Clenardo e a estalagem junto ao Tejo… no século XVI

Cebolas. Fotografia de Ana CastroOs estrangeiros que viajaram pelo nosso País, e que publicaram as suas viagens, são unânimes em referir a má qualidade das estalagens, quer no respeitante à comida quer à dormida. No seguimento do texto anterior, também da autoria de Clenardo (ver aqui), damos a conhecer a estalagem onde este pernoitou (em 1537?), junto ao rio Tejo, e onde tão mal recebido foi …
Através deste texto apercebemo-nos do que então se comia. E, o que não deixa de ser interessante, o facto de já nessa época o povo apreciar comer cebola crua ou assada, regada ou não com azeite e vinagre.
Alguns anos passados, em 1701, também Thomaz Cox e Cox Macro, reparam no gosto dos portugueses por “cebolas e pão” (COX; MACRO, 2007: 103 E 267).
Há muitos anos atrás, em terras do Gerês, também nos foi oferecido um manjar semelhante – cebola e pão…
E será também oportuno lembrar aqui um velho ditado popular que diz –  “À falta de capão, cebola e pão”. Ouvi pela primeira vez este ditado em Barcelos. Bem que Clenardo o poderia ter utilizado na noite em que pernoitou junto ao Tejo…

Epístola de Nicolau Clenardo aos Cristãos (…) (ca 1541)
“Depois duma jornada tão longa, avistámos enfim uma casita. Foi uma alegria! Deitámos a correr para almoçar…
Compensámos os danos da noite anterior; ainda por cima os almocreves animavam-nos e prometiam mundos e fundos, se atravessássemos o Tejo e chegássemos a Tancos, povoação que nos esperava lá para o entardecer. Tanto nos buzinaram ao ouvido com o vinho desta terra, e as suas galinhas, e as suas perdizes, e os seus capões, e a sua carne de carneiro e de vaca, numa palavra a boa mesa da Sicília, que nós, com a água na boca, atirámos-lhe mais abundantemente ainda aquele Baco de Évora, pouco faltando para empinar a borracha levando-a até às fezes.
Mas os lamentos substituíram bem depressa esses extremos de regozijo, saindo-nos muito cara a demasiada alegria, antes de tempo, do festim. Com efeito, a noite surpreendeu-nos, quando chegámos à margem do Tejo. Àquela hora já se não podia atravessar o rio…
Desabafei ali mesmo o meu desapontamento sobre os almocreves: pois não viram que se nos demorava demasiado o almoço? Que havíamos de fazer agora?
Havia ali uma estalagem, que nunca contara decerto, nós iríamos lá bater um dia. Dirigi-me ao dono: – Olá estalajadeiro, cá há palha? Mas o raio do Polifemo continuou a passear e não se dignou de responder uma palavra sequer. Eu insisti: – Meu caro senhor, perguntava eu se tem palha para os burros? Enfim, lá respondeu a custo e de muito mau modo: – Não sei.

