Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

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O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro

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O Mosteiro de Lorvão e a Doçaria Conventual

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Este Sábado fomos até Penacova para visitar o mosteiro de Lorvão o qual impressiona pela sua grandiosidade e por se encontrar abrigado no fundo de montes, correndo aos seus pés um pequeno rio de águas limpas. Face a face com o mosteiro ergue-se a povoação de casas alinhadas ao longo da estrada. Infelizmente, do extinto mosteiro cisterciense feminino, apenas se pode visitar a igreja, a pequena sacristia, o coro, o claustro que ladeia a igreja e duas salas onde se encontra algum do acervo museológico.
No século XX e até 2012 aqui funcionou um hospital psiquiátrico que ocupava grande parte do edifício. Hoje, parece incerto o uso a dar a este enorme mosteiro, habitado ao longo dos séculos por filhas de algumas das mais ilustres famílias portuguesas.

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Há pouco tempo o claustro foi intervencionado tendo sido adossado um novo edifício onde se projetava constituir um museu. Mas, a agrura dos tempos parece ter feito abortar o projeto, pelo que o edifício apesar de pronto se encontra vazio… Foi pena que em vez da criação de um novo edifício não se tenha aproveitado o existente…
O mosteiro de Lorvão deve ter sido talvez fundado no séc. VI (apesar de esta data não ser unanimemente aceite pelos investigadores), abrigando um mosteiro masculino, o qual a partir do séc. XI passou a seguir a regra de S. Bento.

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

No início do século XIII, o mosteiro viria a transformar-se numa congregação feminina da ordem de Cister, aqui vivendo D. Teresa, filha de D. Sancho I e mulher que havia sido de Afonso IX de Leão, e suas irmãs Sancha, Mafalda, Branca e Berengária. Sancha, viria mais tarde a fundar o convento de Celas, em Coimbra. Teresa e Sancha ficaram sepultadas em Lorvão, tendo sido desde cedo consideradas como Rainhas Santas e merecendo por isso a devoção dos fiéis, vindo a ser beatificadas a 23 de Dezembro de 1705 (BORGES, 2013: 15-34).

RRefeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Refeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Mas, não é a história do convento que nos interessa, mas a dedicação destas mulheres ao fabrico de doces. Em boa hora a Câmara Municipal editou o livro «Doçaria Conventual de Lorvão» (2013), da autoria de Nelson Correia Borges, um filho da terra, professor aposentado do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual fez a sua tese de doutoramento sobre Lorvão – «Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade: das origens a 1737».

Doces das freiras de Lorvão

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

O autor, profundo conhecedor da documentação referente a Lorvão e ao mosteiro, decidiu, nesta obra dedicada à doçaria conventual de Lorvão, dar a conhecer o que sobre o tema os documentos referem, alertando, no entanto, para a inexistência de receitas: “Não chegaram até nós livros de receitas, ou quaisquer apontamentos, ou, em rigor, não são conhecidos até agora, o que não quer dizer que não tivessem existido”.
Através da consulta documental o autor ficou a conhecer e desvenda a doçaria que saía das mãos destas freiras – alfenim, alfitetes, beijinhos de freira, beijinhos, beijos, biscoitos, bocados de abóbora, bolo de bispo, bolo de Santa Teresa, bolo podre de Lorvão, bolos d’arica, bolos de bispo, botelhada, broas de amêndoa, broas de ovos, capelas de ovos, caramelos, cavacas de Lorvão, cidrada, confeitos, derriços, doce de amêndoas, doce de laranja, farténs de amêndoa, fatias do céu, fatias do conde, fios de ovos, ginetes, lampreia doce, linguadas, manjar branco, manjar divino, manjar real, marmelada, marmelada de sumos, massapães, melindres, milharós, morgados, nabada, ovos doces, ovos moles, palermos cobertos (hoje nevadas), palitos, pão-de-ló de amêndoa, papos de anjo, pastéis, perada, pêssegos cobertos, queijadas, queijinhos do céu, súplicas, talhadas, tâmaras, tigelada, tolos, tortilhas, tremoços.

