Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Convento de Jesus, Aveiro)

Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

Já tratamos este tema num outro texto deste blogue – «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)», sendo interessante verificar como um mesmo episódio da hagiografia do fundador da Ordem dos Pregadores dá origem a diferentes representações pictóricas, revelando-nos interessantes aspetos sobre o comer e o modo de comer nos séculos anteriores[1]. Antes de analisarmos a pintura faremos uma brevíssima abordagem ao edifício e capela onde a pintura se encontrava.

O Convento de Jesus de Aveiro
O Convento de Jesus de Aveiro pertencia à Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Na origem da sua fundação esteve D. Beatriz Leitoa, viúva de Diogo de Ataíde. A fundação do mosteiro foi autorizada pelo Papa Pio II através da bula «Pia Deo et Ecclesiae desideria», datada de 16 de Maio de 1461. A primeira pedra do novo convento foi lançada por D. Afonso V, a 15 de Janeiro de 1462. A primeira tomada de hábito ocorreu em 1464. Com a proteção de D. Afonso V e a entrada para o convento, em 1472, de sua filha única, D. Joana, o convento ganha importância e reconhecimento. D. Joana, filha de D. Afonso V e de D. Isabel, com apenas 19 anos de idade recolheu-se no Mosteiro de Odivelas, tendo, pouco tempo depois, transitado para o Convento de Jesus, em Aveiro. Mulher de enorme beleza, solicitada para casar com diversos príncipes, sempre a isso se recusou, optando por se dedicar à vida religiosa, apesar de nunca ter professado (GASPAR, 1969).

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Após a sua morte “o povo de Aveiro, antecipando-se ao julgamento da Igreja, começou a denominá-la por santa e a venerá-la. D. Pedro II alcançaria mais tarde do Papa Inocêncio XI o breve de 4 de Abril de 1693, no qual se confirmava o culto, sendo concedida à Princesa a designação de beata e o ofício e a missa próprios, para todo o País e para a Ordem Dominicana” (GASPAR, 1969).
Em 1834, o mosteiro é extinto, sendo os bens incorporados na Fazenda Pública. Em 1874 morre a última religiosa, a prioresa D. Maria Henriqueta de Jesus, sendo o convento extinto.
Ao longo dos séculos o edifício do convento foi sendo ampliado, remodelado e enriquecido com inúmeras obras de arte.
Em 1882, o edifício passa para a Ordem Terceira Dominicana, sendo transformado em escola feminina – Colégio de Santa Joana.
Com a instauração da República, em 1910, o colégio é extinto passando, em 1911, a albergar o Museu de Aveiro.

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click. In http://lh6.ggpht.com/_6TA0yX7EpmE/THzSPHX1tdI/AAAAAAAABBU/EHgj2VR8j5M/s1600-h/museu%20de%20aveiro%5B11%5D.jpg

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click.

A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem
A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, como bem explica José António Rebocho Christo, situava-se no primeiro piso do convento, junto da enfermaria, e foi encomendada por Soror Isabel Padilha (professa em 1618). Desta antiga Capela ainda hoje subsistem no Museu de Aveiro “diversos elementos do retábulo maneirista, as tábuas pintadas que ornamentavam a porta de entrada, a imagem-relicário de S. Domingos e um vasto conjunto de pinturas, num total de 28, tábuas e telas” (CRISTO, 2011). A predela do retábulo da capela era composta por três pinturas distintas, sendo a central a que aqui iremos analisar e na qual se representa o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Trata-se da única tela, das muitas que realizou para esta capela, assinada pelo pintor António André, o qual deve ter nascido em Aveiro por volta de 1580. Em 1612 encontrava-se em Lisboa onde terá aprendido a arte na oficina de Simão Rodrigues. Entre 1619 e 1625 encontra-se em Aveiro, sendo responsável pela execução de diversas pinturas para os Mosteiros de Jesus e de Nossa Senhora da Misericórdia. Entre 1646 e 1652 vamos encontrá-lo no Porto onde trabalhou para a Ordem Terceira de S. Francisco. Deve ter falecido pouco antes de 1668 (SERRÃO, 1991, 2000 e 2010; SOBRAL, 2004: 211; CRISTO, 2011).

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho[2]

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170, e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos em Roma, viveu nos últimos anos da sua vida no Convento de Santa Inês, em Bolonha, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[3].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[4]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3[5]) e pelo Beato Jordão de Saxónia[6] é o da multiplicação do pão e do vinho[7].
Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará os seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção, começam a rezar.

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Os dois anjos que servem à mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Os dois anjos que servem à mesa.

De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, distribuindo-o pelas mesas. Depois de terem entregue a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[8].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura do Museu de Aveiro: O espaço
Como já atrás se referiu a pintura da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos integrava a predela do retábulo maneirista da Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, situando-se no primeiro piso do Convento de Jesus, junto da enfermaria (CRISTO, 2011).
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (N.º de Inventário 88/A), que se julga terá sido executada entre 1618 e 1623[9] pelo pintor António André que a assina – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.
Sobre este autor diz Vítor Serrão que “a qualidade formal de algumas das suas obras – com realce para as tabuinhas da antiga Capela de S. Domingos de Gusmão do Convento de Jesus, pintadas em 1619-1620 – mostram uma personalidade forte, de inesperada frescura no delineamento das superfícies com cromatismo lumínico e vaporoso, com desenho seguro, sentido composicional imbuído de certa largueza, e preciosismos de filigrana na caraterização dos acessórios e dos últimos planos” (SERRÃO, 1991: 277-278). E, mas concretamente sobre a pintura aqui analisada, Vítor Serrão considera-a “a mais interessante”, explicando que: “representa o banquete servido por anjos a dezoito religiosos dominicanos do mosteiro de S. Xisto de Roma, onde a perícia da pincelada transparente, os contrastes de claro-escuro, o cromatismo de frias tonalidades, a largueza da composição organizada pelo esquema obliquado das mesas, e os detalhes minuciosos da ceia – o cãozinho dormindo, e segurando o crucifixo envolto em labaredas, os trajes dos anjos, o quadro de Santo André na cruz em aspa colocado por detrás de S. Domingos de Gusmão que preside ao milagre, os objetos da refeição divina, etc. – definem a forte preparação técnica de António André. À pose maneirista dos figurinos sobrepõe-se o domínio naturalista e tenebrista da composição, de influência madrilena, a lembrar já obras protobarrocas de Eugénio Caxes ou de Vincenzo Carducho” (SERRÃO, 1991: 282).
A cena passa-se no interior do convento, encontrando-se S. Domingos e dezassete dominicanos sentados à mesa do refeitório, tal como é costume em contexto conventual. No púlpito pode observar-se o irmão Henrique de Roma que lê os textos sagrados[10].

Domini Canis e Dominicanis

Domini Canis. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Domini Canis

O pavimento é ladrilhado a preto e branco e sobre ele descansa o designado “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”). Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis, ou seja, dominicanos.
O facto de o cão com a tocha na boca ser um dos atributos de S. Domingos fica a dever-se ao texto do Beato João da Saxónia, um dos primeiros biógrafos de S. Domingos, que na sua obra «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum» narra um episódio da vida deste Santo sucedido antes do seu nascimento. Durante a gravidez a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo[11]. Hugo de Voragine assim descreve este episódio da vida de S. Domingos: “Seu pai chamava-se Félix e sua mãe Joana. Antes do seu nascimento, a mãe viu em sonhos que tinha no ventre um cão de fogo com uma tocha nos dentes o qual, saindo do seu ventre, incendiava o mundo” (VORAGINE, 2000: 58).
A associação da tocha encimada pelo globo terrestre e pela cruz parece ter surgido “na época maneirista mas divulga-se sobretudo durante o barroco” (SOBRAL, 2004: 203, nota 2).

