Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Convento de Jesus, Aveiro)

Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC)

Já tratamos este tema num outro texto deste blogue – «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)», sendo interessante verificar como um mesmo episódio da hagiografia do fundador da Ordem dos Pregadores dá origem a diferentes representações pictóricas, revelando-nos interessantes aspetos sobre o comer e o modo de comer nos séculos anteriores[1]. Antes de analisarmos a pintura faremos uma brevíssima abordagem ao edifício e capela onde a pintura se encontrava.

O Convento de Jesus de Aveiro
O Convento de Jesus de Aveiro pertencia à Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Na origem da sua fundação esteve D. Beatriz Leitoa, viúva de Diogo de Ataíde. A fundação do mosteiro foi autorizada pelo Papa Pio II através da bula «Pia Deo et Ecclesiae desideria», datada de 16 de Maio de 1461. A primeira pedra do novo convento foi lançada por D. Afonso V, a 15 de Janeiro de 1462. A primeira tomada de hábito ocorreu em 1464. Com a proteção de D. Afonso V e a entrada para o convento, em 1472, de sua filha única, D. Joana, o convento ganha importância e reconhecimento. D. Joana, filha de D. Afonso V e de D. Isabel, com apenas 19 anos de idade recolheu-se no Mosteiro de Odivelas, tendo, pouco tempo depois, transitado para o Convento de Jesus, em Aveiro. Mulher de enorme beleza, solicitada para casar com diversos príncipes, sempre a isso se recusou, optando por se dedicar à vida religiosa, apesar de nunca ter professado (GASPAR, 1969).

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Retrato de Santa Joana Princesa. Óleo sobre madeira. Nuno Gonçalves (atribuído). 1472-1475. Museu de Aveiro.

Após a sua morte “o povo de Aveiro, antecipando-se ao julgamento da Igreja, começou a denominá-la por santa e a venerá-la. D. Pedro II alcançaria mais tarde do Papa Inocêncio XI o breve de 4 de Abril de 1693, no qual se confirmava o culto, sendo concedida à Princesa a designação de beata e o ofício e a missa próprios, para todo o País e para a Ordem Dominicana” (GASPAR, 1969).
Em 1834, o mosteiro é extinto, sendo os bens incorporados na Fazenda Pública. Em 1874 morre a última religiosa, a prioresa D. Maria Henriqueta de Jesus, sendo o convento extinto.
Ao longo dos séculos o edifício do convento foi sendo ampliado, remodelado e enriquecido com inúmeras obras de arte.
Em 1882, o edifício passa para a Ordem Terceira Dominicana, sendo transformado em escola feminina – Colégio de Santa Joana.
Com a instauração da República, em 1910, o colégio é extinto passando, em 1911, a albergar o Museu de Aveiro.

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click. In http://lh6.ggpht.com/_6TA0yX7EpmE/THzSPHX1tdI/AAAAAAAABBU/EHgj2VR8j5M/s1600-h/museu%20de%20aveiro%5B11%5D.jpg

Fachada do Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Foto retirada do blogue Click.

A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem
A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, como bem explica José António Rebocho Christo, situava-se no primeiro piso do convento, junto da enfermaria, e foi encomendada por Soror Isabel Padilha (professa em 1618). Desta antiga Capela ainda hoje subsistem no Museu de Aveiro “diversos elementos do retábulo maneirista, as tábuas pintadas que ornamentavam a porta de entrada, a imagem-relicário de S. Domingos e um vasto conjunto de pinturas, num total de 28, tábuas e telas” (CRISTO, 2011). A predela do retábulo da capela era composta por três pinturas distintas, sendo a central a que aqui iremos analisar e na qual se representa o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Trata-se da única tela, das muitas que realizou para esta capela, assinada pelo pintor António André, o qual deve ter nascido em Aveiro por volta de 1580. Em 1612 encontrava-se em Lisboa onde terá aprendido a arte na oficina de Simão Rodrigues. Entre 1619 e 1625 encontra-se em Aveiro, sendo responsável pela execução de diversas pinturas para os Mosteiros de Jesus e de Nossa Senhora da Misericórdia. Entre 1646 e 1652 vamos encontrá-lo no Porto onde trabalhou para a Ordem Terceira de S. Francisco. Deve ter falecido pouco antes de 1668 (SERRÃO, 1991, 2000 e 2010; SOBRAL, 2004: 211; CRISTO, 2011).

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho[2]

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

S. Domingos (pormenor). O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170, e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos em Roma, viveu nos últimos anos da sua vida no Convento de Santa Inês, em Bolonha, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[3].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[4]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3[5]) e pelo Beato Jordão de Saxónia[6] é o da multiplicação do pão e do vinho[7].
Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará os seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção, começam a rezar.

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Os dois anjos que servem à mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Os dois anjos que servem à mesa.

De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, distribuindo-o pelas mesas. Depois de terem entregue a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[8].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura do Museu de Aveiro: O espaço
Como já atrás se referiu a pintura da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos integrava a predela do retábulo maneirista da Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, situando-se no primeiro piso do Convento de Jesus, junto da enfermaria (CRISTO, 2011).
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (N.º de Inventário 88/A), que se julga terá sido executada entre 1618 e 1623[9] pelo pintor António André que a assina – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.
Sobre este autor diz Vítor Serrão que “a qualidade formal de algumas das suas obras – com realce para as tabuinhas da antiga Capela de S. Domingos de Gusmão do Convento de Jesus, pintadas em 1619-1620 – mostram uma personalidade forte, de inesperada frescura no delineamento das superfícies com cromatismo lumínico e vaporoso, com desenho seguro, sentido composicional imbuído de certa largueza, e preciosismos de filigrana na caraterização dos acessórios e dos últimos planos” (SERRÃO, 1991: 277-278). E, mas concretamente sobre a pintura aqui analisada, Vítor Serrão considera-a “a mais interessante”, explicando que: “representa o banquete servido por anjos a dezoito religiosos dominicanos do mosteiro de S. Xisto de Roma, onde a perícia da pincelada transparente, os contrastes de claro-escuro, o cromatismo de frias tonalidades, a largueza da composição organizada pelo esquema obliquado das mesas, e os detalhes minuciosos da ceia – o cãozinho dormindo, e segurando o crucifixo envolto em labaredas, os trajes dos anjos, o quadro de Santo André na cruz em aspa colocado por detrás de S. Domingos de Gusmão que preside ao milagre, os objetos da refeição divina, etc. – definem a forte preparação técnica de António André. À pose maneirista dos figurinos sobrepõe-se o domínio naturalista e tenebrista da composição, de influência madrilena, a lembrar já obras protobarrocas de Eugénio Caxes ou de Vincenzo Carducho” (SERRÃO, 1991: 282).
A cena passa-se no interior do convento, encontrando-se S. Domingos e dezassete dominicanos sentados à mesa do refeitório, tal como é costume em contexto conventual. No púlpito pode observar-se o irmão Henrique de Roma que lê os textos sagrados[10].

Domini Canis e Dominicanis

Domini Canis. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro

Domini Canis

O pavimento é ladrilhado a preto e branco e sobre ele descansa o designado “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”). Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis, ou seja, dominicanos.
O facto de o cão com a tocha na boca ser um dos atributos de S. Domingos fica a dever-se ao texto do Beato João da Saxónia, um dos primeiros biógrafos de S. Domingos, que na sua obra «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum» narra um episódio da vida deste Santo sucedido antes do seu nascimento. Durante a gravidez a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo[11]. Hugo de Voragine assim descreve este episódio da vida de S. Domingos: “Seu pai chamava-se Félix e sua mãe Joana. Antes do seu nascimento, a mãe viu em sonhos que tinha no ventre um cão de fogo com uma tocha nos dentes o qual, saindo do seu ventre, incendiava o mundo” (VORAGINE, 2000: 58).
A associação da tocha encimada pelo globo terrestre e pela cruz parece ter surgido “na época maneirista mas divulga-se sobretudo durante o barroco” (SOBRAL, 2004: 203, nota 2).

A pintura do martírio de Santo André

Santo André. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

A pintura de Santo André dentro da pintura O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos…

Por detrás da mesa, pendurada na parede do modo que então era usual, podemos observar uma pintura emoldurada representando o martírio de Santo André na Cruz em aspa. Na Ordem dos Pregadores nunca houve uma ligação especial com Santo André, pelo que, a sua surpreendente presença nesta pintura, representando o milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos, se poderia talvez justificar de dois modos: ou o orago da capela onde se encontrava o retábulo era Santo André, o que sabemos não corresponde à realidade pois encontrava-se na Capela de São Domingos e dos Santos da Ordem, sendo o seu orago a escultura relicário de S. Domingos (CRISTO, 2011); ou a representação da pintura de Santo André nesta cena da hagiografia de S. Domingos foi uma opção pessoal do pintor António André que deste modo assina duplamente[12] a pintura colocando nela um santo de quem herdou o nome – André.

À mesa: os convivas e os anjos

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor

Hábito dominicano. Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor.

