O Mosteiro de Lorvão e a Doçaria Conventual

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Este Sábado fomos até Penacova para visitar o mosteiro de Lorvão o qual impressiona pela sua grandiosidade e por se encontrar abrigado no fundo de montes, correndo aos seus pés um pequeno rio de águas limpas. Face a face com o mosteiro ergue-se a povoação de casas alinhadas ao longo da estrada. Infelizmente, do extinto mosteiro cisterciense feminino, apenas se pode visitar a igreja, a pequena sacristia, o coro, o claustro que ladeia a igreja e duas salas onde se encontra algum do acervo museológico.
No século XX e até 2012 aqui funcionou um hospital psiquiátrico que ocupava grande parte do edifício. Hoje, parece incerto o uso a dar a este enorme mosteiro, habitado ao longo dos séculos por filhas de algumas das mais ilustres famílias portuguesas.

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Há pouco tempo o claustro foi intervencionado tendo sido adossado um novo edifício onde se projetava constituir um museu. Mas, a agrura dos tempos parece ter feito abortar o projeto, pelo que o edifício apesar de pronto se encontra vazio… Foi pena que em vez da criação de um novo edifício não se tenha aproveitado o existente…
O mosteiro de Lorvão deve ter sido talvez fundado no séc. VI (apesar de esta data não ser unanimemente aceite pelos investigadores), abrigando um mosteiro masculino, o qual a partir do séc. XI passou a seguir a regra de S. Bento.

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

No início do século XIII, o mosteiro viria a transformar-se numa congregação feminina da ordem de Cister, aqui vivendo D. Teresa, filha de D. Sancho I e mulher que havia sido de Afonso IX de Leão, e suas irmãs Sancha, Mafalda, Branca e Berengária. Sancha, viria mais tarde a fundar o convento de Celas, em Coimbra. Teresa e Sancha ficaram sepultadas em Lorvão, tendo sido desde cedo consideradas como Rainhas Santas e merecendo por isso a devoção dos fiéis, vindo a ser beatificadas a 23 de Dezembro de 1705 (BORGES, 2013: 15-34).

RRefeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Refeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Mas, não é a história do convento que nos interessa, mas a dedicação destas mulheres ao fabrico de doces. Em boa hora a Câmara Municipal editou o livro «Doçaria Conventual de Lorvão» (2013), da autoria de Nelson Correia Borges, um filho da terra, professor aposentado do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual fez a sua tese de doutoramento sobre Lorvão – «Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade: das origens a 1737».

Doces das freiras de Lorvão

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

O autor, profundo conhecedor da documentação referente a Lorvão e ao mosteiro, decidiu, nesta obra dedicada à doçaria conventual de Lorvão, dar a conhecer o que sobre o tema os documentos referem, alertando, no entanto, para a inexistência de receitas: “Não chegaram até nós livros de receitas, ou quaisquer apontamentos, ou, em rigor, não são conhecidos até agora, o que não quer dizer que não tivessem existido”.
Através da consulta documental o autor ficou a conhecer e desvenda a doçaria que saía das mãos destas freiras – alfenim, alfitetes, beijinhos de freira, beijinhos, beijos, biscoitos, bocados de abóbora, bolo de bispo, bolo de Santa Teresa, bolo podre de Lorvão, bolos d’arica, bolos de bispo, botelhada, broas de amêndoa, broas de ovos, capelas de ovos, caramelos, cavacas de Lorvão, cidrada, confeitos, derriços, doce de amêndoas, doce de laranja, farténs de amêndoa, fatias do céu, fatias do conde, fios de ovos, ginetes, lampreia doce, linguadas, manjar branco, manjar divino, manjar real, marmelada, marmelada de sumos, massapães, melindres, milharós, morgados, nabada, ovos doces, ovos moles, palermos cobertos (hoje nevadas), palitos, pão-de-ló de amêndoa, papos de anjo, pastéis, perada, pêssegos cobertos, queijadas, queijinhos do céu, súplicas, talhadas, tâmaras, tigelada, tolos, tortilhas, tremoços.

