visitada, por isso, vá até às Caldas da Rainha e deleite-se com o acervo cerâmico exposto. Verá que não se arrepende.

, , , , , , ,
, , , , , , ,
, , , , , , ,
, , , , , , ,

Placas de Teste de Esmalte: Uma História Cerâmica

Quando as fábricas de cerâmica vão à falência, os produtos – máquinas e peças que restam – são vendidas. Mas, há sempre objetos subestimados e que ficam para trás, num completo abandono.

Numa dessas fábricas, que outrora existiu no distrito de Santarém, permaneceram ao abandono algumas placas de teste. Estas placas eram usadas para verificar o modo como o esmalte reagia durante a cozedura (cor, escorrimento, textura).

Neste caso, as placas de teste são pequenas rodelas cerâmicas com frete no tardoz. Nelas era aposto um número composto e o esmalte com a cor que se pretendia testar.

Atualmente, parte do conjunto destas placas foram preservadas sobre placas de MDF (Medium Density Fiberboard), compondo um belo conjunto decorativo com forte presença cromática.

Muitas mulheres e muitos homens trabalharam nesta fábrica, fazendo produtos de uso diário que encheram de cores as nossas mesas e a nossa casa, em Portugal e no estrangeiro.

Seja esta uma singela homenagem a todos aqueles que diariamente trabalham com cerâmica e também para aqueles que gostam de cerâmica e de viver no meio dela!

Celebrando o Natal com Presépios de Arlindo Fagundes

Presépio. Arlindo Fagundes. Fotografia de Pedro Inácio.

Esta é uma das épocas do ano de que mais gosto. Adoro receber a família, no aconchego do lar, partilhando a conversa e a mesa farta de iguarias próprias do Natal.

É também a altura de expor alguns dos presépios de barro que ao longo dos anos fui adquirindo e que nesta época ganham destaque na decoração dos espaços.

Hoje o que vos trago são dois presépios do ceramista Arlindo Fagundes, cujo obra muito admiro. Nenhum deles me pertence, mas ambos podem ser fruídos na exposição temporária sobre a sua obra, patente no Centro Interpretativo da Cerâmica de Prado (Vila Verde). Um dos presépios é pintado, o outro não.

As fotografias sáo do Pedro Inácio (Câmara Municipal de Vila Verde).

Figura de Presépio.Nossa Senhora. Arlindo Fagundes. Fotografia de Pedro Inácio.
Figura de Presépio. Menino Jesus. Arlindo Fagundes. Fotografia de Pedro Inácio.
Figura de Presépio. Rei Mago. Arlindo Fagundes. Fotografia de Pedro Inácio.

Tenho andado agradavelmente enredada com um catálogo, a ser publicado no próximo ano, sobre a obra do Arlindo Fagundes.


Arlindo Fagundes

Arlindo Fagundes nasceu, em Ovar, em 3 de Julho de 1945, e faleceu, em Braga, em 9 de Janeiro de 2025.

Entre 1963 e 1967 frequenta, em Lisboa, os cursos de desenho e de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes. Entre 1966 e 1967 frequenta também o 1.º e o 2.º ano do Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas Artes, onde teve uma cadeira de cerâmica, mas demasiado teórica para o seu gosto.

Em 1973, em Paris, frequenta um curso de realizador de Cinema no Conservatoire Libre du Cinéma Français.

Regressa a Portugal depois do 25 de abril de 1974, tendo chegado a trabalhar, como colaborador, para a RTP, mas, em 1975, decide experimentar a cerâmica, ocupando a oficina cerâmica – a Olaria Ágata – que os seus cunhados – Nuno Barreto e Aníbal Estrada – haviam criado no Lugar do Portelo, em Prado, nas traseiras da casa onde estava instalado o consultório médico de seu sogro – o Dr. Lima Cruz.

Arlindo Fagundes manteve o nome – Olaria Ágata – comprou um forno novo e tinha uma roda que era utilizada pelos oleiros de Barcelos que com ele foram colaborando.

Confessa que foi com a prática e com o apoio dos oleiros de Barcelos que evoluiu tecnicamente – «com quem aprendi mais foi com as pessoas daqui»; «dá para aprender toda a vida e morrer ignorante».

Começou por fazer peças únicas, mas cedo descobre que não era seguindo esse rumo que singraria. Iniciou então a criação de peças originais, usando os cabaços feitos na roda pelos oleiros que com ele colaboravam e aparelhando-os (compondo-os) com os elementos que desejava acrescentar, por exemplo, pernas, braços, coroa… A partir da peça original criada por si – a matriz – executava o molde em gesso e a partir deste fazia os múltiplos. Encontrou assim o seu mercado de venda.

Presépio. Arlindo Fagundes. Fotografia de Pedro Inácio.

Entre as peças produzidas por Arlindo Fagundes refiram-se: Gentleman, Senhora do gentleman, General, Senhora do general, Frade, Alentejano, Senhora do alentejano, Senhora do aviador, Jogo de xadrez (32 figuras), Sidas, Anjo da Guarda, Freira, Árbitro, Estudante de Coimbra, Presépio, Cristo.

Se algum de vocês tiver peças da autoria deste artista, muito agradeço que me permitam conhecê-las. Caso encontre peças que não constam entre as que inventariei, se me permitirem, fotografá-las-ei para que possam constar no mencionado catálogo.

E assim, com dois presépios do Arlindo Fagundes desejo-vos um Feliz Natal.

Infusas vidradas barcelenses no Tasco do Carroça

Tenho este hábito, seguramente deformação profissional, de procurar cerâmica nos sítios por onde ando.

Num dos restaurantes vimaranenses, de mesa farta e comida local, o Tasco do Carroça, há duas enormes infusas vidradas barcelenses que para mais não servem do que decorar o espaço.

Uma delas encontra-se bem perto da máquina registadora e serve mesmo de apoio para o caderno onde se apontam as reservas de mesa.

As ditas infusas, feitas nas olarias de Barcelos, são de tamanho desmedido, mas demonstram bem a mestria do oleiro que as levantou na roda. Estão decoradas com as típicas «pinturas» das olarias barcelenses.

Estas infusas, na sua origem, são destinadas a conter líquidos, normalmente vinho, mas, pelo seu tamanho, terão sido criadas apenas para efeitos decorativos, finalidade que lhe atribuem no Tasco do Carroça.

Assim se dão novos usos a velhas peças, mas que continuam a ser feitas com a destreza e qualidade técnica dos oleiros barcelenses.

Outubro de 2025

.

Hotel 3HB, em Faro

Portugal. Há cerâmica por aí…

Quando o olhar está vocacionado para a cerâmica é frequente, aqui e ali, depararmos com peças cerâmicas em uso nos espaços mais inusitados ou em uso em funções para as quais não foram criadas.

