Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Convento de Jesus, Aveiro)

Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

Já tratamos este tema num outro texto deste blogue – «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)», sendo interessante verificar como um mesmo episódio da hagiografia do fundador da Ordem dos Pregadores dá origem a diferentes representações pictóricas, revelando-nos interessantes aspetos sobre o comer e o modo de comer nos séculos anteriores[1]. Antes de analisarmos a pintura faremos uma brevíssima abordagem ao edifício e capela onde a pintura se encontrava.

O Convento de Jesus de Aveiro
O Convento de Jesus de Aveiro pertencia à Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Na origem da sua fundação esteve D. Beatriz Leitoa, viúva de Diogo de Ataíde. A fundação do mosteiro foi autorizada pelo Papa Pio II através da bula «Pia Deo et Ecclesiae desideria», datada de 16 de Maio de 1461. A primeira pedra do novo convento foi lançada por D. Afonso V, a 15 de Janeiro de 1462. A primeira tomada de hábito ocorreu em 1464. Com a proteção de D. Afonso V e a entrada para o convento, em 1472, de sua filha única, D. Joana, o convento ganha importância e reconhecimento. D. Joana, filha de D. Afonso V e de D. Isabel, com apenas 19 anos de idade recolheu-se no Mosteiro de Odivelas, tendo, pouco tempo depois, transitado para o Convento de Jesus, em Aveiro. Mulher de enorme beleza, solicitada para casar com diversos príncipes, sempre a isso se recusou, optando por se dedicar à vida religiosa, apesar de nunca ter professado (GASPAR, 1969).

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Após a sua morte “o povo de Aveiro, antecipando-se ao julgamento da Igreja, começou a denominá-la por santa e a venerá-la. D. Pedro II alcançaria mais tarde do Papa Inocêncio XI o breve de 4 de Abril de 1693, no qual se confirmava o culto, sendo concedida à Princesa a designação de beata e o ofício e a missa próprios, para todo o País e para a Ordem Dominicana” (GASPAR, 1969).
Em 1834, o mosteiro é extinto, sendo os bens incorporados na Fazenda Pública. Em 1874 morre a última religiosa, a prioresa D. Maria Henriqueta de Jesus, sendo o convento extinto.
Ao longo dos séculos o edifício do convento foi sendo ampliado, remodelado e enriquecido com inúmeras obras de arte.
Em 1882, o edifício passa para a Ordem Terceira Dominicana, sendo transformado em escola feminina – Colégio de Santa Joana.
Com a instauração da República, em 1910, o colégio é extinto passando, em 1911, a albergar o Museu de Aveiro.

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click. In http://lh6.ggpht.com/_6TA0yX7EpmE/THzSPHX1tdI/AAAAAAAABBU/EHgj2VR8j5M/s1600-h/museu%20de%20aveiro%5B11%5D.jpg

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click.

A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem
A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, como bem explica José António Rebocho Christo, situava-se no primeiro piso do convento, junto da enfermaria, e foi encomendada por Soror Isabel Padilha (professa em 1618). Desta antiga Capela ainda hoje subsistem no Museu de Aveiro “diversos elementos do retábulo maneirista, as tábuas pintadas que ornamentavam a porta de entrada, a imagem-relicário de S. Domingos e um vasto conjunto de pinturas, num total de 28, tábuas e telas” (CRISTO, 2011). A predela do retábulo da capela era composta por três pinturas distintas, sendo a central a que aqui iremos analisar e na qual se representa o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Trata-se da única tela, das muitas que realizou para esta capela, assinada pelo pintor António André, o qual deve ter nascido em Aveiro por volta de 1580. Em 1612 encontrava-se em Lisboa onde terá aprendido a arte na oficina de Simão Rodrigues. Entre 1619 e 1625 encontra-se em Aveiro, sendo responsável pela execução de diversas pinturas para os Mosteiros de Jesus e de Nossa Senhora da Misericórdia. Entre 1646 e 1652 vamos encontrá-lo no Porto onde trabalhou para a Ordem Terceira de S. Francisco. Deve ter falecido pouco antes de 1668 (SERRÃO, 1991, 2000 e 2010; SOBRAL, 2004: 211; CRISTO, 2011).

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho[2]

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170, e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos em Roma, viveu nos últimos anos da sua vida no Convento de Santa Inês, em Bolonha, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[3].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[4]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3[5]) e pelo Beato Jordão de Saxónia[6] é o da multiplicação do pão e do vinho[7].
Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará os seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção, começam a rezar.

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Os dois anjos que servem à mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Os dois anjos que servem à mesa.

De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, distribuindo-o pelas mesas. Depois de terem entregue a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[8].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura do Museu de Aveiro: O espaço
Como já atrás se referiu a pintura da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos integrava a predela do retábulo maneirista da Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, situando-se no primeiro piso do Convento de Jesus, junto da enfermaria (CRISTO, 2011).
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (N.º de Inventário 88/A), que se julga terá sido executada entre 1618 e 1623[9] pelo pintor António André que a assina – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.
Sobre este autor diz Vítor Serrão que “a qualidade formal de algumas das suas obras – com realce para as tabuinhas da antiga Capela de S. Domingos de Gusmão do Convento de Jesus, pintadas em 1619-1620 – mostram uma personalidade forte, de inesperada frescura no delineamento das superfícies com cromatismo lumínico e vaporoso, com desenho seguro, sentido composicional imbuído de certa largueza, e preciosismos de filigrana na caraterização dos acessórios e dos últimos planos” (SERRÃO, 1991: 277-278). E, mas concretamente sobre a pintura aqui analisada, Vítor Serrão considera-a “a mais interessante”, explicando que: “representa o banquete servido por anjos a dezoito religiosos dominicanos do mosteiro de S. Xisto de Roma, onde a perícia da pincelada transparente, os contrastes de claro-escuro, o cromatismo de frias tonalidades, a largueza da composição organizada pelo esquema obliquado das mesas, e os detalhes minuciosos da ceia – o cãozinho dormindo, e segurando o crucifixo envolto em labaredas, os trajes dos anjos, o quadro de Santo André na cruz em aspa colocado por detrás de S. Domingos de Gusmão que preside ao milagre, os objetos da refeição divina, etc. – definem a forte preparação técnica de António André. À pose maneirista dos figurinos sobrepõe-se o domínio naturalista e tenebrista da composição, de influência madrilena, a lembrar já obras protobarrocas de Eugénio Caxes ou de Vincenzo Carducho” (SERRÃO, 1991: 282).
A cena passa-se no interior do convento, encontrando-se S. Domingos e dezassete dominicanos sentados à mesa do refeitório, tal como é costume em contexto conventual. No púlpito pode observar-se o irmão Henrique de Roma que lê os textos sagrados[10].

Domini Canis e Dominicanis

Domini Canis. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Domini Canis

O pavimento é ladrilhado a preto e branco e sobre ele descansa o designado “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”). Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis, ou seja, dominicanos.
O facto de o cão com a tocha na boca ser um dos atributos de S. Domingos fica a dever-se ao texto do Beato João da Saxónia, um dos primeiros biógrafos de S. Domingos, que na sua obra «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum» narra um episódio da vida deste Santo sucedido antes do seu nascimento. Durante a gravidez a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo[11]. Hugo de Voragine assim descreve este episódio da vida de S. Domingos: “Seu pai chamava-se Félix e sua mãe Joana. Antes do seu nascimento, a mãe viu em sonhos que tinha no ventre um cão de fogo com uma tocha nos dentes o qual, saindo do seu ventre, incendiava o mundo” (VORAGINE, 2000: 58).
A associação da tocha encimada pelo globo terrestre e pela cruz parece ter surgido “na época maneirista mas divulga-se sobretudo durante o barroco” (SOBRAL, 2004: 203, nota 2).

A pintura do martírio de Santo André

Santo André. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

A pintura de Santo André dentro da pintura O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos…

Por detrás da mesa, pendurada na parede do modo que então era usual, podemos observar uma pintura emoldurada representando o martírio de Santo André na Cruz em aspa. Na Ordem dos Pregadores nunca houve uma ligação especial com Santo André, pelo que, a sua surpreendente presença nesta pintura, representando o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos, se poderia talvez justificar de dois modos: ou o orago da capela onde se encontrava o retábulo era Santo André, o que sabemos não corresponde à realidade pois encontrava-se na Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, sendo o seu orago a escultura relicário de S. Domingos (CRISTO, 2011); ou a representação da pintura de Santo André nesta cena da hagiografia de S. Domingos foi uma opção pessoal do pintor António André que deste modo assina duplamente[12] a pintura colocando nela um santo de quem herdou o nome – André.

À mesa: os convivas e os anjos

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor.