O que resta da antiga cozinha do mosteiro. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

O que resta da antiga cozinha do Mosteiro de Lorvão. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

Não tendo encontrado na documentação as receitas dos doces acima referidos o autor socorreu-se de pessoas (mulheres é claro!) que lhe deram a conhecer o modo de fazer estas iguarias. Apresenta um total de 53 receitas: 8 foram-lhe facultadas por Maria da Graça de Castelo Branco Leitão Barbosa Ribeiro (queijinhos do céu, tâmaras, tolos, lampreia doce, beijinhos, beijos e cavacas); 1 foi extraída de um “manuscrito de uma freira, em posse de família que esteve ligada ao Mosteiro de Lorvão” (Bolo podre de Lorvão); 1 recolhida em «Nova Arte da Cozinha» (1695) de Domingos Rodrigues (cidrada); 1 do mosteiro de Celas (manjar branco); 1 de Arminda Ferreira Baptista Santos, “agora utilizada e divulgada por D. Margarida Padilha Viseu” (Palermos cobertos); 1 publicada na revista «Marie Claire», N.º 38 de 1991 (Palitos); 1 de Maria Amália Martins de Carvalho Leitão Alpoim (Pastéis de Lorvão) e outra publicada por Emanuel Ribeiro e respeitante ao mosteiro de Bustelo (Pêssegos cobertos), as restantes foram recolhidas “da tradição oral, quer junto de familiares, quer junto de pessoas amigas que no-las comunicaram, mesmo antes das informações arquivísticas”.

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Nelson Borges publica também a receita do Bolo das Infantas, informando que “esta receita foi divulgada na internet e publicada por Alfredo Saramago”, acrescentando que a incluía “com alguma reserva, porquanto este nome não aparece referido na documentação nem tão pouco a designação seria lógica num mosteiro onde a memória coletiva era sempre referida à rainha e não a infantas”. Tem razão o autor para duvidar da veracidade da receita publicada por Alfredo Saramago. De facto, o mesmo sucede com receitas publicadas por este autor como sendo provenientes de conventos de Braga e Guimarães, as quais nunca se encontraram nem nas fontes documentais nem na consulta de velhos livros de receitas pertencentes a antigas famílias de ambas as terras. Tal como sucede com a receita de Lorvão também as que o autor apresenta como sendo de Braga e Guimarães possuem nomes pouco usuais em contextos conventuais (FERNANDES, 2012: 12). Por tal motivo as receitas facultadas por este autor devem ser usadas com grande reserva.
Nelson Correia Borges não indica a proveniência do receituário das restantes 38 receitas, o que é pena, pois, é sempre importante conhecer a sua origem.

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

É bom dizer que todas as receitas foram experimentadas, agradecendo o autor a Emília Teresa Horta Peres, a “revisão e paciente execução das receitas” (BORGES, 2013: 12).
Intriga-me o que seriam os bolos d’arica. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal doce. Como seriam? Convém talvez lembrar que o verbo aricar significa “lavrar superficialmente a terra para livrá-la de ervas daninhas” (HOUAISS, 2003, I: 372), tendo o mesmo significado em castelhano (DICCIONARIO, 2001, I: 203).

Doces que adquiriam
Nelson Correia Borges transcreve documentação do final do século XVII através da qual se pode concluir que havia doces que eram comprados pelas freiras, como por exemplo os “pastéis que se dão no dia de Entrudo”, os “pastéis para os músicos” que se oferecem no dia da “consoada do nosso padre S. Bento” e os “confeitos para a consoada que na semana Santa se dão” (BORGES, 2013: 77-78).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia  Borges (BORGES, 2013: 61).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 61).

A compra de doces no exterior do mosteiro sucedia em diversas congregações, principalmente nos conventos masculinos que adquiriam fora muitos dos doces que consumiam.