O que resta da antiga cozinha do mosteiro. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

O que resta da antiga cozinha do Mosteiro de Lorvão. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

Não tendo encontrado na documentação as receitas dos doces acima referidos o autor socorreu-se de pessoas (mulheres é claro!) que lhe deram a conhecer o modo de fazer estas iguarias. Apresenta um total de 53 receitas: 8 foram-lhe facultadas por Maria da Graça de Castelo Branco Leitão Barbosa Ribeiro (queijinhos do céu, tâmaras, tolos, lampreia doce, beijinhos, beijos e cavacas); 1 foi extraída de um “manuscrito de uma freira, em posse de família que esteve ligada ao Mosteiro de Lorvão” (Bolo podre de Lorvão); 1 recolhida em «Nova Arte da Cozinha» (1695) de Domingos Rodrigues (cidrada); 1 do mosteiro de Celas (manjar branco); 1 de Arminda Ferreira Baptista Santos, “agora utilizada e divulgada por D. Margarida Padilha Viseu” (Palermos cobertos); 1 publicada na revista «Marie Claire», N.º 38 de 1991 (Palitos); 1 de Maria Amália Martins de Carvalho Leitão Alpoim (Pastéis de Lorvão) e outra publicada por Emanuel Ribeiro e respeitante ao mosteiro de Bustelo (Pêssegos cobertos), as restantes foram recolhidas “da tradição oral, quer junto de familiares, quer junto de pessoas amigas que no-las comunicaram, mesmo antes das informações arquivísticas”.

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Nelson Borges publica também a receita do Bolo das Infantas, informando que “esta receita foi divulgada na internet e publicada por Alfredo Saramago”, acrescentando que a incluía “com alguma reserva, porquanto este nome não aparece referido na documentação nem tão pouco a designação seria lógica num mosteiro onde a memória coletiva era sempre referida à rainha e não a infantas”. Tem razão o autor para duvidar da veracidade da receita publicada por Alfredo Saramago. De facto, o mesmo sucede com receitas publicadas por este autor como sendo provenientes de conventos de Braga e Guimarães, as quais nunca se encontraram nem nas fontes documentais nem na consulta de velhos livros de receitas pertencentes a antigas famílias de ambas as terras. Tal como sucede com a receita de Lorvão também as que o autor apresenta como sendo de Braga e Guimarães possuem nomes pouco usuais em contextos conventuais (FERNANDES, 2012: 12). Por tal motivo as receitas facultadas por este autor devem ser usadas com grande reserva.
Nelson Correia Borges não indica a proveniência do receituário das restantes 38 receitas, o que é pena, pois, é sempre importante conhecer a sua origem.

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

É bom dizer que todas as receitas foram experimentadas, agradecendo o autor a Emília Teresa Horta Peres, a “revisão e paciente execução das receitas” (BORGES, 2013: 12).
Intriga-me o que seriam os bolos d’arica. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal doce. Como seriam? Convém talvez lembrar que o verbo aricar significa “lavrar superficialmente a terra para livrá-la de ervas daninhas” (HOUAISS, 2003, I: 372), tendo o mesmo significado em castelhano (DICCIONARIO, 2001, I: 203).

Doces que adquiriam
Nelson Correia Borges transcreve documentação do final do século XVII através da qual se pode concluir que havia doces que eram comprados pelas freiras, como por exemplo os “pastéis que se dão no dia de Entrudo”, os “pastéis para os músicos” que se oferecem no dia da “consoada do nosso padre S. Bento” e os “confeitos para a consoada que na semana Santa se dão” (BORGES, 2013: 77-78).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia  Borges (BORGES, 2013: 61).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 61).

A compra de doces no exterior do mosteiro sucedia em diversas congregações, principalmente nos conventos masculinos que adquiriam fora muitos dos doces que consumiam.

