Festa das papas em Gondiães (Cabeceiras de Basto)

Nelson David e Nuno Afonso segurando o pano de linho que irá servir de toalha sobre os bancos que servirão de mesa. Gondiães. Festa das Papas. 20 de Janeiro de 2012

Num dia de sol, a lembrar a Primavera que se aproxima, fomos até Gondiães (freguesia do concelho de Cabeceiras de Basto) para poder conhecer a Festa das Papas. Num lugar de montanha, ali na raia do concelho, vizinha já de Montalegre, pudemos assistir a uma festa feita em honra do mártir S. Sebastião (20 de Janeiro).
Reza a lenda, e algum fundo de verdade deve ter, que num momento de calamidade a população se socorreu do mártir S. Sebastião, que sabemos advogado da peste, para os ajudar a resolver tão grave problema. Como receberam a protecção do Santo e conseguiram sair da crise, a população decidiu fazer, no dia dedicado à sua evocação, uma festa onde a comida e a bebida (sinal de abundância que se deseja permanente) seriam servidas com fartura a todos que o viessem honrar.

O andor de S. Sebastião durante a missa campal. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Não há documentação que ateste a antiguidade desta festividade religiosa, mas que é arreigada a devoção desta gente ao seu santo mártir, disso não há dúvidas. Actualmente a Junta de Freguesia, na pessoa de Manuel Gonçalves, mais conhecido por “Calvário”, tem tido um papel importante na manutenção da festa apoiando os homens que nos últimos anos são a sua alma – José Tomás, Ramiro Fernandes e Alberto Ferreira.
A azáfama com a festa começa uns dias antes, cerca de cinco dias. Informou Sr. José Tomás que se começa a cozer o pão de Sábado para Domingo, tendo este ano o dia da festa, sempre a 20 de Janeiro, calhado a uma Sexta-feira. Há muitas tarefas a fazer antes do dia da festa sendo indispensável a colaboração de muitos.
Bonito de se ver é o gosto e o empenho que a população coloca nesta sua festa. Maria Otília Antunes, natural de Gondiães e emigrante em Lyon, disse-me que no avião em que chegou, bem a tempo de participar nos festejos, vinham para aí cinquenta pessoas de Gondiães. Pode haver algum exagero nas suas palavras mas que havia muitos emigrantes franceses na festa, era evidente. Um outro emigrante, Carlos Pereira, também ele vindo propositadamente de Lyon e também natural de Gondiães, informou que todos os anos vinha à terra, um ano por altura do S. Sebastião, cuja festa ocorre nos anos pares, outro ano pelo Natal. Não fazia parte do núcleo duro da festa mas toda a semana ajudava nas muitas tarefas a que a esta obriga – carregar lenha, transportar a farinha…
Nos dias antecedentes à festa a labuta é grande pois é necessário amassar o pão e cozer a broa. Os ingredientes usados no seu fabrico hoje são comprados mas, em tempos que já lá vão, eram os fregueses que os davam em cumprimento de promessa ao santo. O milho usado para fazer a broa era moído nos moinhos da freguesia, mas, hoje, estes já não funcionam e o milho é comprado na loja. Também o amassar do pão, que antigamente se fazia na velha masseira de madeira, faz-se hoje em amassador mecânico, uma inovação que não tira o gosto e a devoção de quem à feira vem em busca do pão benzido.

