Guias improváveis (CEC 2012): uma visita a Guimarães que cruza, entre outros, dois saberes, gastronomia e olaria

Tortas de Guimarães. Casa Costinhas

No próximo Sábado, irei servir de «guia improvável» numa visita ao Centro Histórico de Guimarães.
Não iremos falar sobre o património edificado, mas sobre as «pedras vivas», parafraseando António Sérgio, que fizeram e fazem o quotidiano da cidade.
Iremos falar de profissões de antanho e conhecer as profissões de hoje.
Iremos provar doces (o património gastronómico também é Cultura) e conhecer a cerâmica de séculos passados.
Iremos entrar em lojas que nos fazem lembrar outros tempos e passaremos por conhecidos espaços de sociabilidade da cidade.
A visita decorre no Sábado de manhã, dia 23 de Junho, entre as 10h00 e as 12h00 e deverá ser feita inscrição prévia até à próxima quinta-feira, dia 21. Poderão ser efectuadas através do email emifer.freitas@guimaraes2012.pt
(serão aceites duas pessoas por inscrição).

Cerâmica arqueológica medieval encontrada na ACIG

Abaixo transcreve-se a notícia divulgada por «Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura»

Tanques de Couros

Voltamos a reservar um sábado muito especial para si com … Isabel Fernandes.
Tanques de couros, uma oficina de ferreiro e uma exposição de cerâmica arqueológica são alguns dos pontos de um itinerário que o nosso Guia Improvável preparou para si.
Tendo como principal área de investigação a cerâmica e os museus como área prioritária de atuação, a antiga diretora do Museu Alberto Sampaio considera primordial, nos museus, a componente do contacto com o outro. Foi precisamente na linha deste contacto com “o outro” que Isabel Fernandes aceitou o desafio de, por um dia, ser o nosso Guia Improvável.
Estas visitas acontecem no próximo sábado, dia 23 de junho, e as inscrições decorrem até à próxima quinta-feira, dia 21. Poderão ser efetuadas através do email emifer.freitas@guimaraes2012.pt (serão aceites duas pessoas por inscrição).

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Almoçar em Barcelona, em 1710: uma pintura em azulejo

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Ceràmica de Barcelona

Sempre que vou a Barcelona revisito o «Museu de Ceràmica». Nem de outro modo poderia ser pois a cerâmica é para mim desde há muitos anos uma área de investigação. Cada ano que vou descubro uma nova peça, uma nova cor, uma nova forma… De facto, quando visitamos um museu levamos connosco as preocupações, as ideias que na altura nos ocupam a mente e, por isso, projectamos no que vemos um olhar diferente, um olhar especial…
Desta vez, e porque nos últimos tempos me tenho ocupado da História da mesa e do que nela se põe, um painel azulejar setecentista que se encontra neste museu despertou em mim um interesse especial.

La xocolatada. Painel de azulejos datado de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Quando me deparei com o painel azulejar em forma de meia lua e representando «La xocolatada», logo a minha atenção foi despertada para duas cenas – a preparação do chocolate e uma refeição à mesa.
Comecemos por falar da origem deste interessante painel azulejar datado de 1710. Francesc d’Amat Grevolosa i de Planella, primeiro conde de Castelllar (1706), adquire em Alella, arredores de Barcelona, uma antiga propriedade na qual mandou construir um pequeno templo que decorou com quatro painéis de azulejos, desconhecendo-se no entanto qual a oficina onde foram feitos.
Actualmente dois destes painéis azulejares encontram-se expostos no Museu de Cerâmica de Barcelona, sendo que um deles representa uma tourada, e o outro, do qual nos ocuparemos aqui, representa «La xocolatada».
O tema tratado neste painel azulejar é no entanto muito mais vasto do que a preparação do chocolate, contendo diversas cenas todas passadas no exterior, dentro de um terreiro murado, rodeado de frondosa vegetação.
Noutro texto ocupar-me-ei da cena que representa a preparação do chocolate e o seu consumo, hoje, abordarei tão-só a refeição que se desenrola numa mesa e que aparece representada no canto inferior direito.
A cena passa-se durante o dia, sendo por isso a representação de um almoço ao ar livre. Numa mesa redonda, coberta por toalha branca que desce até aos pés, sentam-se, em cadeiras de madeira sem braços (note-se que uma das cadeiras tem bem visível o encosto em couro), doze convivas – seis mulheres e seis homens, os quais, pelo trajar demonstram ser membros da elite da época.