Os utensílios para fazer, transportar, servir e comer os doces
Nelson Correia Borges teve também o cuidado de ilustrar a sua obra com fotografias dos utensílios usados pelas freiras quer para fazer os doces quer para os transportar, servir e comer.
Ao longo da obra podemos ficar a conhecer vários recipientes de barro utilizados na conservação dos alimentos sólidos e líquidos, um graal de marfim, um tacho de cobre, uma colher de ferro, um prato de cobre utilizado para formar a lampreia doce, discos de barro vermelho para fazer o manjar branco, tigelinhas para os ovos moles, copos e jarra de vidro, pratos de faiança e porcelana com marca possessória, bem como tabuleiros para transporte de doces ou outros géneros.

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Interessante é também a divulgação que o autor faz das caixas para guardar e transportar os doces, hoje difíceis de encontrar, e de dois singelos e interessantes garfos de marfim de quatro dentes.

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Na documentação do final do séc. XVII encontrou o autor referência quer à compra de caixas (Maio de 1694) – “comprámos 19 caixas grandes para o presente das nossas Santas Rainhas”, quer de tigelinhas (Novembro de 1691) – “compramos de tigelinhas para doce…” (BORGES, 2013: 77-78).
A quem gosta de conhecer a história da doçaria ou de experimentar novas “velhas” receitas aconselha-se a compra do livro. Estudar e divulgar a doçaria portuguesa é uma forma de preservar a nossa memória colectiva. Parabéns ao autor.

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Se ficou com água na boca, nada melhor do que sair do mosteiro, atravessar a rua e entrar na pastelaria «O Mosteiro», onde poderá saborear os palermos cobertos, hoje designados nevadas. Mas aí encontrará outra doçaria de inspiração conventual como os queijinhos (doce de ovo e amêndoa), os pastéis de Lorvão (com amêndoa) e os mimos (com amêndoa sem pele).

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Bibliografia

BORGES, 2013
Nelson Correia Borges – Doçaria Conventual de Lorvão. Penacova: Câmara Municipal, 2013.

DICCIONARIO, 2001
Diccionario de la lengua española. 2 vol. 22.ª ed. Madrid: Espasa Calpe, 2001.

FERNANDES, 2012
Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012. P. 9-73.

HOUAISS, 2003
Dicionário Houaiss. Vol. 1. Lisboa: Círculo dos Leitores, 2003.

Mercadinho dos Sabores e dos Saberes

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Núcleo Ferroviário de Arco de Baúlhe / Museu das Terras de Basto

Sábado à tarde, 22 de Junho, 15h00-18h00

No próximo Sábado vai realizar-se mais um mercadinho dos Sabores e dos Saberes. No belo cenário da estação ferroviária de Arco de Baúlhe terá lugar o 3.º Mercadinho dos Sabores e dos Saberes.

Aí poderá encontrar e provar o melhor que a terra cabeceirense dá nesta época do ano – cerejas, legumes, ovos, enchidos, mel, broa, pão com chouriço, compotas, vinho e outras iguarias que costumam deleitar quem nos visita. Não faltarão os doces de romaria – cavacas, rosquilhos e rebuçados.

O visitante poderá também adquirir peças de lã feitas pelas mulheres de Bucos, linhos e mantas.

Em visita organizada ou individualmente, venha ao Arco de Baúlhe e conheça o que a terra tem de melhor. Não perca!

Local: Núcleo Ferroviário de Arco de Baúlhe (antiga estação de caminho de ferro de Arco de Baúlhe)