Casa do mártir S. Sebastião. Local onde se preparam e guardam os alimentos que se servem na Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Noutros tempos a broa era cozida em forno comunitário que ficava no fundo da aldeia, mas, há já algum tempo recuperaram, de modo pouco feliz pode dizer-se…, uma velha casa, conhecida como – a Casa do mártir S. Sebastião. Acompanhando o desnível do terreno, a casa desdobra-se em dois pisos, de acanhadas dimensões. No inferior, situa-se o que se pode designar como cozinha com: a masseira de madeira; o forno a lenha para cozer o pão, o lar, com a respectiva fogueira onde se cozem as papas em enormes potes em ferro fundido e com três pés; a batedeira industrial para amassar a broa, uma bancada e um ponto de água. No piso superior fica o compartimento onde se armazena a comida pronta, a qual, chegada a altura e depois de benzida é levada para as improvisadas mesas – o pão, as papas e o entrecosto, bem como as toalhas, os guardanapos de papel e os copos de plástico que se oferecem a cada conviva que participa neste ágape. Pronto o pão com antecedência, colocado em cestos de vime, há que esperar pelo dia da festa, ainda noite feita, para preparar as papas.
Enquanto o pão é feito pelas afadigadas mulheres da aldeia nos dias que antecedem a festa, as papas são tarefa dos homens e confeccionam-se no dia da festa, ainda a noite se faz sentir. Em três enormes potes de ferro aquece-se a água com sal e cozem-se os nacos de entrecosto ainda com o courato. Cozido o dito, retira-se e reserva-se, cozendo-se na água que daí resulta a farinha de milho branco, que se vai, de quando em vez, mexendo. As papas ficam bem consistentes, ou não fossem papas…

Casa do mártir S. Sebastião. O Sr. José Tomás, um dos mordomos da Festa, servindo as papas ainda quentes. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Prontas estas retiram-se dos potes com enormes conchas da sopa e enchem-se malgas de barro vidrado, que se dispõem em mesas à espera de serem posteriormente benzidas.
Temos pois, pronto para a festa, e devidamente arrumados na Casa do Santo Mártir, no segundo piso, os alimentos e os materiais necessários a servi-los: a broa, colocada em prateleiras, mantendo-se ainda o hábito de decorar estas com tiras de papel colorido e recortado; as papas, dentro de malgas, e, os nacos de entrecosto, em pequenos pratos de barro vidrado, ambos colocados sobre mesas; bem como o restante material que vai ser necessário – os rolos de alvo, estreito e longo pano de linho com que se cobre os bancos corridos que servirão de mesa, os copos de plástico…
Logo pela manhã começa a chegar o povo. E, na casa do Santo mártir S. Sebastião, no pequeno pátio que dá acesso à cozinha, está um enorme pote de ferro com as papas ainda quentes. Quem quiser, e muitos vêm munidos de malga e colher, podem comer as papas ainda quentes. Não resistimos a prová-las e confessa-se que souberam bem. As papas têm o sabor da carne gorda que nela foi cozida e confortam o estômago do frio que se faz sentir…
Descemos à estrada alcatroada onde, aprumados de um dos lados (Norte) se sucedem os bancos corridos. Já há quem vá marcando o seu lugar…

A bênção dos alimentos – broa, papas e entrecosto. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

A meio da manhã há missa, dita pelo pároco da terra, auxiliado por seminaristas. A missa decorre num espécie de palco coberto e feito em cimento, obra realizada especificamente para esta festa religiosa anual. A missa é dita na presença do andor que leva uma pequena imagem de S. Sebastião, o qual vai adornado com flores, e da bandeira do Santo. No final da missa, a que assiste o povo presente, a cruz processional, o andor de S. Sebastião e bandeira do Santo são levados em procissão até à Casa do mártir S. Sebastião, acompanhado pelo Pároco, que aí benze os alimentos que irão ser servidos – a broa, as papas, o entrecosto e o vinho. Com esta bênção deseja obter-se um ano feliz para as colheitas e para a boa saúde do gado, bens essenciais à sobrevivência dos homens.
Terminada a bênção, o santo desce do andor e passa para as mãos de um dos homens que o irá dar a beijar aqueles que, junto às improvisadas mesas, se preparam para saborear a comida benzida.
E é uma azáfama em volta da Casa do mártir S. Sebastião, com as pessoas da comunidade a “acarrar” para as mesas – os cestos com a broa, os tabuleiros com as papas e o entrecosto.
Nesta altura já toda a gente se encontra disposta juntos às mesas, de pé, de um e de outro lado, as quais foram previamente cobertas com alvos, estreitos e longos panos de linho colocado pelas mulheres da aldeia.

