As caldas do Gerês no verão de 1798

Calda do Gerês

Num outro texto já se transcreveu a descrição de Link sobre o mosteiro de Santa Maria de Bouro e o que lá se comia (https://saberescruzados.wordpress.com/2012/01/03/o-mosteiro-de-santa-maria-do-bouro-no-olhar-de-um-estrangeiro-final-do-seculo-xviii-a-mesa-conventual-e-outros). Neste, continua-se a acompanhar Link na sua viagem através de Portugal, dando a conhecer a sua estadia nas Caldas do Gerês (freguesia do concelho de Terras de Bouro) onde permaneceu durante um mês, em plena época balnear, corria o ano de 1798.
Neste texto é bem visível o interesse de Link pelo conhecimento da flora e da fauna locais, mas também o seu interesse pelos usos, costume e alimentação. Estive hesitante entre colocar excertos do texto sobre o Gerês ou colocar o texto completo. Optou-se pela segunda hipótese dado ser um documento do máximo interesse para o conhecimento desta região, hoje inserida no Parque Nacional da Peneda Gerês. O texto que transcrevemos foi extraído da magnífica edição da Imprensa Nacional, com tradução, introdução e notas de Fernando Clara (LINK, 2005: 203-216).
Realça-se aquilo que mais nos interessa – a descrição da casa, a dieta termal, a convivência entre as pessoas, o cultivo do milho e da batata, a vezeira, a predilecção pela carne do cabrito montês.
As fotografias não são da nossa lavra, são uma generosidade de António Jorge Barros, um excelente fotógrafo que tem calcorreado ao longo dos últimos anos o Parque Nacional da Peneda Gerês e capturado belas imagens (http://antoniojorgebarros.weebly.com/vendas.html). A ele o nosso reconhecido e sincero obrigado.
E agora recuemos até ao verão de 1798 e acompanhemos Link na sua estadia nas Caldas do Gerês.

Gerês

“Descemos a encosta desta montanha perto de uma aldeia grande, Vilar da Veiga, e seguimos então pelo vale que sobe cada vez mais. Um rio ruidoso, o rio das Caldas, desce por entre rochas até ao meio do vale, as montanhas tornam-se mais altas e mais íngremes e depois de se ter subido bem uma légua aparece de súbito por detrás de um outeiro uma pequena terra de 40 casas no mesmo vale. É famosa pelos seus banhos quentes e por isso chama-se Caldas do Gerês. Demorámo-nos aqui quatro semanas para estudar as curiosidades naturais da serra, a povoação estava também muito animada, justamente agora na época termal.
O vale onde esta terreola se encontra é invulgarmente estreito. A leste as casas estão encostadas à montanha, a oeste um pequeno rio banha as casas e o sopé de uma outra montanha. Para norte o vale ergue-se igualmente rápido nas alturas, um outeiro a sul, antes de o vale descer, fecha completamente este buraco. As montanhas são muito altas, íngremes e rochosas, a maior parte das vezes sem floresta, árvores como por exemplo carvalhos, amieiros (Rhamnus Frangula), azereiros (Prunus lusitanica) e oliveiras encontram-se apenas nas margens do rio. Em vez de árvores as montanhas estão cobertas por um matagal muito espesso que as torna impenetráveis, especialmente à beira dos ribeiros, medronheiros (Arbutus Unedo) com uma altura que vai de seis a oito ou a 12 pés, a urze branca (Erica arborea), azereiros e duas espécies de Cytisus ainda não descritas (procerus e villossissimus). Nos cumes altos vêem-se carvalhos solitários de uma espécie singular. Mais para sul, vale abaixo, as montanhas tornam-se muito áridas e não têm quase nada a não ser cistos e urzes, especialmente Cistus scabrosus Ait., cheiranthoides Lam. e Erica umbellata.

