Rebuçados dos Passos, pirolitos e o mais que se há-de ver

Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

No quaresma, período que decorre nos quarenta dias anteriores à Páscoa, é costume, em Guimarães, algumas mulheres virem para a rua vender rebuçados e pirolitos. Estes fazem a alegria das crianças e dos adultos.
Na primeira metade do século XX havia nesta cidade várias mulheres que se dedicavam a venda destes rebuçados pela altura da Quaresma.
Este costume de vender rebuçados dos Passos também sucede em Braga, onde são designados rebuçados do Senhor[1]

Rebuçadeira Lucília de Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

No sábado passado, em Guimarães, tive o privilégio de falar com uma destas senhoras que ainda hoje se dedica, no período quaresmal, à venda de rebuçados dos Passos, pirolitos e rebuçados com sabores, perto da Capela da Senhora da Guia, não muito longe do largo da Oliveira.
Lucília de Fátima Braziela nasceu, em Penafiel, a 3 de Maio de 1936, e aí permaneceu até à data do seu casamento com António Maria Ribeiro, natural de Guimarães e que exercia a profissão de contínuo no Grémio do Comércio de Guimarães, sedeado na Rua da Rainha, vizinho próximo da Igreja da Misericórdia.
Lucília casou com 18 anos, em 1936, e veio viver para Guimarães, tendo começado a produzir pirolitos e rebuçados por volta dos anos 40 do século XX. Aprendeu a fazer os rebuçados e pirolitos com Rita Fernandes, moradora no Largo da Oliveira e já falecida.

Rebuçados dos Passos, vendidos apenas no período quaresmal. Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

Os rebuçados dos Passos, invariavelmente embrulhados em papel branco, são uma tradição da quaresma. É costume antigo as rebuçadeiras de Guimarães vendê-los todos os Sábados e Domingos da Quaresma e na quinta e sexta-feira Santa. Depois desse dia deixam de ser vendidos e só reaparecem na Quaresma seguinte.
Desconheço qual o motivo que leva a esta associação entre a venda de rebuçados ditos dos Passos e o período quaresmal, tendo os rebuçados de ser embrulhados em papel branco.
Lucília diz que mantém a venda dos pirolitos e rebuçados por gosto, prevendo que depois dela e de uma outra senhora que continua a produzi-los a arte morra sem descendência…

Pirolitos. Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

Lucília quando faz rebuçados e pirolitos fá-los em grande quantidade preparando uma calda de açúcar que leva, de cada vez, 5 kg de açúcar. Quando a calda está pronta, verte parte dela numa cafeteira e é aí que a deixa a ganhar o ponto de caramelo.
Seguidamente verte o caramelo sobre uma bancada, e aí, com mãos calejadas de muitos anos de experiência, molda os rebuçados. De seguida cada rebuçado é embrulhado num pequeno papel rectangular de cor branca, sendo as pontas torcidas, para lhe dar um ar de sua graça.

Cesto com rebuçados envoltos em papéis coloridos. Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

Hoje em dia o papel que usa é-lhe dado por um senhor de uma tipografia, mas não tem nada a ver com o antigo papel de cores coloridas e muito mais fino, que dava outra beleza aos rebuçados e pirolitos.
Alguém me disse que o antigo papel colorido e fino ainda se encontra à venda em Fafe. Será?
Pelo mesmo processo a Dona Lucília faz os pirolitos. E importante dizer-se que as formas dos pirolitos são em madeira com várias cavidades. A Dona Lucília tem tabuleiros de madeira já muito antigos, feitos por um carpinteiro. Alguns tabuleiros levam 300 pirolitos, outros duzentos. O modo de fazer é o seguinte: utiliza um rectângulo de papel, que dobra em forma de cone e que coloca dentro de um dos orifícios do tabuleiro aí virando com cuidado o caramelo que se encontra na cafeteira. Depois é só deixar ganhar presa e arrefecer, encontrando-se prontos a ser levados para venda.

Rebuçados envoltos em papéis coloridos. Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

Os outros rebuçados exigem mais voltas do que os rebuçados dos Passos e do que os pirolitos. À calda de açúcar junta suco de frutas vendido em embalagens que compra no supermercado Dia. Deste modo consegue fazer rebuçados de morango, ananás, mas também faz rebuçados de coco e de chocolate. Cada sabor está embrulhado numa cor diferente. Antigamente, quando não havia estes sucos de fruta comprava umas essências na Farmácia Dias Machado, na Rua da Rainha.
Lembrava-se de outras senhoras que também faziam estes doces e que como ela os vendiam – A Aninhas, da Rua Egas Moniz, a Emilinha Patrício, que vivia na feira do Pão e a Rita Fernandes, do Largo da Oliveira, e com quem aprendeu a arte.
O seu posto de venda é constituído por uma banca (mesa articulada com cerca de 1,10 de altura, por 1,40 de comprimento e 50 cm de largura), um guardasol verde escuro e um banco onde se senta.

