Almoçar em Barcelona, em 1710: uma pintura em azulejo

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Ceràmica de Barcelona

Sempre que vou a Barcelona revisito o «Museu de Ceràmica». Nem de outro modo poderia ser pois a cerâmica é para mim desde há muitos anos uma área de investigação. Cada ano que vou descubro uma nova peça, uma nova cor, uma nova forma… De facto, quando visitamos um museu levamos connosco as preocupações, as ideias que na altura nos ocupam a mente e, por isso, projectamos no que vemos um olhar diferente, um olhar especial…
Desta vez, e porque nos últimos tempos me tenho ocupado da História da mesa e do que nela se põe, um painel azulejar setecentista que se encontra neste museu despertou em mim um interesse especial.

La xocolatada. Painel de azulejos datado de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Quando me deparei com o painel azulejar em forma de meia lua e representando «La xocolatada», logo a minha atenção foi despertada para duas cenas – a preparação do chocolate e uma refeição à mesa.
Comecemos por falar da origem deste interessante painel azulejar datado de 1710. Francesc d’Amat Grevolosa i de Planella, primeiro conde de Castelllar (1706), adquire em Alella, arredores de Barcelona, uma antiga propriedade na qual mandou construir um pequeno templo que decorou com quatro painéis de azulejos, desconhecendo-se no entanto qual a oficina onde foram feitos.
Actualmente dois destes painéis azulejares encontram-se expostos no Museu de Cerâmica de Barcelona, sendo que um deles representa uma tourada, e o outro, do qual nos ocuparemos aqui, representa «La xocolatada».
O tema tratado neste painel azulejar é no entanto muito mais vasto do que a preparação do chocolate, contendo diversas cenas todas passadas no exterior, dentro de um terreiro murado, rodeado de frondosa vegetação.
Noutro texto ocupar-me-ei da cena que representa a preparação do chocolate e o seu consumo, hoje, abordarei tão-só a refeição que se desenrola numa mesa e que aparece representada no canto inferior direito.
A cena passa-se durante o dia, sendo por isso a representação de um almoço ao ar livre. Numa mesa redonda, coberta por toalha branca que desce até aos pés, sentam-se, em cadeiras de madeira sem braços (note-se que uma das cadeiras tem bem visível o encosto em couro), doze convivas – seis mulheres e seis homens, os quais, pelo trajar demonstram ser membros da elite da época.

Uma mesa em Barcelona, em 1710. Painel de azulejos. Museu de Cerâmica de Barcelona. In http://www.miestai.net/forumas/showthread.php?t=5290&page=5&langid=1

Em seu redor cinco serviçais dedicam-se a servir à mesa – dois deles a bebida, dois a comida e um outro encarrega-se da loiça, possuindo estes três últimos sobre a veste um avental branco.

Em volta da mesa cinco serviçais servem a comida – ave e empada – e a bebida – vinho dentro de refrescador, e um outro retira os pratos sujos da mesa. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

À volta da mesa, como é comum em muitas das representações pictóricas com o mesmo tema, dois cães disputam os restos dos alimentos.

Cães disputando a comida. Painel de azulejos de 1710. Museu de Cerâmica de Barcelona

Olhemos com atenção para a mesa. Sobre ela encontram-se pratos e travessas de faiança ou porcelana (decorada na aba a azul), facas, colheres e garfos. Nas duas travessas pousadas sobre a mesa encontra-se comida – numa delas o que parece ser um peru assado, na outra uma empada, podendo reparar-se na borda esbicada desta. Aqui e ali vê-se pão, o que parecem ser dois pães e dois pedaços do mesmo.

Alimentos sobre a mesa: empada, peru e pão. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Note-se que parece haver um prato para cada conviva (não se vêm os pratos dos convivas que estão de costas mas tê-los-iam muito provavelmente) e vários talheres. Estes, no entanto, não se encontram dispostos do modo como hoje os colocamos, garfo à esquerda, faca e colher à direita. Fica-se com a sensação de que haveria uma faca por conviva, mas sem uma certeza absoluta – há sete facas para doze convivas, mas é provável que não estejam representadas as facas dos convivas que se encontram de costas. Repare-se também que apenas as facas têm cabos em madeira ou em osso, enquanto as colheres e os garfos os não possuem.

Sobre a mesa encontram-se sete facas, dispostas de modo displicente. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Na mesa, existem também três colheres dispostas de modo displicente e apenas dois garfos, sendo de notar que um é representado apenas com dois dentes e o outro com cinco. Pode ser que se trate de pouco rigor do artista que pintou o painel, mas é um pormenor em que se deve reparar.