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Cerâmica de Barcelona. In http://www.miestai.net/forumas/showthread.php?t=5290&page=5&langid=1

Em seu redor cinco serviçais dedicam-se a servir à mesa – dois deles a bebida, dois a comida e um outro encarrega-se da loiça, possuindo estes três últimos sobre a veste um avental branco.

Em volta da mesa cinco serviçais servem a comida – ave e empada – e a bebida – vinho dentro de refrescador, e um outro retira os pratos sujos da mesa. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

À volta da mesa, como é comum em muitas das representações pictóricas com o mesmo tema, dois cães disputam os restos dos alimentos.

Cães disputando a comida. Painel de azulejos de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Olhemos com atenção para a mesa. Sobre ela encontram-se pratos e travessas de faiança ou porcelana (decorada na aba a azul), facas, colheres e garfos. Nas duas travessas pousadas sobre a mesa encontra-se comida – numa delas o que parece ser um peru assado, na outra uma empada, podendo reparar-se na borda esbicada desta. Aqui e ali vê-se pão, o que parecem ser dois pães e dois pedaços do mesmo.

Alimentos sobre a mesa: empada, peru e pão. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Note-se que parece haver um prato para cada conviva (não se vêm os pratos dos convivas que estão de costas mas tê-los-iam muito provavelmente) e vários talheres. Estes, no entanto, não se encontram dispostos do modo como hoje os colocamos, garfo à esquerda, faca e colher à direita. Fica-se com a sensação de que haveria uma faca por conviva, mas sem uma certeza absoluta – há sete facas para doze convivas, mas é provável que não estejam representadas as facas dos convivas que se encontram de costas. Repare-se também que apenas as facas têm cabos em madeira ou em osso, enquanto as colheres e os garfos os não possuem.

Sobre a mesa encontram-se sete facas, dispostas de modo displicente. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Na mesa, existem também três colheres dispostas de modo displicente e apenas dois garfos, sendo de notar que um é representado apenas com dois dentes e o outro com cinco. Pode ser que se trate de pouco rigor do artista que pintou o painel, mas é um pormenor em que se deve reparar.

Sobre a mesa três colheres e dois garfos. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Repare-se nesta dama a comer com as mãos- Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Será que nesta altura o garfo ainda não era um instrumento individual de uso comum? Os faqueiros completos já eram correntes na época, pelo que se estranha que não haja um garfo por cada conviva. Mas, repare-se, uma das damas agarra com dois dedos um pedaço de comida que se prepara para levar à boca, o que parece indiciar que ainda se continuaria a comer com as mãos…

Não há copos individuais pousados sobre a mesa, mas há dois copos de vidro que aparecem representados nas mãos de dois convivas, sendo que um deles estende o seu copo a um dos servidores para que o encha de vinho. Talvez ainda se continuasse com o costume dos séculos anteriores de haver um escanção a quem se pedia de beber sempre que se desejava, não estando o copo pousado sobre a mesa.

Copos de vinho de vidro. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Não há guardanapos sobre as mesas. Esquecimento do pintor? Talvez…
Também interessante é verificar o uso do refrescador de vinho, encontrando-se um nas mãos do serviçal que serve um dos convivas, e outros dois pousados no chão.

Serviçais e refrescadores. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Os refrescadores deste painel azulejar são muito semelhantes aos representados nos bodégons de Luis Meléndez (Nápoles, 1716 – Madrid, 1780), tratando-se de um recipiente feito de cortiça, revestido com aros de madeira. Dentro do refrescador colocava-se gelo, e, no meio a garrafa de vidro com o vinho, sendo coberto com tampa também de cortiça e com orifício próprio para deixar passar o gargalo da garrafa.