Carvalhal. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Desde há alguns anos que esta terra, com as suas termas, se tornou mais famosa do que antigamente era e constroem-se ainda casas novas, de modo que na região fechada em breve não haverá mais espaço para elas. Os banhistas vêm das vilas do Minho, no entanto estas termas são também frequentadas por ingleses do Porto. Como a região é muito agreste, os habitantes dirigem-se no Inverno para Vilar da Veiga e em Maio voltam de novo para aqui. As casas são de pedra, mas estão muito mal construídas, têm todas apenas um piso, aposentos pequenos e maus, a maior parte sem janelas envidraçadas e o chão não tem soalho. O mobiliário é composto por uma mesa e bancos toscos de madeira, tudo o resto, sem exceptuar o mais pequeno pormenor, tem o próprio de trazer consigo. Não se pense em encontrar aqui moradores ou serviço, habitualmente é apenas aberta a casa e o forasteiro toma simplesmente posse das paredes vazias, da mesa e das cadeiras. Na povoação propriamente dita só se pode comer carne de vitela (meio vitela, meio vaca), arroz, laranjas, vinho carrascão regional, raramente o vinho melhor do Douro e ainda mais raramente peixe. Açúcar, especiarias, café e todas as outras necessidades têm de se mandar buscar a Vilar da Veiga, portanto a uma légua de distância, e mesmo aí não se consegue grande coisa. Até a farmácia fica em Vilar da Veiga e nem vale a pena pensar num médico das termas. Uma pequena praça, com uns 200 passos de comprimento e largura, constitui o passeio público. Em toda a região não se pode viajar, as pessoas mais fracas e as mulheres viajam aqui, como em muitos outros sítios do Portugal montanhoso, em liteiras que tal como na Alemanha são puxadas por dois cavalos ou por duas pessoas. Caldas, escondida numa montanha agreste na fronteira do Reino, está ainda totalmente esquecida pelo Governo.

Medronhos. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

As fontes quentes brotam do lado leste da terra, de uma parede rochosa de granito no sopé de uma montanha alta. Há aqui quatro, cada uma com um nome particular, por exemplo a da Figueira porque por cima dela cresce das rochas uma figueira, a do Bispo, etc., e por cima de cada uma delas foi construída uma casinha quadrada em cujo centro se encontra uma cavidade que se emparedou para o banho. Só se pode banhar uma pessoa de cada vez. Em vez da porta existe um simples cortinado. Se este está descido é porque alguém se encontra no banho, as mulheres no entanto não confiam o bastante nos olhares masculinos e põem uma criada à porta. A água também se bebe, recolhendo-se então aquela que brota da rocha em vez daquela que corre na cavidade onde se toma banho.
Uma destas fontes tem notoriamente sulfureto de hidrogénio, mas em pouca quantidade, as outras têm ainda muito menos e uma das fontes não mostra sequer quaisquer vestígios dele. A água também não mostrou qualquer reacção visível aos poucos reagentes que tínhamos connosco, ao nitrato de prata por exemplo, e parecia por isso muito pura. A temperatura é do mesmo modo muito diversa. Uma fonte é consideravelmente mais quente do que a das Caldas da Rainha, a mais fraca não é porém tão quente, o calor não excede no entanto os 40° Réaum. e pode-se tomar banho na mais quente de todas.

Caldas do Gerês

A época dos banhos dura de Junho a Agosto. Embora a temperatura seja de facto frequentemente muito quente no vale estreito, de tempos a tempos os nevoeiros arrefecem muito o ar nestas montanhas. De manhã uma pessoa levanta-se às quatro horas, toma-se de imediato banho ou bebe-se a água e depois dá-se um passeio até cerca das sete horas. Desce-se o vale ou sobe-se por um caminho acima da povoação onde muitas beldades alemãs ficariam com vertigens, as pessoas mais fracas, muitas mulheres também, montam em machos e burros. Depois deste passeio toma-se o pequeno-almoço, mais tarde, pelas 12 horas, almoça-se e posteriormente faz-se uma sesta. Depois das quatro horas toma-se de novo banho ou bebe-se água, logo de seguida dá-se um segundo passeio assim que o sol abandona o vale, a seguir uma pessoa dirige-se para uma mesa de chá ou de jogo e depois das dez horas vai cada um para sua casa para tomar uma ceia leve. Este é o modo de vida naquelas longínquas e perdidas termas. A dieta que se prescreve, transmitida e espalhada pela tradição já que não há médico das termas, é tão severa quanto ridícula, uma vez que também o pedantismo e a charlatanice dos médicos chegou até este canto. Enaltecem-se muito os efeitos do banho e não há dúvida de que um banho assim tão quente pode ter efeitos bons, mas os efeitos do movimento, a distracção, a inactividade dos negócios, a mudança, o ar puro (ou melhor impuro e justamente por isso salutar) da montanha[1], a dieta prescrita e aqui especialmente forçada porque não há mais nada para comer, não devem de forma nenhuma ser esquecidos. Aqueles que só bebem água ficam provavelmente melhor, apenas por causa destes últimos motivos.

