Vilarinho da Furna visto por Link, em 1798

Vilarinho da Furna. Fotografia de António Jorge Barros

Há muitos, muitos anos atrás, assim começam muitas histórias e assim vai começar esta…
Há muitos, muitos anos atrás Heinrich Friedrich Link, um cidadão de origem alemã, que foi professor entre outras Universidades, em Rostock, e de quem já falámos neste blogue (ver aqui e aqui), jornadeou por Vilarinho da Furna, corria então o ano de 1798.
Cento e cinquenta anos depois, um português, Jorge Dias, natural do Porto, e que foi leitor de português na mesma universidade por onde Link passou, Rostock, publica um livro intitulado «Vilarinho da Furna: uma aldeia comunitária», tema da sua tese de doutoramento defendida, em Munique, em 1944.
A aldeia de Vilarinho da Furna pertencia ao concelho de Terras de Bouro (distrito de Braga) tendo ficado submersa em 1971, quando aí se construiu uma barragem. Quando as águas descem, ainda é possível ver as ruínas das suas casas.

Vamos hoje dar-vos a conhecer, guiados por Link, Vilarinho da Furna, em finais do séc. XVIII, guardando para próxima oportunidade o texto de Jorge Dias sobre a alimentação furnense na primeira metade do século XX.
Admiremos o modo como Link se admira com a qualidade de vida do lavrador de Vilarinho da Furna que o acolheu. Link elogia a boa mesa e a boa cama, onde não faltava “nada do que se pode exigir na casa de um lavrador”, acrescentando mesmo que “muitos lavradores alemães desejariam para si uma sorte semelhante”. E, encanta-se também com “o modo cortês, aberto e amigável com que nos acolheram, a expansividade com que nos entretiveram, o fino cuidado com que nos trataram, uma atenção que na Alemanha teria de ser tomada como prova de uma educação esmerada”.
Entre os produtos que constituíam a alimentação do lavrador oitocentista de Vilarinho da Furna constavam o mel, o leite, a manteiga fresca e a carne de bode.

“Se se for de Covide até à fronteira com a Galiza por este planalto chega-se a uma grande aldeia, Vilarinho das Furnas. Logo a seguir eleva-se uma cadeia de montanhas rochosas, chamada a serra Amarela, que formam a fronteira. Vilarinho tem muitos habitantes abastados. Encontrámos aqui muito mel que não é raro nestas serras, mas também leite e manteiga fresca, coisas muito raras em Portugal. Havia uma série de bodes, cujos couros se vendiam no Alto Douro onde servem de odres para o vinho. Tivemos de morar aqui na casa de um lavrador, para a qual nos trouxe o nosso guia, porque não havia nenhuma estalagem na aldeia. Para Portugal a casa era já boa, tinha um piso, mas evidentemente nenhuma janela e o chão não tinha soalho, de facto não se destacava das restantes casas da terra. Mas na casa propriamente dita não faltava absolutamente nada do que se pode exigir na casa de um lavrador. Presunto, leite, manteiga existiam em abundância e eram muito bons, tivemos oportunidade de constatar que a numerosa família desta casa vivia muito bem e muito confortavelmente, muitos lavradores alemães desejariam para si uma sorte semelhante. Deram-nos camas que eram já de si muito boas e que tinham uma roupa muito branca e asseada, que antes tinha sido retirada dos baús. Nunca teríamos imaginado isto a partir da casa, tivemos mais vezes ocasião, especialmente nesta província, de nos enganarmos de forma semelhante, um viajante apressado teria indubitavelmente chamado a Vilarinho uma aldeola miserável. Mais ainda do que os alimentos bons e frescos e as belas camas, o que nos encantou foi o modo cortês, aberto e amigável com que nos acolheram, a expansividade com que nos entretiveram, o fino cuidado com que nos trataram, uma atenção que na Alemanha teria de ser tomada como prova de uma educação esmerada. Foi com dificuldade que à despedida a dona da casa aceitou uma moeda, evidentemente para pagar a comida e a bebida, mas que neste país nem sequer as camas limpas e delicadas pagaria. Ela achou que era muito, enquanto estivemos nas Caldas aparecia de tempos a tempos e presenteava-nos com manteiga fresca. Era uma bondade natural, não esperava nada em troca, o nosso guia só nos tinha acompanhado uma vez e não nos conhecia mais do que isso, e decerto que éramos os primeiros forasteiros que desde há longo tempo se perdiam por esta aldeia para procurar algumas pedras e plantas.
Pudesse a minha fraca voz saudar um povo amável, que ingleses estupidamente orgulhosos estigmatizaram!”

BIBLIOGRAFIA
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005. P. 214-215

Anúncios

Clenardo e a estalagem junto ao Tejo… no século XVI

Cebolas. Fotografia de Ana CastroOs estrangeiros que viajaram pelo nosso País, e que publicaram as suas viagens, são unânimes em referir a má qualidade das estalagens, quer no respeitante à comida quer à dormida. No seguimento do texto anterior, também da autoria de Clenardo (ver aqui), damos a conhecer a estalagem onde este pernoitou (em 1537?), junto ao rio Tejo, e onde tão mal recebido foi …
Através deste texto apercebemo-nos do que então se comia. E, o que não deixa de ser interessante, o facto de já nessa época o povo apreciar comer cebola crua ou assada, regada ou não com azeite e vinagre.
Alguns anos passados, em 1701, também Thomaz Cox e Cox Macro, reparam no gosto dos portugueses por “cebolas e pão” (COX; MACRO, 2007: 103 E 267).
Há muitos anos atrás, em terras do Gerês, também nos foi oferecido um manjar semelhante – cebola e pão…
E será também oportuno lembrar aqui um velho ditado popular que diz –  “À falta de capão, cebola e pão”. Ouvi pela primeira vez este ditado em Barcelos. Bem que Clenardo o poderia ter utilizado na noite em que pernoitou junto ao Tejo…

