Uma pintura do Mosteiro de Santa Clara (Funchal, Madeira)

Milagre de Santa Clara: benção dos pães. Séc. XVII. Mosteiro de Santa Clara (Funchal, Madeira)

Tive oportunidade de me deslocar ao mosteiro de Santa Clara, no Funchal (Madeira), visita que fortemente recomendo.
O Convento fui fundado, bem no final do séc. XV, por João Gonçalves da Câmara, filho de João Gonçalves Zarco, um dos descobridores da Madeira. O convento, pertencente à ordem franciscana – irmãs clarissas, foi criado para receber filhas das famílias nobres radicadas na ilha. Entre as primeiras freiras que deram entrada na clausura contavam-se duas das netas de João Gonçalves Zarco – D. Isabel de Noronha e D. Constança de Noronha.
O mosteiro mantém ainda intacta grande parte da sua estrutura funcional, destacando-se, entre o que se pode visitar, a igreja, o coro alto e baixo e o claustro.

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Com este texto apenas se pretende chamar a atenção para uma pintura seiscentista incluída num dos altares laterais e que representa um dos milagres de Santa Clara – o milagre da bênção dos pães.
Santa Clara nasceu em Assis (Itália) em 1193 e faleceu no mosteiro de S. Damião, em 1253. Cedo encontrou a sua vocação religiosa, sendo uma admiradora da obra de S. Francisco com quem conviveu. Foi ela a fundadora da ordem franciscana feminina, ou seja, das Clarissas.
A vida de S. Francisco, de Santa Clara e de alguns dos seus seguidores é narrada nos «Fioretti», um conjunto de textos escritos no início do século XIV, provavelmente a várias mãos. É aí que se encontra descrito o milagre de Santa Clara conhecido como o milagre da bênção dos pães.
Para melhor compreensão do que representa a pintura aqui analisada transcreve-se o referido milagre de Santa Clara contido nos «Fioretti»:
“Capítulo 33 : Como S. Clara, por ordem do papa, benzeu o pão que estava na mesa pelo que em cada pão apareceu o sinal da Santa Cruz.
S. Clara, devotíssima discípula da cruz de Cristo e nobre planta de S. Francisco, era de tanta santidade, que não somente os bispos e os cardeais, mas o próprio papa desejava com grande afecto vê-la e ouvi-la e frequentes vezes a visitava pessoalmente.
Entre outras veio o Santo Padre uma vez ao mosteiro para ouvi-la falar das coisas celestiais e divinas; e estando assim juntos em divinos colóquios, S. Clara mandou no entanto preparar a mesa e pôr nela o pão a fim de que o Santo Padre o benzesse. Pelo que, terminado o entretenimento espiritual, S. Clara, ajoelhando-se com grande reverência, pediu-lhe que se dignasse benzer o pão posto na mesa. Responde o santo padre: “Soror Clara fidelíssima, quero que benzas este pão e faças sobre ele o sinal da cruz de Cristo ao qual te deste inteiramente”. Santa Clara disse: “Santíssimo padre, perdoai-me, que eu seria digna de muito grande repreensão se diante do vigário de Cristo, eu, que sou uma vil mulherzinha, tivesse a presunção de dar tal bênção”. E o Papa responde: “A fim de que isto não seja imputado à presunção, mas ao mérito de obediência, ordeno-te pela santa obediência que sobre este pão faças o sinal da cruz e o benzas em nome de Deus”.
Então Santa Clara, como verdadeira filha da obediência, aqueles pães devotamente benzeu com o sinal da Santa Cruz. Admirável coisa de ver-se! Subitamente em todos aqueles pães apareceu o sinal da cruz belissimamente gravado, e então daqueles pães uma parte foi comida e a outra conservada por causa do milagre.
E o Santo Padre, tendo visto o milagre, tomando do dito pão e agradecendo a Deus, partiu-se deixando Santa Clara com a sua bênção.
Naquele tempo vivia naquele mosteiro Soror Hortolana, mãe de Santa Clara, e Soror Inês, sua irmã, ambas, como Santa Clara, cheias de virtude e de Espírito Santo, e com muitas outras santas religiosas.
As quais mandava S. Francisco muitos enfermos; e elas com as suas orações e com o sinal da santa cruz a todos restituíam a saúde. Em louvor de Cristo. Amen.”
In http://www.paxetbonum.net/fioretti_text_P.html

A pintura seiscentista que se encontra na Igreja do Mosteiro de Santa Clara representa o milagre da bênção dos pães referido nos «Fioretti» e acima transcrito.
Nesta pintura encontra-se representado o Santo Papa, Santa Clara, com a cabeça adornada com auréola, sua mãe Hortolana e sua irmã Inês (Santa Inês de Assis).
As quatro personagens encontram-se em redor de uma mesa, coberta com toalha branca e sobre a qual pousam três pães, mais um que Santa Clara segura numa das mãos.
Na mesa encontra-se um prato grande com um frango cozinhado e quatro pratos vazios de menores dimensões (um para cada uma das personagens que figuram na cena).
Não se percebe bem qual a matéria em que são feitos os pratos, mas a cor, a ausência de pintura, a caldeira baixa e a aba recta, leva a supor tratar-se de pratos de metal, provavelmente de estanho.
Sobre a mesa encontram-se também dois púcaros de barro vermelho com duas asas. Por fim, refira-se a presença de um saleiro num dos cantos da mesa.
O saleiro era um dos utensílios sempre presente nas mesas desta época.
Pinturas como esta ajudam a conhecer o modo como se punham as mesas seiscentistas e qual a loiça que se utilizava. No entanto, deve ter-se sempre presente que este tipo de pinturas têm um forte carácter apologético, sendo provável que a mesa representada fosse mais simbólica do que a real representação da mesa que quotidianamente se punha e levantava.

P.S. Pede-se desculpa pela qualidade das fotografias…

4 thoughts on “Uma pintura do Mosteiro de Santa Clara (Funchal, Madeira)

    • Olá Zé:
      Tu foste das primeiras a alertar para a importância de olharmos para a mesa e outras “manifestações” relacionadas com o vestuário e a alimentação. A nós compete-nos ir dando a conhecer o que encontramos. Isabel

      • só hoje vi que existe uma correspondência e fico feliz porque trabalhamos sempre sós
        infelizmente escrevo a correr e escrevi mal admirável…
        minha querida a alimentação morrermos se não a seguirmos e o vestuário é
        essencial aos animais que nós somos …

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