É esse mundo da cerâmica e seus usos tradicionais ou novos usos, que vamos documentando por aí, e de que aqui daremos boa conta.

Num velha rua de Faro somos surpreendidos por um hotel contemporâneo, o 3HB, que apostou, e bem, em misturar o tradicional e o contemporâneo e em usar a olaria e o têxtil, para dar apenas dois exemplos, na decoração dos seus espaços.

Na ampla receção, em singelas estantes, podemos observar várias peças de olaria. Descontextualizadas dos seus usos tradicionais elas ganham aqui novos contextos, novos usos e dão trabalho aos oleiros que as produzem. Gostei de ver!

ARFAI. Uma bela exposição

Este domingo pudemos visitar uma exposição sobre a produção de faiança decorativa da Arfai Ceramics no Museu do Vinho de Alcobaça.

A exposição «30 anos: peças com História», patente ao público entre 13 de novembro de 2025 e 29 de março de 2026, foi organizada pela Arfai Ceramics com o apoio do Município de Alcobaça. Museu do Vinho de Alcobaça. Contou também com a parceria da Adega Cooperativa de Alcobaça.

Arfai: sua história

A Arfai Ceramics foi fundada, em Aljubarrota, em 1995, por Carla Moreira e Roland Wouters.

Inicialmente dedica-se à produção faiança decorativa, criando peças «destinadas ao setor das flores e jardinagem: vasos, floreiras, jarras e recipientes concebidos para exportação»[1], tendo a produção a cargo de uma equipa reduzida, num edifício com apenas 300 m2, executando peças decoradas à mão, «com motivos florais ou paisagísticos, cores vivas e técnicas a frio». Exporta para «França, Bélgica, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos», usando «camiões equipados como mostruários itinerantes, que percorrem a Europa apresentando as coleções».

No ano de 2002 emprega 70 trabalhadores e a sua área edificada atinge os 6000 m².

A empresa evolui e passa a centrar a sua estratégia na criação de produtos com design incorporado, acompanhando as tendência em voga, e destinado a um segmento médio-alto. Também volta a aumentar o espaço fabril, criando um novo corpo edificado com 1500 m2, valorizando a «loja de fábrica e um showroom permanente». Passa a fornecer regularmente as «grandes cadeias de lojas e distribuidores de referência», sendo 2008 o ano em que a marca atinge um pico de faturação. Os anos seguintes são marcados pela crise internacional que afeta as contas da empresa.

Em 2010 Carla Moreira assume sozinha a direção da fábrica, «dando início a uma nova etapa marcada pela estabilidade e pela expansão internacional», na qual são conquistados novos mercados «Coreia, Noruega, Austrália, Dinamarca, Suíça e Áustria» e reconquistados outros, «Estados Unidos e os Emirados Árabes Unidos».

Em 2014 há um novo investimento na melhoria das condições fabris e de equipamentos e na criação de «uma nova identidade visual», consolidando nos anos que se seguem «o seu nome como referência internacional da cerâmica decorativa portuguesa».

30 anos: peças com História

A exposição tem como conselheiro científico Jorge Pereira de Sampaio e a curadoria de Luís Peres Pereira (ADEPA), Patrícia Couto (Arfai) e Sara Baptista da Silva (Arfai). O design expositivo e a comunicação ficaram a cargo da Arfai Ceramics.

Num dos espaços do Museu do Vinho, na sala onde se encontram as enormes balsas de madeira, expõe-se sobre uma base pintada de branco a produção de cerâmica decorativa da Arfai.

Inicia-se com as primeiras produções e vai-se mostrando de modo cronológico as peças produzidas indicando-se os períodos (anos) de produção e em alguns casos os nomes dos clientes.

Através desta exposição é perfeitamente compreensível o modo com a produção foi evoluindo em qualidade técnica e estética e como o recurso a design de qualidade foi uma aposta ganha.

A Arfai é um bom exemplo de como a qualidade técnica aliada à qualidade estética (design) podem contribuir para valorizar dos produtos portugueses num mercado internacional competitivo.

Parabéns à Arfai com o desejo sincero de que continue na senda do progresso.

Portugal no seu melhor!


[1] Texto retirado dos painéis da exposição da Arfai no Museu do Vinho de Alcobaça.

Um par de cantarinhas em Montemor-o-Novo

Numa rua cheia de luz, numa casa pintada de branco, bem perto do centro de Montemor-o-Novo, no portão de acesso ao pátio da casa, duas cantarinhas, tal como soldados perfilados, ladeiam e ornamentam a entrada.

Foram caiadas de amarelo tal como as ombreiras das janelas.

Numa rua cheia de luz, numa casa pintada de branco, bem perto do centro de Montemor-o-Novo, no portão de acesso ao pequeno jardim da casa, duas cantarinhas, tal como soldados perfilados, ladeiam e ornamentam a entrada.

Foram caiadas de amarelo tal como as ombreiras das janelas.

E assim se arranjam novas funções para peças antes destinadas ao serviço de líquidos.

Outubro de 2025

Fernando Fernandes Correia, oleiro de loiça preta de Vila Nova de Poiares ou a compra de um alguidar torto

Na quinta-feira, dia 7 de agosto, eu e o Fernando fomos visitar a 47.ª feira de Artesanato de Vila do Conde, que decorreu entre 26 de julho e 10 de agosto de 2025. De quando em vez visitamos quer esta feira quer a feira de Artesanato de Barcelos.

Nunca resisto à loiça preta e, por isso, adquiri um alguidar torto, feito pelo oleiro Fernando Fernandes Correia, com oficina no Lugar de Olho Marinho, freguesia de S. Miguel de Poiares, no concelho de Vila Nova de Poiares.

Para fazer o arroz de forno costumo usar um velho alguidar vidrado de Barcelos mas que leva um quilo de arroz, o que é em demasia em algumas ocasiões.

O alguidar agora adquirido vai-me permitir cozinhar uma menor quantidade de arroz. Os velhos alguidares de Vila Nova de Poiares não levavam o nome dos oleiros que os faziam, mas este está carimbado, com vários carimbos, como se poderá observar na imagem que ilustra este artigo.

Estes carimbos informa-nos que é apropiado para cozinhar, onde é feito e que é certificado. Tenho andado longe das lides cerâmicas e confesso que esta foi a primeira vez que vi carimbos destes género.

Pena que o alguidar não venha com a receita do arroz de forno, como já vi no Brasil e em Espanha. Nestes locais o recipiente de barro traz um papel com a receita culinária para a qual se utiliza aquela peça em concreto.