Os utensílios para fazer, transportar, servir e comer os doces
Nelson Correia Borges teve também o cuidado de ilustrar a sua obra com fotografias dos utensílios usados pelas freiras quer para fazer os doces quer para os transportar, servir e comer.
Ao longo da obra podemos ficar a conhecer vários recipientes de barro utilizados na conservação dos alimentos sólidos e líquidos, um graal de marfim, um tacho de cobre, uma colher de ferro, um prato de cobre utilizado para formar a lampreia doce, discos de barro vermelho para fazer o manjar branco, tigelinhas para os ovos moles, copos e jarra de vidro, pratos de faiança e porcelana com marca possessória, bem como tabuleiros para transporte de doces ou outros géneros.

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Interessante é também a divulgação que o autor faz das caixas para guardar e transportar os doces, hoje difíceis de encontrar, e de dois singelos e interessantes garfos de marfim de quatro dentes.

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Na documentação do final do séc. XVII encontrou o autor referência quer à compra de caixas (Maio de 1694) – “comprámos 19 caixas grandes para o presente das nossas Santas Rainhas”, quer de tigelinhas (Novembro de 1691) – “compramos de tigelinhas para doce…” (BORGES, 2013: 77-78).
A quem gosta de conhecer a história da doçaria ou de experimentar novas “velhas” receitas aconselha-se a compra do livro. Estudar e divulgar a doçaria portuguesa é uma forma de preservar a nossa memória colectiva. Parabéns ao autor.

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Se ficou com água na boca, nada melhor do que sair do mosteiro, atravessar a rua e entrar na pastelaria «O Mosteiro», onde poderá saborear os palermos cobertos, hoje designados nevadas. Mas aí encontrará outra doçaria de inspiração conventual como os queijinhos (doce de ovo e amêndoa), os pastéis de Lorvão (com amêndoa) e os mimos (com amêndoa sem pele).

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Bibliografia

BORGES, 2013
Nelson Correia Borges – Doçaria Conventual de Lorvão. Penacova: Câmara Municipal, 2013.

DICCIONARIO, 2001
Diccionario de la lengua española. 2 vol. 22.ª ed. Madrid: Espasa Calpe, 2001.

FERNANDES, 2012
Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012. P. 9-73.

HOUAISS, 2003
Dicionário Houaiss. Vol. 1. Lisboa: Círculo dos Leitores, 2003.

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A Nobreza à mesa, em 1701

Josefa de Óbidos. Natureza-Morta com Doces e Barros, 1676. Santarém, Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire

Voltemos a 1701, a Lisboa, pela mão de Thomaz Cox e Cox Macro. Em texto anterior já se falou da obra destes autores, veja-se aqui.
Desta vez somos convidados para a mesa dos nobres de então. Thomaz Cox e Cox Macro, mais do que uma descrição das refeições, deixam apontamentos de aspectos que lhes chamaram a atenção, seguramente porque diferente do que sucedia na sua pátria, Inglaterra. Os autores consideram os portugueses “comilões” e constatam que tinham por hábito fazer uma refeição entre o jantar (leia-se almoço) e a ceia (leia-se jantar). Ou seja, os portugueses tinham por hábito merendar. Os nobres lavavam as mãos antes da refeição, “mas não com muita frequência”. Sentavam-se à mesa e eram servidos pelos escudeiros, sendo que sobre esta existiam vários pratos, “na sua maior parte purés e carne guisada”. O gosto pela profusão de diferentes iguarias numa só refeição é atestado pela leitura do livro «Arte da Cozinha», de Domingos Rodrigues, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1680. Na sua obra Domingos Rodrigues sugere o que deveria constituir a refeição a servir a um embaixador, sendo a mesma constituída por seis “cobertas”, ou seja, conjunto de manjares que se colocam em pratos sobre a mesa e que, depois dos convivas terem comido se levanta para colocar nova coberta. Nesta proposta de banquete Domingos Rodrigues começa por sugerir se sirva manteiga, saladas e fruta, o que parece corroborar o escrito por Thomaz Cox e Cox Macro, os quais informam que “no verão, o primeiro prato é fruta”, ao qual se seguem os assados e os guisados.