No centro da mesa, em lugar de destaque, encontra-se S. Domingos, ladeado por oito monges à sua esquerda e nove à sua direita, mais o monge leitor que está no púlpito. Não temos dúvida de que se trata do fundador da ordem, pois, sobre a sua cabeça, encontra-se um esplendorosa auréola.
Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor[13]. O capuz era usado pelos dominicanos, quer quando saiam do convento quer para aquecimento do corpo. Estes dois frades representam muito provavelmente os irmãos João da Calábria e Alberto de Roma os quais tinham sido enviados para o exterior em busca de pão, tendo regressado sem o conseguir[14], daí o facto de serem representados com o capuz negro.
Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito; agarrando a tigela; dentro da tigela; levando a comida à boca; cortando o pão com a faca.

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito.

Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[15], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [16]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura (…) outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa”[17].
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.
Os dominicanos são servidos por dois anjos: um, do lado esquerdo, apresenta ao primeiro frade desse topo da mesa uma bandeja onde estão duas tigelas, vendo-se o frade retirando uma delas com ambas as mãos; outro, do lado direito, depois de ter servido os primeiros frades, vai caminhando, com a bandeja na mão, na qual se podem ver outras duas tigelas. No milagre descrito pelos Beatos Cecília e Jordão da Saxónia serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não alimento em tigelas. Mas, bem sabemos que os anjos são os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.
Por fim, mas de não menos importância, deve referir-se que a narrativa pictórica desta pintura não corresponde exatamente à representação do milagre do pão e do vinho por S. Domingos. De facto, os anjos deveriam estar a servir o pão, mas, este já se encontra na mesa, levando eles nas bandejas o que poderá ser um caldo, sendo por isso servido em tigela.

À mesa: os alimentos e os utensílios
Analisemos os utensílios colocados sobre a mesa, a qual se encontra coberta com toalha branca que cai quase até ao chão, deixando no entanto ver as grossas pernas que suportam os tampos.

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos.

Os únicos alimentos que se encontram sobre a mesa são o pão, o vinho tinto e o caldo/sopa que se pode subentender estaria dentro das tigelas.

Vinho tinto em copo de vidro. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Vinho tinto em copo de vidro e jarro de estanho (?).

Como utensílios dispostos sobre a mesa encontramos: o jarro e o copo para o vinho, sendo que aquele parece ser de estanho e este em vidro; as galhetas do azeite e do vinagre, colocadas sobre a correspondente bandeja, e que deveriam ser em faiança, dada a cor branca que apresentam; a faca e a tigela, sendo que esta última poderia ser de estanho ou então de barro preto. De facto, em Aveiro (Aradas) produzia-se naquela época loiça preta[18] pelo que não seria de estranhar que António André tivesse reproduzido as tigelas feitas localmente.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

De entre os utensílios empregues quais seriam de uso individual e quais seriam de uso coletivo? Se atentarmos na distribuição dos utensílios verifica-se que os jarros, os copos e as tigelas seriam de uso individual.

Tigelas de loiça preta? O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Tigelas de loiça preta de Aradas, Aveiro?

Sobre a mesa as facas não parecem ser de uso individual, no entanto, era costume cada frade possuir a sua própria faca. Já no século XVI, no refeitório do mosteiro de Alcobaça, os religiosos dispunham de um armário individual para “no seu lugar ter guardanapo, faca e copo” (GOMES, 1998: 88). As galhetas do azeite e do vinagre seriam de uso comum, havendo, visíveis sobre a mesa, quatro pares de galhetas.

Comer com as mãos?

Comer com as mãos. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Comer com as mãos.

É interessante verificar que, ao contrário do comum das representações das refeições à mesa, nesta pintura as personagens não são estáticas, mas figuradas na ação de comer: cortando o pão com a faca (um frade), levando a comida à boca (três frades); agarrando a tigela com as mãos (um frade); metendo a mão esquerda na tigela (dois frades), para além dos frades que, como atrás já referimos, são representados em oração.

Cortando o pão com a faca

Cortando o pão com a faca

Se atentarmos nos dois frades que estão representados na ação de meter a comida à boca com a mão direita, e, com a mão esquerda seguram na tigela, lembramo-nos de imediato da «Escola de Perfeição», documento do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, atribuído ao séc. XVII (TAVARES, 1999). Neste se descreve “a observância que se há-de guardar no refeitório”, de modo a que “os religiosos que estão na religião e caminham para o céu tenham merecimento no comer, e não percam por ignorância o que podem nele merecer, coisa conveniente será dar-lhes a doutrina que hão-de guardar para que não percam o merecimento que tem os que se sabem haver nisto guardando a observância regular” (TAVARES, 1999).
Neste texto seiscentista sobre o modo como se deve comer no refeitório, entre outras interessantes observações, diz-se: “Não partam o pão nem a carne com as mãos senão com a faca” (TAVARES, 1999: 69). Ora, na pintura aqui analisada vemos um dominicano partindo o pão com a faca.
Através deste documento seiscentista do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra ficamos também a saber que era então costume comer-se com as mãos, sendo no entanto falta de educação meter a mão toda no recipiente: “não metam toda a mão na tigela para tirar as sopas mas só dois ou três dedos sem sujar as mãos; nem lambam os dedos como fazem os rústicos”; “quando tiverem os dedos muito sujos como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura, limpem-nos dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito. E tudo isto se fará por não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta” (TAVARES, 1999: 69-70).
Nesta pintura de António André podemos observar dois dos frades com a mão esquerda metida na tigela, sendo esse facto mais evidente num dos casos. Estranha-se, no entanto, o facto de ambos estarem com a mão direita levando a comida à boca e ser a mão esquerda que está pousada na tigela. Parece-nos que o normal seria tirar a comida da tigela com a mão direita e desse modo a conduzir à boca.
De qualquer modo quer-nos parecer que o modo como o primeiro frade (à direita na pintura) coloca a mão na tigela evidencia que estava a tirar a comida com as mãos, talvez só com “dois ou três dedos sem sujar as mãos”. Lembremos que em Marrocos ainda hoje subsiste o costume de comer com as mãos. Diz Ignacio Medina que “o principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou com cinco dedos é comportamento de glutões, exceto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).

Conclusão: uma pintura que nos dá a conhecer o modo de comer em contexto conventual
De facto, o que pessoalmente nos vem interessando na pintura portuguesa é a representação de alimentos, dos utensílios necessários à sua preparação e consumo, bem como o modo de os preparar e de os comer.
Esta pintura de António André sobre a multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos é um bom exemplo de como as representações pictóricas aliadas à leitura de documentação coeva nos podem ajudar a melhor conhecer o modo de comer nos séculos passados, no caso concreto, em contexto conventual.

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BIBLIOGRAFIA
BARBOFF, 2011 Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.
CRISTO, 2011 José António Rebocho Christo – A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem no Convento de Jesus de Aveiro. Patrimónios. 2ª série. 31: 9 (Dezembro 2011). P. 75-86. In http://www.prof2000.pt/users/hjco/aderav/patrimonios/Patrim09_075.htm
GASPAR, 1969 João Gonçalves Gaspar – Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana. Aveiro e o seu Distrito. Junta Distrital de Aveiro. 7 (Junho de 1969). P. 27-40. In http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim07/page27.htm#01b
GOMES, 1998 Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998 (Documenta).
ITURGÁIZ CIRIZA, 1992 Domingo Iturgáiz Ciriza – Iconografía de Santo Domingo de Guzmán: La fuerza de la imagen. Burgos: Aldecoa, 1992.
MEDINA, 2005 Ignacio Medina – Cozinha País a País: Marrocos. [S.l.]: Público, 2005.
SCHEEBEN, 1935  C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.
SERRÃO, 1991 Vítor Serrão – O Pintor António André e o Maneirismo reformado em Aveiro no século XVII. Revista da Universidade de Aveiro: Letras. 6-8 (1989-1991). P. 277-298.
SERRÃO, 2000 Vítor Serrão – A Pintura Proto-Barroca em Portugal: 1612-1657: O Triunfo do Naturalismo e do Tenebrismo. Lisboa: Colibri, 2000.
SERRÃO, 2010 SERRÃO, Vítor – Pintura e Propaganda nos programas artísticos dominicanos em Portugal na Idade Moderna. In Dominicanos em Portugal: História, Cultura e Arte. Lisboa: Alétheia, 2010. P. 254-279.
SOBRAL, 2004 Luís de Moura Sobral (coord.) – Pintura Portuguesa do século XVII: lendas, histórias e narrativas, Catálogo de exposição. Lisboa: IPM, 2004.
TAVARES, 1999 Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no século XVII português. Lisboa: Colares Editora, 1999.
VORAGINE, 2000 Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS
[1] Tenho de agradecer ao Dr. José António Rebocho Cristo que me chamou a atenção para a pintura aqui analisada e que me enviou a respetiva imagem. Tenho também de agradecer à Divisão de Fotografia da Direção Geral do Património Cultural, nas pessoas de Tânia Olim e Luísa Oliveira o envio da imagem com a qualidade necessária para se poder analisar e publicar pormenores.