A pintura do martírio de Santo André

Santo André. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

A pintura de Santo André dentro da pintura O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos…

Por detrás da mesa, pendurada na parede do modo que então era usual, podemos observar uma pintura emoldurada representando o martírio de Santo André na Cruz em aspa. Na Ordem dos Pregadores nunca houve uma ligação especial com Santo André, pelo que, a sua surpreendente presença nesta pintura, representando o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos, se poderia talvez justificar de dois modos: ou o orago da capela onde se encontrava o retábulo era Santo André, o que sabemos não corresponde à realidade pois encontrava-se na Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, sendo o seu orago a escultura relicário de S. Domingos (CRISTO, 2011); ou a representação da pintura de Santo André nesta cena da hagiografia de S. Domingos foi uma opção pessoal do pintor António André que deste modo assina duplamente[12] a pintura colocando nela um santo de quem herdou o nome – André.

À mesa: os convivas e os anjos

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor.

No centro da mesa, em lugar de destaque, encontra-se S. Domingos, ladeado por oito monges à sua esquerda e nove à sua direita, mais o monge leitor que está no púlpito. Não temos dúvida de que se trata do fundador da ordem, pois, sobre a sua cabeça, encontra-se um esplendorosa auréola.
Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor[13]. O capuz era usado pelos dominicanos, quer quando saiam do convento quer para aquecimento do corpo. Estes dois frades representam muito provavelmente os irmãos João da Calábria e Alberto de Roma os quais tinham sido enviados para o exterior em busca de pão, tendo regressado sem o conseguir[14], daí o facto de serem representados com o capuz negro.
Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito; agarrando a tigela; dentro da tigela; levando a comida à boca; cortando o pão com a faca.

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito.

Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[15], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [16]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura (…) outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa”[17].
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.
Os dominicanos são servidos por dois anjos: um, do lado esquerdo, apresenta ao primeiro frade desse topo da mesa uma bandeja onde estão duas tigelas, vendo-se o frade retirando uma delas com ambas as mãos; outro, do lado direito, depois de ter servido os primeiros frades, vai caminhando, com a bandeja na mão, na qual se podem ver outras duas tigelas. No milagre descrito pelos Beatos Cecília e Jordão da Saxónia serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não alimento em tigelas. Mas, bem sabemos que os anjos são os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.
Por fim, mas de não menos importância, deve referir-se que a narrativa pictórica desta pintura não corresponde exatamente à representação do milagre do pão e do vinho por S. Domingos. De facto, os anjos deveriam estar a servir o pão, mas, este já se encontra na mesa, levando eles nas bandejas o que poderá ser um caldo, sendo por isso servido em tigela.

À mesa: os alimentos e os utensílios
Analisemos os utensílios colocados sobre a mesa, a qual se encontra coberta com toalha branca que cai quase até ao chão, deixando no entanto ver as grossas pernas que suportam os tampos.

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos.

Os únicos alimentos que se encontram sobre a mesa são o pão, o vinho tinto e o caldo/sopa que se pode subentender estaria dentro das tigelas.

Vinho tinto em copo de vidro. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Vinho tinto em copo de vidro e jarro de estanho (?).

Como utensílios dispostos sobre a mesa encontramos: o jarro e o copo para o vinho, sendo que aquele parece ser de estanho e este em vidro; as galhetas do azeite e do vinagre, colocadas sobre a correspondente bandeja, e que deveriam ser em faiança, dada a cor branca que apresentam; a faca e a tigela, sendo que esta última poderia ser de estanho ou então de barro preto. De facto, em Aveiro (Aradas) produzia-se naquela época loiça preta[18] pelo que não seria de estranhar que António André tivesse reproduzido as tigelas feitas localmente.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

De entre os utensílios empregues quais seriam de uso individual e quais seriam de uso coletivo? Se atentarmos na distribuição dos utensílios verifica-se que os jarros, os copos e as tigelas seriam de uso individual.

Tigelas de loiça preta? O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Tigelas de loiça preta de Aradas, Aveiro?

Sobre a mesa as facas não parecem ser de uso individual, no entanto, era costume cada frade possuir a sua própria faca. Já no século XVI, no refeitório do mosteiro de Alcobaça, os religiosos dispunham de um armário individual para “no seu lugar ter guardanapo, faca e copo” (GOMES, 1998: 88). As galhetas do azeite e do vinagre seriam de uso comum, havendo, visíveis sobre a mesa, quatro pares de galhetas.

Comer com as mãos?

Comer com as mãos. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Comer com as mãos.

É interessante verificar que, ao contrário do comum das representações das refeições à mesa, nesta pintura as personagens não são estáticas, mas figuradas na ação de comer: cortando o pão com a faca (um frade), levando a comida à boca (três frades); agarrando a tigela com as mãos (um frade); metendo a mão esquerda na tigela (dois frades), para além dos frades que, como atrás já referimos, são representados em oração.

Cortando o pão com a faca

Cortando o pão com a faca

Se atentarmos nos dois frades que estão representados na ação de meter a comida à boca com a mão direita, e, com a mão esquerda seguram na tigela, lembramo-nos de imediato da «Escola de Perfeição», documento do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, atribuído ao séc. XVII (TAVARES, 1999). Neste se descreve “a observância que se há-de guardar no refeitório”, de modo a que “os religiosos que estão na religião e caminham para o céu tenham merecimento no comer, e não percam por ignorância o que podem nele merecer, coisa conveniente será dar-lhes a doutrina que hão-de guardar para que não percam o merecimento que tem os que se sabem haver nisto guardando a observância regular” (TAVARES, 1999).
Neste texto seiscentista sobre o modo como se deve comer no refeitório, entre outras interessantes observações, diz-se: “Não partam o pão nem a carne com as mãos senão com a faca” (TAVARES, 1999: 69). Ora, na pintura aqui analisada vemos um dominicano partindo o pão com a faca.
Através deste documento seiscentista do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra ficamos também a saber que era então costume comer-se com as mãos, sendo no entanto falta de educação meter a mão toda no recipiente: “não metam toda a mão na tigela para tirar as sopas mas só dois ou três dedos sem sujar as mãos; nem lambam os dedos como fazem os rústicos”; “quando tiverem os dedos muito sujos como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura, limpem-nos dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito. E tudo isto se fará por não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta” (TAVARES, 1999: 69-70).
Nesta pintura de António André podemos observar dois dos frades com a mão esquerda metida na tigela, sendo esse facto mais evidente num dos casos. Estranha-se, no entanto, o facto de ambos estarem com a mão direita levando a comida à boca e ser a mão esquerda que está pousada na tigela. Parece-nos que o normal seria tirar a comida da tigela com a mão direita e desse modo a conduzir à boca.
De qualquer modo quer-nos parecer que o modo como o primeiro frade (à direita na pintura) coloca a mão na tigela evidencia que estava a tirar a comida com as mãos, talvez só com “dois ou três dedos sem sujar as mãos”. Lembremos que em Marrocos ainda hoje subsiste o costume de comer com as mãos. Diz Ignacio Medina que “o principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou com cinco dedos é comportamento de glutões, exceto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).