Os rebuçados e os pirolitos são transportados em caixas de plástico com tampa e expostos dentro de cestos de verga ou outro material.

A Dona Lucília costuma estar no seu posto de venda, durante o período quaresmal, todos os Sábados e Domingos, e na Quinta e Sexta-feira Santa, fazendo o seguinte horário entre as 9h30/10h00 e até às 19 horas. Almoça no local sendo a nora que lhe vai levar o almoço. Tem de pagar licença à Câmara Municipal para poder vender o seu produto.

A jovem Inês comprando pirolitos e rebuçados. Rebuçadeira Lucília Fátima Brasiela. Guimarães, 31 de Março de 2012

No tempo que estive com ela passaram pela banca vários tipos de pessoas – as de mais idade que os compravam para relembrar outros tempos ou para levar para os netos: mães com jovens, à procura de manter o hábito que também tinham na sua infância e turistas que ficam admirados com os pirolitos e rebuçados e que os levam para consumo próprio mas também destinados aos filhos e netos.
Os produtos que vende, são metidos dentro de um saco de papel com o logotipo de Guimarães e foram oferecidos a esta vendedora pela Câmara Municipal de Guimarães.

A tenda onde a da Dona Lucília Fátima Brasiela vende os seus rebuçados de Passos, pirolitos e rebuçados envoltos em papéis coloridos

Depois da Quaresma, Dona Lucília arruma a banca para só a voltar a montá-la na Festa de Santa Luzia, a 13 de Dezembro, também em Guimarães, onde se dedica à venda das passarinhas e dos sardões.
Venha a Guimarães a um Sábado ou Domingo, ou na quinta e sexta-feira Santas no período quaresmal, e vá até à porta da Senhora da Guia, onde encontrará, junto à pastelaria do Sr. Costa, os rebuçados dos Passos, rebuçados coloridos ou pirolitos, feitos com muito amor pela Dona Lucília Braziela. O custo é módico (50 cêntimos cada cinco rebuçados) e seguramente que verá brilhar os olhos da criança a quem os ofertar!
Compre o que é nosso, ofereça o que nosso é!

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[1] A propósito dos rebuçados do Senhor vendidos em Braga leia-se o texto «Braga: os rebuçados do Senhor» in http://braga-agora.blogspot.pt/2007/05/braga-os-rebuados-do-senhor.html

4 thoughts on “Rebuçados dos Passos, pirolitos e o mais que se há-de ver

  1. Em Braga, o papel que as mulheres usavam para envolver os “Rebuçados do Senhor” era o chamado “papel de seda”, muito fino, liso apenas de um lado, com cores bem berrantes. Os rebuçados mais não eram (e ainda são) do que ponto de açúcar. Havia-os lisos, de pequena dimensão, e outros bem maiores, mas muito menores que os dos Arcos de Valdevez, em forma de tambor. Nuns e noutros as pontas eram recortadas de ambos os lados, em forma de pequenos palitos, o que os tornava ainda mais festivos. Nos meus tempos de miúdo chegava a haver cerca de 20 “rebuçadeiras” (agora são só 3 ou 4), metade de cada lado da porta da igreja onde havia o lausperene. E como o lausperene estava apenas 48 horas em cada uma das principais igrejas da cidade, e a quaresma são 40 dias, estas mulheres iam mudando continuamente de local, acompanhando o “Senhor”.
    O lausperene foi instituído em Braga “por Bula de Clemente XI, expedida a instancias do arcebispo Moura Teles, em 12 de Outubro de 1709, e inaugurado na Quaresma do ano seguinte de 1710” (FERREIRA, José Augusto – Fastos da Igreja primacial Bracarense, vol. 3, Braga, Mitra Bracarense, 1932, p. 239-240).

  2. Em Viana, nesta altura, há rebuçados brancos envolvidos em papel branco. Há também rebuçados de caramelo envolvidos em papel rocho. Sei que nos Arcos,alto Minho também se fazem rebuçados de caramelo, são muito grandes. Boa Páscoa com um amigo abraço Teresa

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