Luis Meléndez. Bodegón. 1770. Óleo sobre tela. Museu do Prado

Luis Meléndez (1716-1780). Bodegón. Óleo sobre tela. Museum of Fine Arts, Boston

Por último repara-se num dos serviçais que parece transportar mais uma empada para a mesa e outro serviçal que se afasta da mesa com uma travessa entre as mãos, provavelmente uma travessa suja que vai juntar aos pratos que já se encontram no chão.

Dois serviçais, um deles com uma travessa suja que vai depositar junto aos pratos que se encontram no chão

Esta cena deste painel azulejar, profusamente colorida e cheia de movimento permite-nos ficar a conhecer o modo como se comia à mesa, em Espanha, no início do século XVIII.
Não se esqueça, se for a Barcelona visite o Museu de Ceràmica e deleite-se com esta peça e muitas outras em que o museu é rico.

Onde se misturam cântaros de barro e pastelões de claras…

Cântaro de Guimarães. Séc. XIX. Núcleo arqueológico da Associação Comercial e Industrial de Guimarães. Fotografia de Manuel Correia.

Carolina Freitas, nascida no final da década de 50 do século XX, bem perto da Praça da Oliveira, em pleno coração do centro histórico de Guimarães, lembra-se de, em miúda, andarem pela cidade mulheres com cântaros à cabeça, nos quais transportavam claras de ovos para venda.
Hoje, é para nós inconcebível a venda de claras de ovos bem como também imaginar alguém a utilizar um cântaro como contentor dessas claras…
Numa sociedade de consumo, habituada à fartura dos tempos e ao desperdício, o aproveitamento de claras é coisa de outras eras… Mas, na altura, as claras que existiam em abundância nas casas que então vendiam doces, feitos principalmente com as gemas e que por isso geravam um grande excedente de claras, tinham de ser escoadas, servindo como alimento para pessoas com menos posses.
As claras eram, pois, uma forma de rendimento para as mulheres que tinham como profissão (seguramente como profissão subsidiária de outros afazeres) a venda das claras e uma forma de alimento a bom preço para aqueles que lhas compravam.
Carolina Freitas lembra-se de sua mãe comprar as claras e de com elas fazer pastelão de claras.
A receita é simples e, confesso-vos, do meu agrado. Costumo fazê-lo em casa quando depois da execução do pudim (também receita da mãe de Carolina Freitas – ver aqui), fico com dezasseis claras para gastar.
Apesar de ser um prato barato, fácil de confeccionar, conheço em Barcelos quem, pertencendo a uma ilustre e vetusta família, costumasse pedir a sua mãe (quando à terra regressava, vindo dos afazeres que o levaram a viver na capital), para esta lhe fazer um pastelão de claras… Há sabores intemporais…
Não deite as claras fora, reutilize!
 
Pastelão de claras
Bater as claras bem batidas, juntar salsa e cebola bem picadinhas e temperar com sal a gosto.
Aquecer uma sertã com azeite, virar o preparado e deixar cozer lentamente. Depois de cozido de um dos lados virar sobre um prato ou um testo, e voltar a colocar na sertã para acabar de cozer. Serve-se quente.

Albi: cidade construída em tijolo

Vista Geral de Albi tirada da margem direita do Tarn. 16 de Fevereiro de 2011

Desde 31 de Julho de 2010 que Albi, em França, é considerada Património Cultural da Humanidade. Este galardão deve-se ao facto de possuir um património edificado notável, concretamente um conjunto de construções em tijolo burro, bem conservadas, e que foram sendo construídas desde a Idade Média até aos nossos dias.

Albi. Catedral de Santa Cecília. Ano de 2011

Deste conjunto destaca-se a Catedral (séc. XIII-XVI), dedicada a Santa Cecília, e que é a maior catedral em tijolo do mundo. Neste templo merecem destaque os frescos da abóbada, pintados por artistas italianos (1509-1512) e o coro fechado decorado com belas esculturas (1477-1484).