Conclusão: uma pintura que nos dá a conhecer o modo de comer em contexto conventual
De facto, o que pessoalmente nos vem interessando na pintura portuguesa é a representação de alimentos, dos utensílios necessários à sua preparação e consumo, bem como o modo de os preparar e de os comer.
Esta pintura de António André sobre a multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos é um bom exemplo de como as representações pictóricas aliadas à leitura de documentação coeva nos podem ajudar a melhor conhecer o modo de comer nos séculos passados, no caso concreto, em contexto conventual.

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BIBLIOGRAFIA
BARBOFF, 2011 Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.
CRISTO, 2011 José António Rebocho Christo – A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem no Convento de Jesus de Aveiro. Patrimónios. 2ª série. 31: 9 (Dezembro 2011). P. 75-86. In http://www.prof2000.pt/users/hjco/aderav/patrimonios/Patrim09_075.htm
GASPAR, 1969 João Gonçalves Gaspar – Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana. Aveiro e o seu Distrito. Junta Distrital de Aveiro. 7 (Junho de 1969). P. 27-40. In http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim07/page27.htm#01b
GOMES, 1998 Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998 (Documenta).
ITURGÁIZ CIRIZA, 1992 Domingo Iturgáiz Ciriza – Iconografía de Santo Domingo de Guzmán: La fuerza de la imagen. Burgos: Aldecoa, 1992.
MEDINA, 2005 Ignacio Medina – Cozinha País a País: Marrocos. [S.l.]: Público, 2005.
SCHEEBEN, 1935  C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.
SERRÃO, 1991 Vítor Serrão – O Pintor António André e o Maneirismo reformado em Aveiro no século XVII. Revista da Universidade de Aveiro: Letras. 6-8 (1989-1991). P. 277-298.
SERRÃO, 2000 Vítor Serrão – A Pintura Proto-Barroca em Portugal: 1612-1657: O Triunfo do Naturalismo e do Tenebrismo. Lisboa: Colibri, 2000.
SERRÃO, 2010 SERRÃO, Vítor – Pintura e Propaganda nos programas artísticos dominicanos em Portugal na Idade Moderna. In Dominicanos em Portugal: História, Cultura e Arte. Lisboa: Alétheia, 2010. P. 254-279.
SOBRAL, 2004 Luís de Moura Sobral (coord.) – Pintura Portuguesa do século XVII: lendas, histórias e narrativas, Catálogo de exposição. Lisboa: IPM, 2004.
TAVARES, 1999 Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no século XVII português. Lisboa: Colares Editora, 1999.
VORAGINE, 2000 Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS
[1] Tenho de agradecer ao Dr. José António Rebocho Cristo que me chamou a atenção para a pintura aqui analisada e que me enviou a respetiva imagem. Tenho também de agradecer à Divisão de Fotografia da Direção Geral do Património Cultural, nas pessoas de Tânia Olim e Luísa Oliveira o envio da imagem com a qualidade necessária para se poder analisar e publicar pormenores.

[2] Este nosso texto sobre o milagre propriamente dito é o que consta no artigo «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)». Pareceu-nos, no entanto, importante transcrevê-lo aqui para um melhor conhecimento sobre o tema tratado na pintura que aqui se analisa.

[3] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[4] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», traduzida do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[5] A beata Cecília assim designa o milagre que aqui se descreve – «Do pão e vinho milagrosamente multiplicado e distribuído aos frades através de suas orações». In «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». Veja-se http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[6] O beato Jordão da Saxónia assim designa o milagre aqui descrito – «O milagre do pão recebido do céu em S. Sisto». In «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum».

Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[7] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (LEGENDA AUREA, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois últimos autores e não o de Voragine.

[8] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.

[9] Informação do Dr. José António Rebocho Christo, a quem agradeço.

[10] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve. Jordão da Saxónia é mais comedido nos pormenores.

[11] Veja-se no «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», de Jordão da Saxónia, a descrição deste episódio – «The Miracle of the Bread Received from Heaven at San Sisto». In http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[12] Já atrás referimos que esta tela se encontra assinada pelo pintor no ladrilho do pavimento – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.

[13] Convém referir que “até ao Vaticano II, os frades não clérigos (irmãos cooperadores), como São Martinho de Porres, usavam o hábito que não possuía a capa preta e o escapulário era preto ao invés de branco”. In http://vocacionalop.blogspot.pt/2011/03/sobre-o-habito-dominicano-about.html

[14] Os nomes dos dois frades são-nos dados pela Beata Cecília. Veja-se «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[15] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf

[16] Idem.

[17] Ibidem.

[18] Veja o subcapítulo «Aradas (Aveiro, Aveiro), Lugares de Quinta do Picado e Coimbrão; Oliveirinha (Aveiro, Aveiro), Lugar de Quintãs» in Isabel Maria Granja Fernandes – A loiça preta em Portugal: estudo histórico, modos de fazer e de usar. Tese de Doutoramento. Braga: Universidade do Minho, 2012. Vol. 2. P. 635-653. URL: http://hdl.handle.net/1822/24904

Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

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O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro

O Mosteiro de Lorvão e a Doçaria Conventual

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Este Sábado fomos até Penacova para visitar o mosteiro de Lorvão o qual impressiona pela sua grandiosidade e por se encontrar abrigado no fundo de montes, correndo aos seus pés um pequeno rio de águas limpas. Face a face com o mosteiro ergue-se a povoação de casas alinhadas ao longo da estrada. Infelizmente, do extinto mosteiro cisterciense feminino, apenas se pode visitar a igreja, a pequena sacristia, o coro, o claustro que ladeia a igreja e duas salas onde se encontra algum do acervo museológico.
No século XX e até 2012 aqui funcionou um hospital psiquiátrico que ocupava grande parte do edifício. Hoje, parece incerto o uso a dar a este enorme mosteiro, habitado ao longo dos séculos por filhas de algumas das mais ilustres famílias portuguesas.

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Há pouco tempo o claustro foi intervencionado tendo sido adossado um novo edifício onde se projetava constituir um museu. Mas, a agrura dos tempos parece ter feito abortar o projeto, pelo que o edifício apesar de pronto se encontra vazio… Foi pena que em vez da criação de um novo edifício não se tenha aproveitado o existente…
O mosteiro de Lorvão deve ter sido talvez fundado no séc. VI (apesar de esta data não ser unanimemente aceite pelos investigadores), abrigando um mosteiro masculino, o qual a partir do séc. XI passou a seguir a regra de S. Bento.

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

No início do século XIII, o mosteiro viria a transformar-se numa congregação feminina da ordem de Cister, aqui vivendo D. Teresa, filha de D. Sancho I e mulher que havia sido de Afonso IX de Leão, e suas irmãs Sancha, Mafalda, Branca e Berengária. Sancha, viria mais tarde a fundar o convento de Celas, em Coimbra. Teresa e Sancha ficaram sepultadas em Lorvão, tendo sido desde cedo consideradas como Rainhas Santas e merecendo por isso a devoção dos fiéis, vindo a ser beatificadas a 23 de Dezembro de 1705 (BORGES, 2013: 15-34).

RRefeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Refeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Mas, não é a história do convento que nos interessa, mas a dedicação destas mulheres ao fabrico de doces. Em boa hora a Câmara Municipal editou o livro «Doçaria Conventual de Lorvão» (2013), da autoria de Nelson Correia Borges, um filho da terra, professor aposentado do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual fez a sua tese de doutoramento sobre Lorvão – «Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade: das origens a 1737».

Doces das freiras de Lorvão

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

O autor, profundo conhecedor da documentação referente a Lorvão e ao mosteiro, decidiu, nesta obra dedicada à doçaria conventual de Lorvão, dar a conhecer o que sobre o tema os documentos referem, alertando, no entanto, para a inexistência de receitas: “Não chegaram até nós livros de receitas, ou quaisquer apontamentos, ou, em rigor, não são conhecidos até agora, o que não quer dizer que não tivessem existido”.
Através da consulta documental o autor ficou a conhecer e desvenda a doçaria que saía das mãos destas freiras – alfenim, alfitetes, beijinhos de freira, beijinhos, beijos, biscoitos, bocados de abóbora, bolo de bispo, bolo de Santa Teresa, bolo podre de Lorvão, bolos d’arica, bolos de bispo, botelhada, broas de amêndoa, broas de ovos, capelas de ovos, caramelos, cavacas de Lorvão, cidrada, confeitos, derriços, doce de amêndoas, doce de laranja, farténs de amêndoa, fatias do céu, fatias do conde, fios de ovos, ginetes, lampreia doce, linguadas, manjar branco, manjar divino, manjar real, marmelada, marmelada de sumos, massapães, melindres, milharós, morgados, nabada, ovos doces, ovos moles, palermos cobertos (hoje nevadas), palitos, pão-de-ló de amêndoa, papos de anjo, pastéis, perada, pêssegos cobertos, queijadas, queijinhos do céu, súplicas, talhadas, tâmaras, tigelada, tolos, tortilhas, tremoços.

O que resta da antiga cozinha do mosteiro. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

O que resta da antiga cozinha do Mosteiro de Lorvão. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

Não tendo encontrado na documentação as receitas dos doces acima referidos o autor socorreu-se de pessoas (mulheres é claro!) que lhe deram a conhecer o modo de fazer estas iguarias. Apresenta um total de 53 receitas: 8 foram-lhe facultadas por Maria da Graça de Castelo Branco Leitão Barbosa Ribeiro (queijinhos do céu, tâmaras, tolos, lampreia doce, beijinhos, beijos e cavacas); 1 foi extraída de um “manuscrito de uma freira, em posse de família que esteve ligada ao Mosteiro de Lorvão” (Bolo podre de Lorvão); 1 recolhida em «Nova Arte da Cozinha» (1695) de Domingos Rodrigues (cidrada); 1 do mosteiro de Celas (manjar branco); 1 de Arminda Ferreira Baptista Santos, “agora utilizada e divulgada por D. Margarida Padilha Viseu” (Palermos cobertos); 1 publicada na revista «Marie Claire», N.º 38 de 1991 (Palitos); 1 de Maria Amália Martins de Carvalho Leitão Alpoim (Pastéis de Lorvão) e outra publicada por Emanuel Ribeiro e respeitante ao mosteiro de Bustelo (Pêssegos cobertos), as restantes foram recolhidas “da tradição oral, quer junto de familiares, quer junto de pessoas amigas que no-las comunicaram, mesmo antes das informações arquivísticas”.

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Nelson Borges publica também a receita do Bolo das Infantas, informando que “esta receita foi divulgada na internet e publicada por Alfredo Saramago”, acrescentando que a incluía “com alguma reserva, porquanto este nome não aparece referido na documentação nem tão pouco a designação seria lógica num mosteiro onde a memória coletiva era sempre referida à rainha e não a infantas”. Tem razão o autor para duvidar da veracidade da receita publicada por Alfredo Saramago. De facto, o mesmo sucede com receitas publicadas por este autor como sendo provenientes de conventos de Braga e Guimarães, as quais nunca se encontraram nem nas fontes documentais nem na consulta de velhos livros de receitas pertencentes a antigas famílias de ambas as terras. Tal como sucede com a receita de Lorvão também as que o autor apresenta como sendo de Braga e Guimarães possuem nomes pouco usuais em contextos conventuais (FERNANDES, 2012: 12). Por tal motivo as receitas facultadas por este autor devem ser usadas com grande reserva.
Nelson Correia Borges não indica a proveniência do receituário das restantes 38 receitas, o que é pena, pois, é sempre importante conhecer a sua origem.

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

É bom dizer que todas as receitas foram experimentadas, agradecendo o autor a Emília Teresa Horta Peres, a “revisão e paciente execução das receitas” (BORGES, 2013: 12).
Intriga-me o que seriam os bolos d’arica. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal doce. Como seriam? Convém talvez lembrar que o verbo aricar significa “lavrar superficialmente a terra para livrá-la de ervas daninhas” (HOUAISS, 2003, I: 372), tendo o mesmo significado em castelhano (DICCIONARIO, 2001, I: 203).

Doces que adquiriam
Nelson Correia Borges transcreve documentação do final do século XVII através da qual se pode concluir que havia doces que eram comprados pelas freiras, como por exemplo os “pastéis que se dão no dia de Entrudo”, os “pastéis para os músicos” que se oferecem no dia da “consoada do nosso padre S. Bento” e os “confeitos para a consoada que na semana Santa se dão” (BORGES, 2013: 77-78).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia  Borges (BORGES, 2013: 61).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 61).

A compra de doces no exterior do mosteiro sucedia em diversas congregações, principalmente nos conventos masculinos que adquiriam fora muitos dos doces que consumiam.

Os utensílios para fazer, transportar, servir e comer os doces
Nelson Correia Borges teve também o cuidado de ilustrar a sua obra com fotografias dos utensílios usados pelas freiras quer para fazer os doces quer para os transportar, servir e comer.
Ao longo da obra podemos ficar a conhecer vários recipientes de barro utilizados na conservação dos alimentos sólidos e líquidos, um graal de marfim, um tacho de cobre, uma colher de ferro, um prato de cobre utilizado para formar a lampreia doce, discos de barro vermelho para fazer o manjar branco, tigelinhas para os ovos moles, copos e jarra de vidro, pratos de faiança e porcelana com marca possessória, bem como tabuleiros para transporte de doces ou outros géneros.

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Interessante é também a divulgação que o autor faz das caixas para guardar e transportar os doces, hoje difíceis de encontrar, e de dois singelos e interessantes garfos de marfim de quatro dentes.

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Na documentação do final do séc. XVII encontrou o autor referência quer à compra de caixas (Maio de 1694) – “comprámos 19 caixas grandes para o presente das nossas Santas Rainhas”, quer de tigelinhas (Novembro de 1691) – “compramos de tigelinhas para doce…” (BORGES, 2013: 77-78).
A quem gosta de conhecer a história da doçaria ou de experimentar novas “velhas” receitas aconselha-se a compra do livro. Estudar e divulgar a doçaria portuguesa é uma forma de preservar a nossa memória colectiva. Parabéns ao autor.

