Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

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O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro

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A Nobreza à mesa, em 1701

Josefa de Óbidos. Natureza-Morta com Doces e Barros, 1676. Santarém, Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire

Voltemos a 1701, a Lisboa, pela mão de Thomaz Cox e Cox Macro. Em texto anterior já se falou da obra destes autores, veja-se aqui.
Desta vez somos convidados para a mesa dos nobres de então. Thomaz Cox e Cox Macro, mais do que uma descrição das refeições, deixam apontamentos de aspectos que lhes chamaram a atenção, seguramente porque diferente do que sucedia na sua pátria, Inglaterra. Os autores consideram os portugueses “comilões” e constatam que tinham por hábito fazer uma refeição entre o jantar (leia-se almoço) e a ceia (leia-se jantar). Ou seja, os portugueses tinham por hábito merendar. Os nobres lavavam as mãos antes da refeição, “mas não com muita frequência”. Sentavam-se à mesa e eram servidos pelos escudeiros, sendo que sobre esta existiam vários pratos, “na sua maior parte purés e carne guisada”. O gosto pela profusão de diferentes iguarias numa só refeição é atestado pela leitura do livro «Arte da Cozinha», de Domingos Rodrigues, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1680. Na sua obra Domingos Rodrigues sugere o que deveria constituir a refeição a servir a um embaixador, sendo a mesma constituída por seis “cobertas”, ou seja, conjunto de manjares que se colocam em pratos sobre a mesa e que, depois dos convivas terem comido se levanta para colocar nova coberta. Nesta proposta de banquete Domingos Rodrigues começa por sugerir se sirva manteiga, saladas e fruta, o que parece corroborar o escrito por Thomaz Cox e Cox Macro, os quais informam que “no verão, o primeiro prato é fruta”, ao qual se seguem os assados e os guisados.

Josefa de Óbidos. Natureza Morta: Frutos e Flores, c. 1670. Lisboa, Palácio Nacional de Queluz

O assado de carne não deliciou os viajantes ingleses, pois o modo de assar sobre a brasa, virando a carne de um e de outro lado, deixava o mesmo “ficar seco como a palha”. Também não foi do seu agrado o pão: “põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim”. Constatam também que não misturavam o vinho com água – “raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda”. O aqui afirmado parece contradizer o verificado em séculos anteriores, nos quais existia o hábito de misturar o vinho com a água. A água acompanhava invariavelmente os doces – “quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces”. Vários outros autores constataram também este hábito lusitano de comer doces acompanhados por água e não por vinho.
Josefa de Óbidos, taça com doces. Séc. XVII, 2.ª metade

No seu entender os portugueses eram gulosos comendo “grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde”. Já acima foi referido o hábito de beber água em sociedade sendo esta acompanhada com doces. Os nobres portugueses utilizavam na mesa “loiça de barro”, existindo “grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro”. Mas os autores alertam para problemas de higiene, ou melhor, a falta dela – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Esta loiça era “muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la”. Confessamos que este aspecto nos intriga. Será uma tradução menos feliz? Qual terá sido a palavra inglesa utilizada para designar “barro” e “louça de barro”? A facilidade com que a loiça repassava (ou nossos oleiros diriam “resumir”, ou seja ressumar), parece indiciar que se tratava efectivamente de olaria, ou seja loiça de barro fosco sem vidrado, o que causa estranheza pois normalmente associa-se à mesa dos nobres desta época o uso da prata, da porcelana e da faiança. Interessante também é verificar que já naquela época os oleiros tentavam vender peças que deixavam passar os líquidos. Na primeira metade do século XX, em Ponte de Lima, os clientes quando duvidavam se um cântaro vertia ou não, pediam para o encher com água. Um oleiro espertalhão para enganar o cliente quando via que o cântaro tinha algum pequeno orifício por onde a água vertia tratava de o tapar internamente com um pedaço de pão. Se o cliente pedia para o encher com água, verificava que não vertia. Só quando chegasse a casa é que constataria ter sido enganado… Thomaz Cox e Cox Macro notam também que “a Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro”; “os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes”. E que quando traziam um prato com qualquer coisa este vinha invariavelmente coberto com outro – “Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato”. A que tipo de pratos se estariam a referir? Estranheza causa também o facto de os pratos virem à mesa sem ser limpos – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Pela mão destes estrangeiros vislumbra-se a cozinha de então e o pessoal que nela laborava, fica a saber-se que, tal como nos conventos, também nestas cozinhas da nobreza existiam rodas na parede através das quais se passavam os alimentos da cozinha para a sala. Descrevem também os pequenos fogões utilizados para cozinhar. Como seriam? Pela descrição não conseguimos perceber: “têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc.”; “o fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas”.