Casa do mártir S. Sebastião. Mesa com as papas e o entrecosto que depois de benzido vai ser levado para as mesas. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

A distribuição da broa, das papas, do entrecosto e do vinho começa por uma ponta da longa mesa e cumpre regras. Um homem transporta a vara que irá ditar a distância entre os alimentos. À distância de uma vara se vão dispondo – uma broa, um prato com o entrecosto e uma malga com papas frias. De novo se põe a vara sobre a mesa e na outra ponta, volta a colocar-se – uma broa, um prato com o entrecosto e uma malga com papas frias. Assim se faz até chegar ao fim da mesa.
São várias as pessoas da comunidade que se envolvem no servir desta refeição: dois homens transportam os cestos carregados de broa; dois homens transportam o tabuleiro com as papas, outros dois, o tabuleiro com o entrecosto; um homem transporta o garrafão do vinho; uma mulher entrega copos de plástico; um homem leva uma cestinha na qual vai recolhendo as ofertas dos fiéis; uma mulher transporta uma pagela com a imagem do mártir S. Sebastião, e, outro, como já acima se referiu, leva não mãos a sagrada imagem do mártir S. Sebastião que dá a beijar aos fiéis.

Casa do mártir S. Sebastião. Prateleira com as broas. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Cumprindo as regras, lá nos colocámos num sítio da mesa, à espera que chegasse a nossa vez. E, é importante dizer que não há confusões sobre quais os alimentos que iremos degustar, pois, os “nossos” são os que ficam na ponta da vara. Ou seja, estamos aboletados entre o espaço delimitado pela vara, com broa, papas e entrecosto, em cada um dos lados da mesma. Mas, o nosso alimento é o que fica na segunda extremidade da vara, aquele que é posto em último lugar. Dado o seu a seu dono, um dos convivas desta “mesa” parte a broa em tantas partes quantas as pessoas presentes (no nosso caso sete), o mesmo fazendo com o entrecosto e as papas frias. Cada pedaço de broa dada aos convivas é chamado “carolo”[1]. Entretanto, alguém traz os copos e é servido o vinho verde tinto da região. E assim se começam a saborear os alimentos. Os instrumentos necessários são trazidos pelos convivas, mas reduz-se apenas a uma faca ou canivete, já que as papas, servidas frias, se cortam à talhada.

O “acarrar” das papas para a mesa da refeição. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Aqui chama-se “mãezinha” (corruptela de mezinha) a este pão bento, sendo costume levar-se uma parte dele para casa, tendo-nos sido dito que não ganha bolor. Este pão bento traz protecção à casa para onde se leva, sendo mesmo costume dar-se um pouco aos animais.

A vara utilizada para medir o espaço entre os alimentos que se colocam na mesa – broa, papas e entrecosto. Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

Convém referir que de um dos lados da rua, o oposto aquele onde se colocam os bancos corridos que servem como mesas, se localizam três vendeiros a vender doces e um único a vender música em CD. Uma das vendeiras, Ana Magalhães, diz que a família está neste negócio há três gerações, sendo natural da Senhora da Aparecida, em Lousada. Entre os doces expostos destaquem-se: os “rosquilhos pequenos” (quatro unidades), unidos por um fio; os “rosquilhos grandes” (3 unidades), também unidos por fio; o “doce da Teixeira”, as “cavacas” e as “galhofas” (nome dado em Cabeceiras, mas que em Lousada se chamam “cacetes”. Outra das vendeiras de doces era de Felgueiras.
Não ficamos para a parte de tarde, altura em que decorre um leilão para o qual as pessoas oferecem bens – cabos de cebolas, frangos, garrafas de vinho…
Também não conseguimos visitar a Igreja que fica um pouco afastada do local onde aconteceu a festa. Mas, prometemos voltar.

Os alimentos que compõem a refeição: broa, papas e entrecosto (falta o vinho verde tinto). Festa das Papas. Gondiães (Cabeceiras de Basto). 20 de Janeiro de 2012

No dia seguinte
No dia seguinte, volta-se a repetir a festa na aldeia, mas, desta feita, sem missa e sem bênção dos alimentos. Enquanto no dia anterior a festa foi dedicada aos da terra e aos forasteiros, esta é apenas para os habitantes do local e as papas são servidas quentes e não frias como no dia 20 de Janeiro.