Mel, pão, nozes... Fotografia de António Jorge Barros

O modo de viver e as maneiras em sociedade dependem justamente das pessoas que ali se encontram. A nobreza do Minho, muito numerosa mas não rica, constitui no entanto habitualmente a maior parte da sociedade local. Esta nobreza é talvez melhor do que a nobreza mais rica que está mais perto da Corte, mas é orgulhosa, como toda a nobreza portuguesa, embora seja difícil notar esse orgulho numa primeira conversa em virtude da cortesia nacional. Mesmo nesta pequena terra a gente de condição, sacrificando magnanimamente o seu próprio prazer, abstinha-se de ultrapassar certos limites, o que não raro diferenciava a verdadeira sociedade fina da apenas dita fina. Uma mulher de condição nunca sai sem que o seu escudeiro[2] vá diante dela a uma distância de 20 passos sempre com a cabeça descoberta e o chapéu na mão. Uma dama nobre, que por vezes tinha vapores, mandava até um criado segui-la com um defumador. Aliás a sociedade é demasiado pequena e uma pessoa repara demasiado nas outras para que se possa comportar livre e alegremente, e claro, uma vez a graça portuguesa irrompeu num pasquim desabando sobre a maior parte dos frequentadores das termas. Entretanto alguns belos olhos expressivos procuram e encontram uma resposta e onde os ribeiros descem da montanha, os azereiros formam habitualmente um matagal tão alto e tão espesso que ali, onde o vale se eleva, se pode ser feliz e espalhar a felicidade apesar dos olhos vigilantes. Estas atractivas meninas, muitas vezes da melhor sociedade e com a melhor educação, frequentemente com os sentimentos mais finos e delicados para com as belezas da poesia, a julgar pelos ternos versos que são gravados nas cascas dos azereiros[3]*, não é raro ocuparem-se em sociedade a… catar piolhos.