Epístola de Nicolau Clenardo aos Cristãos (…) (ca 1541)
“Depois duma jornada tão longa, avistámos enfim uma casita. Foi uma alegria! Deitámos a correr para almoçar…
Compensámos os danos da noite anterior; ainda por cima os almocreves animavam-nos e prometiam mundos e fundos, se atravessássemos o Tejo e chegássemos a Tancos, povoação que nos esperava lá para o entardecer. Tanto nos buzinaram ao ouvido com o vinho desta terra, e as suas galinhas, e as suas perdizes, e os seus capões, e a sua carne de carneiro e de vaca, numa palavra a boa mesa da Sicília, que nós, com a água na boca, atirámos-lhe mais abundantemente ainda aquele Baco de Évora, pouco faltando para empinar a borracha levando-a até às fezes.
Mas os lamentos substituíram bem depressa esses extremos de regozijo, saindo-nos muito cara a demasiada alegria, antes de tempo, do festim. Com efeito, a noite surpreendeu-nos, quando chegámos à margem do Tejo. Àquela hora já se não podia atravessar o rio…
Desabafei ali mesmo o meu desapontamento sobre os almocreves: pois não viram que se nos demorava demasiado o almoço? Que havíamos de fazer agora?
Havia ali uma estalagem, que nunca contara decerto, nós iríamos lá bater um dia. Dirigi-me ao dono: – Olá estalajadeiro, cá há palha? Mas o raio do Polifemo continuou a passear e não se dignou de responder uma palavra sequer. Eu insisti: – Meu caro senhor, perguntava eu se tem palha para os burros? Enfim, lá respondeu a custo e de muito mau modo: – Não sei.

Entretanto os outros andavam numa roda-viva a descarregar os fardos e a procurar palha, pois temíamos mais pelos cavalos que por nós. Tinha-se passado nisto já meia-hora, quando um dos almocreves me veio anunciar que a casa estava repleta de palha. Não me tive que não exclamasse: – Se eu fosse o rei de Portugal, raios me partam se não mandasse crucificar este estalajadeiro!
Ao mesmo tempo fui lançando o rabo do olho para a cozinha, a ver se havia alguma coisa ao lume.
Que há para a ceia, ó patroa?
– Não tenho nada, respondeu.
– Nada absolutamente?
– Absolutamente nada.
– Mate-nos então uma galinha.
– Não crio galinhas para matar…
– Há ovos, pelo menos?
– Quem mos dera! Não se encontrou nenhum.
– Não haverá nem sequer por aí umas cabecitas de peixes do ribeiro?
– Credo! Comer peixe ao dia de carne!
Palavra que se El Rei estivesse presente, eu mesmo teria feito de algoz, e não garanto que não imitasse os antropófagos…
– Guilherme, ordenei eu, põe a mesa.
Enquanto punham sobre a mesa o saleiro e um ou outro pão, eu tinha os olhos espetados numa panela que estava ao lume!
Que é aquilo que está a cozer?
A vendeira respondeu-me: – É toucinho.
– Faça-me então o favor de me ceder um bocado ao menos. Eu contentava-me o bastante para molhar nele o pão da ceia.
Não, não posso, acudiu. É todo preciso para os criados.
Mas, enfim, à força de pedidos, sempre obtivemos um bocado, aí coisa duma onça. Até estou em acreditar que apareci agora feito italiano, pois é em algumas terras da Itália que a carne se costuma vender às onças.
Mas o que fomos nós fazer! Aquela pitada de carne excitou o estômago, como se o tivesse roçado de mansinho: agora é que era ter apetite de mais carne de porco!
Perguntei então se não havia mais toucinho na casa.
Havia.
– Bem, então deite mais na panela, ou asse-o nas brasas.
Mas o estafermo da mulher replicou lampeira que a carne de porco à noite fazia mal ao estômago.
Diabos te levem, ó minha bruxa, mais a tua medicina!
Os dentes comiam-lhes, ao holandês Guilherme como a Clenardo de Barbante. Virando-me para os arrieiros, disse-lhes: – Que é das ricas perdizes que imaginámos ao almoço? Porém eles roíam as suas cebolas cruas, sem se incomodarem com o caso. Até me deram de conselho que comesse eu também algumas cebolas assadas. Este conselho pareceu-me uma âncora de salvação. Temperam-se com azeite e vinagre: o azeite ainda no-lo forneceram posto que mesquinhamente, mas o vinagre era coisa que não havia naquela maldita casa, a não ser uma especialidade de vinho que nos deram, a que melhor caberia o nome de vinagre. Temperámos com este molho de azeite as cebolas, e achei-as tão saborosas que nunca mais deixei de levar na minha bagagem este remédio maravilhoso contra todas as adversidades e má fortuna. Que pena não se terem assado mais algumas! Estava com uma fome devoradora nessa noite; creio que foi por causa de me ter levado dos diabos que fiz tão bem a digestão do jantar. Por Deus lembrou-me de molhar em vinho tostas de pão. Perguntei logo se tinha sobrado algum vinho daquele de Évora.
Não senhor, respondeu Guilherme. A gente deu largas excessivamente à alegria durante o almoço, bebendo um pouco indiscretamente.
Mas eu insisti: – Vê lá se arranjas ainda algumas gotas para salpicar ao menos o pão com esse restozito daquele odorífero Baco diluído em água.
Conseguiu-se assim aí meio copo. E com essas sobremesas se fechou brilhantemente aquele opíparo banquete.
Só houve um grande inconveniente: e foi que, depois daquela nova iguaria, o estômago pôs-se a ladrar ainda mais. Mas já se tinham esgotado todos os meios, não havendo mais comestíveis para que apelar. A noite pelo menos prometia-nos alguma consolação, com a esperança de dormir numa cama mole e fofa.
Dei ordem ao Guilherme que me mandasse preparar a cama para me deitar.
Mas o vendeiro intervém:
– Nestes meses de verão não há necessidade de camas.
Respondi-lhe pronto: – Mas preciso eu, que não estou acostumado a dormir no chão ou sobre tábuas nuas.
Mas agora é a mulher que se intromete dizendo: – Porém nós é que não temos cama.
Não pude deixar de dizer para mim, à vista disto: – Oh lusitanos, porque é que empregais palavras mentirosas? Eis aqui está o que chamais uma estalagem, onde não há que comer, nem se pode dormir!
Enfim, depois de muita troca de palavras, mudando de rumo para pedidos mais persuasivos, sempre consegui, Deus sabe quanto custou, uma coisa que tinha a aparência de cama.
No dia seguinte, depois de feitas as contas, soube porque razão os escritores chama aurífero ao Tejo: – uma sombra de ceia com cama custou mais do que um magnífico banquete de Brabante! Se ninguém até agora descobriu nesse rio veios de oiro ou mesmo simples palhetas, acredite em mim quando digo que lhe chamaram aurífero por nos levar o oiro que trazemos na bolsa. É até mais muito poético tomar simples pelo composto: haja vista Juvenal que emprega Pomamos nímios gemitus, querendo dizer deponamus”.
In M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