Horário do Mercadinho dos Sabores e dos Saberes: 15h00 às 18h00

Horário do Museu: 10H-12h30; 14h00 às 17h30m

Entrada gratuita

O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

Heinrich Friedrich Link nasceu na Alemanha, em Hildesheim, a 2 de Fevereiro de 1767, e faleceu em Berlim, a 1 de Janeiro de 1851, foi um reputado médico, botânico e naturalista alemão. Link esteve de visita a Portugal, acompanhando o conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, “numa viagem que tinha como objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa” (LINK, 2005: IX-XXVIII).
Era um excelente observador, rigoroso e sistemático nas suas análises, e conhecedor da língua portuguesa. O livro que escreveu sobre Portugal foi publicado pela primeira vez em alemão, em 1801. A edição portuguesa que utilizamos intitula-se «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha» (LINK, 2005).
Neste texto damos a conhecer apenas o que escreveu sobre o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, incluído no capítulo referente a «Viagem a Braga. A província do Entre Douro e Minho», e onde esteve alojado, no verão de 1798.
Parece que a educação dos monges não era a melhor, mas, pelo interesse que temos sobre o comer e o modo de comer chama-se a vossa atenção para as laranjas que existiam na cerca do convento e para a parte do texto onde o autor descreve como eram as refeições conventuais, o que se comia e o que se bebia.
Para quem não saiba, actualmente, no mosteiro de S. Maria de Bouro funciona uma pousada, sendo da autoria do Arquitecto Souto Moura o projecto de recuperação e adaptação do edifício. A pousada fica no município de Terras de Bouro (distrito de Braga).

Escreve Johann Heinrich Friedrich Link: “Depressa deixámos Braga para conseguir observar na melhor estação do ano a serra limítrofe que separa Portugal da Galiza a norte, a ainda quase não explorada serra do Gerês. A uma légua de Braga chega-se a uma pequena aldeia chamada Ponte do Porto em virtude de uma ponte de pedra que aí atravessa o Cávado. Este vale é de novo extremamente encantador e agradável. Ao longe parece apenas uma floresta densa de árvores altas, mas estas árvores envolvem campos e jardins. Não se vêem as casas dispersas e escondidas por espessas sombras, mas pessoas bem vestidas, mesmo as mulheres que frequentemente se encontram anunciam a sua proximidade. Por montanhas de granito chegámos ao mosteiro beneditino do Bouro, a duas léguas de distância. Fica numa depressão no sopé da serra, é muito rico e os edifícios são também grandes e não estão mal mobilados. Mesmo junto ao mosteiro os monges têm uma grande quinta cheia de laranjeiras, as laranjas, que são expedidas para Braga e outras terras próximas do Minho, são boas. Não muito longe do Bouro encontra-se numa montanha uma igreja com uma imagem milagrosa de Maria, para onde se realizam muitas peregrinações. Chama-se Nossa Senhora da Abadia, porque o Bouro é uma abadia, e não Nossa Senhora da Badia, como está nalguns mapas. De acordo com as nossas observações barométricas, o Bouro está 500 pés acima do nível do mar, uma baixa altitude onde se podem ainda plantar laranjeiras e produzir boas laranjas. Esta foi a nossa última observação barométrica. Felizmente trouxemos de Lisboa até aqui um barómetro de viagem Hurter para medir a altura do Gerês e da serra da Estrela, nos maus caminhos tínhamo-lo protegido contra todos os acidentes, aguentara até quando a carroça se virou, só que não pensamos em protegê-lo contra a má educação dos jovens monges que, por maldosa curiosidade, entraram furtivamente no nosso quarto e na nossa ausência destruíram termómetro e barómetro. Um dos maiores acidentes da nossa viagem. Já muitas vezes nos tinha sido penosa a curiosidade desta gente.
Uma vez que os monges nos quebraram o barómetro, que me sejam permitidas algumas notas sobre eles. A sua ignorância estava para além de tudo aquilo que se possa imaginar, a sua indolência, com a excepção dos exercícios espirituais habituais, também. Um abade velho e débil deixou embrutecer por completo as gentes jovens, daí que eles fossem tão malcriados como ignorantes. Apenas um irmão laico, o farmacêutico, se destacava enquanto jovem estudioso e ávido de saber. Em todos os conventos portugueses se come extraordinariamente muito, aos almoços tínhamos aqui por exemplo quatro pratos, mas todas as refeições eram cozinhadas sem qualquer arte e compunham-se na maior parte das vezes de quantidades enormes de todos os géneros de carne cozida. Toda a nação tem no entanto uma tendência para comer muito e muita carne. O vinho é na maioria dos conventos muito medíocre e nunca reparei que aí se bebesse excessivamente. Em geral nós bebíamos mais vinho do que os portugueses; parecia que o clima quente e para nós desusado o pedia, mas em compensação reparei também muitas vezes que um português fica já bêbado com alguns copos de vinho, copos esses que um alemão, e mais ainda um inglês (os maiores beberrões de todas as nações), nem chegam sequer a notar (LINK, 2005 [1801]: 203-216).