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Se ficou com água na boca, nada melhor do que sair do mosteiro, atravessar a rua e entrar na pastelaria «O Mosteiro», onde poderá saborear os palermos cobertos, hoje designados nevadas. Mas aí encontrará outra doçaria de inspiração conventual como os queijinhos (doce de ovo e amêndoa), os pastéis de Lorvão (com amêndoa) e os mimos (com amêndoa sem pele).

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Bibliografia

BORGES, 2013
Nelson Correia Borges – Doçaria Conventual de Lorvão. Penacova: Câmara Municipal, 2013.

DICCIONARIO, 2001
Diccionario de la lengua española. 2 vol. 22.ª ed. Madrid: Espasa Calpe, 2001.

FERNANDES, 2012
Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012. P. 9-73.

HOUAISS, 2003
Dicionário Houaiss. Vol. 1. Lisboa: Círculo dos Leitores, 2003.

O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

Heinrich Friedrich Link nasceu na Alemanha, em Hildesheim, a 2 de Fevereiro de 1767, e faleceu em Berlim, a 1 de Janeiro de 1851, foi um reputado médico, botânico e naturalista alemão. Link esteve de visita a Portugal, acompanhando o conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, “numa viagem que tinha como objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa” (LINK, 2005: IX-XXVIII).
Era um excelente observador, rigoroso e sistemático nas suas análises, e conhecedor da língua portuguesa. O livro que escreveu sobre Portugal foi publicado pela primeira vez em alemão, em 1801. A edição portuguesa que utilizamos intitula-se «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha» (LINK, 2005).
Neste texto damos a conhecer apenas o que escreveu sobre o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, incluído no capítulo referente a «Viagem a Braga. A província do Entre Douro e Minho», e onde esteve alojado, no verão de 1798.
Parece que a educação dos monges não era a melhor, mas, pelo interesse que temos sobre o comer e o modo de comer chama-se a vossa atenção para as laranjas que existiam na cerca do convento e para a parte do texto onde o autor descreve como eram as refeições conventuais, o que se comia e o que se bebia.
Para quem não saiba, actualmente, no mosteiro de S. Maria de Bouro funciona uma pousada, sendo da autoria do Arquitecto Souto Moura o projecto de recuperação e adaptação do edifício. A pousada fica no município de Terras de Bouro (distrito de Braga).

Escreve Johann Heinrich Friedrich Link: “Depressa deixámos Braga para conseguir observar na melhor estação do ano a serra limítrofe que separa Portugal da Galiza a norte, a ainda quase não explorada serra do Gerês. A uma légua de Braga chega-se a uma pequena aldeia chamada Ponte do Porto em virtude de uma ponte de pedra que aí atravessa o Cávado. Este vale é de novo extremamente encantador e agradável. Ao longe parece apenas uma floresta densa de árvores altas, mas estas árvores envolvem campos e jardins. Não se vêem as casas dispersas e escondidas por espessas sombras, mas pessoas bem vestidas, mesmo as mulheres que frequentemente se encontram anunciam a sua proximidade. Por montanhas de granito chegámos ao mosteiro beneditino do Bouro, a duas léguas de distância. Fica numa depressão no sopé da serra, é muito rico e os edifícios são também grandes e não estão mal mobilados. Mesmo junto ao mosteiro os monges têm uma grande quinta cheia de laranjeiras, as laranjas, que são expedidas para Braga e outras terras próximas do Minho, são boas. Não muito longe do Bouro encontra-se numa montanha uma igreja com uma imagem milagrosa de Maria, para onde se realizam muitas peregrinações. Chama-se Nossa Senhora da Abadia, porque o Bouro é uma abadia, e não Nossa Senhora da Badia, como está nalguns mapas. De acordo com as nossas observações barométricas, o Bouro está 500 pés acima do nível do mar, uma baixa altitude onde se podem ainda plantar laranjeiras e produzir boas laranjas. Esta foi a nossa última observação barométrica. Felizmente trouxemos de Lisboa até aqui um barómetro de viagem Hurter para medir a altura do Gerês e da serra da Estrela, nos maus caminhos tínhamo-lo protegido contra todos os acidentes, aguentara até quando a carroça se virou, só que não pensamos em protegê-lo contra a má educação dos jovens monges que, por maldosa curiosidade, entraram furtivamente no nosso quarto e na nossa ausência destruíram termómetro e barómetro. Um dos maiores acidentes da nossa viagem. Já muitas vezes nos tinha sido penosa a curiosidade desta gente.
Uma vez que os monges nos quebraram o barómetro, que me sejam permitidas algumas notas sobre eles. A sua ignorância estava para além de tudo aquilo que se possa imaginar, a sua indolência, com a excepção dos exercícios espirituais habituais, também. Um abade velho e débil deixou embrutecer por completo as gentes jovens, daí que eles fossem tão malcriados como ignorantes. Apenas um irmão laico, o farmacêutico, se destacava enquanto jovem estudioso e ávido de saber. Em todos os conventos portugueses se come extraordinariamente muito, aos almoços tínhamos aqui por exemplo quatro pratos, mas todas as refeições eram cozinhadas sem qualquer arte e compunham-se na maior parte das vezes de quantidades enormes de todos os géneros de carne cozida. Toda a nação tem no entanto uma tendência para comer muito e muita carne. O vinho é na maioria dos conventos muito medíocre e nunca reparei que aí se bebesse excessivamente. Em geral nós bebíamos mais vinho do que os portugueses; parecia que o clima quente e para nós desusado o pedia, mas em compensação reparei também muitas vezes que um português fica já bêbado com alguns copos de vinho, copos esses que um alemão, e mais ainda um inglês (os maiores beberrões de todas as nações), nem chegam sequer a notar (LINK, 2005 [1801]: 203-216).

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.

A louça ao serviço dos Conventos

Pratos provenientes do Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Os monges no seu quotidiano estavam rodeados dos utensílios necessários às actividades que compunham o seu dia-a-dia[1]. Esses utensílios eram feitos em diferentes materiais – madeira, barro, faiança, estanho e vidro, para só citar os mais usuais. Segundo os monges as peças de pau, barro e estanho gastavam-se muito mais do que as de ferro ou cobre (GOMES, 1998 [1536]: 286).
Na sua cela cada monge possuía “uma arca de castanho, e uma mesinha para ler e ter livros, e uma cadeira de pau, e um ou dois papéis de imagens” (GOMES, 1998 [1536]: 283), ou seja estampas com os santos da sua devoção. Tinha também um cântaro e um púcaro para água e um ourinol para recolha da urina[2].
No celeiro, ou «casa da celaria», local onde se guardavam os alimentos de que o mosteiro necessitava, havia “vasos, e mesas, e outros vasos em que se guarde a carne e o pescado de todo o convento, e fruta, e legumes, e azeite, e mel” (GOMES, 1998 [1536]: 285).