Bibliografia
CEREJEIRA, 1926
M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

COX; MACRO, 2007 [1701]
Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

Os portugueses e os rabanetes… no século XVI

Nas leituras que vou fazendo, aqui e ali, deparo com textos que nos “caracterizam” como povo. A epístola quinhentista de Clenardo que abaixo transcrevo, é um desses textos que frequentemente relembro e releio. Passaram quase quinhentos anos sobre o que Clenardo escreveu sobre nós, mas, a verdade é que continuamos com os mesmos defeitos, o mesmo gosto pelas aparências…
Nicolau Clenardo foi um humanista de origem flamenga (Diest 1493/1494 – Granada, 1542), mestre do Cardeal-Rei D. Henrique. Viveu em Évora e percorreu o país, tendo estado, por exemplo, em Braga e Guimarães.
Numa das muitas cartas que escreveu ao seu amigo, o humanista Tiago Látomo, teólogo em Lovaina, caracteriza os portugueses, contando uma história… A carta foi enviada de Évora, a 5 de Março de 1535.

“Clenardo ao seu querido Látomo
(…) Se quisesse condescender com os costumes desta terra, começaria por sustentar uma mula e quatro lacaios. Mas como seria possível? – Jejuando em casa, enquanto brilhava fora como um triunfador, e teria que tragar este amargo remédio de dever mais do que poderia pagar. Eis aí o que faz um cortesão acabado!
Isto faz-me lembrar um certo indivíduo, pelo qual imaginareis os outros. Este, cujo retrato vos vou descrever, andava de rixa com um estrangeiro, creio que francês, que viera para Portugal no tempo de D. Manuel, como fazendo parte da casa da rainha D. Leonor. O português levava-lhes a palma no fausto exterior, mas o francês tinha melhor mesa. Conhecendo este, como quer que fosse, os hábitos locais e levado pela curiosidade, conseguiu habilidosamente obter o livro onde eram lançadas as despesas diárias do outro. Acertou de dar logo com os olhos num passo bastante cómico, mas genuinamente português. Encontrara apontada a seguinte diária:
Água……. 4 ceitis
Pão …….. 2 reais
Rabanetes …… 4 ½ reais

E como durante toda a semana continuassem estas prodigalidades, imaginou que o Domingo, esse pelo menos, seria lautamente banqueteado; mas para esse dia (que viu ele?) achou simplesmente isto escrito: – ‘Hoje nada, por não haver rabanetes na praça’.

Há aqui, meu caro Látomo, uma chusma desses faustosos rafanófagos, que trazem todavia pela rua atrás de si maior número de criados do que de reais gastam em casa. E até creio que chega a havê-los, com menos rendimento do que eu, que, não obstante, trazem uma comitiva de oito criados, que sustentam sabe Deus como, se não à custa duma abundante alimentação, certamente à força de fome e por outros meios, que eu sou muito estúpido para aprender nunca em dias de minha vida. E não é muito difícil recrutar uma turba inútil de servidores, porque esta gente prefere tudo a suportar a aprender qualquer profissão.
Mas para que serve, perguntar-me-eis vós, um tal séquito? – Não falta que fazer a cada um, embora todos levem vida regalada: dois caminham adiante; o terceiro leva o chapéu; o quarto o capote, não adregue de chover; o quinto pega na rédea da cavalgadura; o sexto é para segurar os sapatos de seda; o sétimo traz uma escova para limpar de pelos o fato; o oitavo um pano para enxugar o suor da besta, enquanto o amo ouve missa ou conversa com algum amigo; o nono apresenta-lhe o pente, se tem de ir cumprimentar alguém de importância, não vá ele aparecer com a cabeleira por pentear. Dou testemunho de coisas que tenho visto com os meus próprios olhos. (…)
Évora, 5 de Março de 1535”.

In M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 279-280.

As caldas do Gerês no verão de 1798

Calda do Gerês

Num outro texto já se transcreveu a descrição de Link sobre o mosteiro de Santa Maria de Bouro e o que lá se comia (https://saberescruzados.wordpress.com/2012/01/03/o-mosteiro-de-santa-maria-do-bouro-no-olhar-de-um-estrangeiro-final-do-seculo-xviii-a-mesa-conventual-e-outros). Neste, continua-se a acompanhar Link na sua viagem através de Portugal, dando a conhecer a sua estadia nas Caldas do Gerês (freguesia do concelho de Terras de Bouro) onde permaneceu durante um mês, em plena época balnear, corria o ano de 1798.
Neste texto é bem visível o interesse de Link pelo conhecimento da flora e da fauna locais, mas também o seu interesse pelos usos, costume e alimentação. Estive hesitante entre colocar excertos do texto sobre o Gerês ou colocar o texto completo. Optou-se pela segunda hipótese dado ser um documento do máximo interesse para o conhecimento desta região, hoje inserida no Parque Nacional da Peneda Gerês. O texto que transcrevemos foi extraído da magnífica edição da Imprensa Nacional, com tradução, introdução e notas de Fernando Clara (LINK, 2005: 203-216).
Realça-se aquilo que mais nos interessa – a descrição da casa, a dieta termal, a convivência entre as pessoas, o cultivo do milho e da batata, a vezeira, a predilecção pela carne do cabrito montês.
As fotografias não são da nossa lavra, são uma generosidade de António Jorge Barros, um excelente fotógrafo que tem calcorreado ao longo dos últimos anos o Parque Nacional da Peneda Gerês e capturado belas imagens (http://antoniojorgebarros.weebly.com/vendas.html). A ele o nosso reconhecido e sincero obrigado.
E agora recuemos até ao verão de 1798 e acompanhemos Link na sua estadia nas Caldas do Gerês.