Josefa de Óbidos. Natureza Morta: Frutos e Flores, c. 1670. Lisboa, Palácio Nacional de Queluz

O assado de carne não deliciou os viajantes ingleses, pois o modo de assar sobre a brasa, virando a carne de um e de outro lado, deixava o mesmo “ficar seco como a palha”. Também não foi do seu agrado o pão: “põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim”. Constatam também que não misturavam o vinho com água – “raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda”. O aqui afirmado parece contradizer o verificado em séculos anteriores, nos quais existia o hábito de misturar o vinho com a água. A água acompanhava invariavelmente os doces – “quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces”. Vários outros autores constataram também este hábito lusitano de comer doces acompanhados por água e não por vinho.
Josefa de Óbidos, taça com doces. Séc. XVII, 2.ª metade

No seu entender os portugueses eram gulosos comendo “grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde”. Já acima foi referido o hábito de beber água em sociedade sendo esta acompanhada com doces. Os nobres portugueses utilizavam na mesa “loiça de barro”, existindo “grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro”. Mas os autores alertam para problemas de higiene, ou melhor, a falta dela – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Esta loiça era “muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la”. Confessamos que este aspecto nos intriga. Será uma tradução menos feliz? Qual terá sido a palavra inglesa utilizada para designar “barro” e “louça de barro”? A facilidade com que a loiça repassava (ou nossos oleiros diriam “resumir”, ou seja ressumar), parece indiciar que se tratava efectivamente de olaria, ou seja loiça de barro fosco sem vidrado, o que causa estranheza pois normalmente associa-se à mesa dos nobres desta época o uso da prata, da porcelana e da faiança. Interessante também é verificar que já naquela época os oleiros tentavam vender peças que deixavam passar os líquidos. Na primeira metade do século XX, em Ponte de Lima, os clientes quando duvidavam se um cântaro vertia ou não, pediam para o encher com água. Um oleiro espertalhão para enganar o cliente quando via que o cântaro tinha algum pequeno orifício por onde a água vertia tratava de o tapar internamente com um pedaço de pão. Se o cliente pedia para o encher com água, verificava que não vertia. Só quando chegasse a casa é que constataria ter sido enganado… Thomaz Cox e Cox Macro notam também que “a Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro”; “os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes”. E que quando traziam um prato com qualquer coisa este vinha invariavelmente coberto com outro – “Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato”. A que tipo de pratos se estariam a referir? Estranheza causa também o facto de os pratos virem à mesa sem ser limpos – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Pela mão destes estrangeiros vislumbra-se a cozinha de então e o pessoal que nela laborava, fica a saber-se que, tal como nos conventos, também nestas cozinhas da nobreza existiam rodas na parede através das quais se passavam os alimentos da cozinha para a sala. Descrevem também os pequenos fogões utilizados para cozinhar. Como seriam? Pela descrição não conseguimos perceber: “têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc.”; “o fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas”.

Josefa de Óbidos, cesta com frutos e flores. Séc. XVII, 2.ª metade

Há também hábitos sociais para os quais os autores chamam a atenção, por exemplo, para o facto de quando alguém chegava a casa de outra pessoa sem convite formal não era convidado a participar na refeição – “raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão pouco familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam a sentar-se, e se o fizessem, ele recusaria.” Dão também algumas indicações do modo como se processavam as refeições: “só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as virtualhas apenas até à porta”; “os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos”. Referem também o hábito ainda comum à época de as mulheres conviverem num espaço a isso destinado e de se sentarem no chão, no estrado, e não em cadeiras. Este hábito, muito arreigado em séculos anteriores e que ainda se mantém no século XVIII, vai começando paulatinamente a perder a força – “As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça”. Quanto ao facto de as mulheres conviverem nestes espaços “no feminino” e de ser aí que comiam, separadas dos seus maridos, quer-nos parecer ser excepção e não a regra. Esta separação entre os sexos durante a refeição deveria dar-se apenas quando os maridos recebiam visitas do sexo masculino, visitas de cerimónia com conversas onde as mulheres não entravam. Em pleno século XX, na freguesia do concelho de Barcelos, no Portugal rural, durante a matança do porco, por exemplo, convidavam-se os homens para participar no ágape, no qual não tinham assento nem as mulheres nem os filhos (informação de Silvestre Lopes Duarte). A função da mulher era preparar a refeição e servir os convidados. Há ainda muito para desbravar neste mundo da mesa em Portugal… De seguida apresentam-se os dois textos, extraídos da obra «Relação do Reino de Portugal: 1701», em boa hora publicado pela Imprensa Nacional. Um texto é atribuído a Thomaz Cox, o outro a Cox Macro. Este artigo vai ilustrado com pinturas de Josefa de Ayala, vulgarmente designada Josefa de Óbidos (1630-1684), nas quais se encontra uma enorme profusão de fruta e doces tão do agrado dos portugueses de então.

