O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

Heinrich Friedrich Link nasceu na Alemanha, em Hildesheim, a 2 de Fevereiro de 1767, e faleceu em Berlim, a 1 de Janeiro de 1851, foi um reputado médico, botânico e naturalista alemão. Link esteve de visita a Portugal, acompanhando o conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, “numa viagem que tinha como objectivo o estudo sistemático da flora portuguesa” (LINK, 2005: IX-XXVIII).
Era um excelente observador, rigoroso e sistemático nas suas análises, e conhecedor da língua portuguesa. O livro que escreveu sobre Portugal foi publicado pela primeira vez em alemão, em 1801. A edição portuguesa que utilizamos intitula-se «Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha» (LINK, 2005).
Neste texto damos a conhecer apenas o que escreveu sobre o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, incluído no capítulo referente a «Viagem a Braga. A província do Entre Douro e Minho», e onde esteve alojado, no verão de 1798.
Parece que a educação dos monges não era a melhor, mas, pelo interesse que temos sobre o comer e o modo de comer chama-se a vossa atenção para as laranjas que existiam na cerca do convento e para a parte do texto onde o autor descreve como eram as refeições conventuais, o que se comia e o que se bebia.
Para quem não saiba, actualmente, no mosteiro de S. Maria de Bouro funciona uma pousada, sendo da autoria do Arquitecto Souto Moura o projecto de recuperação e adaptação do edifício. A pousada fica no município de Terras de Bouro (distrito de Braga).

Escreve Johann Heinrich Friedrich Link: “Depressa deixámos Braga para conseguir observar na melhor estação do ano a serra limítrofe que separa Portugal da Galiza a norte, a ainda quase não explorada serra do Gerês. A uma légua de Braga chega-se a uma pequena aldeia chamada Ponte do Porto em virtude de uma ponte de pedra que aí atravessa o Cávado. Este vale é de novo extremamente encantador e agradável. Ao longe parece apenas uma floresta densa de árvores altas, mas estas árvores envolvem campos e jardins. Não se vêem as casas dispersas e escondidas por espessas sombras, mas pessoas bem vestidas, mesmo as mulheres que frequentemente se encontram anunciam a sua proximidade. Por montanhas de granito chegámos ao mosteiro beneditino do Bouro, a duas léguas de distância. Fica numa depressão no sopé da serra, é muito rico e os edifícios são também grandes e não estão mal mobilados. Mesmo junto ao mosteiro os monges têm uma grande quinta cheia de laranjeiras, as laranjas, que são expedidas para Braga e outras terras próximas do Minho, são boas. Não muito longe do Bouro encontra-se numa montanha uma igreja com uma imagem milagrosa de Maria, para onde se realizam muitas peregrinações. Chama-se Nossa Senhora da Abadia, porque o Bouro é uma abadia, e não Nossa Senhora da Badia, como está nalguns mapas. De acordo com as nossas observações barométricas, o Bouro está 500 pés acima do nível do mar, uma baixa altitude onde se podem ainda plantar laranjeiras e produzir boas laranjas. Esta foi a nossa última observação barométrica. Felizmente trouxemos de Lisboa até aqui um barómetro de viagem Hurter para medir a altura do Gerês e da serra da Estrela, nos maus caminhos tínhamo-lo protegido contra todos os acidentes, aguentara até quando a carroça se virou, só que não pensamos em protegê-lo contra a má educação dos jovens monges que, por maldosa curiosidade, entraram furtivamente no nosso quarto e na nossa ausência destruíram termómetro e barómetro. Um dos maiores acidentes da nossa viagem. Já muitas vezes nos tinha sido penosa a curiosidade desta gente.
Uma vez que os monges nos quebraram o barómetro, que me sejam permitidas algumas notas sobre eles. A sua ignorância estava para além de tudo aquilo que se possa imaginar, a sua indolência, com a excepção dos exercícios espirituais habituais, também. Um abade velho e débil deixou embrutecer por completo as gentes jovens, daí que eles fossem tão malcriados como ignorantes. Apenas um irmão laico, o farmacêutico, se destacava enquanto jovem estudioso e ávido de saber. Em todos os conventos portugueses se come extraordinariamente muito, aos almoços tínhamos aqui por exemplo quatro pratos, mas todas as refeições eram cozinhadas sem qualquer arte e compunham-se na maior parte das vezes de quantidades enormes de todos os géneros de carne cozida. Toda a nação tem no entanto uma tendência para comer muito e muita carne. O vinho é na maioria dos conventos muito medíocre e nunca reparei que aí se bebesse excessivamente. Em geral nós bebíamos mais vinho do que os portugueses; parecia que o clima quente e para nós desusado o pedia, mas em compensação reparei também muitas vezes que um português fica já bêbado com alguns copos de vinho, copos esses que um alemão, e mais ainda um inglês (os maiores beberrões de todas as nações), nem chegam sequer a notar (LINK, 2005 [1801]: 203-216).

BIBLIOGRAFIA
LINK, 2005
Heinrich Friedrich Link – Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha. Tradução, introdução e notas de Fernando Clara. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2005.

3 thoughts on “O mosteiro de Santa Maria do Bouro no olhar de um estrangeiro (final do século XVIII): a mesa conventual e outros temas…

  1. Pingback: Vilarinho das Furnas visto por Link, em 1798 | Saberes cruzados

  2. Deliciei-me a ler este texto. O homem observava e escrevia bem. E quase diria: ainda bem que a má educação daqueles jovens monges provocaram a sua indignação, pois acabou por dizer umas quantas “verdades” que, numa situação normal, talvez calasse. Algo assim como acontece com os bêbedos, que falam verdade como Bíblias abertas. Quem sabe se o tal vinhito de que fala, apesar de não ser famoso (podia ter dito que era VERDE e, portanto, menos doce ao paladar…) não lhe teria subido à cabeça bastante mais do que ele admite ou pressupõe no seu texto…

    Obrigado por nos fazer participar das suas leituras e incursões pelas festas e a vida do nosso povo. E Deus lhe perdoe a saudade ou inveja que me fez sentir com as PAPAS de S. Sebastião…
    Lopes Morgado

    • Pois… o Link era um excelente observador, ou não fosse ele um homem das ciências exactas… Acho que estas leituras dos portugueses de outros tempos nos ajudam a conhecer os portugueses que somos hoje…

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