Sobre a mesa três colheres e dois garfos. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Repare-se nesta dama a comer com as mãos- Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Será que nesta altura o garfo ainda não era um instrumento individual de uso comum? Os faqueiros completos já eram correntes na época, pelo que se estranha que não haja um garfo por cada conviva. Mas, repare-se, uma das damas agarra com dois dedos um pedaço de comida que se prepara para levar à boca, o que parece indiciar que ainda se continuaria a comer com as mãos…

Não há copos individuais pousados sobre a mesa, mas há dois copos de vidro que aparecem representados nas mãos de dois convivas, sendo que um deles estende o seu copo a um dos servidores para que o encha de vinho. Talvez ainda se continuasse com o costume dos séculos anteriores de haver um escanção a quem se pedia de beber sempre que se desejava, não estando o copo pousado sobre a mesa.

Copos de vinho de vidro. Painel de azulejo de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Não há guardanapos sobre as mesas. Esquecimento do pintor? Talvez…
Também interessante é verificar o uso do refrescador de vinho, encontrando-se um nas mãos do serviçal que serve um dos convivas, e outros dois pousados no chão.

Serviçais e refrescadores. Painel de azulejos de 1710. Museu de Ceràmica de Barcelona

Os refrescadores deste painel azulejar são muito semelhantes aos representados nos bodégons de Luis Meléndez (Nápoles, 1716 – Madrid, 1780), tratando-se de um recipiente feito de cortiça, revestido com aros de madeira. Dentro do refrescador colocava-se gelo, e, no meio a garrafa de vidro com o vinho, sendo coberto com tampa também de cortiça e com orifício próprio para deixar passar o gargalo da garrafa.

Luis Meléndez. Bodegón. 1770. Óleo sobre tela. Museu do Prado

Luis Meléndez (1716-1780). Bodegón. Óleo sobre tela. Museum of Fine Arts, Boston

Por último repara-se num dos serviçais que parece transportar mais uma empada para a mesa e outro serviçal que se afasta da mesa com uma travessa entre as mãos, provavelmente uma travessa suja que vai juntar aos pratos que já se encontram no chão.

Dois serviçais, um deles com uma travessa suja que vai depositar junto aos pratos que se encontram no chão

Esta cena deste painel azulejar, profusamente colorida e cheia de movimento permite-nos ficar a conhecer o modo como se comia à mesa, em Espanha, no início do século XVIII.
Não se esqueça, se for a Barcelona visite o Museu de Ceràmica e deleite-se com esta peça e muitas outras em que o museu é rico.

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A Nobreza à mesa, em 1701

Josefa de Óbidos. Natureza-Morta com Doces e Barros, 1676. Santarém, Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire

Voltemos a 1701, a Lisboa, pela mão de Thomaz Cox e Cox Macro. Em texto anterior já se falou da obra destes autores, veja-se aqui.
Desta vez somos convidados para a mesa dos nobres de então. Thomaz Cox e Cox Macro, mais do que uma descrição das refeições, deixam apontamentos de aspectos que lhes chamaram a atenção, seguramente porque diferente do que sucedia na sua pátria, Inglaterra. Os autores consideram os portugueses “comilões” e constatam que tinham por hábito fazer uma refeição entre o jantar (leia-se almoço) e a ceia (leia-se jantar). Ou seja, os portugueses tinham por hábito merendar. Os nobres lavavam as mãos antes da refeição, “mas não com muita frequência”. Sentavam-se à mesa e eram servidos pelos escudeiros, sendo que sobre esta existiam vários pratos, “na sua maior parte purés e carne guisada”. O gosto pela profusão de diferentes iguarias numa só refeição é atestado pela leitura do livro «Arte da Cozinha», de Domingos Rodrigues, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1680. Na sua obra Domingos Rodrigues sugere o que deveria constituir a refeição a servir a um embaixador, sendo a mesma constituída por seis “cobertas”, ou seja, conjunto de manjares que se colocam em pratos sobre a mesa e que, depois dos convivas terem comido se levanta para colocar nova coberta. Nesta proposta de banquete Domingos Rodrigues começa por sugerir se sirva manteiga, saladas e fruta, o que parece corroborar o escrito por Thomaz Cox e Cox Macro, os quais informam que “no verão, o primeiro prato é fruta”, ao qual se seguem os assados e os guisados.