No centro da mesa, em lugar de destaque, encontra-se S. Domingos, ladeado por oito monges à sua esquerda e nove à sua direita, mais o monge leitor que está no púlpito. Não temos dúvida de que se trata do fundador da ordem, pois, sobre a sua cabeça, encontra-se um esplendorosa auréola.
Todos os frades envergam o hábito branco usual na Ordem dos Pregadores, composto por túnica, escapulário e capuz, sendo que os dois irmãos sentados nos topos da mesa envergam o capuz negro, bem como o escapulário da mesma cor[13]. O capuz era usado pelos dominicanos, quer quando saiam do convento quer para aquecimento do corpo. Estes dois frades representam muito provavelmente os irmãos João da Calábria e Alberto de Roma os quais tinham sido enviados para o exterior em busca de pão, tendo regressado sem o conseguir[14], daí o facto de serem representados com o capuz negro.
Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito; agarrando a tigela; dentro da tigela; levando a comida à boca; cortando o pão com a faca.

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito

Atente-se na posição das mãos dos frades: ambas abertas; dispostas em sinal de oração; cruzadas sobre o peito.

Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Atente-se na posição das mãos dos frades: agarrando a tigela e dentro da tigela.

Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[15], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [16]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura (…) outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa”[17].
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.
Os dominicanos são servidos por dois anjos: um, do lado esquerdo, apresenta ao primeiro frade desse topo da mesa uma bandeja onde estão duas tigelas, vendo-se o frade retirando uma delas com ambas as mãos; outro, do lado direito, depois de ter servido os primeiros frades, vai caminhando, com a bandeja na mão, na qual se podem ver outras duas tigelas. No milagre descrito pelos Beatos Cecília e Jordão da Saxónia serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não alimento em tigelas. Mas, bem sabemos que os anjos são os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.
Por fim, mas de não menos importância, deve referir-se que a narrativa pictórica desta pintura não corresponde exatamente à representação do milagre do pão e do vinho por S. Domingos. De facto, os anjos deveriam estar a servir o pão, mas, este já se encontra na mesa, levando eles nas bandejas o que poderá ser um caldo, sendo por isso servido em tigela.

À mesa: os alimentos e os utensílios
Analisemos os utensílios colocados sobre a mesa, a qual se encontra coberta com toalha branca que cai quase até ao chão, deixando no entanto ver as grossas pernas que suportam os tampos.

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

O Pão sobe a mesa. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos.

Os únicos alimentos que se encontram sobre a mesa são o pão, o vinho tinto e o caldo/sopa que se pode subentender estaria dentro das tigelas.

Vinho tinto em copo de vidro. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Vinho tinto em copo de vidro e jarro de estanho (?).

Como utensílios dispostos sobre a mesa encontramos: o jarro e o copo para o vinho, sendo que aquele parece ser de estanho e este em vidro; as galhetas do azeite e do vinagre, colocadas sobre a correspondente bandeja, e que deveriam ser em faiança, dada a cor branca que apresentam; a faca e a tigela, sendo que esta última poderia ser de estanho ou então de barro preto. De facto, em Aveiro (Aradas) produzia-se naquela época loiça preta[18] pelo que não seria de estranhar que António André tivesse reproduzido as tigelas feitas localmente.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

Galhetas do azeite e do vinagre, provavelmente em faiança.

De entre os utensílios empregues quais seriam de uso individual e quais seriam de uso coletivo? Se atentarmos na distribuição dos utensílios verifica-se que os jarros, os copos e as tigelas seriam de uso individual.

Tigelas de loiça preta? O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Tigelas de loiça preta de Aradas, Aveiro?

Sobre a mesa as facas não parecem ser de uso individual, no entanto, era costume cada frade possuir a sua própria faca. Já no século XVI, no refeitório do mosteiro de Alcobaça, os religiosos dispunham de um armário individual para “no seu lugar ter guardanapo, faca e copo” (GOMES, 1998: 88). As galhetas do azeite e do vinagre seriam de uso comum, havendo, visíveis sobre a mesa, quatro pares de galhetas.

Comer com as mãos?

Comer com as mãos. O Milagre da multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos. Óleo sobre tela. Pintor: António André. Ca 1619-1623. Museu de Aveiro. Fotografia de José Pessoa (DGPC).

Comer com as mãos.

É interessante verificar que, ao contrário do comum das representações das refeições à mesa, nesta pintura as personagens não são estáticas, mas figuradas na ação de comer: cortando o pão com a faca (um frade), levando a comida à boca (três frades); agarrando a tigela com as mãos (um frade); metendo a mão esquerda na tigela (dois frades), para além dos frades que, como atrás já referimos, são representados em oração.

Cortando o pão com a faca

Cortando o pão com a faca

Se atentarmos nos dois frades que estão representados na ação de meter a comida à boca com a mão direita, e, com a mão esquerda seguram na tigela, lembramo-nos de imediato da «Escola de Perfeição», documento do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, atribuído ao séc. XVII (TAVARES, 1999). Neste se descreve “a observância que se há-de guardar no refeitório”, de modo a que “os religiosos que estão na religião e caminham para o céu tenham merecimento no comer, e não percam por ignorância o que podem nele merecer, coisa conveniente será dar-lhes a doutrina que hão-de guardar para que não percam o merecimento que tem os que se sabem haver nisto guardando a observância regular” (TAVARES, 1999).
Neste texto seiscentista sobre o modo como se deve comer no refeitório, entre outras interessantes observações, diz-se: “Não partam o pão nem a carne com as mãos senão com a faca” (TAVARES, 1999: 69). Ora, na pintura aqui analisada vemos um dominicano partindo o pão com a faca.
Através deste documento seiscentista do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra ficamos também a saber que era então costume comer-se com as mãos, sendo no entanto falta de educação meter a mão toda no recipiente: “não metam toda a mão na tigela para tirar as sopas mas só dois ou três dedos sem sujar as mãos; nem lambam os dedos como fazem os rústicos”; “quando tiverem os dedos muito sujos como acontece quando o caldo é gordo e ficam cheios de gordura, limpem-nos dissimuladamente a um pequeno de pão; e o mesmo façam à faca quando cortarem com ela fruta ou coisa que a suje muito. E tudo isto se fará por não sujar muito o guardanapo que faça nojo ou lhe ponha nódoa que se não tire como são as da fruta” (TAVARES, 1999: 69-70).
Nesta pintura de António André podemos observar dois dos frades com a mão esquerda metida na tigela, sendo esse facto mais evidente num dos casos. Estranha-se, no entanto, o facto de ambos estarem com a mão direita levando a comida à boca e ser a mão esquerda que está pousada na tigela. Parece-nos que o normal seria tirar a comida da tigela com a mão direita e desse modo a conduzir à boca.
De qualquer modo quer-nos parecer que o modo como o primeiro frade (à direita na pintura) coloca a mão na tigela evidencia que estava a tirar a comida com as mãos, talvez só com “dois ou três dedos sem sujar as mãos”. Lembremos que em Marrocos ainda hoje subsiste o costume de comer com as mãos. Diz Ignacio Medina que “o principal utensílio culinário deste país são as mãos, ou, melhor dizendo, os dedos. Na realidade, segundo as normas do manual de bons costumes, só se devem utilizar três dedos, como o fazem os profetas: o médio, o indicador e o polegar. Comer com quatro ou com cinco dedos é comportamento de glutões, exceto se o conteúdo do prato ficar demasiado macio” (MEDINA, 2005: 12).

Conclusão: uma pintura que nos dá a conhecer o modo de comer em contexto conventual
De facto, o que pessoalmente nos vem interessando na pintura portuguesa é a representação de alimentos, dos utensílios necessários à sua preparação e consumo, bem como o modo de os preparar e de os comer.
Esta pintura de António André sobre a multiplicação do pão e do vinho por S. Domingos é um bom exemplo de como as representações pictóricas aliadas à leitura de documentação coeva nos podem ajudar a melhor conhecer o modo de comer nos séculos passados, no caso concreto, em contexto conventual.

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BIBLIOGRAFIA
BARBOFF, 2011 Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.
CRISTO, 2011 José António Rebocho Christo – A capela de São Domingos e dos Santos da Ordem no Convento de Jesus de Aveiro. Patrimónios. 2ª série. 31: 9 (Dezembro 2011). P. 75-86. In http://www.prof2000.pt/users/hjco/aderav/patrimonios/Patrim09_075.htm
GASPAR, 1969 João Gonçalves Gaspar – Os Bispos de Aveiro e o culto de Santa Joana. Aveiro e o seu Distrito. Junta Distrital de Aveiro. 7 (Junho de 1969). P. 27-40. In http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim07/page27.htm#01b
GOMES, 1998 Saul António Gomes – Visitações a mosteiros cistercienses em Portugal: séculos XV e XVI. Lisboa: IPPAR, 1998 (Documenta).
ITURGÁIZ CIRIZA, 1992 Domingo Iturgáiz Ciriza – Iconografía de Santo Domingo de Guzmán: La fuerza de la imagen. Burgos: Aldecoa, 1992.
MEDINA, 2005 Ignacio Medina – Cozinha País a País: Marrocos. [S.l.]: Público, 2005.
SCHEEBEN, 1935  C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.
SERRÃO, 1991 Vítor Serrão – O Pintor António André e o Maneirismo reformado em Aveiro no século XVII. Revista da Universidade de Aveiro: Letras. 6-8 (1989-1991). P. 277-298.
SERRÃO, 2000 Vítor Serrão – A Pintura Proto-Barroca em Portugal: 1612-1657: O Triunfo do Naturalismo e do Tenebrismo. Lisboa: Colibri, 2000.
SERRÃO, 2010 SERRÃO, Vítor – Pintura e Propaganda nos programas artísticos dominicanos em Portugal na Idade Moderna. In Dominicanos em Portugal: História, Cultura e Arte. Lisboa: Alétheia, 2010. P. 254-279.
SOBRAL, 2004 Luís de Moura Sobral (coord.) – Pintura Portuguesa do século XVII: lendas, histórias e narrativas, Catálogo de exposição. Lisboa: IPM, 2004.
TAVARES, 1999 Paulino Mota Tavares – Mesa, doces e amores no século XVII português. Lisboa: Colares Editora, 1999.
VORAGINE, 2000 Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS
[1] Tenho de agradecer ao Dr. José António Rebocho Cristo que me chamou a atenção para a pintura aqui analisada e que me enviou a respetiva imagem. Tenho também de agradecer à Divisão de Fotografia da Direção Geral do Património Cultural, nas pessoas de Tânia Olim e Luísa Oliveira o envio da imagem com a qualidade necessária para se poder analisar e publicar pormenores.

