Almoçar em Barcelona, em 1710: uma pintura em azulejo

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Ceràmica de Barcelona

Sempre que vou a Barcelona revisito o «Museu de Ceràmica». Nem de outro modo poderia ser pois a cerâmica é para mim desde há muitos anos uma área de investigação. Cada ano que vou descubro uma nova peça, uma nova cor, uma nova forma… De facto, quando visitamos um museu levamos connosco as preocupações, as ideias que na altura nos ocupam a mente e, por isso, projectamos no que vemos um olhar diferente, um olhar especial…
Desta vez, e porque nos últimos tempos me tenho ocupado da História da mesa e do que nela se põe, um painel azulejar setecentista que se encontra neste museu despertou em mim um interesse especial.

La xocolatada. Painel de azulejos datado de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Quando me deparei com o painel azulejar em forma de meia lua e representando «La xocolatada», logo a minha atenção foi despertada para duas cenas – a preparação do chocolate e uma refeição à mesa.
Comecemos por falar da origem deste interessante painel azulejar datado de 1710. Francesc d’Amat Grevolosa i de Planella, primeiro conde de Castelllar (1706), adquire em Alella, arredores de Barcelona, uma antiga propriedade na qual mandou construir um pequeno templo que decorou com quatro painéis de azulejos, desconhecendo-se no entanto qual a oficina onde foram feitos.
Actualmente dois destes painéis azulejares encontram-se expostos no Museu de Cerâmica de Barcelona, sendo que um deles representa uma tourada, e o outro, do qual nos ocuparemos aqui, representa «La xocolatada».
O tema tratado neste painel azulejar é no entanto muito mais vasto do que a preparação do chocolate, contendo diversas cenas todas passadas no exterior, dentro de um terreiro murado, rodeado de frondosa vegetação.
Noutro texto ocupar-me-ei da cena que representa a preparação do chocolate e o seu consumo, hoje, abordarei tão-só a refeição que se desenrola numa mesa e que aparece representada no canto inferior direito.
A cena passa-se durante o dia, sendo por isso a representação de um almoço ao ar livre. Numa mesa redonda, coberta por toalha branca que desce até aos pés, sentam-se, em cadeiras de madeira sem braços (note-se que uma das cadeiras tem bem visível o encosto em couro), doze convivas – seis mulheres e seis homens, os quais, pelo trajar demonstram ser membros da elite da época.

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Cerâmica de Barcelona. In http://www.miestai.net/forumas/showthread.php?t=5290&page=5&langid=1

Em seu redor cinco serviçais dedicam-se a servir à mesa – dois deles a bebida, dois a comida e um outro encarrega-se da loiça, possuindo estes três últimos sobre a veste um avental branco.

Em volta da mesa cinco serviçais servem a comida – ave e empada – e a bebida – vinho dentro de refrescador, e um outro retira os pratos sujos da mesa. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

À volta da mesa, como é comum em muitas das representações pictóricas com o mesmo tema, dois cães disputam os restos dos alimentos.

Cães disputando a comida. Painel de azulejos de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Olhemos com atenção para a mesa. Sobre ela encontram-se pratos e travessas de faiança ou porcelana (decorada na aba a azul), facas, colheres e garfos. Nas duas travessas pousadas sobre a mesa encontra-se comida – numa delas o que parece ser um peru assado, na outra uma empada, podendo reparar-se na borda esbicada desta. Aqui e ali vê-se pão, o que parecem ser dois pães e dois pedaços do mesmo.

Alimentos sobre a mesa: empada, peru e pão. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Note-se que parece haver um prato para cada conviva (não se vêm os pratos dos convivas que estão de costas mas tê-los-iam muito provavelmente) e vários talheres. Estes, no entanto, não se encontram dispostos do modo como hoje os colocamos, garfo à esquerda, faca e colher à direita. Fica-se com a sensação de que haveria uma faca por conviva, mas sem uma certeza absoluta – há sete facas para doze convivas, mas é provável que não estejam representadas as facas dos convivas que se encontram de costas. Repare-se também que apenas as facas têm cabos em madeira ou em osso, enquanto as colheres e os garfos os não possuem.

Sobre a mesa encontram-se sete facas, dispostas de modo displicente. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Na mesa, existem também três colheres dispostas de modo displicente e apenas dois garfos, sendo de notar que um é representado apenas com dois dentes e o outro com cinco. Pode ser que se trate de pouco rigor do artista que pintou o painel, mas é um pormenor em que se deve reparar.