Gerês

“Descemos a encosta desta montanha perto de uma aldeia grande, Vilar da Veiga, e seguimos então pelo vale que sobe cada vez mais. Um rio ruidoso, o rio das Caldas, desce por entre rochas até ao meio do vale, as montanhas tornam-se mais altas e mais íngremes e depois de se ter subido bem uma légua aparece de súbito por detrás de um outeiro uma pequena terra de 40 casas no mesmo vale. É famosa pelos seus banhos quentes e por isso chama-se Caldas do Gerês. Demorámo-nos aqui quatro semanas para estudar as curiosidades naturais da serra, a povoação estava também muito animada, justamente agora na época termal.
O vale onde esta terreola se encontra é invulgarmente estreito. A leste as casas estão encostadas à montanha, a oeste um pequeno rio banha as casas e o sopé de uma outra montanha. Para norte o vale ergue-se igualmente rápido nas alturas, um outeiro a sul, antes de o vale descer, fecha completamente este buraco. As montanhas são muito altas, íngremes e rochosas, a maior parte das vezes sem floresta, árvores como por exemplo carvalhos, amieiros (Rhamnus Frangula), azereiros (Prunus lusitanica) e oliveiras encontram-se apenas nas margens do rio. Em vez de árvores as montanhas estão cobertas por um matagal muito espesso que as torna impenetráveis, especialmente à beira dos ribeiros, medronheiros (Arbutus Unedo) com uma altura que vai de seis a oito ou a 12 pés, a urze branca (Erica arborea), azereiros e duas espécies de Cytisus ainda não descritas (procerus e villossissimus). Nos cumes altos vêem-se carvalhos solitários de uma espécie singular. Mais para sul, vale abaixo, as montanhas tornam-se muito áridas e não têm quase nada a não ser cistos e urzes, especialmente Cistus scabrosus Ait., cheiranthoides Lam. e Erica umbellata.

Carvalhal. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Desde há alguns anos que esta terra, com as suas termas, se tornou mais famosa do que antigamente era e constroem-se ainda casas novas, de modo que na região fechada em breve não haverá mais espaço para elas. Os banhistas vêm das vilas do Minho, no entanto estas termas são também frequentadas por ingleses do Porto. Como a região é muito agreste, os habitantes dirigem-se no Inverno para Vilar da Veiga e em Maio voltam de novo para aqui. As casas são de pedra, mas estão muito mal construídas, têm todas apenas um piso, aposentos pequenos e maus, a maior parte sem janelas envidraçadas e o chão não tem soalho. O mobiliário é composto por uma mesa e bancos toscos de madeira, tudo o resto, sem exceptuar o mais pequeno pormenor, tem o próprio de trazer consigo. Não se pense em encontrar aqui moradores ou serviço, habitualmente é apenas aberta a casa e o forasteiro toma simplesmente posse das paredes vazias, da mesa e das cadeiras. Na povoação propriamente dita só se pode comer carne de vitela (meio vitela, meio vaca), arroz, laranjas, vinho carrascão regional, raramente o vinho melhor do Douro e ainda mais raramente peixe. Açúcar, especiarias, café e todas as outras necessidades têm de se mandar buscar a Vilar da Veiga, portanto a uma légua de distância, e mesmo aí não se consegue grande coisa. Até a farmácia fica em Vilar da Veiga e nem vale a pena pensar num médico das termas. Uma pequena praça, com uns 200 passos de comprimento e largura, constitui o passeio público. Em toda a região não se pode viajar, as pessoas mais fracas e as mulheres viajam aqui, como em muitos outros sítios do Portugal montanhoso, em liteiras que tal como na Alemanha são puxadas por dois cavalos ou por duas pessoas. Caldas, escondida numa montanha agreste na fronteira do Reino, está ainda totalmente esquecida pelo Governo.

Medronhos. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

As fontes quentes brotam do lado leste da terra, de uma parede rochosa de granito no sopé de uma montanha alta. Há aqui quatro, cada uma com um nome particular, por exemplo a da Figueira porque por cima dela cresce das rochas uma figueira, a do Bispo, etc., e por cima de cada uma delas foi construída uma casinha quadrada em cujo centro se encontra uma cavidade que se emparedou para o banho. Só se pode banhar uma pessoa de cada vez. Em vez da porta existe um simples cortinado. Se este está descido é porque alguém se encontra no banho, as mulheres no entanto não confiam o bastante nos olhares masculinos e põem uma criada à porta. A água também se bebe, recolhendo-se então aquela que brota da rocha em vez daquela que corre na cavidade onde se toma banho.
Uma destas fontes tem notoriamente sulfureto de hidrogénio, mas em pouca quantidade, as outras têm ainda muito menos e uma das fontes não mostra sequer quaisquer vestígios dele. A água também não mostrou qualquer reacção visível aos poucos reagentes que tínhamos connosco, ao nitrato de prata por exemplo, e parecia por isso muito pura. A temperatura é do mesmo modo muito diversa. Uma fonte é consideravelmente mais quente do que a das Caldas da Rainha, a mais fraca não é porém tão quente, o calor não excede no entanto os 40° Réaum. e pode-se tomar banho na mais quente de todas.