Entretanto os outros andavam numa roda-viva a descarregar os fardos e a procurar palha, pois temíamos mais pelos cavalos que por nós. Tinha-se passado nisto já meia-hora, quando um dos almocreves me veio anunciar que a casa estava repleta de palha. Não me tive que não exclamasse: – Se eu fosse o rei de Portugal, raios me partam se não mandasse crucificar este estalajadeiro!
Ao mesmo tempo fui lançando o rabo do olho para a cozinha, a ver se havia alguma coisa ao lume.
Que há para a ceia, ó patroa?
– Não tenho nada, respondeu.
– Nada absolutamente?
– Absolutamente nada.
– Mate-nos então uma galinha.
– Não crio galinhas para matar…
– Há ovos, pelo menos?
– Quem mos dera! Não se encontrou nenhum.
– Não haverá nem sequer por aí umas cabecitas de peixes do ribeiro?
– Credo! Comer peixe ao dia de carne!
Palavra que se El Rei estivesse presente, eu mesmo teria feito de algoz, e não garanto que não imitasse os antropófagos…
– Guilherme, ordenei eu, põe a mesa.
Enquanto punham sobre a mesa o saleiro e um ou outro pão, eu tinha os olhos espetados numa panela que estava ao lume!
Que é aquilo que está a cozer?
A vendeira respondeu-me: – É toucinho.
– Faça-me então o favor de me ceder um bocado ao menos. Eu contentava-me o bastante para molhar nele o pão da ceia.
Não, não posso, acudiu. É todo preciso para os criados.
Mas, enfim, à força de pedidos, sempre obtivemos um bocado, aí coisa duma onça. Até estou em acreditar que apareci agora feito italiano, pois é em algumas terras da Itália que a carne se costuma vender às onças.
Mas o que fomos nós fazer! Aquela pitada de carne excitou o estômago, como se o tivesse roçado de mansinho: agora é que era ter apetite de mais carne de porco!
Perguntei então se não havia mais toucinho na casa.
Havia.
– Bem, então deite mais na panela, ou asse-o nas brasas.
Mas o estafermo da mulher replicou lampeira que a carne de porco à noite fazia mal ao estômago.
Diabos te levem, ó minha bruxa, mais a tua medicina!
Os dentes comiam-lhes, ao holandês Guilherme como a Clenardo de Barbante. Virando-me para os arrieiros, disse-lhes: – Que é das ricas perdizes que imaginámos ao almoço? Porém eles roíam as suas cebolas cruas, sem se incomodarem com o caso. Até me deram de conselho que comesse eu também algumas cebolas assadas. Este conselho pareceu-me uma âncora de salvação. Temperam-se com azeite e vinagre: o azeite ainda no-lo forneceram posto que mesquinhamente, mas o vinagre era coisa que não havia naquela maldita casa, a não ser uma especialidade de vinho que nos deram, a que melhor caberia o nome de vinagre. Temperámos com este molho de azeite as cebolas, e achei-as tão saborosas que nunca mais deixei de levar na minha bagagem este remédio maravilhoso contra todas as adversidades e má fortuna. Que pena não se terem assado mais algumas! Estava com uma fome devoradora nessa noite; creio que foi por causa de me ter levado dos diabos que fiz tão bem a digestão do jantar. Por Deus lembrou-me de molhar em vinho tostas de pão. Perguntei logo se tinha sobrado algum vinho daquele de Évora.
Não senhor, respondeu Guilherme. A gente deu largas excessivamente à alegria durante o almoço, bebendo um pouco indiscretamente.
Mas eu insisti: – Vê lá se arranjas ainda algumas gotas para salpicar ao menos o pão com esse restozito daquele odorífero Baco diluído em água.
Conseguiu-se assim aí meio copo. E com essas sobremesas se fechou brilhantemente aquele opíparo banquete.
Só houve um grande inconveniente: e foi que, depois daquela nova iguaria, o estômago pôs-se a ladrar ainda mais. Mas já se tinham esgotado todos os meios, não havendo mais comestíveis para que apelar. A noite pelo menos prometia-nos alguma consolação, com a esperança de dormir numa cama mole e fofa.
Dei ordem ao Guilherme que me mandasse preparar a cama para me deitar.
Mas o vendeiro intervém:
– Nestes meses de verão não há necessidade de camas.
Respondi-lhe pronto: – Mas preciso eu, que não estou acostumado a dormir no chão ou sobre tábuas nuas.
Mas agora é a mulher que se intromete dizendo: – Porém nós é que não temos cama.
Não pude deixar de dizer para mim, à vista disto: – Oh lusitanos, porque é que empregais palavras mentirosas? Eis aqui está o que chamais uma estalagem, onde não há que comer, nem se pode dormir!
Enfim, depois de muita troca de palavras, mudando de rumo para pedidos mais persuasivos, sempre consegui, Deus sabe quanto custou, uma coisa que tinha a aparência de cama.
No dia seguinte, depois de feitas as contas, soube porque razão os escritores chama aurífero ao Tejo: – uma sombra de ceia com cama custou mais do que um magnífico banquete de Brabante! Se ninguém até agora descobriu nesse rio veios de oiro ou mesmo simples palhetas, acredite em mim quando digo que lhe chamaram aurífero por nos levar o oiro que trazemos na bolsa. É até mais muito poético tomar simples pelo composto: haja vista Juvenal que emprega Pomamos nímios gemitus, querendo dizer deponamus”.
In M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