Josefa de Óbidos. Natureza Morta: Frutos e Flores, c. 1670. Lisboa, Palácio Nacional de Queluz

O assado de carne não deliciou os viajantes ingleses, pois o modo de assar sobre a brasa, virando a carne de um e de outro lado, deixava o mesmo “ficar seco como a palha”. Também não foi do seu agrado o pão: “põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim”. Constatam também que não misturavam o vinho com água – “raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda”. O aqui afirmado parece contradizer o verificado em séculos anteriores, nos quais existia o hábito de misturar o vinho com a água. A água acompanhava invariavelmente os doces – “quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces”. Vários outros autores constataram também este hábito lusitano de comer doces acompanhados por água e não por vinho.
Josefa de Óbidos, taça com doces. Séc. XVII, 2.ª metade

No seu entender os portugueses eram gulosos comendo “grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde”. Já acima foi referido o hábito de beber água em sociedade sendo esta acompanhada com doces. Os nobres portugueses utilizavam na mesa “loiça de barro”, existindo “grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro”. Mas os autores alertam para problemas de higiene, ou melhor, a falta dela – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Esta loiça era “muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la”. Confessamos que este aspecto nos intriga. Será uma tradução menos feliz? Qual terá sido a palavra inglesa utilizada para designar “barro” e “louça de barro”? A facilidade com que a loiça repassava (ou nossos oleiros diriam “resumir”, ou seja ressumar), parece indiciar que se tratava efectivamente de olaria, ou seja loiça de barro fosco sem vidrado, o que causa estranheza pois normalmente associa-se à mesa dos nobres desta época o uso da prata, da porcelana e da faiança. Interessante também é verificar que já naquela época os oleiros tentavam vender peças que deixavam passar os líquidos. Na primeira metade do século XX, em Ponte de Lima, os clientes quando duvidavam se um cântaro vertia ou não, pediam para o encher com água. Um oleiro espertalhão para enganar o cliente quando via que o cântaro tinha algum pequeno orifício por onde a água vertia tratava de o tapar internamente com um pedaço de pão. Se o cliente pedia para o encher com água, verificava que não vertia. Só quando chegasse a casa é que constataria ter sido enganado… Thomaz Cox e Cox Macro notam também que “a Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro”; “os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes”. E que quando traziam um prato com qualquer coisa este vinha invariavelmente coberto com outro – “Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato”. A que tipo de pratos se estariam a referir? Estranheza causa também o facto de os pratos virem à mesa sem ser limpos – “raramente ou nunca limpam os pratos”. Pela mão destes estrangeiros vislumbra-se a cozinha de então e o pessoal que nela laborava, fica a saber-se que, tal como nos conventos, também nestas cozinhas da nobreza existiam rodas na parede através das quais se passavam os alimentos da cozinha para a sala. Descrevem também os pequenos fogões utilizados para cozinhar. Como seriam? Pela descrição não conseguimos perceber: “têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc.”; “o fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas”.

Josefa de Óbidos, cesta com frutos e flores. Séc. XVII, 2.ª metade

Há também hábitos sociais para os quais os autores chamam a atenção, por exemplo, para o facto de quando alguém chegava a casa de outra pessoa sem convite formal não era convidado a participar na refeição – “raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão pouco familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam a sentar-se, e se o fizessem, ele recusaria.” Dão também algumas indicações do modo como se processavam as refeições: “só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as virtualhas apenas até à porta”; “os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos”. Referem também o hábito ainda comum à época de as mulheres conviverem num espaço a isso destinado e de se sentarem no chão, no estrado, e não em cadeiras. Este hábito, muito arreigado em séculos anteriores e que ainda se mantém no século XVIII, vai começando paulatinamente a perder a força – “As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça”. Quanto ao facto de as mulheres conviverem nestes espaços “no feminino” e de ser aí que comiam, separadas dos seus maridos, quer-nos parecer ser excepção e não a regra. Esta separação entre os sexos durante a refeição deveria dar-se apenas quando os maridos recebiam visitas do sexo masculino, visitas de cerimónia com conversas onde as mulheres não entravam. Em pleno século XX, na freguesia do concelho de Barcelos, no Portugal rural, durante a matança do porco, por exemplo, convidavam-se os homens para participar no ágape, no qual não tinham assento nem as mulheres nem os filhos (informação de Silvestre Lopes Duarte). A função da mulher era preparar a refeição e servir os convidados. Há ainda muito para desbravar neste mundo da mesa em Portugal… De seguida apresentam-se os dois textos, extraídos da obra «Relação do Reino de Portugal: 1701», em boa hora publicado pela Imprensa Nacional. Um texto é atribuído a Thomaz Cox, o outro a Cox Macro. Este artigo vai ilustrado com pinturas de Josefa de Ayala, vulgarmente designada Josefa de Óbidos (1630-1684), nas quais se encontra uma enorme profusão de fruta e doces tão do agrado dos portugueses de então.