Enfim, não se esqueça que, antes de usar o recipiente pela primeira vez, o deve preparar previamente. O oleiro aconselhou a barrá-lo com uma gordura, mas eu costumo levá-lo ao forno quente com água e farinha dentro. Foi como aprendi, mas há quem use outras técnicas.

Certo, certo é que o que se cozinha em barro fico com outro paladar. Já experimentou?

Deixo aqui a receita de arroz de forno que utilizo e que era a receita da minha Tia Tiz, de Barcelos. Bom proveito!

ARROZ DE FORNO DA TIA TIZ (Barcelos)

Ingredientes

Arroz                                                                             1 quilo de arroz

Salsa                                                                             um ramo

Cebolas                                                                         duas

Carne de boi, da capa                                                     quanto baste

Toucinho fumado                                                            um pedaço

Chouriço caseiro                                                             um

Recipiente:

Um alguidar torto vidrado de Barcelos

Como todas as receitas que passam de mãe para filha e que são aprendidas fazendo e repetindo, não há medidas certas. A melhor medida é a sabedoria, a repetição de gestos e um paladar apurado.

Põe-se a cozer em água as carnes acima referidas (carne da capa, toucinho fumado e chouriço caseiro). Quando as carnes estão bem cozidas (cerca de uma hora), côa-se a água e reserva-se.

Num alguidar de barro coloca-se o arroz sem lavar, o ramo da salsa e as duas cebolas picadas. Sobre isto verte-se a água de cozer as carnes que ainda está quente, mexe-se bem, verifica-se se é ou não necessário acrescentar sal e vai a forno forte que previamente se aqueceu.

Para uma medida de arroz acrescenta-se 1 ½ a duas de água de cozer as carnes. Quando a água do arroz começa a ferver no forno pode mexer-se mais uma vez e depois é manter em forno médio até estar bem cozido e de cor alourada na superfície.

Formas de pão-de-açúcar, pote coletor e açúcar embalado (Bordéus, França)

A cana de açúcar, depois de colhida passa por diversas fases, sendo que durante a prensagem liberta um líquido – a calda ou melaço –, que tem de ser devidamente cozida e, seguidamente, colocada a purgar dentro das formas de pão de açúcar de modo a obter-se o açúcar purificado.

O melaço vertia-se e prensava-se, em camadas, dentro destas formas até estarem cheias.

A forma de pão de açúcar é um recipiente feito em barro cozido, de forma cónica, sendo aberto na parte mais larga e possuindo um orifício na parte afunilada, destinado a facilitar a drenagem do melaço.

Estas formas de pão de açúcar, com a parte afunilada virada para baixo, eram colocadas sobre recipientes bojudos – potes coletores – para que o melaço, que ia saindo pelo orifício existente na parte afunilada da forma, purgasse para o pote. Assim permanecia cerca de um mês até que o açúcar dentro da forma ficasse completamente seco.

Depois, o pão de açúcar era desenformado e colocado a secar num espaço interior ou ao sol.

Terminada a secagem era aparado, embrulhado e enviado para venda.

Este processo de depuração do açúcar – que foi usado até ao século XIX, altura em que aparece o açúcar granulado – permitia transformar o açúcar bruto, de tom escuro, num açúcar refinado, de cor branca e de alta qualidade.

No Museu da Aquitânia, em Bordéus, encontram-se expostos formas de pão-de-açúcar, pote coletor e açúcar embalado datados do século XVIII, provenientes de Sadirac, na Gironde, bem como um interessante pão de açúcar embrulhado em papel pardo e com a etiqueta original do local onde foi fabricado – RAFFINERIES DE TIVOLI STE. CROIX RÉUNIES BORDEAUX.

Bordéus foi um importante local de refinamento de açúcar durante os séculos XVII a XIX, sendo que no final do século XIX já só existiam três refinarias – Saint Rémi, Sainte Croix e Frugès. No primeiro quartel do séc. XX as três refinarias foram adquiridas pela empresa Say que as reunificou. Em 1984 encerram definitivamente a sua atividade.

Bibliografia:

Em busca de ladrilhos cerâmicos medievais: Gironda (França)

Em Portugal vamos encontrando um ou outro pavimento e um ou outro ladrilho cerâmico medieval, mas não com a profusão com que os encontramos em Espanha, França ou Inglaterra.

No Museu da Aquitânia, em Bordéus, expõe-se uma interessante composição destes ladrilhos cerâmicos, num total de 89 ladrilhos, e que cobriam os pavimentos de igrejas, castelos e outros edifícios públicos ou privados, enriquecendo-os.

Trata-se de ladrilhos cerâmicos, impressos e vidrados, datados dos séculos XIV e XV, e provenientes de castelos e igrejas de Blanquefort, Langoiran, Saint-Macaire, Bordéus (Sainte-Croix, Notre-Dame-de-la-Place, etc.) e outros locais da Gironda.

Numa legenda explica-se em pormenor como eram produzidos estes ladrilhos, o que aqui deixo traduzido, de forma livre e adaptada do original:

«Ladrilhos vidrados. A Idade Média deu origem à arte de vidrar que se expressa, nomeadamente, em conjuntos de pavimentos compostos por ladrilhos revestidos por vidrado plumbífero que acompanham os mosaicos na decoração dos pavimentos das igrejas, abadias ou castelos.

Os ladrilhos vidrados bicolores estão entre as primeiras criações da Idade Média. O desenho do motivo é esculpido em relevo num pedaço de madeira e depois impresso em talho-doce na matriz de barro. Depois, outro barro (engobe), geralmente de tom mais claro, era despejado sobre ele. O vidrado plumbífero, aplicado com pincel, cobria tudo.

Os ladrilhos são decorados com formas geométricas, animais fantásticos ou figuras heráldicas. Faziam parte da composição os brasões que, a partir do século XII, se tornam sinais necessários de reconhecimento durante as batalhas devido à evolução do armamento. Os brasões rapidamente se tornaram um meio de expressar parentesco, ascendência e alianças, a posse de vários feudos, títulos ou direitos.

Podemos reconhecer o brasão dos Escoussans ‘à destra, um leão rampante de ouro e vermelho, fasciado», proveniente do castelo de Langoiran construído antes de 1340».

O painel cerâmico de Roger Patron e o seu impacto em Bordéus

Em 1968 a empresa Mothes Fréres, originária de Péssac, nos arredores de Bordéus, abre a sua loja na Cours Pasteur, n.º 38, em Bordéus, tendo o Arquitecto responsável sido Francisque Perrier, com ateliê nesta cidade.

A loja Mothes Fréres era especializada na venda de revestimentos cerâmicos.