Josefa de Óbidos, cesta com frutos e flores. Séc. XVII, 2.ª metade

Há também hábitos sociais para os quais os autores chamam a atenção, por exemplo, para o facto de quando alguém chegava a casa de outra pessoa sem convite formal não era convidado a participar na refeição – “raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão pouco familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam a sentar-se, e se o fizessem, ele recusaria.” Dão também algumas indicações do modo como se processavam as refeições: “só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as virtualhas apenas até à porta”; “os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos”. Referem também o hábito ainda comum à época de as mulheres conviverem num espaço a isso destinado e de se sentarem no chão, no estrado, e não em cadeiras. Este hábito, muito arreigado em séculos anteriores e que ainda se mantém no século XVIII, vai começando paulatinamente a perder a força – “As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça”. Quanto ao facto de as mulheres conviverem nestes espaços “no feminino” e de ser aí que comiam, separadas dos seus maridos, quer-nos parecer ser excepção e não a regra. Esta separação entre os sexos durante a refeição deveria dar-se apenas quando os maridos recebiam visitas do sexo masculino, visitas de cerimónia com conversas onde as mulheres não entravam. Em pleno século XX, na freguesia do concelho de Barcelos, no Portugal rural, durante a matança do porco, por exemplo, convidavam-se os homens para participar no ágape, no qual não tinham assento nem as mulheres nem os filhos (informação de Silvestre Lopes Duarte). A função da mulher era preparar a refeição e servir os convidados. Há ainda muito para desbravar neste mundo da mesa em Portugal… De seguida apresentam-se os dois textos, extraídos da obra «Relação do Reino de Portugal: 1701», em boa hora publicado pela Imprensa Nacional. Um texto é atribuído a Thomaz Cox, o outro a Cox Macro. Este artigo vai ilustrado com pinturas de Josefa de Ayala, vulgarmente designada Josefa de Óbidos (1630-1684), nas quais se encontra uma enorme profusão de fruta e doces tão do agrado dos portugueses de então.

Josefa de Óbidos, queijos, mel, tigelada e cerejas. Séc. XVII, 2.ª metade

Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

Thomaz Cox
A Nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo e, quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[1], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[2]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes. Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato. A Nobreza tem grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A louça de barro é muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la. Fazem sempre uma refeição entre o jantar a ceia, e são grandes comilões. Têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc. Os criados portugueses não acham que seja pecado roubar ao patrão qualquer coisa de comer, ou beber. Quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces. (…) Os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos. As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça. (COX; MACRO, 2007: 134, 138, 139, 141, 147)
Cox Macro
A Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas põem-lhes tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as vitualhas apenas ate a porta. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No Verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo, e quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e por vezes de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[3], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[4]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Não apresentam mesas como as nossas, e penso que pouco mais do que compotas é suficiente. Raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão poucos familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam assentar-se, e se o fizessem, ele recusaria. (…) As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça (COX; MACRO, 2007: 276-279).

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Bibliografia COX; MACRO, 2007 [1701] Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007. RODRIGUES, 2001 [1680]Domingos Rodrigues – Arte da Cozinha. Sintra: Colares Editora, 2001. (1.ª ed., 1680)


[1] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[2] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.
[3] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[4] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.