Azereiro. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Em termos gerais a serra do Gerês estende-se de leste para oeste, mas tem muitas ramificações para sul. O vale onde Caldas se encontra tem justamente esta orientação, para norte eleva-se cada vez mais, mas apenas até um certo ponto, e desce de novo um pouco perto da fronteira com a Galiza que está apenas a três léguas das Caldas. Torna-se sempre mais estreito, mais rochoso e mais florestado, finalmente passa-se por uma sombra espessa de belos e altos carvalhos, os ribeiros sussurram em redor, surgem penhas altas e rasgadas, a serra torna-se mais agreste e adquire no final um estilo sublime. Perto da fronteira espanhola o rio Homem atravessa transversalmente o vale, dirigindo-se para outro vale. Vêem-se aqui as ruínas de uma ponte romana e muitos pilares dispersos que faziam parte de uma estrada romana. Os vestígios de arte numa região solitária e agreste impressionam muitíssimo, a torrente ruidosa esforçou-se em vão ao longo de séculos para destruir estas sólidas muralhas daquele povo poderoso. Um pequeno atalho, por onde é penoso passar, conduz-nos agora neste local a um outro Reino.
Num desfiladeiro chamado Portela do Homem[4] onde a cumeada da serra deixa uma abertura considerável, encontra-se a fronteira espanhola. A vista não é de longe tão bela como a do Minho, as montanhas são ainda altas e, se bem que os vales sejam mais abertos e largos, não estão tão bem cultivados. No entanto não se acredita que se está noutro Reino, ouve-se ainda a língua portuguesa, vêem-se os costumes e os modos de vida portugueses.
As mais altas montanhas do Gerês encontram-se a leste das Caldas, perto da cidade de Montalegre. A subida ao alto destas montanhas é de facto muito íngreme, mas a maior parte das vezes sobe-se confortavelmente porque os caminhos serpenteiam por entre os blocos de granito, e assim mesmo as pessoas que facilmente têm vertigens não correm qualquer perigo, exceptuando um ou outro local. Mas se uma pessoa se perde do caminho pavimentado, o que não é muito difícil, acaba-se ou num matagal impenetrável ou à beira de precipícios muitíssimo perigosos. O ponto mais alto forma um cume que se chama o morro de Borrageiro. Não consegui chegar a saber a etimologia deste estranho nome. Perto da Portela do Homem sobe-se o vale das Caldas por um caminho muito cómodo e um belo e luminoso carvalhal acompanha-nos durante dois terços da subida. Aqui, como ao redor da Portela do Homem, vê-se uma série de arandos que de resto não se encontram em Portugal, a par de várias outras ervas pouco habituais neste país. Perto do cume a cena muda de repente. Os carvalhos acabam e, para grande prazer de um homem do Norte que aqui se vê transportado para a sua pátria, aparecem apenas árvores nórdicas que não se encontram nas planícies e nas montanhas mais baixas de Portugal, a teca, o vidoeiro, a sorveira brava (Sorbus aucuparia) e o zimbro da montanha. O cume mais alto é composto por rochas amontoadas. A panorâmica para oeste é vasta, abrange-se uma grande parte do Minho, descobre-se o mar com as suas dunas, mas não é excepcional porque a vista não consegue penetrar nos belos mas estreitos vales, antes se fica apenas pelos cumes estéreis. Para todos os restantes pontos cardeais, a vista é obstruída pelas montanhas. Quanto mais se prossegue em direcção a leste, mais rude e agreste se torna a serra, encontram-se vales que são quase totalmente constituídos por rochas nuas e intransponíveis, onde apenas pequenos arbustos rompem aqui e ali das fendas das rochas. É a morada do cabrito montês. Para norte, perto da Galiza, chega-se a um planalto pantanoso onde encontrámos uma série de plantas alemãs que há muito não víamos. Pode-se descer daqui até ao rio Homem por um caminho íngreme e penoso, uma pessoa só tem de se acautelar para não o perder porque a serra perto deste vale, assim como perto de Portela do Homem, tem precipícios horríveis. Uma cumeada pontiaguda separa aqui a Espanha de Portugal.
Nestas serras é tudo granito, como normalmente em rochas amontoadas. Para além dos habituais componentes tem ainda frequentemente turmalina negra filamentosa, nas fissuras quartzo hialino e acastanhado. Mais raramente encontra-se um belo quartzo vermelho-rosa. A flora é uma mistura estranha de plantas alemãs e do Norte, biscainhas e pirenaicas, de plantas das planícies portuguesas, por exemplo espécies de urze, Asphodelus ramosus, etc., e finalmente de algumas plantas características desta serra, a maior parte delas não descritas.
Uma série de lobos tornam esta serra insegura. Mas o mais curioso é o cabrito-montês, um animal extremamente raro nas outras serras europeias (Capra Aegagrus Pall.). Vimos várias destas peles e finalmente foi trazido para as Caldas um bode abatido com três anos, onde o senhor conde de Hoffmansegg o comprou e em cuja colecção se encontra ainda a pele empalhada. O animal é maior, muito mais forte e mais musculoso do que um bode doméstico, são-no em especial as espaldas e os calcanhares. A fronte é mais alta, os cornos sobem mais empinados e são retorcidos para trás, a cauda é mais pequena. O pêlo é mais curto, espesso, de uma mistura de cinzento e castanho e muito parecido com o pêlo do veado, uma cruz negra estende-se pelo dorso e espaldas. O macho tem, como os bodes domésticos, uma barba e a fêmea não tem cornos. Fizemos cuidadosamente uma medição deste animal que de resto coincide totalmente com as descrições do escritor da Capra Aegagrus. Com a excepção do Gerês não se encontra em Portugal, também não sei de nenhuma notícia que tenha sido encontrado em Espanha. Não se pode de forma nenhuma saber com toda a certeza se se trata de uma cabra doméstica bastarda e degenerada ou se é um parente selvagem da cabra doméstica, agora é manifestamente diferente daquela. No entanto a última hipótese parece-me a mais provável. Não é raro encontrá-la daqui a Montalegre, é frequentemente caçada pelos habitantes e a carne é tão apreciada que o caçador, que de bom grado vendia o couro, não queria deixar ir a carne. Não é raro ver aqui o couro a cobrir os machos e os cornos expostos nas casas.

Víbora do Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Encontra-se uma série de lagartos e cobras nesta serra. Os primeiros pertencem na sua maioria à variedade pequena e verde da Lacerta agilis Linn., a espécie maior e verde encontra-se mais nas planícies quentes de Portugal, onde não raro este animal bonito e grande anda pelos caminhos e se vira atrevidamente contra o seu perseguidor. Aqui, as cobras são a autêntica víbora italiana (Vipera Redi e não Berus), que não é raro encontrar-se e é muito temida, a víbora dos habitantes, rara no resto do país; depois a bela Coluper Aesculapii e uma outra, de uma espécie inofensiva talvez ainda não descrita. Por causa da quantidade de bichos, de cinco em cinco anos é queimado o mato, conseguindo-se assim ao mesmo tempo novo alimento para o gado, embora se diga sempre que é pelo primeiro motivo que isso se faz. Esta queima colocou-me algumas vezes em grandes embaraços. Perto da Portela do Homem, um patife da Galiza tinha posto fogo ao matagal seco à volta do caminho, por todo o lado se viam subir as chamas e o fumo e, no vale estreito rodeado de penhascos íngremes, não havia qualquer saída. Finalmente conseguimos alcançar com esforço o rio Homem e esperávamos escondermo-nos no rio, mas felizmente o vento estava muito calmo, o fogo não se propagou muito e em breve estava completamente extinto.