[2] Este nosso texto sobre o milagre propriamente dito é o que consta no artigo «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)». Pareceu-nos, no entanto, importante transcrevê-lo aqui para um melhor conhecimento sobre o tema tratado na pintura que aqui se analisa.

[3] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[4] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», traduzida do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[5] A beata Cecília assim designa o milagre que aqui se descreve – «Do pão e vinho milagrosamente multiplicado e distribuído aos frades através de suas orações». In «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». Veja-se http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[6] O beato Jordão da Saxónia assim designa o milagre aqui descrito – «O milagre do pão recebido do céu em S. Sisto». In «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum».

Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[7] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (LEGENDA AUREA, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois últimos autores e não o de Voragine.

[8] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.

[9] Informação do Dr. José António Rebocho Christo, a quem agradeço.

[10] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve. Jordão da Saxónia é mais comedido nos pormenores.

[11] Veja-se no «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», de Jordão da Saxónia, a descrição deste episódio – «The Miracle of the Bread Received from Heaven at San Sisto». In http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[12] Já atrás referimos que esta tela se encontra assinada pelo pintor no ladrilho do pavimento – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.

[13] Convém referir que “até ao Vaticano II, os frades não clérigos (irmãos cooperadores), como São Martinho de Porres, usavam o hábito que não possuía a capa preta e o escapulário era preto ao invés de branco”. In http://vocacionalop.blogspot.pt/2011/03/sobre-o-habito-dominicano-about.html

[14] Os nomes dos dois frades são-nos dados pela Beata Cecília. Veja-se «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[15] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf

[16] Idem.

[17] Ibidem.

[18] Veja o subcapítulo «Aradas (Aveiro, Aveiro), Lugares de Quinta do Picado e Coimbrão; Oliveirinha (Aveiro, Aveiro), Lugar de Quintãs» in Isabel Maria Granja Fernandes – A loiça preta em Portugal: estudo histórico, modos de fazer e de usar. Tese de Doutoramento. Braga: Universidade do Minho, 2012. Vol. 2. P. 635-653. URL: http://hdl.handle.net/1822/24904

Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

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O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro

O Mosteiro de Lorvão e a Doçaria Conventual

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Este Sábado fomos até Penacova para visitar o mosteiro de Lorvão o qual impressiona pela sua grandiosidade e por se encontrar abrigado no fundo de montes, correndo aos seus pés um pequeno rio de águas limpas. Face a face com o mosteiro ergue-se a povoação de casas alinhadas ao longo da estrada. Infelizmente, do extinto mosteiro cisterciense feminino, apenas se pode visitar a igreja, a pequena sacristia, o coro, o claustro que ladeia a igreja e duas salas onde se encontra algum do acervo museológico.
No século XX e até 2012 aqui funcionou um hospital psiquiátrico que ocupava grande parte do edifício. Hoje, parece incerto o uso a dar a este enorme mosteiro, habitado ao longo dos séculos por filhas de algumas das mais ilustres famílias portuguesas.

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Há pouco tempo o claustro foi intervencionado tendo sido adossado um novo edifício onde se projetava constituir um museu. Mas, a agrura dos tempos parece ter feito abortar o projeto, pelo que o edifício apesar de pronto se encontra vazio… Foi pena que em vez da criação de um novo edifício não se tenha aproveitado o existente…
O mosteiro de Lorvão deve ter sido talvez fundado no séc. VI (apesar de esta data não ser unanimemente aceite pelos investigadores), abrigando um mosteiro masculino, o qual a partir do séc. XI passou a seguir a regra de S. Bento.

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

No início do século XIII, o mosteiro viria a transformar-se numa congregação feminina da ordem de Cister, aqui vivendo D. Teresa, filha de D. Sancho I e mulher que havia sido de Afonso IX de Leão, e suas irmãs Sancha, Mafalda, Branca e Berengária. Sancha, viria mais tarde a fundar o convento de Celas, em Coimbra. Teresa e Sancha ficaram sepultadas em Lorvão, tendo sido desde cedo consideradas como Rainhas Santas e merecendo por isso a devoção dos fiéis, vindo a ser beatificadas a 23 de Dezembro de 1705 (BORGES, 2013: 15-34).

RRefeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Refeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Mas, não é a história do convento que nos interessa, mas a dedicação destas mulheres ao fabrico de doces. Em boa hora a Câmara Municipal editou o livro «Doçaria Conventual de Lorvão» (2013), da autoria de Nelson Correia Borges, um filho da terra, professor aposentado do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual fez a sua tese de doutoramento sobre Lorvão – «Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade: das origens a 1737».

Doces das freiras de Lorvão

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

O autor, profundo conhecedor da documentação referente a Lorvão e ao mosteiro, decidiu, nesta obra dedicada à doçaria conventual de Lorvão, dar a conhecer o que sobre o tema os documentos referem, alertando, no entanto, para a inexistência de receitas: “Não chegaram até nós livros de receitas, ou quaisquer apontamentos, ou, em rigor, não são conhecidos até agora, o que não quer dizer que não tivessem existido”.
Através da consulta documental o autor ficou a conhecer e desvenda a doçaria que saía das mãos destas freiras – alfenim, alfitetes, beijinhos de freira, beijinhos, beijos, biscoitos, bocados de abóbora, bolo de bispo, bolo de Santa Teresa, bolo podre de Lorvão, bolos d’arica, bolos de bispo, botelhada, broas de amêndoa, broas de ovos, capelas de ovos, caramelos, cavacas de Lorvão, cidrada, confeitos, derriços, doce de amêndoas, doce de laranja, farténs de amêndoa, fatias do céu, fatias do conde, fios de ovos, ginetes, lampreia doce, linguadas, manjar branco, manjar divino, manjar real, marmelada, marmelada de sumos, massapães, melindres, milharós, morgados, nabada, ovos doces, ovos moles, palermos cobertos (hoje nevadas), palitos, pão-de-ló de amêndoa, papos de anjo, pastéis, perada, pêssegos cobertos, queijadas, queijinhos do céu, súplicas, talhadas, tâmaras, tigelada, tolos, tortilhas, tremoços.

O que resta da antiga cozinha do mosteiro. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

O que resta da antiga cozinha do Mosteiro de Lorvão. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

Não tendo encontrado na documentação as receitas dos doces acima referidos o autor socorreu-se de pessoas (mulheres é claro!) que lhe deram a conhecer o modo de fazer estas iguarias. Apresenta um total de 53 receitas: 8 foram-lhe facultadas por Maria da Graça de Castelo Branco Leitão Barbosa Ribeiro (queijinhos do céu, tâmaras, tolos, lampreia doce, beijinhos, beijos e cavacas); 1 foi extraída de um “manuscrito de uma freira, em posse de família que esteve ligada ao Mosteiro de Lorvão” (Bolo podre de Lorvão); 1 recolhida em «Nova Arte da Cozinha» (1695) de Domingos Rodrigues (cidrada); 1 do mosteiro de Celas (manjar branco); 1 de Arminda Ferreira Baptista Santos, “agora utilizada e divulgada por D. Margarida Padilha Viseu” (Palermos cobertos); 1 publicada na revista «Marie Claire», N.º 38 de 1991 (Palitos); 1 de Maria Amália Martins de Carvalho Leitão Alpoim (Pastéis de Lorvão) e outra publicada por Emanuel Ribeiro e respeitante ao mosteiro de Bustelo (Pêssegos cobertos), as restantes foram recolhidas “da tradição oral, quer junto de familiares, quer junto de pessoas amigas que no-las comunicaram, mesmo antes das informações arquivísticas”.

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Nelson Borges publica também a receita do Bolo das Infantas, informando que “esta receita foi divulgada na internet e publicada por Alfredo Saramago”, acrescentando que a incluía “com alguma reserva, porquanto este nome não aparece referido na documentação nem tão pouco a designação seria lógica num mosteiro onde a memória coletiva era sempre referida à rainha e não a infantas”. Tem razão o autor para duvidar da veracidade da receita publicada por Alfredo Saramago. De facto, o mesmo sucede com receitas publicadas por este autor como sendo provenientes de conventos de Braga e Guimarães, as quais nunca se encontraram nem nas fontes documentais nem na consulta de velhos livros de receitas pertencentes a antigas famílias de ambas as terras. Tal como sucede com a receita de Lorvão também as que o autor apresenta como sendo de Braga e Guimarães possuem nomes pouco usuais em contextos conventuais (FERNANDES, 2012: 12). Por tal motivo as receitas facultadas por este autor devem ser usadas com grande reserva.
Nelson Correia Borges não indica a proveniência do receituário das restantes 38 receitas, o que é pena, pois, é sempre importante conhecer a sua origem.