Bibliografia
CEREJEIRA, 1926
M. Gonçalves Cerejeira – Clenardo: o humanismo em Portugal: com a tradução das suas cartas. Coimbra: Coimbra Editora, 1926. P. 389-392.

COX; MACRO, 2007 [1701]
Thomaz Cox; Cox Macro – Relação do Reino de Portugal: 1701. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007.

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A louça ao serviço dos Conventos

Pratos provenientes do Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Os monges no seu quotidiano estavam rodeados dos utensílios necessários às actividades que compunham o seu dia-a-dia[1]. Esses utensílios eram feitos em diferentes materiais – madeira, barro, faiança, estanho e vidro, para só citar os mais usuais. Segundo os monges as peças de pau, barro e estanho gastavam-se muito mais do que as de ferro ou cobre (GOMES, 1998 [1536]: 286).
Na sua cela cada monge possuía “uma arca de castanho, e uma mesinha para ler e ter livros, e uma cadeira de pau, e um ou dois papéis de imagens” (GOMES, 1998 [1536]: 283), ou seja estampas com os santos da sua devoção. Tinha também um cântaro e um púcaro para água e um ourinol para recolha da urina[2].
No celeiro, ou «casa da celaria», local onde se guardavam os alimentos de que o mosteiro necessitava, havia “vasos, e mesas, e outros vasos em que se guarde a carne e o pescado de todo o convento, e fruta, e legumes, e azeite, e mel” (GOMES, 1998 [1536]: 285).

Tigela de fogo. Convento de Santa Rosa de Lima, em Guimarães. Séc. XVIII. Museu de Alberto Sampaio. Fotografia de Miguel Sousa

Na adega existiam cubas, tonéis e dornas “para ter o vinho”, funis, cântaros e gamelas, bem como “as medidas necessárias” para medir o vinho (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na «casa da massaria», dependência onde se preparava o pão, havia “dornas em que está a farinha”, masseiras para amassar o pão, gamelas, tabuleiros, joeiras e peneiras, todos feitos de madeira. Havia também “panos de linho e de burel para cobrir o pão quando se amassa” (GOMES, 1998 [1536]: 265).
Na cozinha, junto ao lume preponderava a cadeia na chaminé para dependurar as caldeiras e caldeirões de cobre usados “para cozer a carne” na lareira; os espetos, grelhas e trempes de ferro que assentavam sobre o fogo e nas quais se colocavam os tachos e panelas de cobre onde se cozinhava e as sertãs de ferro para “alguma hora se frigir algumas coisas”. Na preparação dos alimentos usava-se “um cepo grande de pau para cortar a carne”; almofarizes e “graal com suas mãos”, para pisar pequenas quantidades de alimentos; machadinhas, manchil, cutelos e facas, para cortar os alimentos; e “colheres de ferro com buracos e sem buracos”, ou seja colheres para mexer os alimentos sendo que aquelas que possuíam buracos – escumadeiras – serviam para retirar a escuma dos líquidos; as gamelas em madeira e os alguidares de barro, usados para preparar os alimentos – amanhar, lavar, raspar, amassar…. No forno utilizavam-se rapadouras, ou seja, pás de ferro para trabalhar o lume; tigelas “de fogo” e pingadeiras vidradas para assar os alimentos. Para alumiar o espaço havia “candeeiros de ferro”. Todo estes utensílios existentes na cozinha eram “cousas necessárias para se guisar de comer para os religiosos” (GOMES, 1998 [1536]: 277).