Os pobres comem muito mal…

Açafrão (Crocus Sativus)

Açafrão (Crocus Sativus)

Continuamos em busca de descrições do que noutros tempos se comia em Portugal.Desta vez transcrevemos excertos de um manuscrito, escrito a duas mãos, em épocas diferentes, por tio e sobrinho, Thomas Cox e Cox Macro, sendo ambos de origem inglesa.O manuscrito, de leitura complexa, foi traduzido para português com a coordenação de Maria Leonor Machado de Sousa, e em boa hora publicado pela Biblioteca Nacional. A obra tem o título de «Relação do Reino de Portugal: 1701» e é uma das mais antigas descrições de Lisboa antes do terramoto de 1755.Os autores, em vários passos da obra, referem o que se comia e como se comia em Portugal.Iremos, guiados por eles, dar-vos a conhecer, ao longo de vários artigos deste blogue, o que comiam os portugueses em 1701.
Neste texto entraremos na casa dos portugueses “pobres”.
Há dois textos, um escrito por Thomas Cox e o outro por Cox Macro, ambos tratando a alimentação dos pobres, e ambos muito semelhantes, mas também com diferenças… Por isso, optou-se por incluir os dois.

Arroz (Oryza)

Repare-se que se comia muita hortaliça, legumes e fruta, peixe, pouca carne e pouco vinho. Os alimentos eram apaladados com açafrão, anis[1], coentros e alho. Já então a sardinha era rei na mesa dos menos abastados e faziam-se caldos de peixe. Far-se-ia então o caldo de cação que ainda hoje tanto apreciamos?
Notam os autores que “quando se dá o caso de matarem uma ave não perdem nada, as próprias entranhas são transformadas num puré”. Que prato seria? Um sarapatel? Talvez…
O autor refere também que se comiam muitas empadas: “fazem muitas empadas e põem peixe e quase tudo nas empadas”. Este hábito de comer empadas foi-se perdendo com o correr dos tempos, mas, em séculos anteriores, era já uma constante. Por exemplo, no Regimento dos Pasteleiros, incluído no «Livro dos Regimentos dos Oficiais mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa (1572)», estes tinham de saber fazer “empadas para o tempo de pescado”, ou seja, empadas de peixe para comer nos períodos em que a Igreja proibia o consumo de carne (CORREIA, 1926: 222).
De notar também o gosto dos portugueses pela água, naqueles séculos preferida ao vinho: “sendo que bebem normalmente água”; “raramente bebem à refeição, mas bebem uma grande golada de água depois de comer”.

Beldroegas (Portulaca oleracea)

Beldroegas (Portulaca oleracea)

Mas leia-se o que dizem os autores:
“Os pobres comem muito mal. A família de um trabalhador do campo não come geralmente mais do que pão durante todo o dia. À noite, quando o homem regressa do trabalho, têm alguma hortaliça ou arroz e peixe, isto é a ceia para toda a família. Raramente comem carne mais do que uma vez por semana e, mesmo assim, é carne de vaca no valor de 1 tostão a dividir por 7 ou 8 pessoas. No Verão comem grande abundância de fruta; e, no Inverno, fruta seca, peixe seco e uma espécie de arenques pequenos a que chamam sardinhas, de que há grande abundância. Comem grande quantidade de beldroegas e beterraba, ervilhas e feijões e muito açafrão, anis, alho, cebolas e coentros – que creio serem necessários para ajudar a digestão dos seus outros alimentos, sendo que bebem normalmente água.
Muito poucas pessoas têm vinho em casa, muitos de entre eles nunca na vida o provaram e muita gente não consegue beber por um copo em que esteve vinho sem primeiro o lavar. Não se pode insultar mais um homem do que chamando-lhe bêbedo, e creio que são raras vezes culpados deste pecado. Quando vão a uma taberna é apenas para se refrescarem com um copo de vinho e saem outra vez, sem se demorarem. São muito frugais no que comem e bebem” (COX; MACRO, 2007: 133 e 139).