Dado o seu sucesso, em 1978, o edifício sofre obras de remodelação e a fachada da loja, feita em betão, é revestida por um belo painel de placas cerâmicas, da cor do tijolo, criado por Roger Capron. O mesmo autor cria também na entrada do estabelecimento um mosaico representando uma galinha com rosto.

Roger Capron (1922,Vincennes), artista internacionalmente conhecido, trabalha em Vallauris, mas mantinha relações profissionais com a empresa Mothes Fréres, a qual lhe comercializava as suas obras.

Em 1985, ao lado desta fachada é acrescentada um fachada metálica, decorada com uma composição constituída por três triângulos – sobre os quais figurava o nome do novo proprietário – Alain Mothes.

Em 2005 a loja encerra sendo transformada num bazar, mas mantendo a traça original e o painel da fachada e da entrada da loja.

Em 2009, passa a ser uma loja Carrefour, tendo como consequência nefasta a destruição do painel cerâmico existente na entrada.

Espero que esta fachada se mantenha, pois enriquece o património de Bordéus e alegra-nos o olhar e a alma!

Consulte-se:

Olaria de S. Bento (S. Bento, Angra do Heroísmo, Terceira, Açores)

Numa viagem a Angra do Heroísmo aproveitamos para visitar a Olaria de S. Bento, propriedade do oleiro Ricardo Jorge Machado Simas e situada na freguesia de São Bento.

A olaria fica num antigo edifício utilizado como olaria há muitos anos. O atual proprietário herdou a olaria de seu tio, o oleiro Álvaro Freitas, com quem aprendeu a arte.

Quando miúdo costumava ir até à olaria ver o tio trabalhar e com ele foi ganhando gosto pelo trabalho na arte. O tio insistia com ele para que fizesse da arte uma profissão, mas, tendo deixado cedo os estudos, Ricardo, optou, com 15 anos de idade, por ir vender tabaco pela ilha, por conta de um patrão com quem se dava bem.

O tio continuava a insistir com ele para que trabalhasse na olaria. Mas só com 19 anos, corria o ano de 1994, é que decide fazer da arte uma profissão. Durante oito meses ainda pôde relembrar com o tio as diversas etapas do trabalho do barro, mas o tio adoeceu e daí para a frente começou a trabalhar por conta própria e nunca mais parou.

Continua a fazer as peças tradicionais como o alguidar da alcatra e o talhão, usando o barro de Santa Maria misturado com barro de Lisboa, mas também iniciou a produção de loiça vidrada. Chegou também a utilizar barro da freguesia de Fonte do Bastardo, onde existiram várias olarias. Ainda hoje, na canada do Barreiro, em Fonte Bastardo, diz que há vestígios de uma antiga olaria.

Disse-nos que na Terceira existiram pelo menos 10 telheiras, mas que tudo acabou. Na sua olaria também se fazia telha.

Já trabalha na roda elétrica e prepara o barro com equipamento elétrico. Ainda mantém o velho forno a lenha, mas hoje já dispõe de dois fornos a gaz onde coze a loiça.

A mulher é professora mais ainda dá uma ajuda e enfornar e desenfornar a loiça e a manter a olaria limpa.

O oleiro deu-me um pequeno folheto onde se explica como preparar o alguidar de alcatra antes da primeira utilização e também a receita de alcatra da Ilha Terceira. Transcrevo ambos os textos abaixo.

Preparação do alguidar de Alcatra

Colocar o alguidar dentro de um recipiente com água fresca durante dois a três dias, mudando a água com regularidade.

Retirar o alguidar e deixar escorrer de um dia para o outro.

Barrar o interior com banha de porco, cortar toucinho de fumo em pequenos pedaços, juntar cebola e alhos picados. Colocar algumas bagas de cravinho c pimenta da Jamaica. Juntar uma folha de louro e pimenta preta. Adicionar vinho e levar ao forno. Assim o molho fica mais próximo do molho de Alcatra.

Levar ao forno e deixar cozer.

Ter cuidado com as mudanças de temperatura, por isso o alguidar deve entrar no forno logo quando se acende.

Se possível repetir a operação e ter em atenção que as primeiras cozeduras têm tendência a secar o molho.

Lavar o alguidar sem utilizar detergentes e esfregões muito agressivos.

Receita de alcatra da Ilha Terceira

Para 6 Pessoas

Ingredientes

3 Kg de carne com osso (chambão, cachaço, rebadilha)

250 grs de toucinho fumado

4 colheres sopa de banha

5 cebolas grandes

cabeça de alho

Louro

Sal

1 colher de sobremesa de pimenta da jamaica em grão

1 colher de sobremesa de pimenta preta em grão

1 colher de chá de pau de cravo em grão

Vinho verdelho

Corta-se a came em pedaços de tamanho médio e a cebola às meias luas, o alho e o toucinho em fatias finas.

Num alguidar de barro próprio para alcatra unta-se com a banha, cobre-se o fundo do alguidar com cebola e alho.

A carne que já foi esfregada com sal e colocada no vinho um pouco antes, vai-se colocando no alguidar alternando com a cebola, alho, louro e o toucinho por fim o vinho até cobrir a carne.

Vai ao forno (de preferência de lenha) e cobre-se com folha de Inhame ou de couve (se não for possível usar papel de alumínio), coze lentamente. Ferve durante horas suficientes para cozer bem a carne e apurar o molho.

Depois destapa-se para rosar e volta-se a carne.

No dia seguinte, se necessário retifica-se o molho de sal e vinho, volta ao forno.

Serve-se acompanhada de massa sovada ou pão de leite.

Se possível beber verdelho e o alguidar deve chegar à mesa com a alcatra a ferver.

Olaria Artantiga (Molelos, Tondela, Viseu)

Este mês de junho visitamos a olaria Artantiga, em Molelos.

A olaria pertence a dois irmãos – Luís Lourosa e José Lourosa.

Falámos com o oleiro Luís Lourosa que nos disse ter começado a trabalhar na arte com 15 anos e que aprendeu com o avô, António Matos.

As mulheres destes dois oleiros trabalham, mas não na arte. Na olaria há duas funcionárias que apoiam nas tarefas necessárias: ajudar a enfornar e desenfornar, lavar as peças, brunir a loiça, decorá-la…

A olaria é um espaço agradável constituída por várias espaços distintos a dar para um pátio. Entra-se para a casa das rodas, que tem as rodas, os tornilhos, estadas para colocar a loiça feita e uma salamandra para aquecimento do espaço no inverno.

Da casa das rodas tem-se acesso à sala de vendas onde as peças estão devidamente expostas em prateleiras feitas de madeira de pinho e marcadas com o preço. No fundo do pátio mais espaços onde armazenam e trabalham o barro, onde secam as peças, onde guardam os moldes e, por fim, o forno a gaz de cozer a loiça. Dá gosto ver a organização, arranjo e limpeza de todos os espaços.