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

É bom dizer que todas as receitas foram experimentadas, agradecendo o autor a Emília Teresa Horta Peres, a “revisão e paciente execução das receitas” (BORGES, 2013: 12).
Intriga-me o que seriam os bolos d’arica. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal doce. Como seriam? Convém talvez lembrar que o verbo aricar significa “lavrar superficialmente a terra para livrá-la de ervas daninhas” (HOUAISS, 2003, I: 372), tendo o mesmo significado em castelhano (DICCIONARIO, 2001, I: 203).

Doces que adquiriam
Nelson Correia Borges transcreve documentação do final do século XVII através da qual se pode concluir que havia doces que eram comprados pelas freiras, como por exemplo os “pastéis que se dão no dia de Entrudo”, os “pastéis para os músicos” que se oferecem no dia da “consoada do nosso padre S. Bento” e os “confeitos para a consoada que na semana Santa se dão” (BORGES, 2013: 77-78).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia  Borges (BORGES, 2013: 61).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 61).

A compra de doces no exterior do mosteiro sucedia em diversas congregações, principalmente nos conventos masculinos que adquiriam fora muitos dos doces que consumiam.

Os utensílios para fazer, transportar, servir e comer os doces
Nelson Correia Borges teve também o cuidado de ilustrar a sua obra com fotografias dos utensílios usados pelas freiras quer para fazer os doces quer para os transportar, servir e comer.
Ao longo da obra podemos ficar a conhecer vários recipientes de barro utilizados na conservação dos alimentos sólidos e líquidos, um graal de marfim, um tacho de cobre, uma colher de ferro, um prato de cobre utilizado para formar a lampreia doce, discos de barro vermelho para fazer o manjar branco, tigelinhas para os ovos moles, copos e jarra de vidro, pratos de faiança e porcelana com marca possessória, bem como tabuleiros para transporte de doces ou outros géneros.

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Interessante é também a divulgação que o autor faz das caixas para guardar e transportar os doces, hoje difíceis de encontrar, e de dois singelos e interessantes garfos de marfim de quatro dentes.

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Na documentação do final do séc. XVII encontrou o autor referência quer à compra de caixas (Maio de 1694) – “comprámos 19 caixas grandes para o presente das nossas Santas Rainhas”, quer de tigelinhas (Novembro de 1691) – “compramos de tigelinhas para doce…” (BORGES, 2013: 77-78).
A quem gosta de conhecer a história da doçaria ou de experimentar novas “velhas” receitas aconselha-se a compra do livro. Estudar e divulgar a doçaria portuguesa é uma forma de preservar a nossa memória colectiva. Parabéns ao autor.

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Se ficou com água na boca, nada melhor do que sair do mosteiro, atravessar a rua e entrar na pastelaria «O Mosteiro», onde poderá saborear os palermos cobertos, hoje designados nevadas. Mas aí encontrará outra doçaria de inspiração conventual como os queijinhos (doce de ovo e amêndoa), os pastéis de Lorvão (com amêndoa) e os mimos (com amêndoa sem pele).

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Bibliografia

BORGES, 2013
Nelson Correia Borges – Doçaria Conventual de Lorvão. Penacova: Câmara Municipal, 2013.

DICCIONARIO, 2001
Diccionario de la lengua española. 2 vol. 22.ª ed. Madrid: Espasa Calpe, 2001.

FERNANDES, 2012
Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012. P. 9-73.

HOUAISS, 2003
Dicionário Houaiss. Vol. 1. Lisboa: Círculo dos Leitores, 2003.

Almoçar em Barcelona, em 1710: uma pintura em azulejo

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Ceràmica de Barcelona

Sempre que vou a Barcelona revisito o «Museu de Ceràmica». Nem de outro modo poderia ser pois a cerâmica é para mim desde há muitos anos uma área de investigação. Cada ano que vou descubro uma nova peça, uma nova cor, uma nova forma… De facto, quando visitamos um museu levamos connosco as preocupações, as ideias que na altura nos ocupam a mente e, por isso, projectamos no que vemos um olhar diferente, um olhar especial…
Desta vez, e porque nos últimos tempos me tenho ocupado da História da mesa e do que nela se põe, um painel azulejar setecentista que se encontra neste museu despertou em mim um interesse especial.

La xocolatada. Painel de azulejos datado de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Quando me deparei com o painel azulejar em forma de meia lua e representando «La xocolatada», logo a minha atenção foi despertada para duas cenas – a preparação do chocolate e uma refeição à mesa.
Comecemos por falar da origem deste interessante painel azulejar datado de 1710. Francesc d’Amat Grevolosa i de Planella, primeiro conde de Castelllar (1706), adquire em Alella, arredores de Barcelona, uma antiga propriedade na qual mandou construir um pequeno templo que decorou com quatro painéis de azulejos, desconhecendo-se no entanto qual a oficina onde foram feitos.
Actualmente dois destes painéis azulejares encontram-se expostos no Museu de Cerâmica de Barcelona, sendo que um deles representa uma tourada, e o outro, do qual nos ocuparemos aqui, representa «La xocolatada».
O tema tratado neste painel azulejar é no entanto muito mais vasto do que a preparação do chocolate, contendo diversas cenas todas passadas no exterior, dentro de um terreiro murado, rodeado de frondosa vegetação.
Noutro texto ocupar-me-ei da cena que representa a preparação do chocolate e o seu consumo, hoje, abordarei tão-só a refeição que se desenrola numa mesa e que aparece representada no canto inferior direito.
A cena passa-se durante o dia, sendo por isso a representação de um almoço ao ar livre. Numa mesa redonda, coberta por toalha branca que desce até aos pés, sentam-se, em cadeiras de madeira sem braços (note-se que uma das cadeiras tem bem visível o encosto em couro), doze convivas – seis mulheres e seis homens, os quais, pelo trajar demonstram ser membros da elite da época.

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Cerâmica de Barcelona. In http://www.miestai.net/forumas/showthread.php?t=5290&page=5&langid=1

Em seu redor cinco serviçais dedicam-se a servir à mesa – dois deles a bebida, dois a comida e um outro encarrega-se da loiça, possuindo estes três últimos sobre a veste um avental branco.

Em volta da mesa cinco serviçais servem a comida – ave e empada – e a bebida – vinho dentro de refrescador, e um outro retira os pratos sujos da mesa. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

À volta da mesa, como é comum em muitas das representações pictóricas com o mesmo tema, dois cães disputam os restos dos alimentos.

Cães disputando a comida. Painel de azulejos de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Olhemos com atenção para a mesa. Sobre ela encontram-se pratos e travessas de faiança ou porcelana (decorada na aba a azul), facas, colheres e garfos. Nas duas travessas pousadas sobre a mesa encontra-se comida – numa delas o que parece ser um peru assado, na outra uma empada, podendo reparar-se na borda esbicada desta. Aqui e ali vê-se pão, o que parecem ser dois pães e dois pedaços do mesmo.

Alimentos sobre a mesa: empada, peru e pão. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Note-se que parece haver um prato para cada conviva (não se vêm os pratos dos convivas que estão de costas mas tê-los-iam muito provavelmente) e vários talheres. Estes, no entanto, não se encontram dispostos do modo como hoje os colocamos, garfo à esquerda, faca e colher à direita. Fica-se com a sensação de que haveria uma faca por conviva, mas sem uma certeza absoluta – há sete facas para doze convivas, mas é provável que não estejam representadas as facas dos convivas que se encontram de costas. Repare-se também que apenas as facas têm cabos em madeira ou em osso, enquanto as colheres e os garfos os não possuem.

Sobre a mesa encontram-se sete facas, dispostas de modo displicente. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Na mesa, existem também três colheres dispostas de modo displicente e apenas dois garfos, sendo de notar que um é representado apenas com dois dentes e o outro com cinco. Pode ser que se trate de pouco rigor do artista que pintou o painel, mas é um pormenor em que se deve reparar.