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa

Debrucemo-nos sobre o refeitório e os utensílios usados nas refeições conventuais. No refeitório existiam mesas corridas dispostas em «U» em volta das paredes, e bancos também corridos. Deste modo os religiosos sentavam-se lado a lado, de costas voltadas para a parede, e de rosto voltado para o interior da sala. A partir da pouca documentação conhecida parece perceber-se que nos século XVI-XVII há alterações que vão sendo introduzidas no quotidiano do refeitório e nos utensílios usados.

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pormenor. Repare-se no uso do guardanapo que um dos monges leva à boca e que outro tem pousado sobre a mesa. Fotografia de Miguel Sousa

As mesas eram cobertas com toalhas ou mantéis e cada monge possuía o seu próprio guardanapo, copo e faca (GOMES, 1998 [1527]: 88). Apesar de o garfo estar documentado em Portugal desde pelo menos o século XVI não era ainda de uso generalizado à mesa, não aparecendo referido na documentação conventual dos séculos XVI e XVII. Mas, o garfo individual, bem como a faca e a colher, aparece, por exemplo, representado na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» (DIAS, 2009: 157) com que ilustramos este artigo, datada de 1703 e proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).
No mosteiro de Alcobaça, em 1527, os monges comem em bacios de estanho, o mesmo sucedendo, em 1529, no Mosteiro de Lafões (GOMES, 1998 [1527]: 88 e 393). Estes bacios provavelmente seriam recipientes de uso comum a vários monges que deles retiravam a comida com as mãos. Estes bacios deviam ser de maiores dimensões do que o prato individual. Tratava-se ainda dos resquícios de um costume em uso na Idade Média e que prevaleceu em certos meios rurais portugueses até ao século XX.
Em 1536, no mosteiro de Santa Maria de Bouro, os monges já usavam o prato individual, designado pratel (prato pequeno de tamanho semelhante ao nosso actual prato de sobremesa), ou então o trincho[3] de pau individual, grande ou pequeno (GOMES, 1998 [1536]: 265 e 283). Estamos perante uma evolução no modo de comer, abandona-se o uso do bacio comum e passa a utilizar-se ou o prato ou o trincho individual. De facto, na segunda metade do século XVI, no convento de Santa Clara de Guimarães, o regulamento interno obrigava as freiras a comer cada uma «per si» de seu prato e não duas do mesmo (FERNANDES, 2004). Nos séculos XVII e XVIII parece já estar generalizado o hábito de cada um comer de seu prato, não se usando o trincho de pau mas sim o prato em faiança ou estanho. No mosteiro de Tibães, no século XVII, os monges utilizam pratos de faiança na sua mesa e adquirem pratos de loiça vidrada para os criados[4].
Quando os alimentos não eram sólidos usavam-se escudelas individuais, de «pau», barro, málega (ou seja, faiança) ou estanho, bem como tigelas de barro vidradas e recorria-se à colher, normalmente de pau, para levar os alimentos à boca. Os doces de colher ou outras iguarias eram servidos em covilhetes também de uso individual.

Salseira. Proveniente das escavações arqueológicas realizadas na Associação Comercial e Industrial de Guimarães. Fotografia de Manuel Correia

Sobre a mesa era presença obrigatória o saleiro e a salseira (FERNANDES; FAURE, 2010), sendo que o saleiro era de uso comum, servindo vários monges, e a salseira de uso individual. Na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», datada de 1703, proveniente do Mosteiro beneditino de Refojos de Basto pode observar-se sobre a mesa vários saleiros com a sigla «S[ão] B[ento]»[5].
A salseira ou salsinha, era um recipiente diminuto usado para conter «adubos», ou seja molhos e condimentos com que se “adubava a comida”.
Sobre a mesa, ao serviço de líquidos temos: para o vinho, ferrados em madeira e pichéis (FERNANDES; FAURE, 2010) em metal ou barro, bem como garrafas de vidro; e para a água, jarros de málega (=faiança). Para ingestão de líquidos encontramos o púcaro de barro que vem paulatinamente a ser substituído pelo copo de vidro. No transporte da água da fonte até à mesa utilizavam-se cântaros de barro.
Também na mesa se dispunham “carneiros[6] de málega para os ossos e espinhas” (GOMES, 1998 [1527]: 88) e almotolias ou galhetas para azeite e vinagre.
A comida era trazida para a mesa em bacios grandes de estanho nos quais se colocava “a carne ou pescado cozido”. O pão e a fruta eram trazidos em cestos.