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.

Peru de Natal

Livro de receitas manuscrito de Maria Cândida Carvalho. Boa maneira de preparar o peru

Nesta época natalícia divulgo uma receita de peru que era costume fazer-se, em Santo Tirso, em casa dos avós do meu marido. A receita consta no livro manuscrito de receitas de Maria Cândida Carvalho, avó do meu marido, nascida em Sabrosa (distrito de Vila Real), a 16 de Agosto de 1885, e, falecida, em Santo Tirso, a 30 de Outubro de 1966. Maria Cândida tirou o curso do magistério primário em Vila Real e exerceu como professora primária, em Santo Tirso, cidade onde casou com Torcato Dias Correia Portela, também professor primário, de quem teve três filhas – Maria da Assunção, Maria Adelaide e Maria Alice Carvalho Correia Portela.
O livro de receitas manuscrito que tenho nas minhas mãos começou a ser escrito, em 1948, tendo Maria Cândida utilizado uma agenda diária desse ano para o efeito. A capa da agenda foi forrada com tecido e assim se mantém até hoje.
Parece que Maria Cândida não tinha especial predilecção pela cozinha deixando essa tarefa às criadas, sob a orientação atenta de sua mãe Maria Benedita Carvalho, que gostava das artes culinárias.
No entanto, Maria Cândida, teve o cuidado de apontar as receitas que se faziam em sua casa, anotando, em alguns casos, que lhas tinha dado. Segundo informação de sua filha, Maria Adelaide, muitas dos nomes indicados correspondem a colegas de profissão de sua mãe.
O manancial de receitas contido no livro é grande – de carne, de peixe, de marisco, de doces – e permite ficar a conhecer o que se comia na primeira metade do século XX.
Hoje partilho a receita do peru que se fazia no Natal, em casa dos avós do Fernando, e que eu, de quando em vez, continuo a fazer. Ilustro o texto com a capa do livro de receitas manuscrito e com a receita do peru.

Boa maneira de preparar o peru
Mata-se o peru de véspera depois de o ter embebedado com aguardente. Quando estiver caído de bêbedo, mata-se e depena-se em seco.
Depois deita-se num alguidar, dentro de água temperada de sal com rodelas de cebola, salsa, pimenta branca, alho e um bocado de vinho branco. Fica assim até ao outro dia que vai ao forno. Antes de ir ao forno deita-se numa pingadeira e tempera-se com azeite e manteiga de vaca. Enche-se-lhe o papo com farófia e deita-se na pingadeira a cebola que estava no alguidar e algum vinho branco. No forno vira-se e rega-se com o molho da pingadeira muitas vezes até cozer.
 
Farófia: Deita-se farinha [de mandioca] numa sertã com manteiga de vaca e deixa-se torrar e depois coze-se no papo do perú antes de ir ao forno a cozer.

No Natal: compre português! Centro das Artes Culinárias

É sempre bom lembrar, para mais nestes tempos difíceis que decorrem, a necessidade de comprar produtos portugueses.
Se vive em Lisboa ou arredores, ou se a Lisboa vai nesta época natalícia, inclua no seu roteiro uma visita ao Mercado de Santa Clara, ali onde se realiza a feira da ladra, para conhecer o Centro das Artes Culinárias.
No magnífico Mercado de Santa Clara, um edifício com estrutura em ferro, está sediado o Centro das Artes Culinárias. Um espaço há muito necessário e no qual pode admirar património móvel relacionado com estas artes da cozinha, mas também encontrar e comprar os melhores produtos alimentares portugueses, numa mostra variada de paladares e aromas chegados de diversas regiões do país: doçaria tradicional, frutos secos, legumes, queijos, vinhos, azeites, enchidos, pão, chocolates, compotas, licores e muitos mais.
Se é daqueles que gosta de meter as mãos na “massa” e para quem cozinhar é um prazer, pode também assistir a demonstrações culinárias, cursos, ateliers para crianças, livros, velharias e música.
Apareça, traga um amigo também, e vai ver como sairá satisfeito, e, nas mãos, com uma série de iguarias gostosas que farão a delícia, nesta época natalícia, daqueles de quem gosta!