Caril

Caril

“A Lavadeira por baixo de nós vivia desta maneira: durante o dia não comiam nada a não ser pão e à noite, quando o homem regressava do trabalho, preparavam uns espinafres em azeite ou caril e arroz, ou feijão seco, e isto constituía a ceia da Família. Só comiam carne ao Domingo e, mesmo então, era um tostão de Vaca a dividir entre sete ou oito. A Sr.ª Green disse que os pobres viviam geralmente desta maneira. É estranho ver até onde leva a vaidade dos pobres pois, se bem que tenham sido forçados a pedir meio tostão emprestado à Sr.ª Green para pagar a um Cirurgião que tinha vindo sangrar a filha deles, e de outra vez lhe tenham pedido para comprar meia dúzia de ovos para o mesmo efeito, ainda assim a filha tem de ter uma capa de seda e belas roupas, e tem-se em tão alto conceito que não quer ir servir, e consideram a generalidade dos criados não melhores do que galeqos, ou seja, gente nascida nas montanhas. Comem grandes quantidades de beldroegas e beterrabas, ervilhas e feijões e servem-nos com ovos cozidos por cima. Isto constitui a ceia vulgar. Raramente cozem os ovos na casca, antes os deitam para uma tigela de barro comum com azeite e levam-nos para a mesa na mesma tigela em que são cozinhados. Arroz com um bocado de vaca por cima é um prato comum e o caldo com pão é-lhes trazido depois, em tigelas. Fazem muitas empadas e põem peixe e quase tudo nas empadas. Adoram a variedade e muitas travessas, mas as porções têm o tamanho dos pratos. Raramente bebem à refeição, mas bebem uma grande golada de água depois de comer” (COX; MACRO, 2007: 135-136).

Coentros (Coriandrum sativum)

Coentros (Coriandrum sativum)

“Os pobres comem muito mal e muitas vezes vivem em casas sem chaminés e que não têm outra luz além daquela que entra pela porta. A família de um trabalhador do campo não come geralmente mais do que pão durante todo o dia. À noite, quando o homem regressa do trabalho, têm alguma hortaliça ou arroz e peixe, e isto é a ceia para toda a família. Raramente comem carne mais do que uma vez por semana, e, mesmo assim, é carne de vaca no valor de 1 tostão a dividir por 7 ou 8 pessoas. No Verão comem grande abundância de fruta; e no Inverno, fruta seca, peixe seco e uma espécie de arenques pequenos a que chamam sardinhas, de que há grande abundância. Comem grande quantidade de beldroegas e beterraba, ervilhas e feijões e muito açafrão, anis, alho, cebolas e coentros – que creio serem necessários para ajudar a digestão dos seus outros alimentos, sendo que bebem normalmente água. Não têm alcachofras, aipo, nem rábano, nem aveia. Quando se dá o caso de matarem uma ave não perdem nada, as próprias entranhas são transformadas num puré. Também fazem caldo de peixe. Põem dentro de água o peixe fervido em azeite e alho e açafrão, e servem o peixe com grandes fatias de pão no caldo a que chamam sopas. Fervem a erva coentro nas suas sopas.
Muito poucas pessoas têm vinho em casa, muitos de entre eles nunca na vida o provaram puro e muita gente não consegue beber por um copo em que esteve vinho sem primeiro o lavar. Não se pode insultar mais um homem do que chamando-lhe bêbedo, e creio que são raras vezes culpados deste pecado. Quando vão a uma taberna é apenas para se refrescarem com um copo de vinho e saem outra vez, sem se demorarem. São muito frugais no que comem e bebem” (COX; MACRO, 2007: 276).

Bibliografia
CORREIA, 1926
Vergílio Correia – Livro dos regimentos dos oficiais mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa (1572). Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926.
COX; MACRO, 2007 [1701]
Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.
 


[1] Parece estranho o uso de anis como tempero da comida, ao lado do açafrão, alho, cebolas e coentros. Será que no original o termo anis era usado com o significado de salsa? De facto, “De acordo com o Dicionário Bíblico Easton de 1897, o termo anis na Bíblia Cristã (Mateus 23:23) refere-se à erva conhecida hoje como salsa (Anethum ou Peucedanum graveolens).Na língua inglesa o nome mais conhecido é Anise”  In http://pt.wikipedia.org/wiki/Anis
Mas, também pode ser que na altura o anis – vulgarmente designado erva-doce (Pimpinella anisum) –, o qual ainda hoje é uso aplicar-se na doçaria, fosse então utilizado no tempero de outros alimentos. Fica a dúvida…