[2] Este nosso texto sobre o milagre propriamente dito é o que consta no artigo «Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)». Pareceu-nos, no entanto, importante transcrevê-lo aqui para um melhor conhecimento sobre o tema tratado na pintura que aqui se analisa.

[3] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[4] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», traduzida do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[5] A beata Cecília assim designa o milagre que aqui se descreve – «Do pão e vinho milagrosamente multiplicado e distribuído aos frades através de suas orações». In «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». Veja-se http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[6] O beato Jordão da Saxónia assim designa o milagre aqui descrito – «O milagre do pão recebido do céu em S. Sisto». In «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum».

Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[7] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (LEGENDA AUREA, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois últimos autores e não o de Voragine.

[8] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.

[9] Informação do Dr. José António Rebocho Christo, a quem agradeço.

[10] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve. Jordão da Saxónia é mais comedido nos pormenores.

[11] Veja-se no «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum», de Jordão da Saxónia, a descrição deste episódio – «The Miracle of the Bread Received from Heaven at San Sisto». In http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf

[12] Já atrás referimos que esta tela se encontra assinada pelo pintor no ladrilho do pavimento – ANT[ONI]º ANDRE PINXIT.

[13] Convém referir que “até ao Vaticano II, os frades não clérigos (irmãos cooperadores), como São Martinho de Porres, usavam o hábito que não possuía a capa preta e o escapulário era preto ao invés de branco”. In http://vocacionalop.blogspot.pt/2011/03/sobre-o-habito-dominicano-about.html

[14] Os nomes dos dois frades são-nos dados pela Beata Cecília. Veja-se «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/

[15] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf

[16] Idem.

[17] Ibidem.

[18] Veja o subcapítulo «Aradas (Aveiro, Aveiro), Lugares de Quinta do Picado e Coimbrão; Oliveirinha (Aveiro, Aveiro), Lugar de Quintãs» in Isabel Maria Granja Fernandes – A loiça preta em Portugal: estudo histórico, modos de fazer e de usar. Tese de Doutoramento. Braga: Universidade do Minho, 2012. Vol. 2. P. 635-653. URL: http://hdl.handle.net/1822/24904

Uma refeição dominicana: o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos (Igreja de Mancelos)

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Igreja de Mancelos
Na igreja de Mancelos (freguesia de Mancelos, Amarante, Porto) encontra-se uma interessante pintura representando um dos milagres de S. Domingos – a multiplicação do pão e do vinho[1].
A igreja integrava o extinto mosteiro de Mancelos, inicialmente pertença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, passando, em 1540, para a alçada dos dominicanos do Mosteiro de S. Gonçalo de Amarante. Foi secularizado no século XIX, funcionando atualmente como igreja paroquial.
A igreja e o adro encontram-se afetos à Direção Regional de Cultura do Norte, estando classificados como Imóvel de Interesse Público, pelo Dec. N.º 24 347, DG, 1.ª série, n.º 188 de 11 agosto 1934 / ZEP, Portaria n.º 332/79, DR, 1.ª série, n.º 156, de 9 de julho de 1979.
Atualmente o extinto Mosteiro de S. Martinho de Mancelos integra a Rota do Românico.

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se no anjo que verte o vinho de uma vasilha de estanho (?). O vinho, de cor rubi, deve ser provavelmente vinho verde da casta espadeiro. Fotografia de Isabel Dias Costa.

O milagre de S. Domingos: a multiplicação do pão e do vinho
Numa das paredes da nave da igreja encontra-se uma pintura sobre tela, muito provavelmente do séc. XVIII, que representa um dos milagres de S. Domingos de Gusmão – a multiplicação do pão e do vinho. S. Domingos de Gusmão foi o fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Nasceu em Caleruega (Osma, Burgos), por volta de 1170 e faleceu em Itália a 6 de agosto de 1221, tendo sido canonizado pelo Papa Gregório IX, a 23 de julho de 1234.
A vida de S. Domingos e os seus milagres foram essencialmente retratados por dois dominicanos: a Beata Cecília (Roma, ca. 1200 – Bolonha, 4 de agosto de 1260) e o Beato Jordão de Saxónia (Dassel, ca. 1190, Costa da Síria, 13 de fevereiro de 1237). Cecília, que privou com S. Domingos, viveu no Convento de Santa Inês, em Bolonha, nos últimos anos da sua vida, tendo ditado os milagres realizados por S. Domingos à irmã Angélica. O conjunto dos seus textos é conhecido como «Miracula beati Domingosi»[2].
O Beato Jordão de Saxónia foi o segundo Mestre da Ordem dos Pregadores, tendo sucedido a S. Domingos de Gusmão. Deixou várias obras escritas entre as quais o «Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum»[3]. Neste, entre outros assuntos de interesse para a Ordem, descreve vários dados da biografia de São Domingos, desde o seu nascimento até à trasladação do seu corpo, a 24 de maio de 1233, do coro para a nave lateral da Igreja de S. Nicolau, em Bolonha.
Um dos milagres referidos pela Beata Cecília (Milagre N.º 3) e pelo Beato Jordão de Saxónia é o da multiplicação do pão e do vinho[4].

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor da mesa. Ao centro encontra-se S. Domingos. Repare-se no copo de vidro pousado sobre prato de estanho (?). Fotografia de Isabel Dias Costa

Assim sucedeu o Milagre. Estando S. Domingos no Convento de São Sisto, em Roma, envia, como era costume, dois membros da ordem – o irmão João da Calábria e Alberto de Roma – a pedir esmola de pão para alimento dos dominicanos. Nesse dia os frades não conseguiram encontrar alma caridosa que lhes desse pão. De regresso a casa, passam, junto à Igreja de Santa Anastácia, por uma mulher afeiçoada à Ordem que, vendo-os sem alimento, lhes dá um pouco do seu pão. Continuando a jornada encontram um belo jovem que insistentemente lhes pede o pouco pão que levam consigo. Eles bem lhe explicam que o que levam é muito pouco e insuficiente para alimentar os frades que os esperam no convento, mas o jovem continua a insistir. Os dois dominicanos decidem então que sendo o pão tão pouco para repartir entre os frades, o melhor seria dá-lo aquele jovem. Se assim pensaram, melhor o fizeram e entregaram o pão ao jovem, o qual rapidamente desapareceu sem eles perceberem como.
Chegados ao convento contam o sucedido a S. Domingos que lhes diz que o jovem que encontraram era um anjo enviado por Deus e que não se preocupassem pois o Senhor iria alimentar os seus servos.
S. Domingos mandou que a comunidade se reunisse no refeitório para comer. Os frades questionam-no, perguntando porque iriam para a mesa quando não havia nada para comer. Ao que S. Domingos retorque – “O Senhor alimentará seus servos”. Juntam-se à mesa do refeitório e, após a bênção da refeição por S. Domingos, o irmão Henrique de Roma começa a fazer as leituras do dia. Entretanto S. Domingos começa a orar. De repente surgem dois belos jovens carregando cestos com pão, começando a distribui-lo, indo um pelo lado esquerdo da mesa e outro pelo lado direito. Quando entregam a S. Domingos um pão de aspeto maravilhoso, o qual este agradece com uma reverência, desaparecem sem deixar rasto. S. Domingos diz aos seus – “Comei irmãos o pão que o Senhor nos enviou”.
Quando começam a comer o pão S. Domingos pede que lhe tragam vinho. Respondem estes que não havia vinho. S. Domingos insiste e manda-os ir procurá-lo onde o guardavam, pois o Senhor os tinha provido dele. De facto, quando foram abastecer-se encontraram as vasilhas cheias de vinho. Disse-lhes então S. Domingos: – “Bebei irmãos o vinho que o Senhor nos enviou”.
No final da refeição S. Domingos exortou-os a acreditarem na Providência Divina[5].
Como se pode constatar existe alguma semelhança entre este milagre e a multiplicação de pão e de vinho realizada por Cristo (Mt 14,13-22; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14; Jo 2, 1-11).

A pintura da Igreja de Mancelos sobre o milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos

O espaço e os intervenientes
A cena representada na pintura passa-se dentro de uma sala, muito provavelmente o refeitório do convento, sendo visíveis quatro janelas e um pavimento axadrezado, nas cores preto e branco.
Doze são os frades representados, fazendo-nos lembrar uma Ceia de Cristo, sem a presença de Judas, sendo Jesus simbolizado por S. Domingos.
Os frades estão sentados em três mesas formando um U, de costas voltadas para as paredes, tal como era hábito nos refeitórios conventuais.
Sentam-se uns ao lado dos outros, exceto S. Domingos que, no topo, preside à refeição. Dez dos frades envergam o hábito dominicano – túnica e capuz brancos, sendo que dois deles vestem túnica e capuz negro. Muito provavelmente estes dois últimos, que se sentam nos topos da mesa, representam os dois frades que saíram do convento em busca de pão. De facto, o capuz negro, bem como a capa da mesma cor, eram usados pelos dominicanos quando saiam mas também para aquecimento do corpo.

