Onde se misturam cântaros de barro e pastelões de claras…

Cântaro de Guimarães. Séc. XIX. Núcleo arqueológico da Associação Comercial e Industrial de Guimarães. Fotografia de Manuel Correia.

Carolina Freitas, nascida no final da década de 50 do século XX, bem perto da Praça da Oliveira, em pleno coração do centro histórico de Guimarães, lembra-se de, em miúda, andarem pela cidade mulheres com cântaros à cabeça, nos quais transportavam claras de ovos para venda.
Hoje, é para nós inconcebível a venda de claras de ovos bem como também imaginar alguém a utilizar um cântaro como contentor dessas claras…
Numa sociedade de consumo, habituada à fartura dos tempos e ao desperdício, o aproveitamento de claras é coisa de outras eras… Mas, na altura, as claras que existiam em abundância nas casas que então vendiam doces, feitos principalmente com as gemas e que por isso geravam um grande excedente de claras, tinham de ser escoadas, servindo como alimento para pessoas com menos posses.
As claras eram, pois, uma forma de rendimento para as mulheres que tinham como profissão (seguramente como profissão subsidiária de outros afazeres) a venda das claras e uma forma de alimento a bom preço para aqueles que lhas compravam.
Carolina Freitas lembra-se de sua mãe comprar as claras e de com elas fazer pastelão de claras.
A receita é simples e, confesso-vos, do meu agrado. Costumo fazê-lo em casa quando depois da execução do pudim (também receita da mãe de Carolina Freitas – ver aqui), fico com dezasseis claras para gastar.
Apesar de ser um prato barato, fácil de confeccionar, conheço em Barcelos quem, pertencendo a uma ilustre e vetusta família, costumasse pedir a sua mãe (quando à terra regressava, vindo dos afazeres que o levaram a viver na capital), para esta lhe fazer um pastelão de claras… Há sabores intemporais…
Não deite as claras fora, reutilize!
 
Pastelão de claras
Bater as claras bem batidas, juntar salsa e cebola bem picadinhas e temperar com sal a gosto.
Aquecer uma sertã com azeite, virar o preparado e deixar cozer lentamente. Depois de cozido de um dos lados virar sobre um prato ou um testo, e voltar a colocar na sertã para acabar de cozer. Serve-se quente.

11 thoughts on “Onde se misturam cântaros de barro e pastelões de claras…

  1. Pingback: Sopa dourada, barrigas de freira e outros receitas com pão de ló | Saberes cruzados

  2. Olá drª Isabel. Obrigado pela rica informação que nos transmite. Sou do Algarve, e aqui a tradição para o aproveitamente das claras era diferente. Com elas faziam-se os suspiros. um delicioso doce, assim como as farófias, também elas deliciosas.
    Se me der autorização, publicarei com todo o gosto, no meu blog, esta sua receita. Se me for permitido, tentarei ainda elaborá-la com algumas alterações.
    Tanto quanto sei, a clara de ovo é de baixo valor calórico e isenta de colesterol. A minha experiência diz-me que a clara de ovo é muito eficaz no tratamento de queimaduras. As propriedades nelas contidas regeneram a pele queimada desde que sejam aplicadas imediatamente, depois de arrefecida a pele em água corrente.

    • Muito obrigado pelas suas informações. Também aqui pelo norte as claras são aproveitadas para fazer farófias ou pudim de claras. É claro que pode publicar a receita do pastelão no seu blogue. O importante é que se vão divulgando as receitas da culinária portuguesa.

  3. Olá Dra Isabel

    Em FAFE, terra onde passei a minha adolescência, as padarias(não confeitarias,como hoje se chamam) que faziam o Pão de Ló, vendiam claras e tinham muita procura.Também na casa de meus pais se confecionava o pastelão de claras. É muito bom e económico.

  4. Adoro e o meu marido também as claras tal como refere. Na casa dos meus pais também se usava aproveitar as claras desse modo e eu por vezes acrescento um pouco de farinha que lhe dá outra consistência. Consideramos um petisco e como não tem colesterol sempre que possível usamos as ditas.
    Parabéns!

  5. Olá Isabel.
    Antes de mais: as claras tb são ovos e não têm colesterol! Maravilha, não é?
    O que é interessante é que desde miúdo sempre gostei daquele saber límpido – fazia-me lembrar o da água – acrescentado com o do azeite da fritura, e tanto gostei que até tive durante 2 anos uma namorada chamada Clara com quem ainda hoje mantenho uma belíssima Amizade.
    Outra coisa: há mais sítios onde se vendem as claras. Por exemplo: em Vizela, na Kibom, aproveitam as garrafas vazias de litro e meio (de água) para venderem as claras que naturalmente não usam no seu excelente pão-de-ló. E essa venda é, quanto a mim, a melhor das publicidades que a casa pode fazer a si própria: é sinal de que faz a sua pastelaria com ovos e não com sucedâneo de ovos como vai sendo tão vulgar.
    Já agora um desafio: traz no próximo texto o parecer de um nutricionista sobre o positivo / negativo das claras. E, clarO (aqui com O), também o de alguém que saiba dissertar sobre palarares e sabores no que á CLARA toca

  6. Em casa dos meus pais fazia-se este pastelão que podia ou não levar bacalhau desfiado. Como o fogão era a lenha e como o forno estava sempre quente, o tacho era metido no forno e aí cozidas as claras do pastelão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s