Albi. Interior da Catedal de Santa Cecília. O «Julgamento Final». Ano de 2011

As paredes laterais da “capela-mor” são decoradas com pinturas alusivas ao Juízo Final, da autoria de pintores flamengos (1474-1484). Sobre esta representação encontra-se um enorme órgão, um dos maiores existentes em França, construído no século XVIII.
No século XIII Albi foi centro de difusão das ideias ligadas ao movimento cátaro. De facto, depois de S. Bernardo ter sido mal acolhido em Albi, esta cidade passou a ser conotada com o catarismo. No entanto, Albi manteve-se fiel à Igreja Católica não tendo sido muito afectada pela Cruzada contra os albigenses (1204-1244).
Albi sempre foi uma cidade comercial para o que seguramente contribuiu a existência desde o século XI de uma ponte ligando as duas margens do Tarn, também ela feita em tijolo burro, a qual propiciou uma fácil circulação de pessoas e bens.
No período renascentista a cidade floresceu devido ao comércio do açafrão – utilizado quer na culinária quer como corante têxtil ou como pigmento na pintura, principalmente na iluminura – e do pastel – nome dado na região da Occitânia à planta Isatis tinctoria L.º, com cujas folhas se preparava um corante azul usado antigamente na tinturaria e na pintura.

Albi. Margem direita do Tarn onde se situavam os moinhos e as fábricas de farinha e massas alimentícias. Fotografia de Fevereiro de 2011

Nas margens esquerda e direita do rio Tarn localizavam-se moinhos de pão, sendo também aí que nos séculos XIX e XX, período em que se dá a industrialização, são instaladas fábricas de farinha, de massa alimentícia, de metalurgia e de chapéus. Nestes séculos tem também enorme importância para a cidade a exploração das minas de carvão de Cagnac-Carmaux e a fábrica de vidro – Verrerie Ouvrière – criada em 1896 pelos grevistas apoiados por Jean Jaurès.
Deambular por esta cidade arquiepiscopal é um prazer.

Albi. Mercado coberto. Construção em ferro e tijolo construída em 1905. Fotografia de 2011.

Albi. Mercado coberto. Construção em ferro e tijolo construída em 1905. Fotografia de 2011.

Vale a pena visitar o mercado coberto de Albi, ali bem perto da Catedral de Santa Cecília, construído em ferro e tijolo burro, ao estilo dito «Baltard», datado de 1905. Aí tem uma montra dos produtos locais e pode ficar a saber um pouco mais de que se alimentam os habitantes de Albi.

Albi. Em primeiro plano a «Maison du Vieil Alby». Fotografia de 5 de Dezembro de 2011

Nas ruas podemos deleitar-nos observando velhas e belas casas nas quais se verifica o uso regular da taipa de rodízio na construção das habitações sendo o último piso – o Soleilhou, ou seja o sótão – aberto, permitindo observar-se a cobertura em madeira. Este último piso era utilizado para a secagem de produtos, como, por exemplo, o pastel. O segundo piso, que muitas vezes avançava sobre a rua em balcão de modo a ganhar espaço, era destinado à vida familiar. Um bom exemplo deste tipo de habitação pode ser visitado – La Maison du vieil Alby(Rude de la Croix Blanche, 1). Nesta casa, hoje sede da Associação de Defesa do Património Local, pode conhecer-se o interior e assistir à passagem de um filme sobre o património de Albi e sobre a vida de Toulouse Lautrec.

Albi. Passeio feito com calhaus rolados. Fotografia de 5 de Dezembro de 2011

Também se deve chamar a atenção para os antigos passeios que eram feitos com calhaus rolados. Estes passeios ainda se podem encontrar na ponte velha e numa ou noutra rua.
Termina-se com algumas fotografias de construções feitas em tijolo, sendo visível em muitas delas o uso da taipa de rodízio.

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