Tigela de fogo. Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Na adega existiam cubas, tonéis e dornas “para ter o vinho”, funis, cântaros e gamelas, bem como “as medidas necessárias” para medir o vinho (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na «casa da massaria», dependência onde se preparava o pão, havia “dornas em que está a farinha”, masseiras para amassar o pão, gamelas, tabuleiros, joeiras e peneiras, todos feitos de madeira. Havia também “panos de linho e de burel para cobrir o pão quando se amassa” (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na cozinha, junto ao lume preponderava a cadeia na chaminé para dependurar as caldeiras e caldeirões de cobre usados “para cozer a carne” na lareira; os espetos, grelhas e trempes de ferro que assentavam sobre o fogo e nas quais se colocavam os tachos e panelas de cobre onde se cozinhava e as sertãs de ferro para “alguma hora se frigir algumas coisas”. Na preparação dos alimentos usava-se “um cepo grande de pau para cortar a carne”; almofarizes e “graal com suas mãos”, para pisar pequenas quantidades de alimentos; machadinhas, manchil, cutelos e facas, para cortar os alimentos; e “colheres de ferro com buracos e sem buracos”, ou seja colheres para mexer os alimentos sendo que aquelas que possuíam buracos – escumadeiras – serviam para retirar a escuma dos líquidos; as gamelas em madeira e os alguidares de barro, usados para preparar os alimentos – amanhar, lavar, raspar, amassar…. No forno utilizavam-se rapadouras, ou seja, pás de ferro para trabalhar o lume; tigelas “de fogo” e pingadeiras vidradas para assar os alimentos. Para alumiar o espaço havia “candeeiros de ferro”. Todo estes utensílios existentes na cozinha eram “cousas necessárias para se guisar de comer para os religiosos” (GOMES, 1998 [1536]: 277).

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa

Debrucemo-nos sobre o refeitório e os utensílios usados nas refeições conventuais. No refeitório existiam mesas corridas dispostas em «U» em volta das paredes, e bancos também corridos. Deste modo os religiosos sentavam-se lado a lado, de costas voltadas para a parede, e de rosto voltado para o interior da sala. A partir da pouca documentação conhecida parece perceber-se que nos século XVI-XVII há alterações que vão sendo introduzidas no quotidiano do refeitório e nos utensílios usados.

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pormenor. Repare-se no uso do guardanapo que um dos monges leva à boca e que outro tem pousado sobre a mesa. Fotografia de Miguel Sousa

As mesas eram cobertas com toalhas ou mantéis e cada monge possuía o seu próprio guardanapo, copo e faca (GOMES, 1998 [1527]: 88). Apesar de o garfo estar documentado em Portugal desde pelo menos o século XVI não era ainda de uso generalizado à mesa, não aparecendo referido na documentação conventual dos séculos XVI e XVII. Mas, o garfo individual, bem como a faca e a colher, aparece, por exemplo, representado na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» (DIAS, 2009: 157) com que ilustramos este artigo, datada de 1703 e proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).
No mosteiro de Alcobaça, em 1527, os monges comem em bacios de estanho, o mesmo sucedendo, em 1529, no Mosteiro de Lafões (GOMES, 1998 [1527]: 88 e 393). Estes bacios provavelmente seriam recipientes de uso comum a vários monges que deles retiravam a comida com as mãos. Estes bacios deviam ser de maiores dimensões do que o prato individual. Tratava-se ainda dos resquícios de um costume em uso na Idade Média e que prevaleceu em certos meios rurais portugueses até ao século XX.
Em 1536, no mosteiro de Santa Maria de Bouro, os monges já usavam o prato individual, designado pratel (prato pequeno de tamanho semelhante ao nosso actual prato de sobremesa), ou então o trincho[3] de pau individual, grande ou pequeno (GOMES, 1998 [1536]: 265 e 283). Estamos perante uma evolução no modo de comer, abandona-se o uso do bacio comum e passa a utilizar-se ou o prato ou o trincho individual. De facto, na segunda metade do século XVI, no convento de Santa Clara de Guimarães, o regulamento interno obrigava as freiras a comer cada uma «per si» de seu prato e não duas do mesmo (FERNANDES, 2004). Nos séculos XVII e XVIII parece já estar generalizado o hábito de cada um comer de seu prato, não se usando o trincho de pau mas sim o prato em faiança ou estanho. No mosteiro de Tibães, no século XVII, os monges utilizam pratos de faiança na sua mesa e adquirem pratos de loiça vidrada para os criados[4].
Quando os alimentos não eram sólidos usavam-se escudelas individuais, de «pau», barro, málega (ou seja, faiança) ou estanho, bem como tigelas de barro vidradas e recorria-se à colher, normalmente de pau, para levar os alimentos à boca. Os doces de colher ou outras iguarias eram servidos em covilhetes também de uso individual.

Salseira. Proveniente das escavações arqueológicas realizadas na Associação Comercial e Industrial de Guimarães. Fotografia de Manuel Correia

Sobre a mesa era presença obrigatória o saleiro e a salseira (FERNANDES; FAURE, 2010), sendo que o saleiro era de uso comum, servindo vários monges, e a salseira de uso individual. Na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», datada de 1703, proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto pode observar-se sobre a mesa vários saleiros com a sigla «S[ão] B[ento]»[5].
A salseira ou salsinha, era um recipiente diminuto usado para conter «adubos», ou seja molhos e condimentos com que se “adubava a comida”.
Sobre a mesa, ao serviço de líquidos temos: para o vinho, ferrados em madeira e pichéis (FERNANDES; FAURE, 2010) em metal ou barro, bem como garrafas de vidro; e para a água, jarros de málega (=faiança). Para ingestão de líquidos encontramos o púcaro de barro que vem paulatinamente a ser substituído pelo copo de vidro. No transporte da água da fonte até à mesa utilizavam-se cântaros de barro.
Também na mesa se dispunham “carneiros[6] de málega para os ossos e espinhas” (GOMES, 1998 [1527]: 88) e almotolias ou galhetas para azeite e vinagre.
A comida era trazida para a mesa em bacios grandes de estanho nos quais se colocava “a carne ou pescado cozido”. O pão e a fruta eram trazidos em cestos.

Texto publicado in José Eduardo Franco (coord.) – O Esplendor da Austeridade: Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Património. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2011. P. 621-622.


[1] Estes texto refere os utensílios usados nos mosteiros ao longo dos séculos XVI a XVIII. Para a sua feitura recorremos à documentação manuscrita do convento de Santa Clara de Guimarães, bem como pudemos também usar os dados recolhidos no «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII), do mosteiro de S. Martinho de Tibães que nos foram gentilmente cedidos pela Dr.ª Anabela Silva, técnica superior do Mosteiro de Tibães. Recorremos ainda a alguma bibliografia específica que vai citada ao longo do texto.

[2] In «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII). Mosteiro de S. Martinho de Tibães.

[3] Bluteau explica que trincho “era antigamente em certas comunidades religiosas um prato de pau com debrum ou beiçozinho ao redor em que se levava ao refeitório a ração de carne” (BLUTEAU, 1712-1728:

[4] Leia-se o artigo deste blogue «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e atente-se na mesa representada na pintura beneditina datada de 1703 e proveniente do Mosteiro de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).

[5] Pela leitura dos inventários dos mosteiros verifica-se, de facto, que são adquiridas mais salseiras do que saleiros e, pela proporção dos bens adquiridos fica-se com a ideia de que um saleiro era usado por vários monges. No entanto, na pintura beneditina «Milagre de S. Bento» referida na nota anterior verifica-se que existe um saleiro por cada monge.