Sobre a mesa três colheres e dois garfos. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Repare-se nesta dama a comer com as mãos- Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Será que nesta altura o garfo ainda não era um instrumento individual de uso comum? Os faqueiros completos já eram correntes na época, pelo que se estranha que não haja um garfo por cada conviva. Mas, repare-se, uma das damas agarra com dois dedos um pedaço de comida que se prepara para levar à boca, o que parece indiciar que ainda se continuaria a comer com as mãos…

Não há copos individuais pousados sobre a mesa, mas há dois copos de vidro que aparecem representados nas mãos de dois convivas, sendo que um deles estende o seu copo a um dos servidores para que o encha de vinho. Talvez ainda se continuasse com o costume dos séculos anteriores de haver um escanção a quem se pedia de beber sempre que se desejava, não estando o copo pousado sobre a mesa.

Copos de vinho de vidro. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Não há guardanapos sobre as mesas. Esquecimento do pintor? Talvez…
Também interessante é verificar o uso do refrescador de vinho, encontrando-se um nas mãos do serviçal que serve um dos convivas, e outros dois pousados no chão.

Serviçais e refrescadores. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Os refrescadores deste painel azulejar são muito semelhantes aos representados nos bodégons de Luis Meléndez (Nápoles, 1716 – Madrid, 1780), tratando-se de um recipiente feito de cortiça, revestido com aros de madeira. Dentro do refrescador colocava-se gelo, e, no meio a garrafa de vidro com o vinho, sendo coberto com tampa também de cortiça e com orifício próprio para deixar passar o gargalo da garrafa.

Luis Meléndez. Bodegón. 1770. Óleo sobre tela. Museu do Prado

Luis Meléndez (1716-1780). Bodegón. Óleo sobre tela. Museum of Fine Arts, Boston

Por último repara-se num dos serviçais que parece transportar mais uma empada para a mesa e outro serviçal que se afasta da mesa com uma travessa entre as mãos, provavelmente uma travessa suja que vai juntar aos pratos que já se encontram no chão.

Dois serviçais, um deles com uma travessa suja que vai depositar junto aos pratos que se encontram no chão

Esta cena deste painel azulejar, profusamente colorida e cheia de movimento permite-nos ficar a conhecer o modo como se comia à mesa, em Espanha, no início do século XVIII.
Não se esqueça, se for a Barcelona visite o Museu de Ceràmica e deleite-se com esta peça e muitas outras em que o museu é rico.

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Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto

Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual
É do conhecimento geral que a vida em clausura impunha regras rígidas de observância colectiva sobre o modo como se gastava o tempo dentro do espaço conventual. Ao ritmo do tempo de oração sucediam outros ritmos destinados ao dormir, ao trabalho e ao comer.
As principais refeições eram o jantar (que hoje designamos almoço) e que decorria por volta do meio-dia, e a ceia (a que hoje chamamos jantar) e que sucedia ao entardecer. A ceia costumava ser mais frugal do que o jantar.
As refeições tinham lugar num espaço apropriado para o efeito – o refeitório. Este situava-se perto da cozinha e com ela comunicava normalmente por uma janela (muitas vezes com roda) através da qual eram passados os alimentos. Os monges dirigiam-se para o refeitório assim que ouviam «tanger à mesa», ou seja, assim que «eram chamados com o sinal dos sinos» que tocavam avisando da hora da refeição (TAVARES, 1999: 66). Antes e depois de comer lavavam as mãos em lavatório existente junto do refeitório[1]. Os monges comiam em conjunto no refeitório, em silêncio, olhos postos em baixo, ouvindo o monge leitor que do púlpito lia a Bíblia ou outras obras sacras. Comer nas celas ou noutros locais era expressamente proibido (GOMES, 1998: 416).
O refeitório era vulgarmente composto por mesas compridas colocadas junto às paredes e por bancos corridos, sentando-se os monges apenas de um dos lados da mesa, aquele que ficava encostado à parede. Deste modo as mesas dispunham-se vulgarmente em «U» com os monges voltados uns para os outros, existindo armários, muitas vezes dois, embutidos nas paredes onde se guardavam alguns dos utensílios necessários ao refeitório.

Os monges tinham de ser frugais na alimentação, cientes de que deviam comer para ter saúde e poder servir na religião. Durante a refeição deviam lembrar-se dos que tinham fome e eram mais merecedores do que eles aos olhos de Deus, pelo que deviam comer moderadamente fazendo com que os alimentos sobejassem e no final da refeição pudessem ser distribuídos pelos mais necessitados (TAVARES, 1999: 66 e 68-69).
A sua dieta diária ainda está mal conhecida mas, como exemplo, referiremos os géneros alimentícios usados no Convento feminino de Santa Clara de Guimarães e referidos nos livros de despesa (séc. XVII-XVIII): ingredientes – açúcar, amêndoa, arroz, azeite, canela, feijão, manteiga de vaca, pingue, sal, unto, vinagre; cereais e seus derivados – centeio, milho, trigo, pão, pão de milho, pão de centeio; hortaliças e leguminosas – hortaliça, legumes, repolho, tremoços; carne – carne de picado, carne de porco, carne de vaca, carneiro, galinha, picado de vaca, presunto, toucinho, pastéis, pastéis de carne, pastéis de pasteleiro; peixe – bacalhau, cação, faneca, lampreia, pescada, polvo, raia, sardinha, sável; outros – leite, vinho (FERNANDES, 2004: 14).