Caldas do Gerês

A época dos banhos dura de Junho a Agosto. Embora a temperatura seja de facto frequentemente muito quente no vale estreito, de tempos a tempos os nevoeiros arrefecem muito o ar nestas montanhas. De manhã uma pessoa levanta-se às quatro horas, toma-se de imediato banho ou bebe-se a água e depois dá-se um passeio até cerca das sete horas. Desce-se o vale ou sobe-se por um caminho acima da povoação onde muitas beldades alemãs ficariam com vertigens, as pessoas mais fracas, muitas mulheres também, montam em machos e burros. Depois deste passeio toma-se o pequeno-almoço, mais tarde, pelas 12 horas, almoça-se e posteriormente faz-se uma sesta. Depois das quatro horas toma-se de novo banho ou bebe-se água, logo de seguida dá-se um segundo passeio assim que o sol abandona o vale, a seguir uma pessoa dirige-se para uma mesa de chá ou de jogo e depois das dez horas vai cada um para sua casa para tomar uma ceia leve. Este é o modo de vida naquelas longínquas e perdidas termas. A dieta que se prescreve, transmitida e espalhada pela tradição já que não há médico das termas, é tão severa quanto ridícula, uma vez que também o pedantismo e a charlatanice dos médicos chegou até este canto. Enaltecem-se muito os efeitos do banho e não há dúvida de que um banho assim tão quente pode ter efeitos bons, mas os efeitos do movimento, a distracção, a inactividade dos negócios, a mudança, o ar puro (ou melhor impuro e justamente por isso salutar) da montanha[1], a dieta prescrita e aqui especialmente forçada porque não há mais nada para comer, não devem de forma nenhuma ser esquecidos. Aqueles que só bebem água ficam provavelmente melhor, apenas por causa destes últimos motivos.

Mel, pão, nozes... Fotografia de António Jorge Barros

O modo de viver e as maneiras em sociedade dependem justamente das pessoas que ali se encontram. A nobreza do Minho, muito numerosa mas não rica, constitui no entanto habitualmente a maior parte da sociedade local. Esta nobreza é talvez melhor do que a nobreza mais rica que está mais perto da Corte, mas é orgulhosa, como toda a nobreza portuguesa, embora seja difícil notar esse orgulho numa primeira conversa em virtude da cortesia nacional. Mesmo nesta pequena terra a gente de condição, sacrificando magnanimamente o seu próprio prazer, abstinha-se de ultrapassar certos limites, o que não raro diferenciava a verdadeira sociedade fina da apenas dita fina. Uma mulher de condição nunca sai sem que o seu escudeiro[2] vá diante dela a uma distância de 20 passos sempre com a cabeça descoberta e o chapéu na mão. Uma dama nobre, que por vezes tinha vapores, mandava até um criado segui-la com um defumador. Aliás a sociedade é demasiado pequena e uma pessoa repara demasiado nas outras para que se possa comportar livre e alegremente, e claro, uma vez a graça portuguesa irrompeu num pasquim desabando sobre a maior parte dos frequentadores das termas. Entretanto alguns belos olhos expressivos procuram e encontram uma resposta e onde os ribeiros descem da montanha, os azereiros formam habitualmente um matagal tão alto e tão espesso que ali, onde o vale se eleva, se pode ser feliz e espalhar a felicidade apesar dos olhos vigilantes. Estas atractivas meninas, muitas vezes da melhor sociedade e com a melhor educação, frequentemente com os sentimentos mais finos e delicados para com as belezas da poesia, a julgar pelos ternos versos que são gravados nas cascas dos azereiros[3]*, não é raro ocuparem-se em sociedade a… catar piolhos.