[6] O termo carneiro serve para designar um recipiente onde se colocam os restos não aproveitados do alimento que se está a comer – ossos e espinhas de peixe. Bluteau explica que “carneiro de ossos” é “sepultura (…) por carneiro entendemos uma sepultura comum em que se metem e se confundem uns com os outros ossos de defuntos (…) E como esta palavra por sua natureza e por sua etimologia significa um lugar em que se guarda alguma coisa…” (BLUTEAU, 1712-1728).

BIBLIOGRAFIA
 
BLUTEAU, 1712-1728
Rafael Bluteau, PadreVocabulário português e latino… 10 vol. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus.
Vol 1 e 2 (1712), 3 e 4 (1713), 5 (1716), 6 e 7 (1720), 8 (1721), Suplemento 1 (1727), Suplemento 2 (1728). http://www.ieb.usp.br/online/index.asp

DIAS, 2009
Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.

FERNANDES, 2004
Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.

FERNANDES; OLIVEIRA, 2004
Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.

GOMES, 1998
Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).

Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual

É do conhecimento geral que a vida em clausura impunha regras rígidas de observância colectiva sobre o modo como se gastava o tempo dentro do espaço conventual. Ao ritmo do tempo de oração sucediam outros ritmos destinados ao dormir, ao trabalho e ao comer.
As principais refeições eram o jantar (que hoje designamos almoço) e que decorria por volta do meio-dia, e a ceia (a que hoje chamamos jantar) e que sucedia ao entardecer. A ceia costumava ser mais frugal do que o jantar.
As refeições tinham lugar num espaço apropriado para o efeito – o refeitório. Este situava-se perto da cozinha e com ela comunicava normalmente por uma janela (muitas vezes com roda) através da qual eram passados os alimentos. Os monges dirigiam-se para o refeitório assim que ouviam “tanger à mesa”, ou seja, assim que “eram chamados com o sinal dos sinos” que tocavam avisando da hora da refeição (TAVARES, 1999: 66). Antes e depois de comer lavavam as mãos em lavatório existente junto do refeitório[1]. Os monges comiam em conjunto no refeitório, em silêncio, olhos postos em baixo, ouvindo o monge leitor que do púlpito lia a Bíblia ou outras obras sacras. Comer nas celas ou noutros locais era expressamente proibido (GOMES, 1998: 416).

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa

O refeitório era vulgarmente composto por mesas compridas colocadas junto às paredes e por bancos corridos, sentando-se os monges apenas de um dos lados da mesa, aquele que ficava encostado à parede. Deste modo as mesas dispunham-se vulgarmente em «U» com os monges voltados uns para os outros, existindo armários, muitas vezes dois, embutidos nas paredes onde se guardavam alguns dos utensílios necessários ao refeitório.
Os monges tinham de ser frugais na alimentação, cientes de que deviam comer para ter saúde e poder servir na religião. Durante a refeição deviam lembrar-se dos que tinham fome e eram mais merecedores do que eles aos olhos de Deus, pelo que deviam comer moderadamente fazendo com que os alimentos sobejassem e no final da refeição pudessem ser distribuídos pelos mais necessitados (TAVARES, 1999: 66 e 68-69).
A sua dieta diária ainda está mal conhecida mas, como exemplo, referiremos os géneros alimentícios usados no Convento feminino de Santa Clara de Guimarães e referidos nos livros de despesa (séc. XVII-XVIII): ingredientes – açúcar, amêndoa, arroz, azeite, canela, feijão, manteiga de vaca, pingue, sal, unto, vinagre; cereais e seus derivados – centeio, milho, trigo, pão, pão de milho, pão de centeio; hortaliças e leguminosas – hortaliça, legumes, repolho, tremoços; carne – carne de picado, carne de porco, carne de vaca, carneiro, galinha, picado de vaca, presunto, toucinho, pastéis, pastéis de carne, pastéis de pasteleiro; peixe – bacalhau, cação, faneca, lampreia, pescada, polvo, raia, sardinha, sável; outros – leite, vinho (FERNANDES, 2004: 14).
Os alimentos eram temperados na mesa com sal e adubados com especiarias e condimentos como a mostarda.

Por isso, fazia parte da utensilagem diária colocada na mesa o saleiro para o sal e a salsinha ou salseira para conter os adubos – salsa, mostarda… O pão era presença habitual na mesa, acompanhando o que se comia. Para ajudar a digerir os alimentos sólidos os monges bebiam usualmente água ou vinho, sendo que o vinho era muitas vezes misturado com água – vinho meado ou vinho terçado.
Sobre o modo como eram confeccionados os pratos pouco sabemos. A carne e o peixe eram servidos cozidos ou fritos mas também podiam ser assados, guisados ou desfeitos e metidos em empadas ou pastéis. Os legumes acompanhavam a carne ou o peixe. Como sobremesa comiam fruta e, em dias especiais, doces. Em tempos de festa as refeições eram mais abastadas e os doces um complemento habitual.
No séc. XVII, no «regulamento do refeitório» do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, determina-se como os monges se deviam comportar à mesa (TAVARES, 1999: 68-71): “estar muito compostos, quietos, graves, e mortificados com os olhos baixos, com o tento na lição”; ao iniciar a refeição só deviam abrir o guardanapo depois de decorrido o tempo suficiente para dizer um Padre Nosso e uma Ave-Maria; não deviam comer apressadamente, nem “com ambas as partes da boca», nem meter «um bocado antes de engolir o outro”; o pão devia ser partido com a faca e não com as mãos; não deviam meter à boca grandes pedaços, “como os meninos”, “senão tudo partido”; não deviam roer os ossos, nem bater “com eles sobre o pão ou sobre a mesa para lhe tirar os tutanos”; não lhes era permitido meter “toda a mão na tigela para tirar as sopas”, mas podiam fazê-lo usando apenas “dois ou três dedos sem sujar a mão”[2]; não deviam lamber “os dedos, como fazem os rústicos”, e se estes de qualquer modo ficassem sujos “como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura”, limpem-nos “dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito”; ao servir-se de sal deviam tirá-lo “com a faca e não com os dedos”. E mais cuidados deviam ter quando o sal se destinava a temperar rábanos, nesse caso deviam lançar o sal sobre estes tendo por baixo uma folha dos ditos e não o guardanapo.

Todos estes cuidados – não limpar os dedos nem a faca ao guardanapo e não usá-lo para sobre ele temperar os rábanos – tinha como finalidade “não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta”.
Interessantes são também as advertências para que “não alimpem os narizes com o guardanapo nem com a mão descoberta senão com o lenço”; que quando tivessem de cuspir o “não seja por cima da mesa senão debaixo dela abaixando-se, por não fazer nojo ao companheiro, e chegando com o pé ao cuspo apaguem-no. E tossindo cubram a boca com o lenço ou com o hábito afastando a boca do outro companheiro”. Deviam também ter compostura e não estarem debruçados sobre o comer”, nem lançar-se “sobre o prato quando comem”, nem encostar “os braços à mesa”, nem encostar-se “para trás de sorte que fiquem mal compostos”; nem deviam acabar “de comer depois dos outros mas antes deles, quanto puder ser”. Por fim, ensina-se que só depois do monge leitor dizer “Tu autem Domine miserere nobis”, e de todos ainda sentados responderem “Deo gracias”, é que se podiam levantar, dando-se deste modo por finda a refeição (TAVARES, 1999: 68-71) [3].