Tome nota de algumas das actividades propostas:

Dia do mês Dia da semana / hora Actividade
15 Dezembro Quinta-feira18h30 Concerto de Natal pelo Coro Preparatório do Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dirigido por Erica Mandilo e acompanhado ao piano por João Lucena e Vale
17 Dezembro Sábadodas 10h30 às 13h00 Ateliê para crianças a partir dos 8 anos: A minha cozinha O primeiro Ateliê da Michèle, por Michèle Miranda
17 Dezembro Sábadodas 15h00 às 17h00 Showcooking: Filhoses das nossas terras, por doceiras vindas de diferentes regiões do país
18 Dezembro Domingoda parte de tarde Showcooking”: Sabores de alheira, pela Escola de Hotelaria e Turismo de Mirandela
19 Dezembro Segunda-feiradas 14h00 às 17h00 Ateliê para crianças a partir dos 6 anos: Biscoitos de Natal. ABC: amassar, biscoitar, caixinhar, por Jorge Ribeiro
21 Dezembro Quarta-feiradas 18h00 às 20h00 Showcooking: Guloseimas de Chocolate e Brownies, por Graça Vasconcellos
22 Dezembro Quinta-feirada parte de tarde Curso de cozinha: Preparar o Peru: do Mercado para a Mesa

Para mais informações, e para conhecer melhor o Centro das Artes Culinárias visite o site em: http://www.centrodasartesculinarias.com/index.php?text_id=6

Horário do Mercado de Natal de 4 a 23 Dezembro 2011: Todos os dias das 13h00 às 20h00
Entrada Livre (excepto ateliers e cursos)

Endereço do Centro das Artes Culinárias: Mercado de Santa Clara, Campo de Santa Clara 1100-472 Lisboa Portugal

A louça ao serviço dos Conventos

Pratos provenientes do Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Os monges no seu quotidiano estavam rodeados dos utensílios necessários às actividades que compunham o seu dia-a-dia[1]. Esses utensílios eram feitos em diferentes materiais – madeira, barro, faiança, estanho e vidro, para só citar os mais usuais. Segundo os monges as peças de pau, barro e estanho gastavam-se muito mais do que as de ferro ou cobre (GOMES, 1998 [1536]: 286).
Na sua cela cada monge possuía “uma arca de castanho, e uma mesinha para ler e ter livros, e uma cadeira de pau, e um ou dois papéis de imagens” (GOMES, 1998 [1536]: 283), ou seja estampas com os santos da sua devoção. Tinha também um cântaro e um púcaro para água e um ourinol para recolha da urina[2].
No celeiro, ou «casa da celaria», local onde se guardavam os alimentos de que o mosteiro necessitava, havia “vasos, e mesas, e outros vasos em que se guarde a carne e o pescado de todo o convento, e fruta, e legumes, e azeite, e mel” (GOMES, 1998 [1536]: 285).