Tiveram forno a lenha, mas por vários motivos substituíram-no pelo forno a gaz. Aquele tinha menos capacidade, obrigava a mais tempo gasto no controle da cozedura e à existência de espaço para armazenar a lenha, e tinha o inconveniente de causar muito fumo, o que incomodava os vizinhos, dado que a olaria se situa em contexto habitacional.

Usam dois barros distintos: um, vermelho, mais gordo, que compram na Parceram (?), que vem pronto a usar e que utilizam no fabrico de peças decorativas; e um esverdeado, que vão extrair em Molelinhos, em terrenos que pertencem à Junta de Freguesia de Molelos, e que usam no fabrico de peças utilitárias.

No tempo do seu avô também costumavam ir buscar o barro a Naia (Canas de Santa Maria, Molelos), mas como são terrenos particulares, deixaram de ir. Diz que hoje já não consegue identificar onde era tirado. Este barro tinha caraterísticas diferentes do de Molelinhos, sendo costume misturar uma pequena quantidade do de Naia com o de Molelinhos. Em Anaia chegou a existir uma fábrica que fazia telha preta de grande qualidade.

A olaria Artantiga está equipada com a maquinaria necessária para o trabalho do barro: tractor, reservatório onde misturam o barro com água, peneira para o libertar de impurezas, máquina para o prensar e fazer em placas (laminador); extrusora, rodas elétricas, jaule para moldação das peças, forno a gaz.

Continuam a fazer as peças à roda, mas, para grandes encomendas, costumam também usar o jaule e formas para moldação das peças.

Nesta data estavam a preparar duas grandes encomendas para França e os Estados Unidos, sendo as peças feitas à forma e destinadas a fins utilitários.

O avô materno deste oleiros, de seu nome António Matos Coimbra, tinha olaria nas Raposinhas (Molelos). No pátio da olaria Artantiga puseram uma escultura do avô, feita por um escultor amigo.

Estive a ver os meus apontamentos e verifiquei que a última vez que estivemos com o oleiro António Matos Coimbra, foi há 27 anos atrás, a 11 de junho de 1998. Na altura procurava perceber melhor o modo de preparar o barro.

É bom ver que este oleiro teve continuidade nos seus netos – Luís e José Lourosa.

Havemos de voltar a Molelos para visitar outros oleiros. É sempre um gosto cá voltar.

Casa de Pielas: um belo jardim com estatuetas de faiança

Na Casa de Pielas, cuja origem remonta ao final do séc. XVI (ALMEIDA, 2012), e que tem vindo ao longo dos séculos a ser devidamente cuidada pelos seus proprietários, existe um belo e romântico jardim de influência inglesa, com cerca de 2000m2.

Aqui vos deixo a história deste jardim contada pelo seu proprietário:

«Em 1840, o proprietário da Casa de Pielas, Teodoro António de Carvalho e Almeida Leite Pereira casa com D. Justina Praxedes Ferreira Pinto Basto. E nessa época que a casa assume a forma que apresenta atualmente. No inventário realizado por falecimento de Theodoro de Carvalho e Almeida, em 1897, encontram-se listadas as intervenções realizadas na Casa de Pielas por sua responsabilidade, apontando-se como parte nova da casa “a cozinha, sala de jantar e quarto do inventariado”. Refere-se ainda as benfeitorias realizadas no “jardim e seu calço grade”. D. Justina Praxedes foi a responsável pela execução do jardim dando especial destaque às japoneiras. O jardim localiza-se contiguo ao edifício (orientação sul/poente) e à cota da cave, estando estruturado num eixo principal e encontrando-se dividido em oito canteiros de forma retangular, com bordaduras em sebe de murta e buxo à maneira inglesa. Como elemento principal, que confere grande ambiência ao local, destaca-se a zona de fresco formada por uma rotunda de japoneiras com arcadas que abriga figuras alegóricas das estações do ano, com um lago no centro. Duas destas peças em cerâmica, a primavera e o inverno são provenientes da fábrica de Miragaia (1834-1850) sendo o outono da fábrica J. Pereira Valente (Devesas, Gaia) e faltando o estio. Outras plantas, além das japoneiras, dão uma atmosfera característica a este jardim,  especialmente o teixo, o azevinho, o imperador da china e as árvores de fruto. Depois de fazer um percurso decorativo a água é utilizada para regar os talhões com culturas hortícolas». (ALMEIDA, 2012: 323).

Este artigo vai ilustrado, no final, com fotografias antigas, gentilmente cedidas pelo proprietário, e que bem demonstram o recurso à topiária para embelezar o jardim.

Mas o que me leva a escrever este texto é chamar a vossa atenção para a «casa de fresco», ornada com belas estatuetas das fábricas de faiança de Miragaia e das Devesas. Seriam quatro figuras, representando as quatro estações do ano, mas há uma que falta – a que representaria o Verão.

Duas das esculturas – a Primavera e o Inverno – foram produzidas na Fábrica de Miragaia e ambas contêm a marca de origem bem legível. A figura do Outono foi feita na Fábrica das Devesas, com marca também visível.

Da Fábrica das Devesas existe um catálogo – Catálogo da Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devesas. Neste Catálogo, na Secção de figuras, existem três diferentes grupos representando as quatro estações (CATÁLOGO, 1910: 12-15).

Pela leitura deste catálogo ficamos a conhecer as dimensões e preços destas figuras: o primeiro grupo tem as seguintes dimensões e preços – 130 cm de altura, custando 7000 réis, em «fosco», e 10000, em «vidrado»; o segundo grupo – 110 cm de altura, custando 6000 réis, em «fosco», e 8000, em «vidrado»; o terceiro grupo – 0,80 cm de altura, custando 4500 réis, em «fosco», e 6500, em «vidrado».

O que se constata é que a bela figura que simboliza o Outono, e se encontra na Casa de Pielas, não vem representada no catálogo aqui referido.

Ah, é importante dizer que por questões de preservação estas figuras só visitam esta «casa de fresco» em dias especiais.

Mas, caso queira usufruir deste belo espaço é importante que saiba que aqui pode pernoitar. Quer saber mais? Consulte o site da Casa de Pielas – https://casadepiellas.pt/

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, 2012 A. Carvalho Almeida – Casa de Pielas. In Cabeceiras de Basto: História e Património. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2012.

CATÁLOGO, 1910 Catálogo da Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devesas: António Almeida da Costa e C.ª: Vila Nova de Gaia. Gaia; Porto: Real Typ. Lith. Lusitana, 1910.

Teixo (topiária). Séc. XX, 1.ª metade. Fotografia cedida por Casa de Pielas.

Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Convento de Jesus, Aveiro)

Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

Já tratamos este tema num outro texto deste blogue – «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)», sendo interessante verificar como um mesmo episódio da hagiografia do fundador da Ordem dos Pregadores dá origem a diferentes representações pictóricas, revelando-nos interessantes aspetos sobre o comer e o modo de comer nos séculos anteriores[1]. Antes de analisarmos a pintura faremos uma brevíssima abordagem ao edifício e capela onde a pintura se encontrava.

O Convento de Jesus de Aveiro
O Convento de Jesus de Aveiro pertencia à Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Na origem da sua fundação esteve D. Beatriz Leitoa, viúva de Diogo de Ataíde. A fundação do mosteiro foi autorizada pelo Papa Pio II através da bula «Pia Deo et Ecclesiae desideria», datada de 16 de Maio de 1461. A primeira pedra do novo convento foi lançada por D. Afonso V, a 15 de Janeiro de 1462. A primeira tomada de hábito ocorreu em 1464. Com a proteção de D. Afonso V e a entrada para o convento, em 1472, de sua filha única, D. Joana, o convento ganha importância e reconhecimento. D. Joana, filha de D. Afonso V e de D. Isabel, com apenas 19 anos de idade recolheu-se no Mosteiro de Odivelas, tendo, pouco tempo depois, transitado para o Convento de Jesus, em Aveiro. Mulher de enorme beleza, solicitada para casar com diversos príncipes, sempre a isso se recusou, optando por se dedicar à vida religiosa, apesar de nunca ter professado (GASPAR, 1969).

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Após a sua morte “o povo de Aveiro, antecipando-se ao julgamento da Igreja, começou a denominá-la por santa e a venerá-la. D. Pedro II alcançaria mais tarde do Papa Inocêncio XI o breve de 4 de Abril de 1693, no qual se confirmava o culto, sendo concedida à Princesa a designação de beata e o ofício e a missa próprios, para todo o País e para a Ordem Dominicana” (GASPAR, 1969).
Em 1834, o mosteiro é extinto, sendo os bens incorporados na Fazenda Pública. Em 1874 morre a última religiosa, a prioresa D. Maria Henriqueta de Jesus, sendo o convento extinto.
Ao longo dos séculos o edifício do convento foi sendo ampliado, remodelado e enriquecido com inúmeras obras de arte.
Em 1882, o edifício passa para a Ordem Terceira Dominicana, sendo transformado em escola feminina – Colégio de Santa Joana.
Com a instauração da República, em 1910, o colégio é extinto passando, em 1911, a albergar o Museu de Aveiro.

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click. In http://lh6.ggpht.com/_6TA0yX7EpmE/THzSPHX1tdI/AAAAAAAABBU/EHgj2VR8j5M/s1600-h/museu%20de%20aveiro%5B11%5D.jpg

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click.

A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem
A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, como bem explica José António Rebocho Christo, situava-se no primeiro piso do convento, junto da enfermaria, e foi encomendada por Soror Isabel Padilha (professa em 1618). Desta antiga Capela ainda hoje subsistem no Museu de Aveiro “diversos elementos do retábulo maneirista, as tábuas pintadas que ornamentavam a porta de entrada, a imagem-relicário de S. Domingos e um vasto conjunto de pinturas, num total de 28, tábuas e telas” (CRISTO, 2011). A predela do retábulo da capela era composta por três pinturas distintas, sendo a central a que aqui iremos analisar e na qual se representa o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Trata-se da única tela, das muitas que realizou para esta capela, assinada pelo pintor António André, o qual deve ter nascido em Aveiro por volta de 1580. Em 1612 encontrava-se em Lisboa onde terá aprendido a arte na oficina de Simão Rodrigues. Entre 1619 e 1625 encontra-se em Aveiro, sendo responsável pela execução de diversas pinturas para os Mosteiros de Jesus e de Nossa Senhora da Misericórdia. Entre 1646 e 1652 vamos encontrá-lo no Porto onde trabalhou para a Ordem Terceira de S. Francisco. Deve ter falecido pouco antes de 1668 (SERRÃO, 1991, 2000 e 2010; SOBRAL, 2004: 211; CRISTO, 2011).

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho[2]

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170, e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos em Roma, viveu nos últimos anos da sua vida no Convento de Santa Inês, em Bolonha, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[3].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[4]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3[5]) e pelo Beato Jordão de Saxónia[6] é o da multiplicação do pão e do vinho[7].
Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará os seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção, começam a rezar.

Anjo 2 (313x640)

Os dois anjos que servem à mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Os dois anjos que servem à mesa.

De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, distribuindo-o pelas mesas. Depois de terem entregue a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[8].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura do Museu de Aveiro: O espaço
Como já atrás se referiu a pintura da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos integrava a predela do retábulo maneirista da Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, situando-se no primeiro piso do Convento de Jesus, junto da enfermaria (CRISTO, 2011).
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (N.º de Inventário 88/A), que se julga terá sido executada entre 1618 e 1623[9] pelo pintor António André que a assina – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.
Sobre este autor diz Vítor Serrão que “a qualidade formal de algumas das suas obras – com realce para as tabuinhas da antiga Capela de S. Domingos de Gusmão do Convento de Jesus, pintadas em 1619-1620 – mostram uma personalidade forte, de inesperada frescura no delineamento das superfícies com cromatismo lumínico e vaporoso, com desenho seguro, sentido composicional imbuído de certa largueza, e preciosismos de filigrana na caraterização dos acessórios e dos últimos planos” (SERRÃO, 1991: 277-278). E, mas concretamente sobre a pintura aqui analisada, Vítor Serrão considera-a “a mais interessante”, explicando que: “representa o banquete servido por anjos a dezoito religiosos dominicanos do mosteiro de S. Xisto de Roma, onde a perícia da pincelada transparente, os contrastes de claro-escuro, o cromatismo de frias tonalidades, a largueza da composição organizada pelo esquema obliquado das mesas, e os detalhes minuciosos da ceia – o cãozinho dormindo, e segurando o crucifixo envolto em labaredas, os trajes dos anjos, o quadro de Santo André na cruz em aspa colocado por detrás de S. Domingos de Gusmão que preside ao milagre, os objetos da refeição divina, etc. – definem a forte preparação técnica de António André. À pose maneirista dos figurinos sobrepõe-se o domínio naturalista e tenebrista da composição, de influência madrilena, a lembrar já obras protobarrocas de Eugénio Caxes ou de Vincenzo Carducho” (SERRÃO, 1991: 282).
A cena passa-se no interior do convento, encontrando-se S. Domingos e dezassete dominicanos sentados à mesa do refeitório, tal como é costume em contexto conventual. No púlpito pode observar-se o irmão Henrique de Roma que lê os textos sagrados[10].