Como era antes
Há alguns anos atrás a festa fazia-se não na estrada mas num campo sendo as toalhas de linho colocadas sobre o chão. O pão era cozido no antigo forno comunitário e os alimentos servidos eram dados pelos habitantes – carne gorda (não entrecosto como agora) dos porcos criados em casa; milho moído nos moinhos locais e vinho colhido nas vides da terra. Hoje, os produtos com que se faz a broa e as papas são comprados em lojas e a carne é bem menos gorda do que a de outros tempos, sendo também ela adquirida no talho.

Esta é uma fez anciã, em honra do mártir S. Sebastião, e com um forte envolvimento da comunidade. Esperemos que a vontade dos homens a faça existir durante muitos e bons anos.

Termina-se referindo uma história passada com o arcebispo de Braga Dom Frei Bartolomeu dos Mártires (1519-1590), contada pelo seu biógrafo, Frei Luís de Sousa. O texto vem comprovar  que já no século XVI se comiam papas, as quais seriam, ao que parece, do agrado de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires: “o mesmo fez outro dia a uma escudela de manjar branco, que se lhe pôs diante. Tinha tão pouco conhecimento de manjares delicados que perguntou, vendo-a, que papas eram aquelas (foram palavras suas). A vista era boa; chegou-as para si. Tomando o primeiro bocado caiu em que não era aquele o sabor dos caldos de farinha que alguma vez comera, porque sentiu açúcar e cheiro, e, conhecendo que se enganara, logo a afastou e mandou dar aos pobres” (SOUSA, 1984: 634-635).

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Bibliografia:
Mouette Barboff – As festas das papas in A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011. P. 156.-157.
Luís de Sousa, Frei  – A vida de D. Frei Bertolomeu dos Mártires. Introdução de Aníbal Pinto de Castro. Fixação do texto de Gladstone Chaves de Melo e Aníbal Pinto de Castro. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1984. (Biblioteca de Autores Portugueses).


[1] O Dicionário Houaiss informa que carolo tem, entre outros sentidos, o de “farinha de milho grossa usada na preparação das papas; (…) pão de trigo feita com farinha grossa; pedaço desse pão (…)”

7 thoughts on “Festa das papas em Gondiães (Cabeceiras de Basto)

    • Sim. Existe noutros locais. Em Gondiães faz-se alternadamente com Samão, mas também se realiza no vizinho concelho de Montalegre, em Dornelas. A Alberto Correia lembrou uma festa semelhante que se realiza na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão. No próximo, a festa das Papas realiza-se num Domingo, em Samão. Estás convidada a participar! E, como sabes tens casa onde ficar.

  1. Parabéns. Excelente matéria, texto bem explicativo e imagens do evento. Abraço. Virgílio

    • Obrigado. Ao sabor de encontros e desencontros vamos tendo a possibilidade de assistir a festividades que julgávamos já não existirem. Os blogues têm essa vantagem de irmos escrevendo, mesmo que junto aos apontamentos que fizemos do evento fiquem, para memória futura, umas quantas perguntas que gostaríamos de ter feito e que não fizemos…

      • Querida amiga Isabel, essa tua eterna labuta que nos tratas estes belos textos carregados de informação.
        Conheço a Festa das papas da Póvoa da Atalaia / Fundão, terra do Eugénio de Andrade. Festa bonita em honra de S. Sebastia, as mesmas antigas raízes da Festa, um cortejo de mulheres com cestos de papas à cabeça cobertos com alvas toalhas de linho e violetas, lembro-me que estranhei as flores nessa época do ano. E a benção na capela e o bodo servido que eu partilhei também.
        Um beijo. Alberto Correia.

      • Alberto. Desconhecia a festa das papas da Póvoa da Atalaia… Este nosso país continua a ser uma arca do tesouro, da qual, de vez em quando se conhecem pérolas preciosas…

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