Tigela de fogo. Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Na adega existiam cubas, tonéis e dornas “para ter o vinho”, funis, cântaros e gamelas, bem como “as medidas necessárias” para medir o vinho (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na «casa da massaria», dependência onde se preparava o pão, havia “dornas em que está a farinha”, masseiras para amassar o pão, gamelas, tabuleiros, joeiras e peneiras, todos feitos de madeira. Havia também “panos de linho e de burel para cobrir o pão quando se amassa” (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na cozinha, junto ao lume preponderava a cadeia na chaminé para dependurar as caldeiras e caldeirões de cobre usados “para cozer a carne” na lareira; os espetos, grelhas e trempes de ferro que assentavam sobre o fogo e nas quais se colocavam os tachos e panelas de cobre onde se cozinhava e as sertãs de ferro para “alguma hora se frigir algumas coisas”. Na preparação dos alimentos usava-se “um cepo grande de pau para cortar a carne”; almofarizes e “graal com suas mãos”, para pisar pequenas quantidades de alimentos; machadinhas, manchil, cutelos e facas, para cortar os alimentos; e “colheres de ferro com buracos e sem buracos”, ou seja colheres para mexer os alimentos sendo que aquelas que possuíam buracos – escumadeiras – serviam para retirar a escuma dos líquidos; as gamelas em madeira e os alguidares de barro, usados para preparar os alimentos – amanhar, lavar, raspar, amassar…. No forno utilizavam-se rapadouras, ou seja, pás de ferro para trabalhar o lume; tigelas “de fogo” e pingadeiras vidradas para assar os alimentos. Para alumiar o espaço havia “candeeiros de ferro”. Todo estes utensílios existentes na cozinha eram “cousas necessárias para se guisar de comer para os religiosos” (GOMES, 1998 [1536]: 277).

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa

Debrucemo-nos sobre o refeitório e os utensílios usados nas refeições conventuais. No refeitório existiam mesas corridas dispostas em «U» em volta das paredes, e bancos também corridos. Deste modo os religiosos sentavam-se lado a lado, de costas voltadas para a parede, e de rosto voltado para o interior da sala. A partir da pouca documentação conhecida parece perceber-se que nos século XVI-XVII há alterações que vão sendo introduzidas no quotidiano do refeitório e nos utensílios usados.

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pormenor. Repare-se no uso do guardanapo que um dos monges leva à boca e que outro tem pousado sobre a mesa. Fotografia de Miguel Sousa

As mesas eram cobertas com toalhas ou mantéis e cada monge possuía o seu próprio guardanapo, copo e faca (GOMES, 1998 [1527]: 88). Apesar de o garfo estar documentado em Portugal desde pelo menos o século XVI não era ainda de uso generalizado à mesa, não aparecendo referido na documentação conventual dos séculos XVI e XVII. Mas, o garfo individual, bem como a faca e a colher, aparece, por exemplo, representado na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» (DIAS, 2009: 157) com que ilustramos este artigo, datada de 1703 e proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).
No mosteiro de Alcobaça, em 1527, os monges comem em bacios de estanho, o mesmo sucedendo, em 1529, no Mosteiro de Lafões (GOMES, 1998 [1527]: 88 e 393). Estes bacios provavelmente seriam recipientes de uso comum a vários monges que deles retiravam a comida com as mãos. Estes bacios deviam ser de maiores dimensões do que o prato individual. Tratava-se ainda dos resquícios de um costume em uso na Idade Média e que prevaleceu em certos meios rurais portugueses até ao século XX.
Em 1536, no mosteiro de Santa Maria de Bouro, os monges já usavam o prato individual, designado pratel (prato pequeno de tamanho semelhante ao nosso actual prato de sobremesa), ou então o trincho[3] de pau individual, grande ou pequeno (GOMES, 1998 [1536]: 265 e 283). Estamos perante uma evolução no modo de comer, abandona-se o uso do bacio comum e passa a utilizar-se ou o prato ou o trincho individual. De facto, na segunda metade do século XVI, no convento de Santa Clara de Guimarães, o regulamento interno obrigava as freiras a comer cada uma «per si» de seu prato e não duas do mesmo (FERNANDES, 2004). Nos séculos XVII e XVIII parece já estar generalizado o hábito de cada um comer de seu prato, não se usando o trincho de pau mas sim o prato em faiança ou estanho. No mosteiro de Tibães, no século XVII, os monges utilizam pratos de faiança na sua mesa e adquirem pratos de loiça vidrada para os criados[4].
Quando os alimentos não eram sólidos usavam-se escudelas individuais, de «pau», barro, málega (ou seja, faiança) ou estanho, bem como tigelas de barro vidradas e recorria-se à colher, normalmente de pau, para levar os alimentos à boca. Os doces de colher ou outras iguarias eram servidos em covilhetes também de uso individual.