Modos de orar dos dominicanos

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Repare-se nas diferentes posições das mãos dos dominicanos, o que deve corresponder a alguns dos nove modos de orar preconizados por S. Domingos. Fotografia de Isabel Dias Costa.

A maior parte está com as mãos postas em oração, exceto um que está de braços cruzados sobre o peito e outro que tem as mãos abertas. Lembremos que S. Domingos advoga nove modos de rezar, os quais foram descritos por um dos seus seguidores no «Codex Rossianus» (Ca 1260-1288).
Também Frei João da Cruz (OP), em 1567, na sua obra «Crónica de la Ordem de Predicadores»[6], descreve esses nove modos de rezar explicando que S. Domingos “não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo” [7]. No quinto modo de rezar assim procedia: “Tinha as suas mãos abertas, diante do peito, como se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da Divina Escritura”[8]. Repare-se que o primeiro frade, do lado esquerdo, tem as suas mãos abertas diante do peito.
No sexto modo S. Domingos advogava que se rezasse “de braços estendidos em modo de cruz”[9]. Repare-se que um dos monges que se senta na mesa, do lado direito de quem olha a pintura, tem as mãos dispostas em cruz.
De facto, quer-nos parecer que na cena aqui analisada o modo como estão representadas as mãos dos dominicanos remete-nos para alguns desses nove modos de rezar advogados por S. Domingos.

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O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor do anjo com uma cesta de verga com pão numa das mãos, enquanto com a outra dispõe o pão sobre a mesa. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Os dominicanos são servidos por dois anjos, um, do lado esquerdo, carrega uma cesta de verga com pão e vai-o dispondo sobre a mesa, o outro, do lado direito, tem uma vasilha na mão e com ela vai enchendo os copos que se encontram na mesa. No milagre que acima descrevemos à mesa serviam dois jovens, não dois anjos, que distribuíam o pão, não o vinho. Mas bem sabemos que são os anjos os mensageiros do Senhor que muitas vezes descem à terra disfarçados.

1A

O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos. Igreja de Mancelos (Amarante, Porto). Óleo sobre tela. Séc. XVIII. Pormenor. Repare-se nos cães. Fotografia de Isabel Dias Costa.

Por último refiram-se os dois cães que, no chão, observam as mesas. Por vezes, na representação pictórica da mesa aparecem cães que rodeiam os convivas que se sentam para comer. Naqueles tempos, os animais, normalmente cães e gatos, rodeavam as mesas esperando que alguém lhes desse um pedaço de comida ou lhes atirasse com os ossos ou as espinhas que sobejavam. No entanto, no caso desta pintura, os cães simbolizam talvez o “Domini Canis” (= o cão do Senhor), um dos atributos associado a São Domingos. A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De facto, Domini (em latim tem o significado “do Senhor”) e Canis (em latim significa “Cão”).Ou seja, “Domini Canis” é o Cão do Senhor. No entanto se juntarmos as palavras domini + canis, dá origem a dominicanis (em latim significa Dominicanos). No caso desta pintura usaram, o termo Domini Canis, como se se tratasse de um plural – cães do Senhor.

A mesa, o que está sobre a mesa e nas mãos dos anjos
Debrucemo-nos sobre a mesa e o que lhe anda associado. A toalha é, como na maioria das representações da mesa, branca e sem qualquer tipo de decoração, cobrindo a mesa quase até ao chão. Sobre esta encontram-se dez pratos, de pequenas dimensões, talvez em estanho, e sobre os quais pousam outros tantos copos de vidro. Um dos anjos acaba de encher um desses copos com vinho, tendo este uma cor rubi, podendo por isso ser, talvez, vinho verde rosé, da casta espadeiro[10], que sabemos existir nesta região. O vinho servido por um dos anjos é vertido de uma vasilha com bico e asa, muito provavelmente em estanho.
Por fim, mas de não menor importância, falemos sobre o pão que está representado nesta pintura. Sobre a mesa já estão cinco dos pães que um dos anjos retira de uma cesta de verga com asa e que distribui pelos frades.

Pães de Mancelos e de Cabeceiras. PNG

Pão de coroa. O primeiro pão a contar da esquerda está representado na pintura «O milagre da multiplicação do Pão e do Vinho por S. Domingos». Os outros dois pães estão representados na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo», ambas do séc. XVIII. Repare-se que se trata do chamado pão de coroa e que, no caso da pintura «Ceia de S.Bento e o corvo», os pães estão cortados a meio, ou seja, cada frade só tinha direito a meio pão.

O pão faz lembrar quer o pão de Ílhavo, que ainda hoje se produz e se designa “pão de coroa”, quer o pão alentejano (BARBOFF, 2011: 138), quer o “pão de testa” algarvio. Mouette Barboff explica como se faz este último: “as bolas de massa são esticadas num dos lados, para se obter a cabeça, e dobrada sobre a base, espalmando-se a massa com as mãos. Os pães de testa apresentam uma côdea ligeiramente dourada e sem brilho e bastante miolo” (BARBOFF, 2011: 139).
Este tipo de pão devia ser usual na época, pois, na pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo» que reproduzimos no artigo «Um olhar sobre o comer e o modo de comer em contexto conventual», e que data de 1703, aparece na mesa um tipo de pão semelhante. Veja-se para o efeito a pintura «Ceia de S. Bento e o Corvo».

Bibliografia:
BARBOFF, 2011
Mouette Barboff – A tradição do pão em Portugal. Lisboa: CTT, 2011.

SCHEEBEN, 1935
H. C. Scheeben – Jordan of Saxony: Libellus de pricipiis ordinis praedicatorum. Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica. Roma: Institutum Historicum ordinis predicatorum. 16 (1935). P. 25-88.

VORAGINE, 2000
Hugo de Voragine – Legenda Áurea. 2 vol. Porto: Civilização Editora, 2000.

NOTAS:
[1] Agradeço às minhas colegas Isabel Dias Costa e Adriana Amaral que me alertaram para a existência desta pintura e me facultaram as imagens utilizadas neste texto.
[2] Os milagres de S. Bento, narrados pela irmã Cecília encontram-se publicados em «Cecilia of San Sisto. Miracula beati Dominici» in Miscellanea Pio Paschini: studi di storia ecclesiastica. Rome: Facultas theologica Pontificii Athenaei lateranensis. 1 (1949): 306-326. Veja-se também «The miracles of St. Dominic narrated by Sister Cecilia». In http://opcentral.org/blog/the-miracles-of-st-dominic/
[3] O texto de Jordão da Saxónia foi publicado, em 1935, por H. C. Scheeben (SCHEEBEN, 1935). Neste artigo utilizamos a versão inglesa do «Libellus», traduzido do latim a partir do texto de Scheeben. Veja-se http://www.holyrosaryprovince.org/2011/media/essencial/libellus.pdf
[4] Tiago de Voragine, na «Legenda Áurea», manuscrito do século XIII (ca 1260-1263) conta este milagre de modo diferente da Beata Cecília e do Beato Jordão de Saxónia (VORAGINE, 2000: 66), mas, a pintura aqui analisada segue sem dúvida os textos destes dois autores e não o de Voragine.
[5] A irmã Cecília é quem narra o milagre do modo que aqui se descreve, sendo Jordão da Saxónia mais comedido nos pormenores.
[6] Os nove modos de rezar de S Domingos. In Frei João da Cruz (OP) – Crónica de la Orden de Predicadores. Lisboa, 1567. In http://www.isdomingos.com/upload/orar_sd.pdf
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Idem.
[10] “Casta tinta de qualidade, recomendada em grande parte da Região Demarcada, com exceção da Sub-Região de Monção e concelhos mais a sul da Região; muito produtiva e rústica; dá origem a vinhos de cor rubi clara a rubi, de aroma e sabor a casta e acídulos. Sinonímia: conhecida por «Padeiro(a)» na zona de Basto, por «Espadão» em Monção, por «Espadal» em Santo Tirso e por «Murço» ou «Areal» em Amares, é ainda conhecida por «Cinza», «Farinhoto», «Nevoeiro» e «Tinta dos Pobres»”. In Vinho Verde: Ficha da Casta Espadeiro. Veja-se http://www.vinhoverde.pt/pt/vinhoverde/castas/casta-abrev.asp?casta=Espadeiro

Feira mensal de Almeida

Feira de Almeida. Tenda de fumeiro e queijos e roulotte de carne fresca. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Tenda de fumeiro e queijos e roulotte de carne fresca. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

No último sábado de cada mês realiza-se em Almeida, no descampado fora de muralhas, uma feira. Este mês de Dezembro de 2013 calhou no dia 28. Na maior parte das tendas vendia-se roupa, mas havia também uma tenda com mobiliário de madeira e tendas de fumeiro e queijos, uma roulotte com carne fresca, e a venda de leguminosas secas e de árvores e arbustos para plantar.
Compramos chouriços, queijo e alheiras (de Mirandela). Na mesma tenda vendia-se também bucho de porco fumado, recheado com carnes de porco e temperado com sal, colorau e vinho. O bucho confecciona-se do seguinte modo: coze-se em água e sal dentro de um saco, ou atualmente dentro de uma meia de vidro, durante uma a duas horas. Retira-se do lume, escorre-se, dá-se-lhe um golpe em cruz e serve-se quente acompanhado por batata e grelos cozidos.
Fica aqui esta memória de uma feira em Almeida, seguramente bem diferentes das feiras de antanho onde a comercialização de produtos seria mais diversificada, podendo encontrar-se à venda loiça de barro tão necessária às lides domésticas e agrícolas, bem como a venda dos apetrechos necessários à lavoura.