Josefa de Óbidos, queijos, mel, tigelada e cerejas. Séc. XVII, 2.ª metade

Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

Thomaz Cox
A Nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas poem-lhe tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo e, quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e, por vezes, de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[1], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[2]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Os pratos têm fundos pequenos e bordas muito grandes. Às pessoas da alta sociedade nunca se traz nada num prato que não venha coberto com outro prato. A Nobreza tem grande abundância de pratos nas suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A louça de barro é muito mal cozida e repassa com frequência. Se se comprar alguma peça que repasse, eles não a trocam nem deixam pôr-lhe água dentro ou experimentá-la. Fazem sempre uma refeição entre o jantar a ceia, e são grandes comilões. Têm fogões de alabastro que custam cerca de três libras esterlinas cada um. São pequeninos e têm de ser aquecidos duas vezes para cozerem um pão médio, mas servem para pastéis, etc. Os criados portugueses não acham que seja pecado roubar ao patrão qualquer coisa de comer, ou beber. Quando alguém pede água, se se está em casa de uma pessoa distinta, também lhe trazem doces. (…) Os nobres são servidos no colo pelos seus escravos de joelhos. As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça. (COX; MACRO, 2007: 134, 138, 139, 141, 147)
Cox Macro
A Nobreza tem grande abundância de pratos em suas casas e nada que não seja de barro. Raramente ou nunca limpam os pratos. A nobreza tem geralmente dez ou uma dúzia de pratinhos, na sua maior parte purés e carne guisada, ao jantar. Comem grande quantidade de compotas, mas põem-lhes tanto açúcar que o gosto da fruta se perde. Nas suas cozinhas têm uma roda como a dos conventos, há apenas duas ou três pessoas na cozinha que preparam o jantar e nenhum dos outros criados pode entrar. Só os escudeiros servem à mesa, os outros criados trazem as vitualhas apenas ate a porta. Lavam-se antes de se sentarem à mesa, mas não com muita frequência. No Verão, o primeiro prato é fruta, e quando têm assado, este vem antes dos outros. Entre eles, a forma comum de assar consiste em virar um lado da carne para o fogo, e quando já está, assam o outro lado, mas a nobreza tem homens para virar o espeto. É sempre assado até ficar seco como a palha. Raramente bebem vinho e água misturados, antes os bebem separados. As pessoas vulgares, quando lhes servimos um copo só um pouco cheio, perguntam porque é que o copo é tão grande e esperam que o enchamos até à borda. O fogo é geralmente de carvão em pequenos fornos e por vezes de madeira de pinho e carvalho, que é bastante rara. Usam urze e outras lenhosas, entre as quais existe sempre rosmaninho selvagem e outras ervas aromáticas. Têm grande falta dos pequenos prazeres da vida. Não têm tenazes nem foles, nem tanto quanto o apelativo nome de jack[3], que somos forçados a descrever-lhes dizendo que é uma máquina com rodas e roldanas. Por isso, os ingleses mandam vir da pátria as suas cadeiras, mesas, canapés, castiçais e todos os utensílios que fazem falta numa cozinha. Já estava havia algum tempo no país quando consegui arranjar meio quilo de café e nunca consegui arranjar hartshorn[4]. Põem uma quantidade excessiva de fermento no pão e não o cozem até ao fim; as escovas para limpar os cavalos estão suspensas em madeira e não em cabedal, a maior parte das suas camas está no chão e as casas cheias de piolhos. Assim, enquanto se entregam à preguiça e aos vícios proibidos, não gozam do prazer dos inocentes confortos da vida que são permitidos. (…) Não apresentam mesas como as nossas, e penso que pouco mais do que compotas é suficiente. Raras vezes se recebem uns aos outros em suas casas, e estão poucos familiarizados com a hospitalidade e o excesso das mesas inglesas. Se um homem chega enquanto estão a jantar, não o convidam assentar-se, e se o fizessem, ele recusaria. (…) As mulheres ainda mantêm o costume dos mouros de se sentarem no chão, de pernas cruzadas, e recebem as suas visitas num estrado com uma esteira ou tapete turco sobre ele, não jantam com os maridos mas comem no chão, sentadas sobre um bocado de cortiça (COX; MACRO, 2007: 276-279).