Clenardo e a estalagem junto ao Tejo… no século XVI

Cebolas. Fotografia de Ana CastroOs estrangeiros que viajaram pelo nosso País, e que publicaram as suas viagens, são unânimes em referir a má qualidade das estalagens, quer no respeitante à comida quer à dormida. No seguimento do texto anterior, também da autoria de Clenardo (ver aqui), damos a conhecer a estalagem onde este pernoitou (em 1537?), junto ao rio Tejo, e onde tão mal recebido foi …
Através deste texto apercebemo-nos do que então se comia. E, o que não deixa de ser interessante, o facto de já nessa época o povo apreciar comer cebola crua ou assada, regada ou não com azeite e vinagre.
Alguns anos passados, em 1701, também Thomaz Cox e Cox Macro, reparam no gosto dos portugueses por “cebolas e pão” (COX; MACRO, 2007: 103 E 267).
Há muitos anos atrás, em terras do Gerês, também nos foi oferecido um manjar semelhante – cebola e pão…
E será também oportuno lembrar aqui um velho ditado popular que diz –  “À falta de capão, cebola e pão”. Ouvi pela primeira vez este ditado em Barcelos. Bem que Clenardo o poderia ter utilizado na noite em que pernoitou junto ao Tejo…

Epístola de Nicolau Clenardo aos Cristãos (…) (ca 1541)
“Depois duma jornada tão longa, avistámos enfim uma casita. Foi uma alegria! Deitámos a correr para almoçar…
Compensámos os danos da noite anterior; ainda por cima os almocreves animavam-nos e prometiam mundos e fundos, se atravessássemos o Tejo e chegássemos a Tancos, povoação que nos esperava lá para o entardecer. Tanto nos buzinaram ao ouvido com o vinho desta terra, e as suas galinhas, e as suas perdizes, e os seus capões, e a sua carne de carneiro e de vaca, numa palavra a boa mesa da Sicília, que nós, com a água na boca, atirámos-lhe mais abundantemente ainda aquele Baco de Évora, pouco faltando para empinar a borracha levando-a até às fezes.
Mas os lamentos substituíram bem depressa esses extremos de regozijo, saindo-nos muito cara a demasiada alegria, antes de tempo, do festim. Com efeito, a noite surpreendeu-nos, quando chegámos à margem do Tejo. Àquela hora já se não podia atravessar o rio…
Desabafei ali mesmo o meu desapontamento sobre os almocreves: pois não viram que se nos demorava demasiado o almoço? Que havíamos de fazer agora?
Havia ali uma estalagem, que nunca contara decerto, nós iríamos lá bater um dia. Dirigi-me ao dono: – Olá estalajadeiro, cá há palha? Mas o raio do Polifemo continuou a passear e não se dignou de responder uma palavra sequer. Eu insisti: – Meu caro senhor, perguntava eu se tem palha para os burros? Enfim, lá respondeu a custo e de muito mau modo: – Não sei.