Texto publicado in José Eduardo Franco (coord.) – O Esplendor da Austeridade: Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Património. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2011. P. 621-622.


[1] Estes texto refere os utensílios usados nos mosteiros ao longo dos séculos XVI a XVIII. Para a sua feitura recorremos à documentação manuscrita do convento de Santa Clara de Guimarães, bem como pudemos também usar os dados recolhidos no «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII), do mosteiro de S. Martinho de Tibães que nos foram gentilmente cedidos pela Dr.ª Anabela Silva, técnica superior do Mosteiro de Tibães. Recorremos ainda a alguma bibliografia específica que vai citada ao longo do texto.

[2] In «Livro de gasto da Congregação» (séc. XVII). Mosteiro de S. Martinho de Tibães.

[3] Bluteau explica que trincho “era antigamente em certas comunidades religiosas um prato de pau com debrum ou beiçozinho ao redor em que se levava ao refeitório a ração de carne” (BLUTEAU, 1712-1728:

[4] Leia-se o artigo deste blogue «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e atente-se na mesa representada na pintura beneditina datada de 1703 e proveniente do Mosteiro de Refojos de Basto (Cabeceiras de Basto).

[5] Pela leitura dos inventários dos mosteiros verifica-se, de facto, que são adquiridas mais salseiras do que saleiros e, pela proporção dos bens adquiridos fica-se com a ideia de que um saleiro era usado por vários monges. No entanto, na pintura beneditina «Milagre de S. Bento» referida na nota anterior verifica-se que existe um saleiro por cada monge.

[6] O termo carneiro serve para designar um recipiente onde se colocam os restos não aproveitados do alimento que se está a comer – ossos e espinhas de peixe. Bluteau explica que “carneiro de ossos” é “sepultura (…) por carneiro entendemos uma sepultura comum em que se metem e se confundem uns com os outros ossos de defuntos (…) E como esta palavra por sua natureza e por sua etimologia significa um lugar em que se guarda alguma coisa…” (BLUTEAU, 1712-1728).

BIBLIOGRAFIA
 
BLUTEAU, 1712-1728
Rafael Bluteau, PadreVocabulário português e latino… 10 vol. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus.
Vol 1 e 2 (1712), 3 e 4 (1713), 5 (1716), 6 e 7 (1720), 8 (1721), Suplemento 1 (1727), Suplemento 2 (1728). http://www.ieb.usp.br/online/index.asp

DIAS, 2009
Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.

FERNANDES, 2004
Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.

FERNANDES; OLIVEIRA, 2004
Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.

GOMES, 1998
Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).

Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual

É do conhecimento geral que a vida em clausura impunha regras rígidas de observância colectiva sobre o modo como se gastava o tempo dentro do espaço conventual. Ao ritmo do tempo de oração sucediam outros ritmos destinados ao dormir, ao trabalho e ao comer.
As principais refeições eram o jantar (que hoje designamos almoço) e que decorria por volta do meio-dia, e a ceia (a que hoje chamamos jantar) e que sucedia ao entardecer. A ceia costumava ser mais frugal do que o jantar.
As refeições tinham lugar num espaço apropriado para o efeito – o refeitório. Este situava-se perto da cozinha e com ela comunicava normalmente por uma janela (muitas vezes com roda) através da qual eram passados os alimentos. Os monges dirigiam-se para o refeitório assim que ouviam “tanger à mesa”, ou seja, assim que “eram chamados com o sinal dos sinos” que tocavam avisando da hora da refeição (TAVARES, 1999: 66). Antes e depois de comer lavavam as mãos em lavatório existente junto do refeitório[1]. Os monges comiam em conjunto no refeitório, em silêncio, olhos postos em baixo, ouvindo o monge leitor que do púlpito lia a Bíblia ou outras obras sacras. Comer nas celas ou noutros locais era expressamente proibido (GOMES, 1998: 416).

Ceia de S. Bento e o Corvo. Pintura sobre tábua. Autor: Padre Manuel Correia de Sousa. 1703. Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa

O refeitório era vulgarmente composto por mesas compridas colocadas junto às paredes e por bancos corridos, sentando-se os monges apenas de um dos lados da mesa, aquele que ficava encostado à parede. Deste modo as mesas dispunham-se vulgarmente em «U» com os monges voltados uns para os outros, existindo armários, muitas vezes dois, embutidos nas paredes onde se guardavam alguns dos utensílios necessários ao refeitório.
Os monges tinham de ser frugais na alimentação, cientes de que deviam comer para ter saúde e poder servir na religião. Durante a refeição deviam lembrar-se dos que tinham fome e eram mais merecedores do que eles aos olhos de Deus, pelo que deviam comer moderadamente fazendo com que os alimentos sobejassem e no final da refeição pudessem ser distribuídos pelos mais necessitados (TAVARES, 1999: 66 e 68-69).
A sua dieta diária ainda está mal conhecida mas, como exemplo, referiremos os géneros alimentícios usados no Convento feminino de Santa Clara de Guimarães e referidos nos livros de despesa (séc. XVII-XVIII): ingredientes – açúcar, amêndoa, arroz, azeite, canela, feijão, manteiga de vaca, pingue, sal, unto, vinagre; cereais e seus derivados – centeio, milho, trigo, pão, pão de milho, pão de centeio; hortaliças e leguminosas – hortaliça, legumes, repolho, tremoços; carne – carne de picado, carne de porco, carne de vaca, carneiro, galinha, picado de vaca, presunto, toucinho, pastéis, pastéis de carne, pastéis de pasteleiro; peixe – bacalhau, cação, faneca, lampreia, pescada, polvo, raia, sardinha, sável; outros – leite, vinho (FERNANDES, 2004: 14).
Os alimentos eram temperados na mesa com sal e adubados com especiarias e condimentos como a mostarda.

Por isso, fazia parte da utensilagem diária colocada na mesa o saleiro para o sal e a salsinha ou salseira para conter os adubos – salsa, mostarda… O pão era presença habitual na mesa, acompanhando o que se comia. Para ajudar a digerir os alimentos sólidos os monges bebiam usualmente água ou vinho, sendo que o vinho era muitas vezes misturado com água – vinho meado ou vinho terçado.
Sobre o modo como eram confeccionados os pratos pouco sabemos. A carne e o peixe eram servidos cozidos ou fritos mas também podiam ser assados, guisados ou desfeitos e metidos em empadas ou pastéis. Os legumes acompanhavam a carne ou o peixe. Como sobremesa comiam fruta e, em dias especiais, doces. Em tempos de festa as refeições eram mais abastadas e os doces um complemento habitual.
No séc. XVII, no «regulamento do refeitório» do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, determina-se como os monges se deviam comportar à mesa (TAVARES, 1999: 68-71): “estar muito compostos, quietos, graves, e mortificados com os olhos baixos, com o tento na lição”; ao iniciar a refeição só deviam abrir o guardanapo depois de decorrido o tempo suficiente para dizer um Padre Nosso e uma Ave-Maria; não deviam comer apressadamente, nem “com ambas as partes da boca», nem meter «um bocado antes de engolir o outro”; o pão devia ser partido com a faca e não com as mãos; não deviam meter à boca grandes pedaços, “como os meninos”, “senão tudo partido”; não deviam roer os ossos, nem bater “com eles sobre o pão ou sobre a mesa para lhe tirar os tutanos”; não lhes era permitido meter “toda a mão na tigela para tirar as sopas”, mas podiam fazê-lo usando apenas “dois ou três dedos sem sujar a mão”[2]; não deviam lamber “os dedos, como fazem os rústicos”, e se estes de qualquer modo ficassem sujos “como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura”, limpem-nos “dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito”; ao servir-se de sal deviam tirá-lo “com a faca e não com os dedos”. E mais cuidados deviam ter quando o sal se destinava a temperar rábanos, nesse caso deviam lançar o sal sobre estes tendo por baixo uma folha dos ditos e não o guardanapo.

Todos estes cuidados – não limpar os dedos nem a faca ao guardanapo e não usá-lo para sobre ele temperar os rábanos – tinha como finalidade “não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta”.
Interessantes são também as advertências para que “não alimpem os narizes com o guardanapo nem com a mão descoberta senão com o lenço”; que quando tivessem de cuspir o “não seja por cima da mesa senão debaixo dela abaixando-se, por não fazer nojo ao companheiro, e chegando com o pé ao cuspo apaguem-no. E tossindo cubram a boca com o lenço ou com o hábito afastando a boca do outro companheiro”. Deviam também ter compostura e não estarem debruçados sobre o comer”, nem lançar-se “sobre o prato quando comem”, nem encostar “os braços à mesa”, nem encostar-se “para trás de sorte que fiquem mal compostos”; nem deviam acabar “de comer depois dos outros mas antes deles, quanto puder ser”. Por fim, ensina-se que só depois do monge leitor dizer “Tu autem Domine miserere nobis”, e de todos ainda sentados responderem “Deo gracias”, é que se podiam levantar, dando-se deste modo por finda a refeição (TAVARES, 1999: 68-71) [3].

Texto publicado in José Eduardo Franco (coord.) – O Esplendor da Austeridade: Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Património. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2011.

BIBLIOGRAFIA
DIAS, 2009
Geraldo José Amadeu Coelho Dias, OSB – O mosteiro de São Miguel de Refojos: jóia do barroco em terras de Basto. Cabeceiras de Basto: Câmara Municipal, 2009.
FERNANDES, 2004
Isabel Maria Fernandes – O comer e o modo de comer em espaço conventual: um exemplo (séc. XVI). Mãos: Revista de Artes e Ofícios. 25 (Abril 2004). P. 12-15.
FERNANDES; OLIVEIRA, 2004
Isabel Maria Fernandes; António José de Oliveira – Convento de Santa Clara de Guimarães. Boletim de Trabalhos Históricos. Guimarães. Série 2. 5 (2004). P. 11-179.
GOMES, 1998
Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998. (Documenta).
MEDINA, 2005
Ignacio Medina – Marrocos. Lisboa: Público, 2005 (Cozinha País a País; 4).
TAVARES, 1999
Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no séc. XVII português. Sintra: Colares Editores, 1999.


[1] Em 1536, no Mosteiro de Santa Maria do Bouro havia “saboeiras” e “toalhas de mãos” que se destinavam muito provavelmente para o acto de lavar as mãos com sabão, que ficava pousado na saboeira, e de as limpar com “toalha de mãos”.
[2] É importante referir que este hábito de comer com as mãos usando apenas três dos dedos é costume antigo ainda hoje em uso em alguns países, como, por exemplo, em Marrocos: “O principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou cinco dedos é comportamento de glutões, excepto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).
[3] Este texto vai ilustrado com uma pintura sobre tábua da autoria do Padre Manuel Correia de Sousa, datada de1703 e proveniente do Mosteiro Beneditino de Refojos de Basto. Actualmente encontra-se na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, a quem pertence e a quem agradecemos a possibilidade de ter fotografado a imagem e de a utilizar. Proprietário: Município de Cabeceiras de Basto. Fotografia de Miguel Sousa.