Feira de Almeida. Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Roulotte da carne fresca. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Roulotte da carne fresca. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Fumeiro na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Fumeiro na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Queijos na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Queijos na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Queijos na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Queijos na Tenda de fumeiro e queijos. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Venda de leguminosas secas. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Venda de leguminosas secas. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Venda de árvores e arbustos para plantar. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Feira de Almeida. Venda de árvores e arbustos para plantar. 28 de Dezembro de 2013. Fotografia de IMF.

Calondro, assim se chama e em doce se transforma

Calondro. 82 cm de comprimento. Outubro de 2013.

Calondro. 82 cm de comprimento. Outubro de 2013.

Numa altura em que somos cada vez mais globais, é interessante constatar que o velho ditado “cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso”, ainda faz sentido.
Nascida que fui no Porto, desde miúda que me lembro de a abóbora fazer parte da minha alimentação, fosse na confecção da sopa (que confesso nunca me agradou…) até ao saboroso doce de abóbora, a que a minha mãe juntava pedacinhos de noz. Uma delícia!
Lembro-me que havia abóboras amarelas e verdes e, que, pelo Natal, surgia uma abóbora menos comprida e mais esférica, de bela cor alaranjada com que a minha mãe fazia, e continua a fazer, os bolinhos de abóbora-menina, pois assim se chama a dita. Mas também se chama, depende da terra onde nasce ou se vende jerimu e bolina. Estes doces bolinhos – que designamos por velhoses – ainda hoje são presença obrigatória na nossa mesa de Natal, com ou sem molho (ou seja, uma calda de açúcar aromatizada com canela e vinho do Porto).
Mas, o meu conhecimento sobre abóboras ficava por aqui, até ao momento em que vim residir para Guimarães e conheci o calondro…

O Calondro é uma cucurbitácea que Camilo Castelo Branco conhecia…

Sementes de calondro. Novembro de 2011.

Sementes de calondro. Novembro de 2011.

Tal como as abóboras que acima refiro também o calondro (em Guimarães muitas pessoas dizem colondro) pertence à família das curcubitáceas de que existem cerca de 130 géneros e 750 espécies, sendo “plantas herbáceas de hábito de crescimento normalmente prostrado, podendo algumas serem trepadoras devido à presença de gavinhas que podem ser simples ou múltiplas. As folhas são alternas, sem estípulas, simples e lobuladas” (BARROSO et al., 2007).
Em Guimarães, o vocábulo calondro / colondro designa uma abóbora alongada (a que adquiri em Outubro de 2011, media 80 cm de comprimento), com estrangulamento acentuado a cerca de dois terços do comprimento, de cor verde clara, malhada e casca dura. Nunca na minha vida tinha conhecido uma abóbora semelhante!
O calondro cultiva-se, tanto quanto consegui perceber, nos concelhos de Guimarães, Vizela, Braga, Fafe, Vieira do Minho e Montalegre, mas, o seu cultivo estará espalhado por todo o Minho e Trás-os-Montes. Em Guimarães, em 1842, vários párocos informam acerca do seu cultivo, nas freguesias de S. Tomé de Abação, S. Mamede de Aldão, Santa Marinha de Arosa, Gandarela, Santa Maria de Infias, S. Vicente de Mascotelos, S. Romão de Mesão Frio, S. Paio de Moreira de Cónegos, Santa Eulália de Nespereira, S. Salvador de Pinheiro, S. Tiago de Ronfe, S. Clemente de Sande, S. Lourenço de cimo do Selho e S. Faustino de Vizela (LAMEIRA, 1998).

Calondro a nascer. Guimarães, Maio  de 2013.

Calondro a nascer. Guimarães, Maio de 2013.

Também Camilo Castelo Branco, pelo menos em dois dos seus romances, refere os calondros. Em «Gracejos que matam» (Novelas do Minho) (1875), Irene e o amante Jacques Smith encontram em Madrid marido desta, Álvaro de Abreu, acompanhado por “duas francesas do café-concerto”, tendo Jacques Smith comentado: “– E tu a imaginá-lo a semear calondros em Basto…”. Também em «O Cego de Landim» (Novelas do Minho) (1876), volta a referi-lo: “Invadiram-lhe judicialmente a casa, e encontraram, para maior prova de crime, um açafate de maçãs camoesas, dois calondros e algumas batatas que Narcisa recolhera, de colheita aliás suspeitosa, nas lojas da casa da sua protectora”.
Abel Salazar, em «Recordações do Minho Arcaico» diz que O Minho é lambão, e inventou três classes de doces, os doces de romaria, os doces caseiros e os doces de convento”, referindo, entre os “doces caseiros”, aquele que se faz com o “carnudo calondro” (SALAZAR, 2002 [1939]: 121-122)

Rama do calondro. Guimarães, Julho de 2013.

Rama do calondro. Guimarães, Julho de 2013.

O vocábulo calondro parece ser usado noutras regiões para designar abóboras diferentes desta que se cultiva em Guimarães e nos concelhos vizinhos. De facto, na Campeã (concelho de Vila Real), chama-se calondro a uma abóbora amarela que não tem nada a ver com o calondro de Guimarães e com o qual naquela terra se faz um doce de calondro que se come pelo Natal. Sobre as diversas variedades de abóboras correntes em Trás-os-Montes vale a pena ler um interessante e informativo artigo publicado pela DRAP Norte: Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte. Pena é que não exista artigo semelhante sobre as cucurbitáceas do Minho, onde, seguramente teria de figurar o calondro que damos a conhecer neste artigo (BARROSO et al., 2007).
Carlos Bento da Maia no seu «Tratado completo da Cozinha e de Copa», publicado em 1904, refere uma abóbora que designa como “abóbora carneira, abóbora de água ou abóbora maçã de Hércules” e que deve ser o calondro: “É uma abóbora muito longa chegando a ter mais de um metro de comprido e cerca de 15 centímetros de diâmetro. Tem a casca de um verde muito claro e a carne muito branca. Tem aplicação usual na cozinha, onde se prepara cozida ou guisada, e na copa, onde se prepara ripada em doce ou cortada em talhadas, dando não só o doce de calda, mas também a abóbora coberta” (MAIA, 1904: 63).

Flor do calondro. Guimarães, Novembro de 2013.

Flor do calondro. Guimarães, Novembro de 2013.

Com que abóbora seria feito o doce que Heinrich Friedrich Link saboreou, em Portugal, no final do século XVIII? Talvez se referisse ao calondro… De facto, no seu livro «Notas de uma viagem a Portugal e através de Espanha e França», este autor, comenta que “as abóboras são comidas frequentemente e com gosto, da parte interior fibrosa de uma variedade de forma oblonga é feita com açúcar uma compota que é usada como doce, sendo este geralmente muito bem confeccionado em conventos de freiras” (LINK, 2005: 118).

O calondro e a cabaça, como medidas de capacidade

Calondro a crescer.  Guimarães, Agosto de 2013

Calondro a crescer. Guimarães, Agosto de 2013

O calondro, que há também quem designe como “colondro”, integra o género lagenária a que também pertence a cabaça. É interessante constatar através de documentação arcaica a associação entre a cabaça e o calondro.
Viterbo, no seu «Elucidário», publicado entre 1798 e 1799, refere o “colodra” ou “colondra”, que diz ser uma cabaça grande usada como medida, aparecendo referida em documento do séc. XIII. Diz Viterbo que “colodra” é uma “cabaça grande para ter ou medir vinho. Ainda hoje em algumas terras de Portugal se chama colondra, e a esta espécie de cabaços disseram colombros. Parece que a colodra levaria um cântaro, ou seis canadas. Hoje, na província do Minho se chama cabaço a um meio almude, ou cântaro de seis canadas; porque dos ditos cabaços ou colombros se costumam formar e aferir estas medidas. No de 1230 se fez doação de umas vinhas na aldeia de S. Cristóvão ao mosteiro de Santa Maria de Aguiar, juntamente ‘cum duabus cupis quadrigentarium colodrarum’. Doc. Do Mosteiro de Aguiar. Deste modo levando as duas cubas quatrocentas colodras, vinha a levar cada uma cem almudes ou quatro pipas” (VITERBO, 1798-1799, I: 202).