Domini Canis e Dominicanis

Domini Canis. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Domini Canis

O pavimento é ladrilhado a preto e branco e sobre ele descansa o designado “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”). Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis, ou seja, dominicanos.
O facto de o cão com a tocha na boca ser um dos atributos de S. Domingos fica a dever-se ao texto do Beato João da Saxónia, um dos primeiros biógrafos de S. Domingos, que na sua obra «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum» narra um episódio da vida deste Santo sucedido antes do seu nascimento. Durante a gravidez a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo[11]. Hugo de Voragine assim descreve este episódio da vida de S. Domingos: “Seu pai chamava-se Félix e sua mãe Joana. Antes do seu nascimento, a mãe viu em sonhos que tinha no ventre um cão de fogo com uma tocha nos dentes o qual, saindo do seu ventre, incendiava o mundo” (VORAGINE, 2000: 58).
A associação da tocha encimada pelo globo terrestre e pela cruz parece ter surgido “na época maneirista mas divulga-se sobretudo durante o barroco” (SOBRAL, 2004: 203, nota 2).

A pintura do martírio de Santo André

Santo André. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

A pintura de Santo André dentro da pintura O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos…

Por detrás da mesa, pendurada na parede do modo que então era usual, podemos observar uma pintura emoldurada representando o martírio de Santo André na Cruz em aspa. Na Ordem dos Pregadores nunca houve uma ligação especial com Santo André, pelo que, a sua surpreendente presença nesta pintura, representando o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos, se poderia talvez justificar de dois modos: ou o orago da capela onde se encontrava o retábulo era Santo André, o que sabemos não corresponde à realidade pois encontrava-se na Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, sendo o seu orago a escultura relicário de S. Domingos (CRISTO, 2011); ou a representação da pintura de Santo André nesta cena da hagiografia de S. Domingos foi uma opção pessoal do pintor António André que deste modo assina duplamente[12] a pintura colocando nela um santo de quem herdou o nome – André.

À mesa: os convivas e os anjos

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor.

No centro da mesa, em lugar de destaque, encontra-se S. Domingos, ladeado por oito monges à sua esquerda e nove à sua direita, mais o monge leitor que está no púlpito. Não temos dúvida de que se trata do fundador da ordem, pois, sobre a sua cabeça, encontra-se um esplendorosa auréola.
Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor[13]. O capuz era usado pelos dominicanos, quer quando saiam do convento quer para aquecimento do corpo. Estes dois frades representam muito provavelmente os irmãos João da Calábria e Alberto de Roma os quais tinham sido enviados para o exterior em busca de pão, tendo regressado sem o conseguir[14], daí o facto de serem representados com o capuz negro.
Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito; agarrando a tigela; dentro da tigela; levando a comida à boca; cortando o pão com a faca.

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito.

Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[15], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [16]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura (…) outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa”[17].
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.
Os dominicanos são servidos por dois anjos: um, do lado esquerdo, apresenta ao primeiro frade desse topo da mesa uma bandeja onde estão duas tigelas, vendo-se o frade retirando uma delas com ambas as mãos; outro, do lado direito, depois de ter servido os primeiros frades, vai caminhando, com a bandeja na mão, na qual se podem ver outras duas tigelas. No milagre descrito pelos Beatos Cecília e Jordão da Saxónia serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não alimento em tigelas. Mas, bem sabemos que os anjos são os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.
Por fim, mas de não menos importância, deve referir-se que a narrativa pictórica desta pintura não corresponde exatamente à representação do milagre do pão e do vinho por S. Domingos. De facto, os anjos deveriam estar a servir o pão, mas, este já se encontra na mesa, levando eles nas bandejas o que poderá ser um caldo, sendo por isso servido em tigela.

À mesa: os alimentos e os utensílios
Analisemos os utensílios colocados sobre a mesa, a qual se encontra coberta com toalha branca que cai quase até ao chão, deixando no entanto ver as grossas pernas que suportam os tampos.

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos.

Os únicos alimentos que se encontram sobre a mesa são o pão, o vinho tinto e o caldo/sopa que se pode subentender estaria dentro das tigelas.

Vinho tinto em copo de vidro. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Vinho tinto em copo de vidro e jarro de estanho (?).

Como utensílios dispostos sobre a mesa encontramos: o jarro e o copo para o vinho, sendo que aquele parece ser de estanho e este em vidro; as galhetas do azeite e do vinagre, colocadas sobre a correspondente bandeja, e que deveriam ser em faiança, dada a cor branca que apresentam; a faca e a tigela, sendo que esta última poderia ser de estanho ou então de barro preto. De facto, em Aveiro (Aradas) produzia-se naquela época loiça preta[18] pelo que não seria de estranhar que António André tivesse reproduzido as tigelas feitas localmente.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

De entre os utensílios empregues quais seriam de uso individual e quais seriam de uso coletivo? Se atentarmos na distribuição dos utensílios verifica-se que os jarros, os copos e as tigelas seriam de uso individual.

Tigelas de loiça preta? O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Tigelas de loiça preta de Aradas, Aveiro?

Sobre a mesa as facas não parecem ser de uso individual, no entanto, era costume cada frade possuir a sua própria faca. Já no século XVI, no refeitório do mosteiro de Alcobaça, os religiosos dispunham de um armário individual para “no seu lugar ter guardanapo, faca e copo” (GOMES, 1998: 88). As galhetas do azeite e do vinagre seriam de uso comum, havendo, visíveis sobre a mesa, quatro pares de galhetas.

Comer com as mãos?

Comer com as mãos. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Comer com as mãos.

É interessante verificar que, ao contrário do comum das representações das refeições à mesa, nesta pintura as personagens não são estáticas, mas figuradas na ação de comer: cortando o pão com a faca (um frade), levando a comida à boca (três frades); agarrando a tigela com as mãos (um frade); metendo a mão esquerda na tigela (dois frades), para além dos frades que, como atrás já referimos, são representados em oração.