Sobre a mesa três colheres e dois garfos. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Repare-se nesta dama a comer com as mãos- Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Será que nesta altura o garfo ainda não era um instrumento individual de uso comum? Os faqueiros completos já eram correntes na época, pelo que se estranha que não haja um garfo por cada conviva. Mas, repare-se, uma das damas agarra com dois dedos um pedaço de comida que se prepara para levar à boca, o que parece indiciar que ainda se continuaria a comer com as mãos…

Não há copos individuais pousados sobre a mesa, mas há dois copos de vidro que aparecem representados nas mãos de dois convivas, sendo que um deles estende o seu copo a um dos servidores para que o encha de vinho. Talvez ainda se continuasse com o costume dos séculos anteriores de haver um escanção a quem se pedia de beber sempre que se desejava, não estando o copo pousado sobre a mesa.

Copos de vinho de vidro. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Não há guardanapos sobre as mesas. Esquecimento do pintor? Talvez…
Também interessante é verificar o uso do refrescador de vinho, encontrando-se um nas mãos do serviçal que serve um dos convivas, e outros dois pousados no chão.

Serviçais e refrescadores. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Os refrescadores deste painel azulejar são muito semelhantes aos representados nos bodégons de Luis Meléndez (Nápoles, 1716 – Madrid, 1780), tratando-se de um recipiente feito de cortiça, revestido com aros de madeira. Dentro do refrescador colocava-se gelo, e, no meio a garrafa de vidro com o vinho, sendo coberto com tampa também de cortiça e com orifício próprio para deixar passar o gargalo da garrafa.

Luis Meléndez. Bodegón. 1770. Óleo sobre tela. Museu do Prado

Luis Meléndez (1716-1780). Bodegón. Óleo sobre tela. Museum of Fine Arts, Boston

Por último repara-se num dos serviçais que parece transportar mais uma empada para a mesa e outro serviçal que se afasta da mesa com uma travessa entre as mãos, provavelmente uma travessa suja que vai juntar aos pratos que já se encontram no chão.

Dois serviçais, um deles com uma travessa suja que vai depositar junto aos pratos que se encontram no chão

Esta cena deste painel azulejar, profusamente colorida e cheia de movimento permite-nos ficar a conhecer o modo como se comia à mesa, em Espanha, no início do século XVIII.
Não se esqueça, se for a Barcelona visite o Museu de Ceràmica e deleite-se com esta peça e muitas outras em que o museu é rico.

A Nobreza à mesa, em 1701

Josefa de Óbidos. Natureza-Morta com Doces e Barros, 1676. Santarém, Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire

Voltemos a 1701, a Lisboa, pela mão de Thomaz Cox e Cox Macro. Em texto anterior já se falou da obra destes autores, veja-se aqui.
Desta vez somos convidados para a mesa dos nobres de então. Thomaz Cox e Cox Macro, mais do que uma descrição das refeições, deixam apontamentos de aspectos que lhes chamaram a atenção, seguramente porque diferente do que sucedia na sua pátria, Inglaterra. Os autores consideram os portugueses “comilões” e constatam que tinham por hábito fazer uma refeição entre o jantar (leia-se almoço) e a ceia (leia-se jantar). Ou seja, os portugueses tinham por hábito merendar. Os nobres lavavam as mãos antes da refeição, “mas não com muita frequência”. Sentavam-se à mesa e eram servidos pelos escudeiros, sendo que sobre esta existiam vários pratos, “na sua maior parte purés e carne guisada”. O gosto pela profusão de diferentes iguarias numa só refeição é atestado pela leitura do livro «Arte da Cozinha», de Domingos Rodrigues, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1680. Na sua obra Domingos Rodrigues sugere o que deveria constituir a refeição a servir a um embaixador, sendo a mesma constituída por seis “cobertas”, ou seja, conjunto de manjares que se colocam em pratos sobre a mesa e que, depois dos convivas terem comido se levanta para colocar nova coberta. Nesta proposta de banquete Domingos Rodrigues começa por sugerir se sirva manteiga, saladas e fruta, o que parece corroborar o escrito por Thomaz Cox e Cox Macro, os quais informam que “no verão, o primeiro prato é fruta”, ao qual se seguem os assados e os guisados.

Josefa de Óbidos. Natureza Morta: Frutos e Flores, c. 1670. Lisboa, Palácio Nacional de Queluz

O assado de carne não deliciou os viajantes ingleses, pois o modo de assar sobre a brasa, virando a carne de um e de outro lado, deixava o mesmo “ficar seco como a palha”. Também não foi do seu agrado o pão: “põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim”. Constatam também que não misturavam o vinho com água – “raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda”. O aqui afirmado parece contradizer o verificado em séculos anteriores, nos quais existia o hábito de misturar o vinho com a água. A água acompanhava invariavelmente os doces – “quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces”. Vários outros autores constataram também este hábito lusitano de comer doces acompanhados por água e não por vinho.
Josefa de Óbidos, taça com doces. Séc. XVII, 2.ª metade

No seu entender os portugueses eram gulosos comendo “grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde”. Já acima foi referido o hábito de beber água em sociedade sendo esta acompanhada com doces. Os nobres portugueses utilizavam na mesa “loiça de barro”, existindo “grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro”. Mas os autores alertam para problemas de higiene, ou melhor, a falta dela – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Esta loiça era “muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la”. Confessamos que este aspecto nos intriga. Será uma tradução menos feliz? Qual terá sido a palavra inglesa utilizada para designar “barro” e “louça de barro”? A facilidade com que a loiça repassava (ou nossos oleiros diriam “resumir”, ou seja ressumar), parece indiciar que se tratava efectivamente de olaria, ou seja loiça de barro fosco sem vidrado, o que causa estranheza pois normalmente associa-se à mesa dos nobres desta época o uso da prata, da porcelana e da faiança. Interessante também é verificar que já naquela época os oleiros tentavam vender peças que deixavam passar os líquidos. Na primeira metade do século XX, em Ponte de Lima, os clientes quando duvidavam se um cântaro vertia ou não, pediam para o encher com água. Um oleiro espertalhão para enganar o cliente quando via que o cântaro tinha algum pequeno orifício por onde a água vertia tratava de o tapar internamente com um pedaço de pão. Se o cliente pedia para o encher com água, verificava que não vertia. Só quando chegasse a casa é que constataria ter sido enganado… Thomaz Cox e Cox Macro notam também que “a Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro”; “os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes”. E que quando traziam um prato com qualquer coisa este vinha invariavelmente coberto com outro – “Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato”. A que tipo de pratos se estariam a referir? Estranheza causa também o facto de os pratos virem à mesa sem ser limpos – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Pela mão destes estrangeiros vislumbra-se a cozinha de então e o pessoal que nela laborava, fica a saber-se que, tal como nos conventos, também nestas cozinhas da nobreza existiam rodas na parede através das quais se passavam os alimentos da cozinha para a sala. Descrevem também os pequenos fogões utilizados para cozinhar. Como seriam? Pela descrição não conseguimos perceber: “têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc.”; “o fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas”.

Josefa de Óbidos, cesta com frutos e flores. Séc. XVII, 2.ª metade

Há também hábitos sociais para os quais os autores chamam a atenção, por exemplo, para o facto de quando alguém chegava a casa de outra pessoa sem convite formal não era convidado a participar na refeição – “raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão pouco familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam a sentar-se, e se o fizessem, ele recusaria.” Dão também algumas indicações do modo como se processavam as refeições: “só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as virtualhas apenas até à porta”; “os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos”. Referem também o hábito ainda comum à época de as mulheres conviverem num espaço a isso destinado e de se sentarem no chão, no estrado, e não em cadeiras. Este hábito, muito arreigado em séculos anteriores e que ainda se mantém no século XVIII, vai começando paulatinamente a perder a força – “As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça”. Quanto ao facto de as mulheres conviverem nestes espaços “no feminino” e de ser aí que comiam, separadas dos seus maridos, quer-nos parecer ser excepção e não a regra. Esta separação entre os sexos durante a refeição deveria dar-se apenas quando os maridos recebiam visitas do sexo masculino, visitas de cerimónia com conversas onde as mulheres não entravam. Em pleno século XX, na freguesia do concelho de Barcelos, no Portugal rural, durante a matança do porco, por exemplo, convidavam-se os homens para participar no ágape, no qual não tinham assento nem as mulheres nem os filhos (informação de Silvestre Lopes Duarte). A função da mulher era preparar a refeição e servir os convidados. Há ainda muito para desbravar neste mundo da mesa em Portugal… De seguida apresentam-se os dois textos, extraídos da obra «Relação do Reino de Portugal: 1701», em boa hora publicado pela Imprensa Nacional. Um texto é atribuído a Thomaz Cox, o outro a Cox Macro. Este artigo vai ilustrado com pinturas de Josefa de Ayala, vulgarmente designada Josefa de Óbidos (1630-1684), nas quais se encontra uma enorme profusão de fruta e doces tão do agrado dos portugueses de então.