Lagarto. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

A criação de gado é considerável nestas serras. Na Primavera levam-se as vitelas para cima e deixam-se aí até ao Outono. Os pastores rendem-se de tempos a tempos. Bois de trabalho são levados para as pastagens mais baixas quando não trabalham, pelo menos isto acontecia sempre no domingo. Os vales, especialmente o vale das Caldas, estão magnificamente cultivados. Onde era possível ganhou-se um pouco de terra à serra, frequentemente vê-se um campo de milho entre penhascos, em sítios onde mal se pode passar. Nas encostas a terra está muitas vezes disposta em eirados e é cuidadosamente regada para formar prados artificiais, que aqui são maioritariamente compostos pela erva-serôdia (Holcus lanatus). Também se começa a plantar batatas.
Não podemos indicar a altitude da serra em virtude dos motivos já conhecidos. A neve não dura muito tempo, no entanto à volta do morro cai muitas vezes numa quantidade tal que se espetam varas para indicar o caminho ou fazem-se montes de pedras. Vimos uma série de sinais deste género. A serra parece mais íngreme, agreste e rochosa do que alta, e estimo que o morro esteja aproximadamente a uma altitude de 3 a 4000 pés. É de longe mais baixa do que a serra da Estrela.
As montanhas do lado oeste das Caldas são igualmente muito íngremes mas não tão altas, o caminho que vai pela montanha directamente das Caldas até à aldeia de Covide é muito fatigante. Do outro lado desta montanha, perto da referida aldeia, vêem-se ruínas, provavelmente de uma antiga fortificação, mas que os habitantes diziam ser as ruínas de uma cidade antiga chamada Calcedónia. Não é provável que uma cidade se tenha situado numa região tão agreste e rochosa na encosta de uma montanha, estando as ruínas limitadas a uma praça demasiado pequena para poderem provir de uma cidade.

Urze. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Não conseguimos descobrir inscrições ou qualquer coisa semelhante, vimos simplesmente muralhas ruídas, como nos nossos palácios pilhados, e também não encontro notícias em nenhum autor sobre a estranha origem desta opinião popular[5]*. O belo e bem cultivado planalto rodeado de montanhas cheias de florestas, por outro lado, exibe a descoberto vestígios nítidos de uma estrada romana que passava igualmente pela Portela do Homem, vêem-se muitas colunas e marcos miliários com inscrições. Notáveis, de um ponto de vista mineralógico, eram as grandes rochas de quartzo puro que se destacavam desta planície granítica.”

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.


[1] Para esclarecimento tenho porém que acrescentar para alguns leitores que o ar da montanha contém menos oxigénio (ou ar puro) do que o ar nas regiões mais baixas.
[2] Escudeiro quer na realidade dizer aquele que leva o escudo, dá-se no entanto este nome ao primeiro criado ou ao mordomo da casa.
[3] De entre os epigramas que um azereiro exibia, ocorre-me ainda por acaso o seguinte: Falsas pastoras I Sexo traidor I A mesma sombra I Vos causa ardor. Podia ainda dar muitos exemplos que mostram que a versejante juventude portuguesa é muito dada aos concetti.
[4] No mapa de López encontra-se ainda a alguma distância da fronteira com a Galíza, em vez de a formar.
[5] Talvez Cinninio, de que Valer. Maxim. I. VI.c.Iv. fala. [NOTA DO TRADUTOR: Cinínia: antiga cidade da Lusitânia, cuja localização é desconhecida, que de acordo com Valéria Máximo resistia ainda aos romanos quando já toda a Lusitânia se lhes havia submetido].

5 thoughts on “As caldas do Gerês no verão de 1798

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  3. Para quem ainda conheceu a Serra num estado aproximado do descrito, funciona como uma recordação sem cabras montesas.
    Estranha-se, apenas, a falta de referência ao Borrageirinho e ao lago (?) que, no estio, fica coberto de umas plantas que florescem como se fossem de algodão, tornando-o uma campina branca.
    Quanto ao sítio das Caldas da freguesia de Vilar da Veiga, estes últimos quarenta a cinquenta anos, ainda as descaracterizaram mais e para muito pior.
    Em conclusão, da Serra e do meu amigo Senhor Francisco Rigor, incansável pesquisador de pedras, tenho muitas saudades.
    Ah! a propósito, a Calcedónia fica sobranceira à Geira, porque é muito possível que tivesse uma qualquer função da sua vigilância

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