Azereiro. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Em termos gerais a serra do Gerês estende-se de leste para oeste, mas tem muitas ramificações para sul. O vale onde Caldas se encontra tem justamente esta orientação, para norte eleva-se cada vez mais, mas apenas até um certo ponto, e desce de novo um pouco perto da fronteira com a Galiza que está apenas a três léguas das Caldas. Torna-se sempre mais estreito, mais rochoso e mais florestado, finalmente passa-se por uma sombra espessa de belos e altos carvalhos, os ribeiros sussurram em redor, surgem penhas altas e rasgadas, a serra torna-se mais agreste e adquire no final um estilo sublime. Perto da fronteira espanhola o rio Homem atravessa transversalmente o vale, dirigindo-se para outro vale. Vêem-se aqui as ruínas de uma ponte romana e muitos pilares dispersos que faziam parte de uma estrada romana. Os vestígios de arte numa região solitária e agreste impressionam muitíssimo, a torrente ruidosa esforçou-se em vão ao longo de séculos para destruir estas sólidas muralhas daquele povo poderoso. Um pequeno atalho, por onde é penoso passar, conduz-nos agora neste local a um outro Reino.
Num desfiladeiro chamado Portela do Homem[4] onde a cumeada da serra deixa uma abertura considerável, encontra-se a fronteira espanhola. A vista não é de longe tão bela como a do Minho, as montanhas são ainda altas e, se bem que os vales sejam mais abertos e largos, não estão tão bem cultivados. No entanto não se acredita que se está noutro Reino, ouve-se ainda a língua portuguesa, vêem-se os costumes e os modos de vida portugueses.
As mais altas montanhas do Gerês encontram-se a leste das Caldas, perto da cidade de Montalegre. A subida ao alto destas montanhas é de facto muito íngreme, mas a maior parte das vezes sobe-se confortavelmente porque os caminhos serpenteiam por entre os blocos de granito, e assim mesmo as pessoas que facilmente têm vertigens não correm qualquer perigo, exceptuando um ou outro local. Mas se uma pessoa se perde do caminho pavimentado, o que não é muito difícil, acaba-se ou num matagal impenetrável ou à beira de precipícios muitíssimo perigosos. O ponto mais alto forma um cume que se chama o morro de Borrageiro. Não consegui chegar a saber a etimologia deste estranho nome. Perto da Portela do Homem sobe-se o vale das Caldas por um caminho muito cómodo e um belo e luminoso carvalhal acompanha-nos durante dois terços da subida. Aqui, como ao redor da Portela do Homem, vê-se uma série de arandos que de resto não se encontram em Portugal, a par de várias outras ervas pouco habituais neste país. Perto do cume a cena muda de repente. Os carvalhos acabam e, para grande prazer de um homem do Norte que aqui se vê transportado para a sua pátria, aparecem apenas árvores nórdicas que não se encontram nas planícies e nas montanhas mais baixas de Portugal, a teca, o vidoeiro, a sorveira brava (Sorbus aucuparia) e o zimbro da montanha. O cume mais alto é composto por rochas amontoadas. A panorâmica para oeste é vasta, abrange-se uma grande parte do Minho, descobre-se o mar com as suas dunas, mas não é excepcional porque a vista não consegue penetrar nos belos mas estreitos vales, antes se fica apenas pelos cumes estéreis. Para todos os restantes pontos cardeais, a vista é obstruída pelas montanhas. Quanto mais se prossegue em direcção a leste, mais rude e agreste se torna a serra, encontram-se vales que são quase totalmente constituídos por rochas nuas e intransponíveis, onde apenas pequenos arbustos rompem aqui e ali das fendas das rochas. É a morada do cabrito montês. Para norte, perto da Galiza, chega-se a um planalto pantanoso onde encontrámos uma série de plantas alemãs que há muito não víamos. Pode-se descer daqui até ao rio Homem por um caminho íngreme e penoso, uma pessoa só tem de se acautelar para não o perder porque a serra perto deste vale, assim como perto de Portela do Homem, tem precipícios horríveis. Uma cumeada pontiaguda separa aqui a Espanha de Portugal.
Nestas serras é tudo granito, como normalmente em rochas amontoadas. Para além dos habituais componentes tem ainda frequentemente turmalina negra filamentosa, nas fissuras quartzo hialino e acastanhado. Mais raramente encontra-se um belo quartzo vermelho-rosa. A flora é uma mistura estranha de plantas alemãs e do Norte, biscainhas e pirenaicas, de plantas das planícies portuguesas, por exemplo espécies de urze, Asphodelus ramosus, etc., e finalmente de algumas plantas características desta serra, a maior parte delas não descritas.
Uma série de lobos tornam esta serra insegura. Mas o mais curioso é o cabrito-montês, um animal extremamente raro nas outras serras europeias (Capra Aegagrus Pall.). Vimos várias destas peles e finalmente foi trazido para as Caldas um bode abatido com três anos, onde o senhor conde de Hoffmansegg o comprou e em cuja colecção se encontra ainda a pele empalhada. O animal é maior, muito mais forte e mais musculoso do que um bode doméstico, são-no em especial as espaldas e os calcanhares. A fronte é mais alta, os cornos sobem mais empinados e são retorcidos para trás, a cauda é mais pequena. O pêlo é mais curto, espesso, de uma mistura de cinzento e castanho e muito parecido com o pêlo do veado, uma cruz negra estende-se pelo dorso e espaldas. O macho tem, como os bodes domésticos, uma barba e a fêmea não tem cornos. Fizemos cuidadosamente uma medição deste animal que de resto coincide totalmente com as descrições do escritor da Capra Aegagrus. Com a excepção do Gerês não se encontra em Portugal, também não sei de nenhuma notícia que tenha sido encontrado em Espanha. Não se pode de forma nenhuma saber com toda a certeza se se trata de uma cabra doméstica bastarda e degenerada ou se é um parente selvagem da cabra doméstica, agora é manifestamente diferente daquela. No entanto a última hipótese parece-me a mais provável. Não é raro encontrá-la daqui a Montalegre, é frequentemente caçada pelos habitantes e a carne é tão apreciada que o caçador, que de bom grado vendia o couro, não queria deixar ir a carne. Não é raro ver aqui o couro a cobrir os machos e os cornos expostos nas casas.

Víbora do Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Encontra-se uma série de lagartos e cobras nesta serra. Os primeiros pertencem na sua maioria à variedade pequena e verde da Lacerta agilis Linn., a espécie maior e verde encontra-se mais nas planícies quentes de Portugal, onde não raro este animal bonito e grande anda pelos caminhos e se vira atrevidamente contra o seu perseguidor. Aqui, as cobras são a autêntica víbora italiana (Vipera Redi e não Berus), que não é raro encontrar-se e é muito temida, a víbora dos habitantes, rara no resto do país; depois a bela Coluper Aesculapii e uma outra, de uma espécie inofensiva talvez ainda não descrita. Por causa da quantidade de bichos, de cinco em cinco anos é queimado o mato, conseguindo-se assim ao mesmo tempo novo alimento para o gado, embora se diga sempre que é pelo primeiro motivo que isso se faz. Esta queima colocou-me algumas vezes em grandes embaraços. Perto da Portela do Homem, um patife da Galiza tinha posto fogo ao matagal seco à volta do caminho, por todo o lado se viam subir as chamas e o fumo e, no vale estreito rodeado de penhascos íngremes, não havia qualquer saída. Finalmente conseguimos alcançar com esforço o rio Homem e esperávamos escondermo-nos no rio, mas felizmente o vento estava muito calmo, o fogo não se propagou muito e em breve estava completamente extinto.