Salseira. Proveniente das escavações arqueológicas realizadas na Associação Comercial e Industrial de Guimarães. Fotografia de Manuel Correia

Sobre a mesa era presença obrigatória o saleiro e a salseira (FERNANDES; FAURE, 2010), sendo que o saleiro era de uso comum, servindo vários monges, e a salseira de uso individual. Na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», datada de 1703, proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto pode observar-se sobre a mesa vários saleiros com a sigla «S[ão] B[ento]»[5].
A salseira ou salsinha, era um recipiente diminuto usado para conter «adubos», ou seja molhos e condimentos com que se “adubava a comida”.
Sobre a mesa, ao serviço de líquidos temos: para o vinho, ferrados em madeira e pichéis (FERNANDES; FAURE, 2010) em metal ou barro, bem como garrafas de vidro; e para a água, jarros de málega (=faiança). Para ingestão de líquidos encontramos o púcaro de barro que vem paulatinamente a ser substituído pelo copo de vidro. No transporte da água da fonte até à mesa utilizavam-se cântaros de barro.
Também na mesa se dispunham “carneiros[6] de málega para os ossos e espinhas” (GOMES, 1998 [1527]: 88) e almotolias ou galhetas para azeite e vinagre.
A comida era trazida para a mesa em bacios grandes de estanho nos quais se colocava “a carne ou pescado cozido”. O pão e a fruta eram trazidos em cestos.

Texto publicado in José Eduardo Franco (coord.) – O Esplendor da Austeridade: Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Património. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2011. P. 621-622.


[1] Estes texto refere os utensílios usados nos mosteiros ao longo dos séculos XVI a XVIII. Para a sua feitura recorremos à documentação manuscrita do convento de Santa Clara de Guimarães, bem como pudemos também usar os dados recolhidos no «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII), do mosteiro de S. Martinho de Tibães que nos foram gentilmente cedidos pela Dr.ª Anabela Silva, técnica superior do Mosteiro de Tibães. Recorremos ainda a alguma bibliografia específica que vai citada ao longo do texto.

[2] In «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII). Mosteiro de S. Martinho de Tibães.

[3] Bluteau explica que trincho “era antigamente em certas comunidades religiosas um prato de pau com debrum ou beiçozinho ao redor em que se levava ao refeitório a ração de carne” (BLUTEAU, 1712-1728:

[4] Leia-se o artigo deste blogue «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e atente-se na mesa representada na pintura beneditina datada de 1703 e proveniente do Mosteiro de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).

[5] Pela leitura dos inventários dos mosteiros verifica-se, de facto, que são adquiridas mais salseiras do que saleiros e, pela proporção dos bens adquiridos fica-se com a ideia de que um saleiro era usado por vários monges. No entanto, na pintura beneditina «Milagre de S. Bento» referida na nota anterior verifica-se que existe um saleiro por cada monge.

[6] O termo carneiro serve para designar um recipiente onde se colocam os restos não aproveitados do alimento que se está a comer – ossos e espinhas de peixe. Bluteau explica que “carneiro de ossos” é “sepultura (…) por carneiro entendemos uma sepultura comum em que se metem e se confundem uns com os outros ossos de defuntos (…) E como esta palavra por sua natureza e por sua etimologia significa um lugar em que se guarda alguma coisa…” (BLUTEAU, 1712-1728).

BIBLIOGRAFIA
 
BLUTEAU, 1712-1728
Rafael Bluteau, PadreVocabulário português e latino… 10 vol. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus.
Vol 1 e 2 (1712), 3 e 4 (1713), 5 (1716), 6 e 7 (1720), 8 (1721), Suplemento 1 (1727), Suplemento 2 (1728). http://www.ieb.usp.br/online/index.asp

DIAS, 2009
Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.

FERNANDES, 2004
Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.

FERNANDES; OLIVEIRA, 2004
Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.

GOMES, 1998
Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).