Calondro já grande.  Guimarães, Outubro de 2013

Calondro já grande. Guimarães, Outubro de 2013

A cabaça, como medida de capacidade, aparece várias vezes referida no «Livro das Campainhas», do Mosteiro de S. Salvador de Grijó, em Gaia, códice da segunda metade do século XIV. Através deste documento ficamos a saber, por exemplo, que o casal de Gonçalo Domingues pagava ao Mosteiro, entre outros géneros, “uma cabaça de vinho que será quarto de almude”, e que as “as donas de Vila Cova” tinham direito “em quinta-feira maior” a “um meio alqueire de trigo em pão amassado e um sável e uma cabaça de vinho de meio almude” (ALARCÃO; AMARAL, 1986: 16 E 74).
O uso da cabaça e do calondro como medida de capacidade deve-se ao facto de a sua casca ser dura e resistente, podendo, depois de seca, servir como contentor, por exemplo, de líquidos. Talvez o colondro – sendo maior do que a cabaça, e por isso com maior volume – correspondesse a uma medida de capacidade superior à da cabaça.

O cultivo do Calondro

A rama do colondro a secar.  É esta a altura de apanhar o calondro. Guimarães, Outubro de 2010.

A rama do colondro a secar. É esta a altura de apanhar o calondro. Guimarães, Outubro de 2010.

O calondro costuma aparecer à venda por volta do mês de Setembro-Outubro, denotando-se, nos últimos anos, em Guimarães, uma quebra na sua produção e venda, ficando isto a dever-se a cada vez menos pessoas o utilizarem para fazer doce e não haver o hábito de o utilizar na feitura de sopa.
Informaram-me que este seria um bom alimento para os animais, concretamente para os porcos, chamando-se, por isso, também, abóbora porqueira.
Este ano (2013) atrevi-me a semear calondro, tendo para o efeito utilizado as sementes que sequei e guardei do calondro que adquiri em 2011 e com o qual fiz doce.
Semeei várias sementes no início de maio de 2013 (dia três para ser mais precisa) e deu-me um enorme gozo vê-las crescer. A folha e a flor do calondro são grandes, sendo a cor desta branca.

Calondro pendurados pela rama. Guimarães, Outubro de 2013

Calondro pendurados pela rama. Guimarães, Outubro de 2013

Fui guiando a ramagem para a vedação de rede, tendo-se estendido uns largos metros. Fui regando, de modo a que não secasse. Das flores foram nascendo os calondros, sendo que muitos ficaram pelo caminho, melando em diferentes fases do crescimento.
No dia 25 de Outubro colhi os meus calondros tendo obtido dois grandes (o maior media 82 cm de comprimento) e dois pequenos, afora um que cresceu para o caminho e que umas mãos mais afoitas levaram sabe-se lá para onde…

O doce de calondro

Frente e verso do calondro. A textura e a cor acastanhada do verso do calondro deve-se ao facto de ser esta face que está  pousada sobre a terra. Guimarães, Novembro de 2011.

Frente e verso do calondro. A textura e a cor acastanhada do verso do calondro deve-se ao facto de ser esta face que está pousada sobre a terra. Guimarães, Novembro de 2011.

Em Guimarães o calondro não costuma ser usado para fazer sopa, sendo apenas vocacionado para a produção de doces, de entre os quais um doce especial no qual se usa um utensílio também especial – o “ripador” ou “esbichador”.
É sabido que as freiras clarissas que habitavam no Mosteiro de Santa Clara, edifício onde hoje está sediada a Câmara Municipal de Guimarães, confeccionavam doce de calondro. Tendo, as duas últimas abadessas do mosteiro (Ana Angelina Moreira e Antónia Amália Viegas), levado a concurso, na Exposição Industrial de Guimarães de 1884, doce de calondro, de laranja, de pêra, marmelada e toucinho-do-céu (RELATÓRIO, 1991 [1884]: 117; GUIMARÃES, 1892: 203, nota 1).

Calondro aberto a meio no sentido logitudinal. Novembro de 2011

Calondro aberto a meio no sentido logitudinal. Novembro de 2011

Com o calondro pode fazer-se compota, calondro cristalizado (designado na receita que transcrevemos como calondro seco) ou doce de calondro em fios. As receitas destas três variedades de doce de calondro vão descritas no final deste artigo, podendo afiançar-vos que Maria de Lurdes Modesto diz que a abóbora cristalizada se deve sempre fazer com calondro, dado este ter uma polpa mais firme do que a das outras abóboras.

O doce de calondro em fios

Miolo do calondro.

Miolo do calondro.

Mas, gostaríamos de nos debruçar com mais profundidade sobre o doce de calondro em fios.
De facto, este doce de calondro/colondro em fios continua a fazer-se todos os anos em casa de algumas famílias vimaranenses, sendo o calondro vulgarmente adquirido no mercado municipal.
Por cá designam este doce simplesmente como doce de calondro/colondro, mas, para que não haja confusão com a compota de calondro, passarei a designar este como doce de calondro em fios.
Se quer fazer este doce tem de adquirir o calondro no mercado e comprar o ripador na Loja Ferreira da Cunha, no Toural (Guimarães) ou na Loja Mar Chaves, na Rua da Rainha. Seguramente que quem o atender lhe venderá o ripador e lhe dará de graça a explicação sobre o modo de usar.
Comprado o calondro e o ripador, deve começar por cortá-lo meio, no sentido longitudinal, retirar as pevides e as partes fibrosas.

Miolo do calondro.

Miolo do calondro.

Limpo o calondro, e ainda com casca, começa o trabalho moroso de ripar a polpa com o ripador, de modo a que saia em fios. Estes fios, semelhantes a “bichas”, dão origem a um dos nomes do utensílio – “esbichador”, dado que transforma a polpa em bichas.
Vai-se reunindo os fios de calondro num recipiente e, quando já se tem todo o calondro transformado em fios, pode começar a fazer-se o doce.
Prepara-se como qualquer outro doce de fruta, podendo “roubar-se” um pouco no açúcar, ou seja, para um quilo de calondro pode pôr 850 grs de açúcar. De qualquer modo vai a seguir a receita de calondro de Angélica Leão Cruz de Almeida Ribeiro, de Guimarães, ainda com indicação de peso em arráteis, sendo que um arrátel corresponde a 459 gramas.

Ripador ou esbichador usado para ripar o calondro

Ripador ou esbichador usado para ripar o calondro

Como se come o doce de calondro
Pode usar a sua imaginação, mas, o doce de calondro é bom para acompanhar com queijo, para comer dentro do pão, ou simplesmente tirá-lo do frasco e comê-lo à colher.
O doce de calondro acompanha na perfeição a sopa dourada, de que já apresentámos a receita neste blogue, ou para substituir a chila na feitura do toucinho do céu de Guimarães. Em casa, faço frequentemente o toucinho do céu com doce de calondro.

Calondro a ser ripado com o ripador. Fotografia retirada do blogue Viagens,-Livros e Afins.  In http://detefegueiredo.blogs.sapo.pt/77152.html

Calondro a ser ripado com o ripador. Fotografia retirada do blogue Viagens,-Livros e Afins. In http://detefegueiredo.blogs.sapo.pt/77152.html

Calondro seco (Família Sampaio da Nóvoa)[1]
Para fazer o calondro seco é preciso para cada quilo de calondro, 1500 gramas de açúcar areado.
Descasca-se fatias de calondro grosso – coze-se em água fria.Depois coze-se em água simples, com umas pedrinhas de sal refinado – meia cozedura. Tira-se, deixa-se arrefecer e deita-se em alguidares cheios de água fria e deixa-se estar 2 ou 3 dias, mudando-lhe todos os dias a água para ele perder o gosto ao cabaço.
Quem o quer muito branquinho, põem-no ao sol a corar.

Calondro ripado

Calondro ripado

Põe-se ao lume o açúcar em ponto de espadana muito baixo, deita-se-lhe dentro o calondro e deixa-se ferver um pouco; tira-se do lume e deixa-se ficar na calda umas poucas de horas. Repete-se esta operação duas vezes por dia até o calondro estar bem passado e em ponto de secar. Então tira-se para uma rede ou peneira de cabelo e põem-se a secar ao sol.
É costume, para quem tem prática, deitar a água precisa no açúcar e esta vai apurando até o calondro estar pronto. Fica muito bem.

Doce de calondro (Família Freitas do Amaral)[2]
Calondro cozido e partido aos bocadinhos, sem casca       500 g
Açúcar branco por clarificar                                                 500 g
Água                                                                                     ½ litro
Põem-se a água ao lume num tacho. Quando esta começa a aquecer deita-se-lhe algumas claras de ovos e mexe-se muito. Depois lança-se-lhe o açúcar e quando principia a ferver borrifa-se com água, até 3 vezes. Depois côa-se. Em seguida leva-se o açúcar a ponto de espadana subido. Deita-se-lhe o calondro e aí ferve até estar em ponto grosso, isto é: tira-se um pouco para um pires e logo que ele faça uma pequena côdea, pode-se tirar para malgas.

Confecção do doce de calondro. Fotografia retirada do blogue Viagens,-Livros e Afins.  In http://detefegueiredo.blogs.sapo.pt/77152.html

Confecção do doce de calondro. Fotografia retirada do blogue Viagens,-Livros e Afins. In http://detefegueiredo.blogs.sapo.pt/77152.html

Receita de calondro (Receita de Angélica Leão Cruz de Almeida Ribeiro)
Abre-se o calondro a meio e tiram-se as pevides e depois com uma coisa de folha raspa-se o calondro até sair o branco que é isso que se aproveita e isso sai às tripinhas pelo raspador. Depois mede-se as tripas por um copo de quartilho, e, a cada quartilho um arrátel de açúcar. Deita-se água num tacho e quando a água ferver deita-se o açúcar e torna a ferver para se ligar a fruta. Ferve tudo até chegar ao ponto de fazer uma codinha na colher.