Lagarto. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

A criação de gado é considerável nestas serras. Na Primavera levam-se as vitelas para cima e deixam-se aí até ao Outono. Os pastores rendem-se de tempos a tempos. Bois de trabalho são levados para as pastagens mais baixas quando não trabalham, pelo menos isto acontecia sempre no domingo. Os vales, especialmente o vale das Caldas, estão magnificamente cultivados. Onde era possível ganhou-se um pouco de terra à serra, frequentemente vê-se um campo de milho entre penhascos, em sítios onde mal se pode passar. Nas encostas a terra está muitas vezes disposta em eirados e é cuidadosamente regada para formar prados artificiais, que aqui são maioritariamente compostos pela erva-serôdia (Holcus lanatus). Também se começa a plantar batatas.
Não podemos indicar a altitude da serra em virtude dos motivos já conhecidos. A neve não dura muito tempo, no entanto à volta do morro cai muitas vezes numa quantidade tal que se espetam varas para indicar o caminho ou fazem-se montes de pedras. Vimos uma série de sinais deste género. A serra parece mais íngreme, agreste e rochosa do que alta, e estimo que o morro esteja aproximadamente a uma altitude de 3 a 4000 pés. É de longe mais baixa do que a serra da Estrela.
As montanhas do lado oeste das Caldas são igualmente muito íngremes mas não tão altas, o caminho que vai pela montanha directamente das Caldas até à aldeia de Covide é muito fatigante. Do outro lado desta montanha, perto da referida aldeia, vêem-se ruínas, provavelmente de uma antiga fortificação, mas que os habitantes diziam ser as ruínas de uma cidade antiga chamada Calcedónia. Não é provável que uma cidade se tenha situado numa região tão agreste e rochosa na encosta de uma montanha, estando as ruínas limitadas a uma praça demasiado pequena para poderem provir de uma cidade.

Urze. Gerês. Fotografia de António Jorge Barros

Não conseguimos descobrir inscrições ou qualquer coisa semelhante, vimos simplesmente muralhas ruídas, como nos nossos palácios pilhados, e também não encontro notícias em nenhum autor sobre a estranha origem desta opinião popular[5]*. O belo e bem cultivado planalto rodeado de montanhas cheias de florestas, por outro lado, exibe a descoberto vestígios nítidos de uma estrada romana que passava igualmente pela Portela do Homem, vêem-se muitas colunas e marcos miliários com inscrições. Notáveis, de um ponto de vista mineralógico, eram as grandes rochas de quartzo puro que se destacavam desta planície granítica.”

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.


[1] Para esclarecimento tenho porém que acrescentar para alguns leitores que o ar da montanha contém menos oxigénio (ou ar puro) do que o ar nas regiões mais baixas.
[2] Escudeiro quer na realidade dizer aquele que leva o escudo, dá-se no entanto este nome ao primeiro criado ou ao mordomo da casa.
[3] De entre os epigramas que um azereiro exibia, ocorre-me ainda por acaso o seguinte: Falsas pastoras I Sexo traidor I A mesma sombra I Vos causa ardor. Podia ainda dar muitos exemplos que mostram que a versejante juventude portuguesa é muito dada aos concetti.
[4] No mapa de López encontra-se ainda a alguma distância da fronteira com a Galíza, em vez de a formar.
[5] Talvez Cinninio, de que Valer. Maxim. I. VI.c.Iv. fala. [NOTA DO TRADUTOR: Cinínia: antiga cidade da Lusitânia, cuja localização é desconhecida, que de acordo com Valéria Máximo resistia ainda aos romanos quando já toda a Lusitânia se lhes havia submetido].

O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

Heinrich Friedrich Link nasceu na Alemanha, em Hildesheim, a 2 de Fevereiro de 1767, e faleceu em Berlim, a 1 de Janeiro de 1851, foi um reputado médico, botânico e naturalista alemão. Link esteve de visita a Portugal, acompanhando o conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, “numa viagem que tinha como objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa” (LINK, 2005: IX-XXVIII).
Era um excelente observador, rigoroso e sistemático nas suas análises, e conhecedor da língua portuguesa. O livro que escreveu sobre Portugal foi publicado pela primeira vez em alemão, em 1801. A edição portuguesa que utilizamos intitula-se «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha» (LINK, 2005).
Neste texto damos a conhecer apenas o que escreveu sobre o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, incluído no capítulo referente a «Viagem a Braga. A província do Entre Douro e Minho», e onde esteve alojado, no verão de 1798.
Parece que a educação dos monges não era a melhor, mas, pelo interesse que temos sobre o comer e o modo de comer chama-se a vossa atenção para as laranjas que existiam na cerca do convento e para a parte do texto onde o autor descreve como eram as refeições conventuais, o que se comia e o que se bebia.
Para quem não saiba, actualmente, no mosteiro de S. Maria de Bouro funciona uma pousada, sendo da autoria do Arquitecto Souto Moura o projecto de recuperação e adaptação do edifício. A pousada fica no município de Terras de Bouro (distrito de Braga).

Escreve Johann Heinrich Friedrich Link: “Depressa deixámos Braga para conseguir observar na melhor estação do ano a serra limítrofe que separa Portugal da Galiza a norte, a ainda quase não explorada serra do Gerês. A uma légua de Braga chega-se a uma pequena aldeia chamada Ponte do Porto em virtude de uma ponte de pedra que aí atravessa o Cávado. Este vale é de novo extremamente encantador e agradável. Ao longe parece apenas uma floresta densa de árvores altas, mas estas árvores envolvem campos e jardins. Não se vêem as casas dispersas e escondidas por espessas sombras, mas pessoas bem vestidas, mesmo as mulheres que frequentemente se encontram anunciam a sua proximidade. Por montanhas de granito chegámos ao mosteiro beneditino do Bouro, a duas léguas de distância. Fica numa depressão no sopé da serra, é muito rico e os edifícios são também grandes e não estão mal mobilados. Mesmo junto ao mosteiro os monges têm uma grande quinta cheia de laranjeiras, as laranjas, que são expedidas para Braga e outras terras próximas do Minho, são boas. Não muito longe do Bouro encontra-se numa montanha uma igreja com uma imagem milagrosa de Maria, para onde se realizam muitas peregrinações. Chama-se Nossa Senhora da Abadia, porque o Bouro é uma abadia, e não Nossa Senhora da Badia, como está nalguns mapas. De acordo com as nossas observações barométricas, o Bouro está 500 pés acima do nível do mar, uma baixa altitude onde se podem ainda plantar laranjeiras e produzir boas laranjas. Esta foi a nossa última observação barométrica. Felizmente trouxemos de Lisboa até aqui um barómetro de viagem Hurter para medir a altura do Gerês e da serra da Estrela, nos maus caminhos tínhamo-lo protegido contra todos os acidentes, aguentara até quando a carroça se virou, só que não pensamos em protegê-lo contra a má educação dos jovens monges que, por maldosa curiosidade, entraram furtivamente no nosso quarto e na nossa ausência destruíram termómetro e barómetro. Um dos maiores acidentes da nossa viagem. Já muitas vezes nos tinha sido penosa a curiosidade desta gente.
Uma vez que os monges nos quebraram o barómetro, que me sejam permitidas algumas notas sobre eles. A sua ignorância estava para além de tudo aquilo que se possa imaginar, a sua indolência, com a excepção dos exercícios espirituais habituais, também. Um abade velho e débil deixou embrutecer por completo as gentes jovens, daí que eles fossem tão malcriados como ignorantes. Apenas um irmão laico, o farmacêutico, se destacava enquanto jovem estudioso e ávido de saber. Em todos os conventos portugueses se come extraordinariamente muito, aos almoços tínhamos aqui por exemplo quatro pratos, mas todas as refeições eram cozinhadas sem qualquer arte e compunham-se na maior parte das vezes de quantidades enormes de todos os géneros de carne cozida. Toda a nação tem no entanto uma tendência para comer muito e muita carne. O vinho é na maioria dos conventos muito medíocre e nunca reparei que aí se bebesse excessivamente. Em geral nós bebíamos mais vinho do que os portugueses; parecia que o clima quente e para nós desusado o pedia, mas em compensação reparei também muitas vezes que um português fica já bêbado com alguns copos de vinho, copos esses que um alemão, e mais ainda um inglês (os maiores beberrões de todas as nações), nem chegam sequer a notar (LINK, 2005 [1801]: 203-216).

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.

As minhas leituras ou o modo como leio…

Confesso-vos o meu interesse por literatura de viagens…
De um modo geral as minhas leituras são vocacionadas para livros que de alguma maneira tenham a ver com a área da minha investigação principal – a cerâmica. Leio principalmente literatura oitocentista em busca de referências a cerâmica – oleiros, loiça, uso de peças – e, procuro também, por acréscimo referências à gastronomia, à mulher, e a temas que interessam pessoas de quem gosto – a ourivesaria, o traje… Nos meus livros, tal como nos de António Sérgio cuja biblioteca ajudei a organizar há muitos anos atrás, anoto a lápis, na página respectiva, os termos que suscitaram a minha atenção – cântaro, mel, oleiro, laranjeira, codorneiro… –, e, no final, nas folhas brancas que os livros costumam ter anoto esses mesmos termos indicando as páginas. Quando arranjo um bocadinho de tempo, nos meus afazeres familiares e no trabalho que tenha entre mãos, vou passando esses termos para o computador. Infelizmente, o tempo é curto e as fichas de leitura, como lhes chamo, são bem mais escassas do que as leituras que faço…
A minha letra nesses livros que vou lendo nem sempre é a mesma. Dará um dia, quem sabe, para que quem estuda grafologia possa perorar sobre o meu estado de espírito, a minha evolução no tempo. Seguramente que se interrogará porque está tão tremida, tão desajeitada, a letra dos termos que tenho vindo a apontar no livro de Henrich Friedrich Link… Mas, para que não seja desenvolvida uma teoria à sua volta eu passo a explicar que leio onde me é possível e nas condições possíveis. E o Link, o reputado médico e botânico alemão que publicou, em 1801, as «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e de Espanha», tem-me acompanhado nas idas diárias à fisioterapia. Deitada na marquesa de barriga para o ar, enquanto os aparelhos me vão tentando amenizar problemas entre a L4 e a L5, vou saboreando o Link, de lapiseira na mão, na boca, ou pousada sobre o corpo. E, quando algum passo do texto suscita a minha atenção, vou escrevendo, mesmo deitada e com o livro numa posição pouco usual, os termos que quero guardar para memória futura.
Há uns meses atrás, também na fisioterapia por problemas na cervical, as leituras eram bem menos saborosas. Costumava acompanhar-me a aridez das «Cortes Portuguesas» que em boa hora a Universidade Nova de Lisboa vem publicando. Uma “seca” diria a minha filha, mas uma seca que se impõe a quem busca referências à cerâmica dessas épocas, à fauna, à flora, aos alimentos e à alimentação.
Mas, voltemos ao início deste texto e ao meu interesse por literatura de viagens. Desde há uns anos que venho paulatinamente adquirindo o que se vai publicando, em português, sobre estrangeiros que nos visitaram. Busco, como já vos disse, referências à cerâmica e à gastronomia (fauna, flora, alimentos e alimentação), mas busco também o que pensavam os que nos visitaram das nossas pessoas. Tenho-me divertido imenso, concordado e discordado com o modo como os outros nos viram, mas tenho também aprendido imenso e conhecido o país de outras eras. Ah como continuamos os mesmos…
Quando vou fazendo estas leituras fico sempre com a vontade imensa de partilhá-las, mas, entre o desejo e o acto, perde-se a vontade de o fazer… Desta vez, o Link, cuja leitura me tem sobremaneira agradado, até porque encontrei referências à cerâmica portuguesa e à gastronomia, e a criação recente (tem poucos meses…) deste blog levou a que quisesse partilhar convosco a sua estadia no Mosteiro beneditino de Bouro. Tentarei começar a oferecer-vos outros textos de estrangeiros sobre o Minho. É bom que saibamos os juízos que sobre nós fizeram os que nos visitaram e que possamos aprender com a sua leitura…