Josefa de Óbidos, queijos, mel, tigelada e cerejas. Séc. XVII, 2.ª metade

Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

Thomaz Cox
A Nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo e, quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[1], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[2]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes. Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato. A Nobreza tem grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A louça de barro é muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la. Fazem sempre uma refeição entre o jantar a ceia, e são grandes comilões. Têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc. Os criados portugueses não acham que seja pecado roubar ao patrão qualquer coisa de comer, ou beber. Quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces. (…) Os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos. As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça. (COX; MACRO, 2007: 134, 138, 139, 141, 147)
Cox Macro
A Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas põem-lhes tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as vitualhas apenas ate a porta. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No Verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo, e quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e por vezes de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[3], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[4]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Não apresentam mesas como as nossas, e penso que pouco mais do que compotas é suficiente. Raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão poucos familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam assentar-se, e se o fizessem, ele recusaria. (…) As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça (COX; MACRO, 2007: 276-279).

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Bibliografia COX; MACRO, 2007 [1701] Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007. RODRIGUES, 2001 [1680]Domingos Rodrigues – Arte da Cozinha. Sintra: Colares Editora, 2001. (1.ª ed., 1680)


[1] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[2] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.
[3] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[4] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.

Compota de Figo (Adega Popular, Fafe)

5 kg de figos pingo de mel
2,5 Kg de açúcar

Modo de preparação
Escaldam-se os figos em água a ferver. Seguidamente colocam-se numa panela, juntamente com o açúcar e deixa-se ferver até este fique em ponto de pérola. Durante a cozedura, para evitar que o figo se agarre ao fundo do tacho, deve-se ir mexendo de vez em quando, mas com cuidado para não desfazer os figos.

Nota: Confesso que em Fafe um dos restaurantes da minha predilecção é a Adega Popular. A comida é muito boa, sendo ainda feita em forno de lenha. Os assados, por exemplo, são fantásticos. Mas, o que me faz deslocar aquele restaurante, e sempre com água na boca, é a sua compota de figo. É um manjar divinal que se saboreia gostosamente. Se for a Fafe não deixe de almoçar ou jantar na Adega Popular e faça questão de provar o doce de figo.
A receita que aqui divulgo foi-me dada pela Dr.ª Fátima Aguiar, que fez o favor de a pedir no próprio restaurante.

Rabanadas da minha mãe

Ingredientes
1 pão de cacete ou 6 pães duros (molete)
1 ½ litro de leite
3 paus de canela
15 colheres de sopa de açúcar
2 cascas de limão
óleo, q.b.
ovos, q.b.

Para passar as rabanadas depois de fritas
açúcar, q.b.
canela em pó, q.b.