Josefa de Óbidos, queijos, mel, tigelada e cerejas. Séc. XVII, 2.ª metade

Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

Thomaz Cox
A Nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo e, quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[1], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[2]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes. Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato. A Nobreza tem grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A louça de barro é muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la. Fazem sempre uma refeição entre o jantar a ceia, e são grandes comilões. Têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc. Os criados portugueses não acham que seja pecado roubar ao patrão qualquer coisa de comer, ou beber. Quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces. (…) Os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos. As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça. (COX; MACRO, 2007: 134, 138, 139, 141, 147)
Cox Macro
A Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas põem-lhes tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as vitualhas apenas ate a porta. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No Verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo, e quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e por vezes de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[3], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[4]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Não apresentam mesas como as nossas, e penso que pouco mais do que compotas é suficiente. Raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão poucos familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam assentar-se, e se o fizessem, ele recusaria. (…) As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça (COX; MACRO, 2007: 276-279).

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Bibliografia COX; MACRO, 2007 [1701] Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007. RODRIGUES, 2001 [1680]Domingos Rodrigues – Arte da Cozinha. Sintra: Colares Editora, 2001. (1.ª ed., 1680)


[1] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[2] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.
[3] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[4] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.

Os pobres comem muito mal…

Açafrão (Crocus Sativus)

Açafrão (Crocus Sativus)

Continuamos em busca de descrições do que noutros tempos se comia em Portugal.Desta vez transcrevemos excertos de um manuscrito, escrito a duas mãos, em épocas diferentes, por tio e sobrinho, Thomas Cox e Cox Macro, sendo ambos de origem inglesa.O manuscrito, de leitura complexa, foi traduzido para português com a coordenação de Maria Leonor Machado de Sousa, e em boa hora publicado pela Biblioteca Nacional. A obra tem o título de «Relação do Reino de Portugal: 1701» e é uma das mais antigas descrições de Lisboa antes do terramoto de 1755.Os autores, em vários passos da obra, referem o que se comia e como se comia em Portugal.Iremos, guiados por eles, dar-vos a conhecer, ao longo de vários artigos deste blogue, o que comiam os portugueses em 1701.
Neste texto entraremos na casa dos portugueses “pobres”.
Há dois textos, um escrito por Thomas Cox e o outro por Cox Macro, ambos tratando a alimentação dos pobres, e ambos muito semelhantes, mas também com diferenças… Por isso, optou-se por incluir os dois.

Arroz (Oryza)

Repare-se que se comia muita hortaliça, legumes e fruta, peixe, pouca carne e pouco vinho. Os alimentos eram apaladados com açafrão, anis[1], coentros e alho. Já então a sardinha era rei na mesa dos menos abastados e faziam-se caldos de peixe. Far-se-ia então o caldo de cação que ainda hoje tanto apreciamos?
Notam os autores que “quando se dá o caso de matarem uma ave não perdem nada, as próprias entranhas são transformadas num puré”. Que prato seria? Um sarapatel? Talvez…
O autor refere também que se comiam muitas empadas: “fazem muitas empadas e põem peixe e quase tudo nas empadas”. Este hábito de comer empadas foi-se perdendo com o correr dos tempos, mas, em séculos anteriores, era já uma constante. Por exemplo, no Regimento dos Pasteleiros, incluído no «Livro dos Regimentos dos Oficiais mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa (1572)», estes tinham de saber fazer “empadas para o tempo de pescado”, ou seja, empadas de peixe para comer nos períodos em que a Igreja proibia o consumo de carne (CORREIA, 1926: 222).
De notar também o gosto dos portugueses pela água, naqueles séculos preferida ao vinho: “sendo que bebem normalmente água”; “raramente bebem à refeição, mas bebem uma grande golada de água depois de comer”.

Beldroegas (Portulaca oleracea)

Beldroegas (Portulaca oleracea)

Mas leia-se o que dizem os autores:
“Os pobres comem muito mal. A família de um trabalhador do campo não come geralmente mais do que pão durante todo o dia. À noite, quando o homem regressa do trabalho, têm alguma hortaliça ou arroz e peixe, isto é a ceia para toda a família. Raramente comem carne mais do que uma vez por semana e, mesmo assim, é carne de vaca no valor de 1 tostão a dividir por 7 ou 8 pessoas. No Verão comem grande abundância de fruta; e, no Inverno, fruta seca, peixe seco e uma espécie de arenques pequenos a que chamam sardinhas, de que há grande abundância. Comem grande quantidade de beldroegas e beterraba, ervilhas e feijões e muito açafrão, anis, alho, cebolas e coentros – que creio serem necessários para ajudar a digestão dos seus outros alimentos, sendo que bebem normalmente água.
Muito poucas pessoas têm vinho em casa, muitos de entre eles nunca na vida o provaram e muita gente não consegue beber por um copo em que esteve vinho sem primeiro o lavar. Não se pode insultar mais um homem do que chamando-lhe bêbedo, e creio que são raras vezes culpados deste pecado. Quando vão a uma taberna é apenas para se refrescarem com um copo de vinho e saem outra vez, sem se demorarem. São muito frugais no que comem e bebem” (COX; MACRO, 2007: 133 e 139).

Caril

Caril

“A Lavadeira por baixo de nós vivia desta maneira: durante o dia não comiam nada a não ser pão e à noite, quando o homem regressava do trabalho, preparavam uns espinafres em azeite ou caril e arroz, ou feijão seco, e isto constituía a ceia da Família. Só comiam carne ao Domingo e, mesmo então, era um tostão de Vaca a dividir entre sete ou oito. A Sr.ª Green disse que os pobres viviam geralmente desta maneira. É estranho ver até onde leva a vaidade dos pobres pois, se bem que tenham sido forçados a pedir meio tostão emprestado à Sr.ª Green para pagar a um Cirurgião que tinha vindo sangrar a filha deles, e de outra vez lhe tenham pedido para comprar meia dúzia de ovos para o mesmo efeito, ainda assim a filha tem de ter uma capa de seda e belas roupas, e tem-se em tão alto conceito que não quer ir servir, e consideram a generalidade dos criados não melhores do que galeqos, ou seja, gente nascida nas montanhas. Comem grandes quantidades de beldroegas e beterrabas, ervilhas e feijões e servem-nos com ovos cozidos por cima. Isto constitui a ceia vulgar. Raramente cozem os ovos na casca, antes os deitam para uma tigela de barro comum com azeite e levam-nos para a mesa na mesma tigela em que são cozinhados. Arroz com um bocado de vaca por cima é um prato comum e o caldo com pão é-lhes trazido depois, em tigelas. Fazem muitas empadas e põem peixe e quase tudo nas empadas. Adoram a variedade e muitas travessas, mas as porções têm o tamanho dos pratos. Raramente bebem à refeição, mas bebem uma grande golada de água depois de comer” (COX; MACRO, 2007: 135-136).

Coentros (Coriandrum sativum)

Coentros (Coriandrum sativum)

“Os pobres comem muito mal e muitas vezes vivem em casas sem chaminés e que não têm outra luz além daquela que entra pela porta. A família de um trabalhador do campo não come geralmente mais do que pão durante todo o dia. À noite, quando o homem regressa do trabalho, têm alguma hortaliça ou arroz e peixe, e isto é a ceia para toda a família. Raramente comem carne mais do que uma vez por semana, e, mesmo assim, é carne de vaca no valor de 1 tostão a dividir por 7 ou 8 pessoas. No Verão comem grande abundância de fruta; e no Inverno, fruta seca, peixe seco e uma espécie de arenques pequenos a que chamam sardinhas, de que há grande abundância. Comem grande quantidade de beldroegas e beterraba, ervilhas e feijões e muito açafrão, anis, alho, cebolas e coentros – que creio serem necessários para ajudar a digestão dos seus outros alimentos, sendo que bebem normalmente água. Não têm alcachofras, aipo, nem rábano, nem aveia. Quando se dá o caso de matarem uma ave não perdem nada, as próprias entranhas são transformadas num puré. Também fazem caldo de peixe. Põem dentro de água o peixe fervido em azeite e alho e açafrão, e servem o peixe com grandes fatias de pão no caldo a que chamam sopas. Fervem a erva coentro nas suas sopas.
Muito poucas pessoas têm vinho em casa, muitos de entre eles nunca na vida o provaram puro e muita gente não consegue beber por um copo em que esteve vinho sem primeiro o lavar. Não se pode insultar mais um homem do que chamando-lhe bêbedo, e creio que são raras vezes culpados deste pecado. Quando vão a uma taberna é apenas para se refrescarem com um copo de vinho e saem outra vez, sem se demorarem. São muito frugais no que comem e bebem” (COX; MACRO, 2007: 276).