Entretanto os outros andavam numa roda-viva a descarregar os fardos e a procurar palha, pois temíamos mais pelos cavalos que por nós. Tinha-se passado nisto já meia-hora, quando um dos almocreves me veio anunciar que a casa estava repleta de palha. Não me tive que não exclamasse: – Se eu fosse o rei de Portugal, raios me partam se não mandasse crucificar este estalajadeiro!
Ao mesmo tempo fui lançando o rabo do olho para a cozinha, a ver se havia alguma coisa ao lume.
Que há para a ceia, ó patroa?
– Não tenho nada, respondeu.
– Nada absolutamente?
– Absolutamente nada.
– Mate-nos então uma galinha.
– Não crio galinhas para matar…
– Há ovos, pelo menos?
– Quem mos dera! Não se encontrou nenhum.
– Não haverá nem sequer por aí umas cabecitas de peixes do ribeiro?
– Credo! Comer peixe ao dia de carne!
Palavra que se El Rei estivesse presente, eu mesmo teria feito de algoz, e não garanto que não imitasse os antropófagos…
– Guilherme, ordenei eu, põe a mesa.
Enquanto punham sobre a mesa o saleiro e um ou outro pão, eu tinha os olhos espetados numa panela que estava ao lume!
Que é aquilo que está a cozer?
A vendeira respondeu-me: – É toucinho.
– Faça-me então o favor de me ceder um bocado ao menos. Eu contentava-me o bastante para molhar nele o pão da ceia.
Não, não posso, acudiu. É todo preciso para os criados.
Mas, enfim, à força de pedidos, sempre obtivemos um bocado, aí coisa duma onça. Até estou em acreditar que apareci agora feito italiano, pois é em algumas terras da Itália que a carne se costuma vender às onças.
Mas o que fomos nós fazer! Aquela pitada de carne excitou o estômago, como se o tivesse roçado de mansinho: agora é que era ter apetite de mais carne de porco!
Perguntei então se não havia mais toucinho na casa.
Havia.
– Bem, então deite mais na panela, ou asse-o nas brasas.
Mas o estafermo da mulher replicou lampeira que a carne de porco à noite fazia mal ao estômago.
Diabos te levem, ó minha bruxa, mais a tua medicina!
Os dentes comiam-lhes, ao holandês Guilherme como a Clenardo de Barbante. Virando-me para os arrieiros, disse-lhes: – Que é das ricas perdizes que imaginámos ao almoço? Porém eles roíam as suas cebolas cruas, sem se incomodarem com o caso. Até me deram de conselho que comesse eu também algumas cebolas assadas. Este conselho pareceu-me uma âncora de salvação. Temperam-se com azeite e vinagre: o azeite ainda no-lo forneceram posto que mesquinhamente, mas o vinagre era coisa que não havia naquela maldita casa, a não ser uma especialidade de vinho que nos deram, a que melhor caberia o nome de vinagre. Temperámos com este molho de azeite as cebolas, e achei-as tão saborosas que nunca mais deixei de levar na minha bagagem este remédio maravilhoso contra todas as adversidades e má fortuna. Que pena não se terem assado mais algumas! Estava com uma fome devoradora nessa noite; creio que foi por causa de me ter levado dos diabos que fiz tão bem a digestão do jantar. Por Deus lembrou-me de molhar em vinho tostas de pão. Perguntei logo se tinha sobrado algum vinho daquele de Évora.
Não senhor, respondeu Guilherme. A gente deu largas excessivamente à alegria durante o almoço, bebendo um pouco indiscretamente.
Mas eu insisti: – Vê lá se arranjas ainda algumas gotas para salpicar ao menos o pão com esse restozito daquele odorífero Baco diluído em água.
Conseguiu-se assim aí meio copo. E com essas sobremesas se fechou brilhantemente aquele opíparo banquete.
Só houve um grande inconveniente: e foi que, depois daquela nova iguaria, o estômago pôs-se a ladrar ainda mais. Mas já se tinham esgotado todos os meios, não havendo mais comestíveis para que apelar. A noite pelo menos prometia-nos alguma consolação, com a esperança de dormir numa cama mole e fofa.
Dei ordem ao Guilherme que me mandasse preparar a cama para me deitar.
Mas o vendeiro intervém:
– Nestes meses de verão não há necessidade de camas.
Respondi-lhe pronto: – Mas preciso eu, que não estou acostumado a dormir no chão ou sobre tábuas nuas.
Mas agora é a mulher que se intromete dizendo: – Porém nós é que não temos cama.
Não pude deixar de dizer para mim, à vista disto: – Oh lusitanos, porque é que empregais palavras mentirosas? Eis aqui está o que chamais uma estalagem, onde não há que comer, nem se pode dormir!
Enfim, depois de muita troca de palavras, mudando de rumo para pedidos mais persuasivos, sempre consegui, Deus sabe quanto custou, uma coisa que tinha a aparência de cama.
No dia seguinte, depois de feitas as contas, soube porque razão os escritores chama aurífero ao Tejo: – uma sombra de ceia com cama custou mais do que um magnífico banquete de Brabante! Se ninguém até agora descobriu nesse rio veios de oiro ou mesmo simples palhetas, acredite em mim quando digo que lhe chamaram aurífero por nos levar o oiro que trazemos na bolsa. É até mais muito poético tomar simples pelo composto: haja vista Juvenal que emprega Pomamos nímios gemitus, querendo dizer deponamus”.
In M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

Bibliografia
CEREJEIRA, 1926
M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