Calda
1 chávena de açúcar
1 chávena de água
1 cálice de Vinho do Porto

Modo de preparação
Parta o cacete em fatias ou abra o pão (molete) a meio, no sentido longitudinal. Coloque num tabuleiro e reserve.
Aqueça o leite com o açúcar, os paus de canela e a casca de limão. Regue o pão que preparou com esta calda de leite  de modo a que fique humedecido. De seguida passe o pão por ovo batido. Frite-o em óleo bem quente. Depois de frito escorra.
No final passe o pão escorrido por açúcar misturado com canela – cerca de 250 grs de açúcar misturado com 1 colher de canela. Mas pode pôr mais ou menos canela segundo o seu gosto. Vá dispondo o pão assim preparado numa travessa e reserve.
Entretanto coloque ao lume o açúcar com o pau de canela. Deixe ferve e quando estiver em ponto de pérola, retire do lume e junte o cálice de vinho do Porto.
Vire esta calda sobre o pão. As rabanadas estão prontas. Bom apetite!

Nota: Aprendi a fazer estas rabanadas com a minha mãe. O que acrescentei de meu foi o facto de as fazer, muitas vezes, durante o ano, para aproveitar pão que sobra. Sabe tão bem comer rabanadas fora do período de Natal!
Costumo fazê-las a olho, sem pesar os ingredientes… Pelo que cada um pode acertar a receita segundo o seu gosto – mais ou menos leite, mais ou menos canela, mais ou menos açúcar.

Doce gelado da Ana

Ingredientes
4 claras
250 ml de natas
6 colheres de sopa de açúcar

Bata as claras em castelo bem forte e junte-lhe 3 colheres de açúcar. Reserve.
Bata as natas bem batidas e junte-lhe 3 colheres de açúcar. Junte, envolvendo, os 2 preparados anteriores.
Passe uma forma por água fria e escorra-a. Coloque dentro o preparado e leve ao congelador.
Quando for para ser servido cubra com morangos batidos na varinha mágica e ou com doce de ovos.

Nota: Este é um dos doces preferidos da minha filha Ana. É fácil de fazer, saboroso e muito agradável no tempo quente. A receita foi-me dada pela minha irmã, Margarida Fernandes, que por sua vez a recebeu de uma amiga, a Guida Ferreira.

Leite creme queimado


Ingredientes:

30 gr de farinha de trigo (= 2 colheres de sopa)
150 gr de açúcar
0,5 l de leite
1 pauzinho de canela
1 casquinha de limão
4 gemas de ovos
+ um pouco de açúcar para queimar o creme

Deite num tacho o leite, a canela e o limão, faça ferver e retire do lume. Noutro tacho deite o açúcar e a farinha e misture-os bem com a colher de pau.
Retire o limão e a canela do leite fervido e junte-o em fio, ao açúcar e à farinha, mexendo continuamente com colher de pau.
Leve depois ao lume, deixe levantar fervura e ferver 1 minuto e retire do lume.
Separe as gemas para dentro da tigela, mexa-as, e mexendo-as sempre, adicione-lhes um pouco de creme; junte depois ao creme em fio mexendo sempre com a colher de pau no fundo do tacho. Não deixe ferver, é apenas para engrossar mais um pouco.
Retire do lume sem deixar ferver e deite imediatamente em pratinhos ou travessa e deixe arrefecer.

Notas: Esta receita foi-me dada pela minha irmã, Margarida Fernandes. Fica muito boa. Deve usar-se farinha sem fermento (mas pode ser feita com farinha com fermento).
Se não se quiser queimar o creme pode polvilhar-se, depois de pronto, com canela em pó.

Pudim Francês (receita de Carolina Freitas)

16 gemas
2 ovos inteiros
1 cálice de vinho do Porto
400 ml de água
750 gr de açúcar

Levar a água com o açúcar a ponto de pérola. Misturar os ovos com o vinho do Porto. Não bater, só misturar.
Quando o açúcar em ponto de pérola estiver morno, juntam-se os ovos.
Untar a forma com caramelo e ao deitar o preparado na forma passar pelo coador para que não passem algumas impurezas.
Cozer na panela de pressão 35 minutos

Nota: Esta receita de pudim é feita por Carolina Freitas, natural de Guimarães, que a aprendeu com sua mãe. Trata-se de uma receita de pudim feito pelas famílias vimaranenses, possuindo uma admirável textura, que se fica a dever, em parte, ao facto de ser coado.