Bibliografia
CORREIA, 1926
Vergílio Correia – Livro dos regimentos dos oficiais mecânicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa (1572). Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926.
COX; MACRO, 2007 [1701]
Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.
 


[1] Parece estranho o uso de anis como tempero da comida, ao lado do açafrão, alho, cebolas e coentros. Será que no original o termo anis era usado com o significado de salsa? De facto, “De acordo com o Dicionário Bíblico Easton de 1897, o termo anis na Bíblia Cristã (Mateus 23:23) refere-se à erva conhecida hoje como salsa (Anethum ou Peucedanum graveolens).Na língua inglesa o nome mais conhecido é Anise”  In http://pt.wikipedia.org/wiki/Anis
Mas, também pode ser que na altura o anis – vulgarmente designado erva-doce (Pimpinella anisum) –, o qual ainda hoje é uso aplicar-se na doçaria, fosse então utilizado no tempero de outros alimentos. Fica a dúvida…

A alimentação em Vilarinho da Furna

Vilarinho da Furna. Fotografia de António Jorge Barros

Num texto anterior transcrevemos um excerto da obra de Heinrich Friedrich Link, na qual ele faz referência a Vilarinho da Furna, em 1798, nomeando alguns dos alimentos que então compunham a dieta alimentar naquela terra (ver aqui).
Cento e cinquenta anos depois, em 1948, Jorge Dias, natural do Porto, publica um livro intitulado «Vilarinho da Furna: uma aldeia comunitária», tema da sua tese de doutoramento defendida, em Munique, em 1944, e no qual analisa, o que então se comia em Vilarinho da Furna.
Jorge Dias, conclui que a mesa nesta aldeia “não prima pelo requinte nem pela variedade, mas em geral é farta, se bem que sóbria”, sendo esta monotonia alimentar interrompida em dias de festas – “É nessas ocasiões que se mata a fome de carne ou de doce. Mas são poucos estes dias no ano: Natal, Nossa Senhora da Conceição, matança e alguma boda ou baptizado. De resto, só conhecem as variantes impostas pela rotação cíclica das estações, sobretudo: Verão e Inverno”.
O quadro alimentar dos habitantes de Vilarinho da Furna levantado por Jorge Dias resumia-se a:
Pesca – escalos e trutas
Caça – coelho e perdiz
Bebidas – água-pé e vinho, leite cru ou cozido
Doces – aletria, arroz doce, formigos
Pão – boroa de centeio, boroa de milho, bolo, pão trigo
Carne – porco, cabra
Fumeiro – chouriço, farinhatos, orelheira, presunto, salpicão, toucinho
Pratos cozinhados – arroz de cabeças de cabra, arroz de forno, bacalhoada à portuguesa (com batatas, cebolas, couve branca e com molho de azeite e vinagre), batatas cozidas, caldo de bages (vagens), caldo de couves, chouriços com arroz, legumes cozidos (em geral vagens), papas de leite com farinha milha e sal, sarrabulho (sangue de porco assado com farinha centeia e milha, e adubado com presunto), sopa de leite, sopa seca de pão
Temperos e adubos – azeite, gordura de porco, manteiga no doce, vinagre, cebola, sal, pimenta, loureiro e açúcar.

De seguida transcreve-se o texto referente à alimentação tal como consta na obra de Jorge Dias que temos vindo a citar – «Vilarinho da Furna: uma aldeia comunitária»

“ALIMENTAÇÃO
Passam-se os dias, os anos e as gerações na luta permanente contra a terra, para dela extrair com que sustentar o corpo. Quase se cifra nisso toda a actividade do homem, por estas e muitas outras paragens.
Contudo, é parco o banquete do destino; a mesa do serrano não prima pelo requinte nem pela variedade, mas em geral é farta, se bem que sóbria.
Corno não há diferenciação de classes, a alimentação não se elevou acima da rusticidade geral do ambiente, e as refeições sucedem-se todos os dias, sempre as mesmas.
Só os dias de festa quebram a grande monotonia alimentar, e então a voracidade não conhece limites. É nessas ocasiões que se mata a fome de carne ou de doce. Mas são poucos estes dias no ano: Natal, Nossa Senhora da Conceição, matança e alguma boda ou baptizado. De resto, só conhecem as variantes impostas pela rotação cíclica das estações, sobretudo: verão e Inverno.
Pode-se dizer que, durante seis meses no ano, à merenda e à ceia, o furnense se senta em frente dos mesmos repastos, com a satisfação invariável daquele, que, do nascer ao pôr-do-sol, exercita o corpo ao ar livre, sem outras preocupações que não sejam as de semear, regar, ceifar, malhar; sem pausas nem descanso, mas também sem pressas nem ansiedade, num trabalho rítmico, como o largo pulsar da Natureza.
No verão, a primeira refeição, o jantar, consta de leite cru ou fervido, com boroa de milho e centeio (para 2 rasas de milho ¼ de centeio), ou caldo de bages (vagens) e batatas, também acompanhado de boroa.
Só raras vezes usam manteiga.
Ao meio dia, à merenda, e à noite, à ceia, comem batatas e legumes cozidos (em geral vagens), um pouquinho de carne de porco salgada (toucinho), e no fim um caldo de couves. O vinho não costuma faltar à maioria das mesas. Em geral, vão-no buscar à adega numa cabaça, que colocam em cima da mesa, donde todos bebem.
No inverno, à merenda e à ceia aparecem, de vez em quando, outros pratos mais ricos; carne de porco salgada, chouriços com arroz, farinhatos, presunto, sarrabulho, isto é, sangue de porco assado com farinha centeia e milha, e adubado com presunto. Nesta época costuma-se beber água-pé. O vinho deixa-se para dias de festa e para o verão, pois não chega para beber todo o ano.
Como a água-pé não se conserva tanto tempo, bebe-se primeiro, ficando o vinho para mais tarde, não só por resistir mais tempo, como por ser uma bebida útil na época em que se pede maior esforço ao corpo, ou seja no verão.
A água-pé faz-se deitando água sobre os resíduos do vinho, brolho, juntamente com alguns cestos de uvas. Por cada cesto de uvas misturam dois cântaros de água. Depois de bem pisada e mexida vai para as pipas.
A sopa de leite, ou papas de leite com farinha milha e sal, é um prato muito apreciado no inverno. O uso da sopa de leite é comum a uma grande zona montanhosa do Noroeste, onde se cria gado vacum. Em Castro Laboreiro pode-se dizer que é o prato tradicional, apesar de não colherem milho por o clima impedir o amadurecimento das espigas.
Este prato de leite é índice da economia ganadeira dos povos serranos do Noroeste. Os criadores de gado do Nordeste, rionoreses e guadramileses, não conhecem estas refeições, pois a secura da região bragançana não consente tal abundância de leite.
No fim do inverno, e às vezes até Maio, comem as chouriças com arroz. Os salpicões, feitos de febra de porco, guardam-nos para as romarias, ou para quando têm de fazer jornadas e ficar uns dias fora de casa.
No inverno, a caça também contribui para o enriquecimento da cozinha de alguns serranos, sobretudo o coelho e a perdiz. Hoje, raríssimas vezes pode a corça, ou o javali proporcionar um festim inesperado. No verão, os escalos e as trutas do Rio Homem não deixam de ser saboreados nas casas em que há pescadores. Mas, tirando a caça e a carne de porco, o habitante de Vilarinho come pouca carne, e se exceptuarmos as festas, que servem de pretexto a grandes comezainas, podemos dizer que todo o gado grosso e miúdo é vendido, pois é a única fonte de receita que possui, visto que a agricultura só dá para os gastos. É com o dinheiro do gado que pagam as contribuições e compram artigos indispensáveis, que não podem produzir.
Portanto, as festas são a oportunidade para satisfazer até ao fundo, todos os apetites habitualmente refreados. E basta-lhes saber que uma ou duas vezes por ano podem saciar-se plenamente, para aceitarem com alegria a parcimónia própria de todo o pequeno lavrador.
A lembrança dum festim passado e a esperança doutro festim futuro bastam para apaziguar a intemperança, que vive oculta no íntimo de cada homem.
A festa principal é a da Nossa Senhora da Conceição, Padroeira do lugar, e que se celebra no dia 8 de Dezembro. Nesse dia cabe a um dos vizinhos dar a festa e preparar à sua custa o banquete, em que toda a aldeia participa. Da mesma maneira que a maior parte das actividades pastoris e agrícolas, as festas tambérn estão submetidas à tradição comunitária.
Cada casa do lugar, por ordem cíclica, deve fornecer e preparar os alimentos, assim como organizar a festa.
Em geral costumam vir ao banquete todas as pessoas das casas com quem têm relações mais íntimas, e dois ou três representantes de cada casa do lugar.
O vizinho a quem compete organizar a festa, convida uma banda afamada de qualquer terra da «ribeira», para animar aquele dia com o seu reportório, e escusado será dizer que também tem de dar de comer aos músicos.
Uma lavradeira, que fez a festa há poucos anos, a Senhora Trigo, contou-nos que matara 14 cabras, fizera 30 quilos de arroz e comprara 50 quilos de pão trigo.
Antigamente a comida era feita em grandes alguidares de barro, que metiam no forno de cozer o pão. Hoje preparam-na em recipientes de folha, aproveitados de latas de gasolina. A ementa consta de carne com batatas, arroz, sopa seca de pão, e vinho em abundância. Os músicos comem à parte, e não participam dos manjares preparados para a gente da terra. Para eles faz-se caldo e arroz de cabeças de cabra.
No Natal, a festa é familiar e cada um prepara as suas refeições individualmente, mas pode-se dizer que em cada casa se repete a mesma ementa: bacalhoada à portuguesa, arroz doce, ou aletria e formigos. O bacalhau cozido, que é prato obrigatório em grande parte do país, e não falta mesmo à mesa do burguês rico do Porto e de Lisboa, leva, como acompanhamento, batatas, cebolas e couve branca, com molho de azeite e vinagre. Os formigos preparam-se com pão de trigo desfeito em leite, juntando-se-lhes depois: mel, açúcar e manteiga.
Nas bodas, baptizados e enterros também há refeições especiais, mas a variedade nunca vai além da carne de cabra, do arroz de forno e do arroz doce, ou aletria.
Nos enterros, os alimentos têm um papel importante, não pela riqueza ou variedade, mas pelo papel ritual que desempenham. Os doridos devem dar de comer aos que vêm a casa velar o cadáver. Depois, aos que foram acompanhar o defunto até à cova, é costume dar uma ração de pão e um copo de vinho. Esta distribuição é feita ao ar livre, na ponte, quando as pessoas regressam do enterro. Aqueles que botam missa por alma do defunto costumam receber da família do morto, uma posta de bacalhau e uma boroa de trigo.
Como vemos, é simples e rotineira a alimentação do furnense, no que, aliás, se não distingue da maioria das populações rurais de toda a parte, que propendem sempre para a monotonia alimentar. Mas, além de monótona, é sempre simples e parca, com excepção dos dias de festa.
Os temperos e adubos usados são o azeite, gordura de porco, manteiga no doce, vinagre, cebola, sal, pimenta, loureiro e açúcar.
Na alimentação de todos os dias, quase que só se usam os produtos da terra, de que exceptuamos o azeite, o sal, e o vinagre, que se compram na loja do lugar vizinho, S. João do Campo. Os alimentos de fora, como arroz, bacalhau e aletria, só se usam nas festas, ou excepcionalmente, pois o furnense não pode suportar despesas dessas com frequência.