COX; MACRO, 2007 [1701]
Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

Heinrich Friedrich Link nasceu na Alemanha, em Hildesheim, a 2 de Fevereiro de 1767, e faleceu em Berlim, a 1 de Janeiro de 1851, foi um reputado médico, botânico e naturalista alemão. Link esteve de visita a Portugal, acompanhando o conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, “numa viagem que tinha como objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa” (LINK, 2005: IX-XXVIII).
Era um excelente observador, rigoroso e sistemático nas suas análises, e conhecedor da língua portuguesa. O livro que escreveu sobre Portugal foi publicado pela primeira vez em alemão, em 1801. A edição portuguesa que utilizamos intitula-se «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha» (LINK, 2005).
Neste texto damos a conhecer apenas o que escreveu sobre o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, incluído no capítulo referente a «Viagem a Braga. A província do Entre Douro e Minho», e onde esteve alojado, no verão de 1798.
Parece que a educação dos monges não era a melhor, mas, pelo interesse que temos sobre o comer e o modo de comer chama-se a vossa atenção para as laranjas que existiam na cerca do convento e para a parte do texto onde o autor descreve como eram as refeições conventuais, o que se comia e o que se bebia.
Para quem não saiba, actualmente, no mosteiro de S. Maria de Bouro funciona uma pousada, sendo da autoria do Arquitecto Souto Moura o projecto de recuperação e adaptação do edifício. A pousada fica no município de Terras de Bouro (distrito de Braga).

Escreve Johann Heinrich Friedrich Link: “Depressa deixámos Braga para conseguir observar na melhor estação do ano a serra limítrofe que separa Portugal da Galiza a norte, a ainda quase não explorada serra do Gerês. A uma légua de Braga chega-se a uma pequena aldeia chamada Ponte do Porto em virtude de uma ponte de pedra que aí atravessa o Cávado. Este vale é de novo extremamente encantador e agradável. Ao longe parece apenas uma floresta densa de árvores altas, mas estas árvores envolvem campos e jardins. Não se vêem as casas dispersas e escondidas por espessas sombras, mas pessoas bem vestidas, mesmo as mulheres que frequentemente se encontram anunciam a sua proximidade. Por montanhas de granito chegámos ao mosteiro beneditino do Bouro, a duas léguas de distância. Fica numa depressão no sopé da serra, é muito rico e os edifícios são também grandes e não estão mal mobilados. Mesmo junto ao mosteiro os monges têm uma grande quinta cheia de laranjeiras, as laranjas, que são expedidas para Braga e outras terras próximas do Minho, são boas. Não muito longe do Bouro encontra-se numa montanha uma igreja com uma imagem milagrosa de Maria, para onde se realizam muitas peregrinações. Chama-se Nossa Senhora da Abadia, porque o Bouro é uma abadia, e não Nossa Senhora da Badia, como está nalguns mapas. De acordo com as nossas observações barométricas, o Bouro está 500 pés acima do nível do mar, uma baixa altitude onde se podem ainda plantar laranjeiras e produzir boas laranjas. Esta foi a nossa última observação barométrica. Felizmente trouxemos de Lisboa até aqui um barómetro de viagem Hurter para medir a altura do Gerês e da serra da Estrela, nos maus caminhos tínhamo-lo protegido contra todos os acidentes, aguentara até quando a carroça se virou, só que não pensamos em protegê-lo contra a má educação dos jovens monges que, por maldosa curiosidade, entraram furtivamente no nosso quarto e na nossa ausência destruíram termómetro e barómetro. Um dos maiores acidentes da nossa viagem. Já muitas vezes nos tinha sido penosa a curiosidade desta gente.
Uma vez que os monges nos quebraram o barómetro, que me sejam permitidas algumas notas sobre eles. A sua ignorância estava para além de tudo aquilo que se possa imaginar, a sua indolência, com a excepção dos exercícios espirituais habituais, também. Um abade velho e débil deixou embrutecer por completo as gentes jovens, daí que eles fossem tão malcriados como ignorantes. Apenas um irmão laico, o farmacêutico, se destacava enquanto jovem estudioso e ávido de saber. Em todos os conventos portugueses se come extraordinariamente muito, aos almoços tínhamos aqui por exemplo quatro pratos, mas todas as refeições eram cozinhadas sem qualquer arte e compunham-se na maior parte das vezes de quantidades enormes de todos os géneros de carne cozida. Toda a nação tem no entanto uma tendência para comer muito e muita carne. O vinho é na maioria dos conventos muito medíocre e nunca reparei que aí se bebesse excessivamente. Em geral nós bebíamos mais vinho do que os portugueses; parecia que o clima quente e para nós desusado o pedia, mas em compensação reparei também muitas vezes que um português fica já bêbado com alguns copos de vinho, copos esses que um alemão, e mais ainda um inglês (os maiores beberrões de todas as nações), nem chegam sequer a notar (LINK, 2005 [1801]: 203-216).

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.