Confeccionando o doce de calondro. Novembro de 2011.

Confeccionando o doce de calondro. Novembro de 2011.

Bolo de Colondro (Receita de Inês Abreu, e que me foi dada por Maria Emília Santoalha)
1/2 frasco de colondro escorrido
10 ovos (5 inteiros + 5 gemas)
300g de açúcar
250g de amêndoa ralada

Batem-se os ovos inteiros mais as gemas com o açúcar. Junta-se a amêndoa e por fim envolve-se o colondro. Barra-se uma forma de tarte e vai ao forno durante 1 hora. Tapa-se com uma tampa de uma panela quando vir que está a queimar.

Confeccionando o doce de calondro. Novembro de 2011. Repare-se que quando se começou a fazer o doce, o tacho estava cheio, e com a cozedura a água o líquido e o calondro vai diminuindo. Novembro de 2011

Confeccionando o doce de calondro. Novembro de 2011. Repare-se que quando se começou a fazer o doce, o tacho estava cheio, e com a cozedura a água o líquido e o calondro vai diminuindo. Novembro de 2011

Se conhece outras receitas em que entra o calondro, por favor dê-me conhecimento.
Vamos ver se todos juntos conseguimos divulgar esta cucurbitácea que já poucas pessoas semeiam.
Deste modo mantemos o hábito de fazer um doce que em tempos ia à mesa de muita gente e salvamos uma cucurbitácea que tem vindo a desaparecer do nosso quotidiano.
Vamos nessa? Ainda vai a tempo de fazer o seu doce de calondro, tenho uma amiga que ainda tem o colondro e que por um destes dias fará o seu doce.

Doce de calondro nos frascos. Novembro de 2013

Doce de calondro nos frascos. Novembro de 2013

BIBLIOGRAFIA

ALARCÃO; AMARAL, 1986   Jorge de Alarcão; Luís Carlos Amaral – O Livro das Campainhas: códice da segunda metade do século XIV: Mosteiro de São Salvador de Grijó. Gaia: Gabinete de História e Arqueologia de V. N. Gaia, 1986 (Documentos sobre Vila Nova de Gaia; 4).

BARROSO et al., 2007  Maria do Rosário Barroso; Maria José Magalhães; Valdemar Carnide; Sandra Martins – Curcubitáceas de Trás-os-Montes. Mirandela: Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN), 2007. In http://www.drapn.min-agricultura.pt/drapn/conteudos/cen_documentos/norte/CURCUBITACEAS.pdf (Consultado em Dezembro de 2007).

FARIA; FERNANDES, 2011  Maria Adelaide Sampaio da Nóvoa de Faria; Isabel Maria Fernandes – Receitas da Casa do Mosteiro de Landim. Guimarães: Despertar Memórias, 2011.

FERNANDES, 2012  Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012.

LAMEIRAS, 1998  Alberto Lameiras – Inquérito paroquial 1842. Revista de Guimarães. Guimarães. 198 (1998). P. 9-644.

MAIA, 1904  Carlos Bento da Maia  –  Tratado completo de Cozinha e de Copa. Lisboa: Guimarães  C.ª, 1904.

VITERBO, 1966 [1798-1799]  Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, frei – Elucidário das palavras, termos e frases… 2 vol. Porto: Livraria Civilização, 1966. 1º ed. 1798-1799; 2ª ed. 1865.

SALAZAR, 2002 [1939]  Abel Salazar – Recordações do Minho Arcaico. Porto: Campo das Letras, 2002.


[1] Nos cadernos de receitas existem duas receitas de calondro seco, mas não diferem muito uma da outra. No caderno de receitas da família Sampaio da Nóvoa chama-se fruta seca ao que hoje designamos como fruta cristalizada. De facto fruta seca é aquela que é seca por processos naturais. Assim sendo onde diz calondro seco deveria dizer calondro cristalizado.

[2] Existem quatro receitas de doce de calondro nos cadernos de receitas da Família Freitas do Amaral, mas correspondem basicamente a uma mesma receita. Decidimos incluir esta receita dado os pesos indicados serem em gramas, ao contrário das outras que ainda são em arráteis.

Cogumelo Trametes versicolor em Guimarães

Cogumelo Trametes versicolor,no Jardim do Paço dos Duques, Guimarães (28 de Outubro de 2013). Foto IMF

Cogumelo Trametes versicolor (Guimarães, Jardim do Paço dos Duques, 28 de Outubro de 2013). Foto IMF

Neste blogue, quase pela mesma altura do ano, Novembro de 2011, também falei de cogumelos, ou melhor de uma espécie de cogumelos – os macrolepiota procera – vulgarmente conhecidos pelos nome de santieiros ou sentieiros, frades, choteiros ou tortulhos.
Desta vez falar-vos-ei de um cogumelo bem diferente, o Trametes versicolor.

Cogumelos de muitas espécies

Cogumelos Trametes versicolor, junto a bétula morta (Guimarães, Jardim do Paço dos Duques, 28 de Outubro de 2013). Foto IMF

Cogumelos Trametes versicolor, junto a bétula morta (Guimarães, Jardim do Paço dos Duques, 28 de Outubro de 2013). Foto IMF

Os cogumelos são fungos que se alimentam por absorção, estimando-se que existam cerca de 1,5 milhão de espécies, sendo que nem 5% estão classificadas.
Ao longo dos anos, nas diversas regiões do mundo o homem foi aprendendo a distinguir as espécies comestíveis das que são tóxicas.
Os cogumelos crescem em meios muito distintos – no solo, no estrume, entre folhas mortas, nos troncos e casca das árvores. De um modo geral desenvolvem-se em período húmido e com temperatura amena, sendo vulgar vê-los crescer depois de um período de chuva. É por isso normal que a sua colheita se faça especialmente durante o Outono.
Os cogumelos podem apresentar forma, cor, cheiro e sabor muito distintos, havendo variedades comestíveis, alucinógenas e tóxicas, sendo que estas podem mesmo causar a morte. Os cogumelos comestíveis contêm cerca de 2 a 10% de proteínas sendo ricos em vitaminas do complexo B e sais minerais como ferro, cálcio, potássio, magnésio e fósforo.

O cogumelo Trametes versicolor

Cogumelo das cerejeiras. Boletus versicolor. Imagem retirada de «Éducation à l'Environnement» (http://informations-documents.com/environnement/coppermine15x/displayimage.php?pid=5004)

Cogumelo das cerejeiras. Boletus versicolor. Imagem retirada de «Éducation à l’Environnement» (http://informations-documents.com/environnement/coppermine15x/displayimage.php?pid=5004)

Na semana passada, no percurso pedonal que faço habitualmente a caminho do trabalho, suscitou a minha atenção um “tufo” em tons de castanho que brotava junto a uma velha bétula já morta, nos jardins que rodeiam o Paço dos Duques, em Guimarães, do lado da estrada que conduz a Fafe.
Aproximei-me de tão estranho “tufo” de dimensões avantajadas e que se estendia no solo por mais de 60 cm, havendo outros “tufos” que ladeavam o tronco da árvore ou que nela se “penduravam”.
Não foi difícil perceber que se tratava de uma espécie de cogumelo, mas qual?
Com ajuda da internet fiquei a saber tratar-se da espécie trametes versicolor, existindo cerca de 100 géneros diferentes dentro da família a que pertence – a Polyporaceae.
Este cogumelo, de dimensões avantajadas e que não possui o característico chapéu, adquire diferentes cores consoante o local onde se hospeda, costumando crescer em madeira em decomposição, ou seja, em árvores com “tecidos necrosados”.

Parte traseira dos cogumelos Trametes versicolor. Repare-se que a superfície é lisa e branca (Guimarães, Jardim do Paço dos Duques, Outubro de 2013). Foto IMF

Parte traseira dos cogumelos Trametes versicolor. Repare-se que a superfície é lisa e branca (Guimarães, Jardim do Paço dos Duques, Outubro de 2013). Foto IMF

Trata-se de um cogumelo comestível, mas é de sabor pouco agradável ao palato. Este trametes versicolor que encontrámos em Guimarães caracteriza-se pelo tardoz do cogumelo, ou seja a parte de trás, ser lisa e branca ao contrário de outros da mesma família.
 
Reino: Fungi
Filo: Basidiomycota
Classe: Agaricomycetes
Ordem: Polyporales
Família: Polyporaceae
Género: Trametes
Espécie: T. versicolor
Sinónimos: Boletus versicolor L. (1753), Polyporus versicolor (L.) Fr. (1821), Coriolus versicolor (L.) Quél. (1886)

Se passar no jardim junto ao Paço dos Duques não deixe de visitar este cogumelo (que não durará muito mais tempo…), o qual, mesmo não dando origem a um suculento pitéu, nos encanta com a sua beleza.