Texto publicado in José Eduardo Franco (coord.) – O Esplendor da Austeridade: Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Património. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2011.

BIBLIOGRAFIA
DIAS, 2009
Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.
FERNANDES, 2004
Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.
FERNANDES; OLIVEIRA, 2004
Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.
GOMES, 1998
Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).
MEDINA, 2005
Ignacio Medina – Marrocos. Lisboa: Público, 2005 (Cozinha País a País; 4).
TAVARES, 1999
Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no séc. XVII português. Sintra: Colares Editores, 1999.


[1] Em 1536, no Mosteiro de Santa Maria do Bouro havia “saboeiras” e “toalhas de mãos” que se destinavam muito provavelmente para o acto de lavar as mãos com sabão, que ficava pousado na saboeira, e de as limpar com “toalha de mãos”.
[2] É importante referir que este hábito de comer com as mãos usando apenas três dos dedos é costume antigo ainda hoje em uso em alguns países, como, por exemplo, em Marrocos: “O principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou cinco dedos é comportamento de glutões, excepto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).
[3] Este texto vai ilustrado com uma pintura sobre tábua da autoria do Padre Manuel Correia de Sousa, datada de1703 e proveniente do Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente encontra-se na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, a quem pertence e a quem agradecemos a possibilidade de ter fotografado a imagem e de a utilizar. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa.

Uma pintura do Mosteiro de Santa Clara (Funchal, Madeira)

Milagre de Santa Clara: benção dos pães. Séc. XVII. Mosteiro de Santa Clara (Funchal, Madeira)

Tive oportunidade de me deslocar ao mosteiro de Santa Clara, no Funchal (Madeira), visita que fortemente recomendo.
O Convento fui fundado, bem no final do séc. XV, por João Gonçalves da Câmara, filho de João Gonçalves Zarco, um dos descobridores da Madeira. O convento, pertencente à ordem franciscana – irmãs clarissas, foi criado para receber filhas das famílias nobres radicadas na ilha. Entre as primeiras freiras que deram entrada na clausura contavam-se duas das netas de João Gonçalves Zarco – D. Isabel de Noronha e D. Constança de Noronha.
O mosteiro mantém ainda intacta grande parte da sua estrutura funcional, destacando-se, entre o que se pode visitar, a igreja, o coro alto e baixo e o claustro.

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Com este texto apenas se pretende chamar a atenção para uma pintura seiscentista incluída num dos altares laterais e que representa um dos milagres de Santa Clara – o milagre da bênção dos pães.
Santa Clara nasceu em Assis (Itália) em 1193 e faleceu no mosteiro de S. Damião, em 1253. Cedo encontrou a sua vocação religiosa, sendo uma admiradora da obra de S. Francisco com quem conviveu. Foi ela a fundadora da ordem franciscana feminina, ou seja, das Clarissas.
A vida de S. Francisco, de Santa Clara e de alguns dos seus seguidores é narrada nos «Fioretti», um conjunto de textos escritos no início do século XIV, provavelmente a várias mãos. É aí que se encontra descrito o milagre de Santa Clara conhecido como o milagre da bênção dos pães.
Para melhor compreensão do que representa a pintura aqui analisada transcreve-se o referido milagre de Santa Clara contido nos «Fioretti»:
“Capítulo 33 : Como S. Clara, por ordem do papa, benzeu o pão que estava na mesa pelo que em cada pão apareceu o sinal da Santa Cruz.
S. Clara, devotíssima discípula da cruz de Cristo e nobre planta de S. Francisco, era de tanta santidade, que não somente os bispos e os cardeais, mas o próprio papa desejava com grande afecto vê-la e ouvi-la e frequentes vezes a visitava pessoalmente.
Entre outras veio o Santo Padre uma vez ao mosteiro para ouvi-la falar das coisas celestiais e divinas; e estando assim juntos em divinos colóquios, S. Clara mandou no entanto preparar a mesa e pôr nela o pão a fim de que o Santo Padre o benzesse. Pelo que, terminado o entretenimento espiritual, S. Clara, ajoelhando-se com grande reverência, pediu-lhe que se dignasse benzer o pão posto na mesa. Responde o santo padre: “Soror Clara fidelíssima, quero que benzas este pão e faças sobre ele o sinal da cruz de Cristo ao qual te deste inteiramente”. Santa Clara disse: “Santíssimo padre, perdoai-me, que eu seria digna de muito grande repreensão se diante do vigário de Cristo, eu, que sou uma vil mulherzinha, tivesse a presunção de dar tal bênção”. E o Papa responde: “A fim de que isto não seja imputado à presunção, mas ao mérito de obediência, ordeno-te pela santa obediência que sobre este pão faças o sinal da cruz e o benzas em nome de Deus”.
Então Santa Clara, como verdadeira filha da obediência, aqueles pães devotamente benzeu com o sinal da Santa Cruz. Admirável coisa de ver-se! Subitamente em todos aqueles pães apareceu o sinal da cruz belissimamente gravado, e então daqueles pães uma parte foi comida e a outra conservada por causa do milagre.
E o Santo Padre, tendo visto o milagre, tomando do dito pão e agradecendo a Deus, partiu-se deixando Santa Clara com a sua bênção.
Naquele tempo vivia naquele mosteiro Soror Hortolana, mãe de Santa Clara, e Soror Inês, sua irmã, ambas, como Santa Clara, cheias de virtude e de Espírito Santo, e com muitas outras santas religiosas.
As quais mandava S. Francisco muitos enfermos; e elas com as suas orações e com o sinal da santa cruz a todos restituíam a saúde. Em louvor de Cristo. Amen.”
In http://www.paxetbonum.net/fioretti_text_P.html

A pintura seiscentista que se encontra na Igreja do Mosteiro de Santa Clara representa o milagre da bênção dos pães referido nos «Fioretti» e acima transcrito.
Nesta pintura encontra-se representado o Santo Papa, Santa Clara, com a cabeça adornada com auréola, sua mãe Hortolana e sua irmã Inês (Santa Inês de Assis).
As quatro personagens encontram-se em redor de uma mesa, coberta com toalha branca e sobre a qual pousam três pães, mais um que Santa Clara segura numa das mãos.
Na mesa encontra-se um prato grande com um frango cozinhado e quatro pratos vazios de menores dimensões (um para cada uma das personagens que figuram na cena).
Não se percebe bem qual a matéria em que são feitos os pratos, mas a cor, a ausência de pintura, a caldeira baixa e a aba recta, leva a supor tratar-se de pratos de metal, provavelmente de estanho.
Sobre a mesa encontram-se também dois púcaros de barro vermelho com duas asas. Por fim, refira-se a presença de um saleiro num dos cantos da mesa.
O saleiro era um dos utensílios sempre presente nas mesas desta época.
Pinturas como esta ajudam a conhecer o modo como se punham as mesas seiscentistas e qual a loiça que se utilizava. No entanto, deve ter-se sempre presente que este tipo de pinturas têm um forte carácter apologético, sendo provável que a mesa representada fosse mais simbólica do que a real representação da mesa que quotidianamente se punha e levantava.

P.S. Pede-se desculpa pela qualidade das fotografias…