O Pão
O pão aqui não é só o símbolo de alimento, como é ainda a base do sustento do homem desde que nasce até que morre. O citadino, habituado a uma alimentação rica e variada, não compreende o papel que o pão desempenha na alimentação do povo. Porém, o homem do campo, que fornece ao habitante das cidades tudo que que ele necessita para viver, não tem a sua disposição tal variedade de iguarias. Por isso, o pão que foi durante séculos o alimento da maioria dos homens, continua a sê-lo, ainda hoje, das populações rurais.
O pão de Vilarinho é feito de farinha de milho e centeio, numa proporção de 6 rasas de milho para um ¼ de rasa de centeio. A farinha é transportada do moinho em foles de pele de cabra, e peneirada depois sobre a masseira, com uma peneira fina. A farinha é amassada com as mãos, durante muito tempo, depois de se lhe adicionar água fervente e formetito (fermento), deitando-se-lhe o sal necessário para ficar com bom paladar. Depois de bem amassada, alisam a massa e fazem-lhe uma cruz em cima com um dedo, enquanto murmuram: “Senhor te abençoe, que eu também te abençoei”. Depois de se ter passado o tempo que entendem necessário para a massa estar em condições de ir para o forno, começam a padejar o pão com uma gamela de pau, cunca.
Cada boroa tem um diâmetro aproximado de 45 centímetros, e é mais ou menos poligonal, de cantos arredondados, a tender para o círculo. Na masseira fica sempre um pouco de massa, para servir de formento na próxima fornada.
O forno é aquecido com giestas ou cavacos (achas), que ardem lá dentro durante bastante tempo. Depois dos resíduos da combustão serem retirados, com o rodo, metem-se as boroas com a pá de pau, umas ao lado das outras, até o forno ficar cheio. Depois deitam uma mão cheia de farinha seca pela boca do forno e dizem: “Senhor te abençoe no forno e fora do forno e a graça do Senhor no Mundo todo!” Enquanto dizem isto, fazem uma cruz com a pá sobre a boca do forno. Nem todos pronunciam esta oração assim, mas uma variante parecida: “Deus te acrescente no forno e fora do forno, assim como acrescentou o Mundo todo”. Há ainda uma versão jocosa que reza assim: “O Senhor te acrescente dentro do forno e fora do forno, todo para mim e para os outros um corno”. Não falta no povo espírito de irreverência, que, por vezes, se condensa em frases como esta. Sobretudo os contrabandistas, a quem a vida dura e cheia de perigos dá certa brutalidade selvagem, gostam, às vezes, de fazer humor sobre a crendice das mulheres. Mas, no fundo, há neles a mesma alma crente e supersticiosa, que procuram esconder com fanfarronadas. O homem que me ensinou esta paródia de reza, e que, às vezes, tinha sarcasmos ferozes, era duma enorme religiosidade e, além disso, um belo exemplo de generosidade e caridade.
Depois do pão estar dentro do forno, e de terem feito a reza habitual, fecham o forno com uma tampa de pedra ou de ferro, que calafetam com bosta fresca, para que se não perca nenhum calor. A tampa, com uma cruz gravada na parte de fora, só se tira três horas depois.
Quando fazem bolos, o que aliás é frequente, deixam a boca do forno aberta, e só a fecham depois, para cozer o pão. O pão tira-se do forno com a férrea (pá de ferro). De verão o pão dura 15 dias, e no inverno chega a aguentar um mês. Às vezes, deixam o pão guardado no forno, em cuja boca põem uma porta de grades, para os animais não poderem entrar.

Fumeiro
Toda a casa de Vilarinho da Fuma mata o porco no princípio do inverno, e prepara a carne de maneira a ela durar grande parte do ano. Esta preparação da carne de porco, a que se chama fazer o fumeiro, exige grandes cuidados e habilidade da parte da cozinheira, que põe à prova o seu saber e experiência, pois dela depende o alimento da família durante grande parte do ano.
Quase todos matam o porco na mesma ocasião, no dia da matança. Não quer isto dizer que o dia seja imposto pela colectividade, mas a tradição e o hábito de sincronizarem, praticamente, todos os actos importantes uns pelos outros, faz com que também o dia da matança seja quase sempre o mesmo para todos. O dia da matança é dia de festa; é o grande banquete, do ano, pois comem todas as partes do porco que não vão ser salgadas nem fumadas. Saciada a primeira fome de carne, olha-se então a sério para o futuro, e mete-se a carne na salgadeira bem acamada e coberta de sal, e aí fica durante mês e meio. Desta carne fazem os serranos diferentes espécies de alimentos: presuntos, dos membros, toucinho, das partes gordas do corpo, orelheira, da cabeça e da orelha, e carne ensacada, isto é a tripa cheia de carne, gordura, sangue, massa e temperos.

A carne ensacada toma diferentes nomes, conforme o conteúdo: chouriço quando é cheia de carne gorda, salpicão quando quase só leva febra de lombo, farinhatos quando levam massa de farinha e gordura, e chouriços, quando são de sangue, com gordura e temperos.
Todos estes alimentos têm o nome genérico de fumeiro, porque são conservados pelo fumo, mantendo-se durante meses suspensos sobre a lareira que, como não tem chaminé, obriga o fumo a acumular-se junto ao tecto até sair pelas frestas das telhas.
O fumeiro come-se aos poucos, durante todo o ano, com muita parcimónia, mas o inverno é a estação em que ele leva mais gasto. No verão, o pouco de toucinho, que vem para a mesa com as batatas e as vagens, é mais para dar gosto que propriamente para fartar.”

Bibliografia
Jorge Dias – Vilarinho da Furna: uma aldeia comunitária. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983. (Temas Portugueses). 1.ª ed., 1948