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Bibliografia COX; MACRO, 2007 [1701] Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007. RODRIGUES, 2001 [1680]Domingos Rodrigues – Arte da Cozinha. Sintra: Colares Editora, 2001. (1.ª ed., 1680)


[1] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[2] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.
[3] O termo hoje utilizado é macaco. Tratar-se-ia de um instrumento que ajudasse a levantar as rodas dos carros.
[4] Trata-se de Hartshorn (referido na carta de Lisboa incluída no Apêndice), carbonato de amónia, obtido por raspagem de chifres de veado e que é usado como fermento para bolos e sopa. Tem qualidades fortificantes.

Os portugueses e os rabanetes… no século XVI

Nas leituras que vou fazendo, aqui e ali, deparo com textos que nos “caracterizam” como povo. A epístola quinhentista de Clenardo que abaixo transcrevo, é um desses textos que frequentemente relembro e releio. Passaram quase quinhentos anos sobre o que Clenardo escreveu sobre nós, mas, a verdade é que continuamos com os mesmos defeitos, o mesmo gosto pelas aparências…
Nicolau Clenardo foi um humanista de origem flamenga (Diest 1493/1494 – Granada, 1542), mestre do Cardeal-Rei D. Henrique. Viveu em Évora e percorreu o país, tendo estado, por exemplo, em Braga e Guimarães.
Numa das muitas cartas que escreveu ao seu amigo, o humanista Tiago Látomo, teólogo em Lovaina, caracteriza os portugueses, contando uma história… A carta foi enviada de Évora, a 5 de Março de 1535.

“Clenardo ao seu querido Látomo
(…) Se quisesse condescender com os costumes desta terra, começaria por sustentar uma mula e quatro lacaios. Mas como seria possível? – Jejuando em casa, enquanto brilhava fora como um triunfador, e teria que tragar este amargo remédio de dever mais do que poderia pagar. Eis aí o que faz um cortesão acabado!
Isto faz-me lembrar um certo indivíduo, pelo qual imaginareis os outros. Este, cujo retrato vos vou descrever, andava de rixa com um estrangeiro, creio que francês, que viera para Portugal no tempo de D. Manuel, como fazendo parte da casa da rainha D. Leonor. O português levava-lhes a palma no fausto exterior, mas o francês tinha melhor mesa. Conhecendo este, como quer que fosse, os hábitos locais e levado pela curiosidade, conseguiu habilidosamente obter o livro onde eram lançadas as despesas diárias do outro. Acertou de dar logo com os olhos num passo bastante cómico, mas genuinamente português. Encontrara apontada a seguinte diária:
Água……. 4 ceitis
Pão …….. 2 reais
Rabanetes …… 4 ½ reais

E como durante toda a semana continuassem estas prodigalidades, imaginou que o Domingo, esse pelo menos, seria lautamente banqueteado; mas para esse dia (que viu ele?) achou simplesmente isto escrito: – ‘Hoje nada, por não haver rabanetes na praça’.

Há aqui, meu caro Látomo, uma chusma desses faustosos rafanófagos, que trazem todavia pela rua atrás de si maior número de criados do que de reais gastam em casa. E até creio que chega a havê-los, com menos rendimento do que eu, que, não obstante, trazem uma comitiva de oito criados, que sustentam sabe Deus como, se não à custa duma abundante alimentação, certamente à força de fome e por outros meios, que eu sou muito estúpido para aprender nunca em dias de minha vida. E não é muito difícil recrutar uma turba inútil de servidores, porque esta gente prefere tudo a suportar a aprender qualquer profissão.
Mas para que serve, perguntar-me-eis vós, um tal séquito? – Não falta que fazer a cada um, embora todos levem vida regalada: dois caminham adiante; o terceiro leva o chapéu; o quarto o capote, não adregue de chover; o quinto pega na rédea da cavalgadura; o sexto é para segurar os sapatos de seda; o sétimo traz uma escova para limpar de pelos o fato; o oitavo um pano para enxugar o suor da besta, enquanto o amo ouve missa ou conversa com algum amigo; o nono apresenta-lhe o pente, se tem de ir cumprimentar alguém de importância, não vá ele aparecer com a cabeleira por pentear. Dou testemunho de coisas que tenho visto com os meus próprios olhos. (…)
Évora, 5 de Março de 1535”.

In M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 279-280.