Os alimentos eram temperados na mesa com sal e adubados com especiarias e condimentos como a mostarda. Por isso, fazia parte da utensilagem diária colocada na mesa o saleiro para o sal e a salsinha ou salseira para conter os adubos – salsa, mostarda… O pão era presença habitual na mesa, acompanhando o que se comia. Para ajudar a digerir os alimentos sólidos os monges bebiam usualmente água ou vinho, sendo que o vinho era muitas vezes misturado com água – vinho meado ou vinho terçado.
Sobre o modo como eram confeccionados os pratos pouco sabemos. A carne e o peixe eram servidos cozidos ou fritos mas também podiam ser assados, guisados ou desfeitos e metidos em empadas ou pastéis. Os legumes acompanhavam a carne ou o peixe. Como sobremesa comiam fruta e, em dias especiais, doces. Em tempos de festa as refeições eram mais abastadas e os doces um complemento habitual.
No séc. XVII, no «regulamento do refeitório» do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, determina-se como os monges se deviam comportar à mesa (TAVARES, 1999: 68-71): «estar muito compostos, quietos, graves, e mortificados com os olhos baixos, com o tento na lição»; ao iniciar a refeição só deviam abrir o guardanapo depois de decorrido o tempo suficiente para dizer um Padre Nosso e uma Ave-Maria; não deviam comer apressadamente, nem «com ambas as partes da boca», nem meter «um bocado antes de engolir o outro»; o pão devia ser partido com a faca e não com as mãos; não deviam meter à boca grandes pedaços, «como os meninos», «senão tudo partido»; não deviam roer os ossos, nem bater «com eles sobre o pão ou sobre a mesa para lhe tirar os tutanos»; não lhes era permitido meter «toda a mão na tigela para tirar as sopas», mas podiam fazê-lo usando apenas «dois ou três dedos sem sujar a mão»[2]; não deviam lamber «os dedos, como fazem os rústicos», e se estes de qualquer modo ficassem sujos «como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura», limpem-nos «dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito»; ao servir-se de sal deviam tirá-lo «com a faca e não com os dedos». E mais cuidados deviam ter quando o sal se destinava a temperar rábanos, nesse caso deviam lançar o sal sobre estes tendo por baixo uma folha dos ditos e não o guardanapo. Todos estes cuidados – não limpar os dedos nem a faca ao guardanapo e não usá-lo para sobre ele temperar os rábanos – tinha como finalidade «não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta».

Interessantes são também as advertências para que «não alimpem os narizes com o guardanapo nem com a mão descoberta senão com o lenço»; que quando tivessem de cuspir o «não seja por cima da mesa senão debaixo dela abaixando-se, por não fazer nojo ao companheiro, e chegando com o pé ao cuspo apaguem-no. E tossindo cubram a boca com o lenço ou com o hábito afastando a boca do outro companheiro». Deviam também ter compostura e não estarem«debruçados sobre o comer», nem lançar-se «sobre o prato quando comem», nem encostar «os braços à mesa», nem encostar-se «para trás de sorte que fiquem mal compostos»; nem deviam acabar «de comer depois dos outros mas antes deles, quanto puder ser». Por fim, ensina-se que só depois do monge leitor dizer «Tu autem Domine miserere nobis», e de todos ainda sentados responderem «Deo gracias», é que se podiam levantar, dando-se deste modo por finda a refeição (TAVARES, 1999: 68-71) [3].

BIBLIOGRAFIA
DIAS, 2009 Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.
FERNANDES, 2004 Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.
FERNANDES; OLIVEIRA, 2004 Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.
GOMES, 1998 Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).
MEDINA, 2005 Ignacio Medina – Marrocos. Lisboa: Público, 2005 (Cozinha País a País; 4).
TAVARES, 1999 Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no séc. XVII português. Sintra: Colares Editores, 1999.


[1] Em 1536, no Mosteiro de Santa Maria do Bouro havia «saboeiras» e «toalhas de mãos» que se destinavam muito provavelmente para o acto de lavar as mãos com sabão, que ficava pousado na saboeira, e de as limpar com «toalha de mãos».
[2] É importante referir que este hábito de comer com as mãos usando apenas três dos dedos é costume antigo ainda hoje em uso em alguns países, como, por exemplo, em Marrocos: «O principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou cinco dedos é comportamento de glutões, excepto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio» (MEDINA, 2005: 12).
[3] Este texto vai ilustrado com uma pintura sobre tábua da autoria do Padre Manuel Correia de Sousa, datada de1703 e proveniente do Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente encontra-se na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, a quem pertence e a quem agradecemos a possibilidade de ter fotografado a imagem e de a utilizar. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa