Gata seca: modo de preparar (Câmara de Lobos, Madeira)

A gata a secar. Outubro de 2011. Câmara de Lobos, Madeira


Os pescadores de Câmara de Lobos ainda hoje continuam a secar a gata (Dalatias licha), um peixe da família do tubarão.
Actualmente só o Sr. Luís (conhecido como “Sá Carneiro” pois foi esse o nome que deu ao seu barco de pesca) continua a secar a gata, considerada e designada como “o bacalhau de Câmara de Lobos”.
Apresentam-se de seguida as características deste peixe:
Nome vulgar: Gata
Nome científico: Dalatias licha (Bonnaterre, 1788)
Família: Squalidae
Distribuição e Habitat: Espécie batial
Descrição: De focinho arredondado e barbatanas peitorais e primeira dorsal também arredondadas. Possui o bordo dos dentes inferiores serreado. De coloração castanha ou anegrada, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento.
Estatuto de Conservação e Ameaças: Dados insuficientes
Observações: A sua pele é muito áspera, por isso tem sido aproveitada para lixar madeiras. Capturado acidentalmente por palangre derivante durante a pesca do peixe espada preto”. In «Madeira Nature» (http://www.madeiranature.com/index/cms/page/-/page/nature_fauna_fishes/lang/pt/articleId/295/articleTitle/gata)
De seguida apresentam-se algumas imagens da gata, retiradas do site Arkive (http://www.arkive.org/kitefin-shark/dalatias-licha/image-G43113.html), para que se fique com uma ideia deste peixe, chamado gata por possuir uns “bigodes” semelhantes aos do gato e chamado lixa em Portugal Continental, derivado quer do seu nome científico – Dalatias licha–, quer por a sua pele ser aproveitada como lixa e usada por carpinteiros e sapateiros.
Do fígado da gata extraía-se um óleo usado na iluminação, quer nos candeeiros utilizados pelos pescadores durante a pesca quer nas habitações (http://www.concelhodecamaradelobos.com/dicionario/gata.html).
No porto piscatório de Câmara de Lobos, num belo final de tarde do início de Outubro, tivemos oportunidade de ver a gata a secar e falar com um dos empregados do senhor “Sá Carneiro”, o senhor Marcelino. Ele e mais dois colegas ocupavam-se na recolha da gata que estava a secar. Foi ele quem nos explicou como se procede à sua secagem.

A retirar a pele à gata


É também importante referir que este peixe não se come fresco, mas sim seco. O Sr. Marcelino diz que se começa por retirar a cabeça e a pele à gata, sendo esta seguidamente aberta ao meio e escalada.
Durante um dia é atada pelo “pé” é pendurada numa barra  suportada por dois “pés metálicos” junto ao barco “Sá Carneiro” de modo a que lhe seja dada uma primeira secagem.

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De seguida é salgada com sal, e assim permanece a salgar durante cerca de três dias. Depois da salga é furada em quatro pontos distintos, sendo inserido, em cada par de furos, um pedaço de cana cortado a meio, no sentido horizontal. De novo presa pelo “pé” com uma corda plástica a gata é pendurada num estendal, no barco e em redor deste, para que seque ao vento e ao sol.
A gata precisa de uma cura de seis dias, pouco mais ou menos. Pela manhã é colocada no estendal do barco ou no chão junto a este, ao final do dia é retirada e transportada numa carinha com câmara frigorífica para o armazém do Sr. Luís “Sá Carneiro”. O Sr. Marcelino diz que fazem isto porque caso as gatas permanecessem durante a noite no porto seriam roubadas. Interessante é o facto de na primeira seca dada às gatas, ainda sem a salga e as canas que a vão manter espalmada, estas permanecerem no porto durante a noite. Diz o Sr. Marcelino que dado a gata não estar ainda tratada, não é muito usual ser roubada. Isto comprova que, de facto, se trata de um peixe que só se costuma comer seco.
O modo de preparar a gata é semelhante ao bacalhau. Tem de ser posta de molho em água que se vai mudando e pode ser servida frita ou de escabeche, sendo também servida dentro de pão. Infelizmente não é um prato usual nos restaurantes madeirenses.
O Sr. Sá Carneiro abastece de gata o mercado local mas também exporta para outros sítios, como, por exemplo, a Venezuela.
Ver as gatas penduradas e agitadas pelo vento faz lembrar um estendal de roupa! Só a secagem da gata no porto de Câmara de Lobos, justifica uma ida a esta pitoresca localidade piscatória da Madeira.

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