Cortando o pão com a faca

Cortando o pão com a faca

Se atentarmos nos dois frades que estão representados na ação de meter a comida à boca com a mão direita, e, com a mão esquerda seguram na tigela, lembramo-nos de imediato da «Escola de Perfeição», documento do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, atribuído ao séc. XVII (TAVARES, 1999). Neste se descreve “a observância que se há-de guardar no refeitório”, de modo a que “os religiosos que estão na religião e caminham para o céu tenham merecimento no comer, e não percam por ignorância o que podem nele merecer, coisa conveniente será dar-lhes a doutrina que hão-de guardar para que não percam o merecimento que tem os que se sabem haver nisto guardando a observância regular” (TAVARES, 1999).
Neste texto seiscentista sobre o modo como se deve comer no refeitório, entre outras interessantes observações, diz-se: “Não partam o pão nem a carne com as mãos senão com a faca” (TAVARES, 1999: 69). Ora, na pintura aqui analisada vemos um dominicano partindo o pão com a faca.
Através deste documento seiscentista do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra ficamos também a saber que era então costume comer-se com as mãos, sendo no entanto falta de educação meter a mão toda no recipiente: “não metam toda a mão na tigela para tirar as sopas mas só dois ou três dedos sem sujar as mãos; nem lambam os dedos como fazem os rústicos”; “quando tiverem os dedos muito sujos como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura, limpem-nos dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito. E tudo isto se fará por não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta” (TAVARES, 1999: 69-70).
Nesta pintura de António André podemos observar dois dos frades com a mão esquerda metida na tigela, sendo esse facto mais evidente num dos casos. Estranha-se, no entanto, o facto de ambos estarem com a mão direita levando a comida à boca e ser a mão esquerda que está pousada na tigela. Parece-nos que o normal seria tirar a comida da tigela com a mão direita e desse modo a conduzir à boca.
De qualquer modo quer-nos parecer que o modo como o primeiro frade (à direita na pintura) coloca a mão na tigela evidencia que estava a tirar a comida com as mãos, talvez só com “dois ou três dedos sem sujar as mãos”. Lembremos que em Marrocos ainda hoje subsiste o costume de comer com as mãos. Diz Ignacio Medina que “o principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou com cinco dedos é comportamento de glutões, exceto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).

Conclusão: uma pintura que nos dá a conhecer o modo de comer em contexto conventual
De facto, o que pessoalmente nos vem interessando na pintura portuguesa é a representação de alimentos, dos utensílios necessários à sua preparação e consumo, bem como o modo de os preparar e de os comer.
Esta pintura de António André sobre a multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos é um bom exemplo de como as representações pictóricas aliadas à leitura de documentação coeva nos podem ajudar a melhor conhecer o modo de comer nos séculos passados, no caso concreto, em contexto conventual.

Este slideshow necessita de JavaScript.

BIBLIOGRAFIA
BARBOFF, 2011 Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.
CRISTO, 2011 José António Rebocho Christo – A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem no Convento de Jesus de Aveiro. Patrimónios. 2ª série. 31: 9 (Dezembro 2011). P. 75-86. In http://www.prof2000.pt/users/hjco/aderav/patrimonios/Patrim09_075.htm
GASPAR, 1969 João Gonçalves Gaspar – Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana. Aveiro e o seu Distrito. Junta Distrital de Aveiro. 7 (Junho de 1969). P. 27-40. In http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim07/page27.htm#01b
GOMES, 1998 Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998 (Documenta).
ITURGÁIZ CIRIZA, 1992 Domingo Iturgáiz Ciriza – Iconografía de Santo Domingo de Guzmán: La fuerza de la imagen. Burgos: Aldecoa, 1992.
MEDINA, 2005 Ignacio Medina – Cozinha País a País: Marrocos. [S.l.]: Público, 2005.
SCHEEBEN, 1935  C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.
SERRÃO, 1991 Vítor Serrão – O Pintor António André e o Maneirismo reformado em Aveiro no século XVII. Revista da Universidade de Aveiro: Letras. 6-8 (1989-1991). P. 277-298.
SERRÃO, 2000 Vítor Serrão – A Pintura Proto-Barroca em Portugal: 1612-1657: O Triunfo do Naturalismo e do Tenebrismo. Lisboa: Colibri, 2000.
SERRÃO, 2010 SERRÃO, Vítor – Pintura e Propaganda nos programas artísticos dominicanos em Portugal na Idade Moderna. In Dominicanos em Portugal: História, Cultura e Arte. Lisboa: Alétheia, 2010. P. 254-279.
SOBRAL, 2004 Luís de Moura Sobral (coord.) – Pintura Portuguesa do século XVII: lendas, histórias e narrativas, Catálogo de exposição. Lisboa: IPM, 2004.
TAVARES, 1999 Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no século XVII português. Lisboa: Colares Editora, 1999.
VORAGINE, 2000 Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS
[1] Tenho de agradecer ao Dr. José António Rebocho Cristo que me chamou a atenção para a pintura aqui analisada e que me enviou a respetiva imagem. Tenho também de agradecer à Divisão de Fotografia da Direção Geral do Património Cultural, nas pessoas de Tânia Olim e Luísa Oliveira o envio da imagem com a qualidade necessária para se poder analisar e publicar pormenores.

[2] Este nosso texto sobre o milagre propriamente dito é o que consta no artigo «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)». Pareceu-nos, no entanto, importante transcrevê-lo aqui para um melhor conhecimento sobre o tema tratado na pintura que aqui se analisa.

[3] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[4] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», traduzida do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[5] A beata Cecília assim designa o milagre que aqui se descreve – «Do pão e vinho milagrosamente multiplicado e distribuído aos frades através de suas orações». In «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». Veja-se http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[6] O beato Jordão da Saxónia assim designa o milagre aqui descrito – «O milagre do pão recebido do céu em S. Sisto». In «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum».

Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[7] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (LEGENDA AUREA, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois últimos autores e não o de Voragine.

[8] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.

[9] Informação do Dr. José António Rebocho Christo, a quem agradeço.

[10] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve. Jordão da Saxónia é mais comedido nos pormenores.

[11] Veja-se no «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», de Jordão da Saxónia, a descrição deste episódio – «The Miracle of the Bread Received from Heaven at San Sisto». In http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[12] Já atrás referimos que esta tela se encontra assinada pelo pintor no ladrilho do pavimento – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.

[13] Convém referir que “até ao Vaticano II, os frades não clérigos (irmãos cooperadores), como São Martinho de Porres, usavam o hábito que não possuía a capa preta e o escapulário era preto ao invés de branco”. In http://vocacionalop.blogspot.pt/2011/03/sobre-o-habito-dominicano-about.html

[14] Os nomes dos dois frades são-nos dados pela Beata Cecília. Veja-se «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[15] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf

[16] Idem.

[17] Ibidem.

[18] Veja o subcapítulo «Aradas (Aveiro, Aveiro), Lugares de Quinta do Picado e Coimbrão; Oliveirinha (Aveiro, Aveiro), Lugar de Quintãs» in Isabel Maria Granja Fernandes – A loiça preta em Portugal: estudo histórico, modos de fazer e de usar. Tese de Doutoramento. Braga: Universidade do Minho, 2012. Vol. 2. P. 635-653. URL: http://hdl.handle.net/1822/24904

Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

????????

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro