Vilarinho da Furna visto por Link, em 1798

Vilarinho da Furna. Fotografia de António Jorge Barros

Há muitos, muitos anos atrás, assim começam muitas histórias e assim vai começar esta…
Há muitos, muitos anos atrás Heinrich Friedrich Link, um cidadão de origem alemã, que foi professor entre outras Universidades, em Rostock, e de quem já falámos neste blogue (ver aqui e aqui), jornadeou por Vilarinho da Furna, corria então o ano de 1798.
Cento e cinquenta anos depois, um português, Jorge Dias, natural do Porto, e que foi leitor de português na mesma universidade por onde Link passou, Rostock, publica um livro intitulado «Vilarinho da Furna: uma aldeia comunitária», tema da sua tese de doutoramento defendida, em Munique, em 1944.
A aldeia de Vilarinho da Furna pertencia ao concelho de Terras de Bouro (distrito de Braga) tendo ficado submersa em 1971, quando aí se construiu uma barragem. Quando as águas descem, ainda é possível ver as ruínas das suas casas.

Vamos hoje dar-vos a conhecer, guiados por Link, Vilarinho da Furna, em finais do séc. XVIII, guardando para próxima oportunidade o texto de Jorge Dias sobre a alimentação furnense na primeira metade do século XX.
Admiremos o modo como Link se admira com a qualidade de vida do lavrador de Vilarinho da Furna que o acolheu. Link elogia a boa mesa e a boa cama, onde não faltava “nada do que se pode exigir na casa de um lavrador”, acrescentando mesmo que “muitos lavradores alemães desejariam para si uma sorte semelhante”. E, encanta-se também com “o modo cortês, aberto e amigável com que nos acolheram, a expansividade com que nos entretiveram, o fino cuidado com que nos trataram, uma atenção que na Alemanha teria de ser tomada como prova de uma educação esmerada”.
Entre os produtos que constituíam a alimentação do lavrador oitocentista de Vilarinho da Furna constavam o mel, o leite, a manteiga fresca e a carne de bode.

“Se se for de Covide até à fronteira com a Galiza por este planalto chega-se a uma grande aldeia, Vilarinho das Furnas. Logo a seguir eleva-se uma cadeia de montanhas rochosas, chamada a serra Amarela, que formam a fronteira. Vilarinho tem muitos habitantes abastados. Encontrámos aqui muito mel que não é raro nestas serras, mas também leite e manteiga fresca, coisas muito raras em Portugal. Havia uma série de bodes, cujos couros se vendiam no Alto Douro onde servem de odres para o vinho. Tivemos de morar aqui na casa de um lavrador, para a qual nos trouxe o nosso guia, porque não havia nenhuma estalagem na aldeia. Para Portugal a casa era já boa, tinha um piso, mas evidentemente nenhuma janela e o chão não tinha soalho, de facto não se destacava das restantes casas da terra. Mas na casa propriamente dita não faltava absolutamente nada do que se pode exigir na casa de um lavrador. Presunto, leite, manteiga existiam em abundância e eram muito bons, tivemos oportunidade de constatar que a numerosa família desta casa vivia muito bem e muito confortavelmente, muitos lavradores alemães desejariam para si uma sorte semelhante. Deram-nos camas que eram já de si muito boas e que tinham uma roupa muito branca e asseada, que antes tinha sido retirada dos baús. Nunca teríamos imaginado isto a partir da casa, tivemos mais vezes ocasião, especialmente nesta província, de nos enganarmos de forma semelhante, um viajante apressado teria indubitavelmente chamado a Vilarinho uma aldeola miserável. Mais ainda do que os alimentos bons e frescos e as belas camas, o que nos encantou foi o modo cortês, aberto e amigável com que nos acolheram, a expansividade com que nos entretiveram, o fino cuidado com que nos trataram, uma atenção que na Alemanha teria de ser tomada como prova de uma educação esmerada. Foi com dificuldade que à despedida a dona da casa aceitou uma moeda, evidentemente para pagar a comida e a bebida, mas que neste país nem sequer as camas limpas e delicadas pagaria. Ela achou que era muito, enquanto estivemos nas Caldas aparecia de tempos a tempos e presenteava-nos com manteiga fresca. Era uma bondade natural, não esperava nada em troca, o nosso guia só nos tinha acompanhado uma vez e não nos conhecia mais do que isso, e decerto que éramos os primeiros forasteiros que desde há longo tempo se perdiam por esta aldeia para procurar algumas pedras e plantas.
Pudesse a minha fraca voz saudar um povo amável, que ingleses estupidamente orgulhosos estigmatizaram!”

BIBLIOGRAFIA
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005. P. 214-215

One thought on “Vilarinho da Furna visto por Link, em 1798

  1. Pingback: A alimentação em Vilarinho das Furnas | Saberes cruzados

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