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Sites consultados:
http://en.wikipedia.org/wiki/Trametes_versicolor
http://esa.ipb.pt/agro689/brochura_das_Jornadas_Micologicas.pdf
http://informations-documents.com/environnement/coppermine15x/displayimage.php?pid=4289
http://botit.botany.wisc.edu/toms_fungi/aug97.htmlhttp://biotic.bot.uc.pt/index.php?menu=6&language=pt&tabela=geral

O Mosteiro de Lorvão e a Doçaria Conventual

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Nossa Senhora da Vida. Séc. XIV. Mosteiro de Lorvão. Foto IMF

Este Sábado fomos até Penacova para visitar o mosteiro de Lorvão o qual impressiona pela sua grandiosidade e por se encontrar abrigado no fundo de montes, correndo aos seus pés um pequeno rio de águas limpas. Face a face com o mosteiro ergue-se a povoação de casas alinhadas ao longo da estrada. Infelizmente, do extinto mosteiro cisterciense feminino, apenas se pode visitar a igreja, a pequena sacristia, o coro, o claustro que ladeia a igreja e duas salas onde se encontra algum do acervo museológico.
No século XX e até 2012 aqui funcionou um hospital psiquiátrico que ocupava grande parte do edifício. Hoje, parece incerto o uso a dar a este enorme mosteiro, habitado ao longo dos séculos por filhas de algumas das mais ilustres famílias portuguesas.

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Pormenor do claustro do mosteiro de Lorvão. Foto IMF. 10.10.2013

Há pouco tempo o claustro foi intervencionado tendo sido adossado um novo edifício onde se projetava constituir um museu. Mas, a agrura dos tempos parece ter feito abortar o projeto, pelo que o edifício apesar de pronto se encontra vazio… Foi pena que em vez da criação de um novo edifício não se tenha aproveitado o existente…
O mosteiro de Lorvão deve ter sido talvez fundado no séc. VI (apesar de esta data não ser unanimemente aceite pelos investigadores), abrigando um mosteiro masculino, o qual a partir do séc. XI passou a seguir a regra de S. Bento.

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

Vindima. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Publicada por BORGES, 2013: 26

No início do século XIII, o mosteiro viria a transformar-se numa congregação feminina da ordem de Cister, aqui vivendo D. Teresa, filha de D. Sancho I e mulher que havia sido de Afonso IX de Leão, e suas irmãs Sancha, Mafalda, Branca e Berengária. Sancha, viria mais tarde a fundar o convento de Celas, em Coimbra. Teresa e Sancha ficaram sepultadas em Lorvão, tendo sido desde cedo consideradas como Rainhas Santas e merecendo por isso a devoção dos fiéis, vindo a ser beatificadas a 23 de Dezembro de 1705 (BORGES, 2013: 15-34).

RRefeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Refeição. Missal antigo de Lorvão. Séc. XV. Foto ANTT. Imagem publicada por BORGES, 2013: 47

Mas, não é a história do convento que nos interessa, mas a dedicação destas mulheres ao fabrico de doces. Em boa hora a Câmara Municipal editou o livro «Doçaria Conventual de Lorvão» (2013), da autoria de Nelson Correia Borges, um filho da terra, professor aposentado do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o qual fez a sua tese de doutoramento sobre Lorvão – «Arte monástica em Lorvão: sombras e realidade: das origens a 1737».

Doces das freiras de Lorvão

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

Manjar branco feito em discos de barro vermelho. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 132).

O autor, profundo conhecedor da documentação referente a Lorvão e ao mosteiro, decidiu, nesta obra dedicada à doçaria conventual de Lorvão, dar a conhecer o que sobre o tema os documentos referem, alertando, no entanto, para a inexistência de receitas: “Não chegaram até nós livros de receitas, ou quaisquer apontamentos, ou, em rigor, não são conhecidos até agora, o que não quer dizer que não tivessem existido”.
Através da consulta documental o autor ficou a conhecer e desvenda a doçaria que saía das mãos destas freiras – alfenim, alfitetes, beijinhos de freira, beijinhos, beijos, biscoitos, bocados de abóbora, bolo de bispo, bolo de Santa Teresa, bolo podre de Lorvão, bolos d’arica, bolos de bispo, botelhada, broas de amêndoa, broas de ovos, capelas de ovos, caramelos, cavacas de Lorvão, cidrada, confeitos, derriços, doce de amêndoas, doce de laranja, farténs de amêndoa, fatias do céu, fatias do conde, fios de ovos, ginetes, lampreia doce, linguadas, manjar branco, manjar divino, manjar real, marmelada, marmelada de sumos, massapães, melindres, milharós, morgados, nabada, ovos doces, ovos moles, palermos cobertos (hoje nevadas), palitos, pão-de-ló de amêndoa, papos de anjo, pastéis, perada, pêssegos cobertos, queijadas, queijinhos do céu, súplicas, talhadas, tâmaras, tigelada, tolos, tortilhas, tremoços.

O que resta da antiga cozinha do mosteiro. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

O que resta da antiga cozinha do Mosteiro de Lorvão. Foto de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 50).

Não tendo encontrado na documentação as receitas dos doces acima referidos o autor socorreu-se de pessoas (mulheres é claro!) que lhe deram a conhecer o modo de fazer estas iguarias. Apresenta um total de 53 receitas: 8 foram-lhe facultadas por Maria da Graça de Castelo Branco Leitão Barbosa Ribeiro (queijinhos do céu, tâmaras, tolos, lampreia doce, beijinhos, beijos e cavacas); 1 foi extraída de um “manuscrito de uma freira, em posse de família que esteve ligada ao Mosteiro de Lorvão” (Bolo podre de Lorvão); 1 recolhida em «Nova Arte da Cozinha» (1695) de Domingos Rodrigues (cidrada); 1 do mosteiro de Celas (manjar branco); 1 de Arminda Ferreira Baptista Santos, “agora utilizada e divulgada por D. Margarida Padilha Viseu” (Palermos cobertos); 1 publicada na revista «Marie Claire», N.º 38 de 1991 (Palitos); 1 de Maria Amália Martins de Carvalho Leitão Alpoim (Pastéis de Lorvão) e outra publicada por Emanuel Ribeiro e respeitante ao mosteiro de Bustelo (Pêssegos cobertos), as restantes foram recolhidas “da tradição oral, quer junto de familiares, quer junto de pessoas amigas que no-las comunicaram, mesmo antes das informações arquivísticas”.

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Tabuleiro. Séc. XVII. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 45).

Nelson Borges publica também a receita do Bolo das Infantas, informando que “esta receita foi divulgada na internet e publicada por Alfredo Saramago”, acrescentando que a incluía “com alguma reserva, porquanto este nome não aparece referido na documentação nem tão pouco a designação seria lógica num mosteiro onde a memória coletiva era sempre referida à rainha e não a infantas”. Tem razão o autor para duvidar da veracidade da receita publicada por Alfredo Saramago. De facto, o mesmo sucede com receitas publicadas por este autor como sendo provenientes de conventos de Braga e Guimarães, as quais nunca se encontraram nem nas fontes documentais nem na consulta de velhos livros de receitas pertencentes a antigas famílias de ambas as terras. Tal como sucede com a receita de Lorvão também as que o autor apresenta como sendo de Braga e Guimarães possuem nomes pouco usuais em contextos conventuais (FERNANDES, 2012: 12). Por tal motivo as receitas facultadas por este autor devem ser usadas com grande reserva.
Nelson Correia Borges não indica a proveniência do receituário das restantes 38 receitas, o que é pena, pois, é sempre importante conhecer a sua origem.

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

Prato de cobre usado para formar a lampreia doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 128).

É bom dizer que todas as receitas foram experimentadas, agradecendo o autor a Emília Teresa Horta Peres, a “revisão e paciente execução das receitas” (BORGES, 2013: 12).
Intriga-me o que seriam os bolos d’arica. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal doce. Como seriam? Convém talvez lembrar que o verbo aricar significa “lavrar superficialmente a terra para livrá-la de ervas daninhas” (HOUAISS, 2003, I: 372), tendo o mesmo significado em castelhano (DICCIONARIO, 2001, I: 203).

Doces que adquiriam
Nelson Correia Borges transcreve documentação do final do século XVII através da qual se pode concluir que havia doces que eram comprados pelas freiras, como por exemplo os “pastéis que se dão no dia de Entrudo”, os “pastéis para os músicos” que se oferecem no dia da “consoada do nosso padre S. Bento” e os “confeitos para a consoada que na semana Santa se dão” (BORGES, 2013: 77-78).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia  Borges (BORGES, 2013: 61).

Dois garfos de marfim. Mosteiro de Lorvão. Colecção Particular. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 61).

A compra de doces no exterior do mosteiro sucedia em diversas congregações, principalmente nos conventos masculinos que adquiriam fora muitos dos doces que consumiam.

Os utensílios para fazer, transportar, servir e comer os doces
Nelson Correia Borges teve também o cuidado de ilustrar a sua obra com fotografias dos utensílios usados pelas freiras quer para fazer os doces quer para os transportar, servir e comer.
Ao longo da obra podemos ficar a conhecer vários recipientes de barro utilizados na conservação dos alimentos sólidos e líquidos, um graal de marfim, um tacho de cobre, uma colher de ferro, um prato de cobre utilizado para formar a lampreia doce, discos de barro vermelho para fazer o manjar branco, tigelinhas para os ovos moles, copos e jarra de vidro, pratos de faiança e porcelana com marca possessória, bem como tabuleiros para transporte de doces ou outros géneros.

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de prato de faiança com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 50).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Fragmento de fundo de prato de porcelana com marca possessória. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Borges (BORGES, 2013: 57).

Interessante é também a divulgação que o autor faz das caixas para guardar e transportar os doces, hoje difíceis de encontrar, e de dois singelos e interessantes garfos de marfim de quatro dentes.

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Caixa para doce. Mosteiro de Lorvão. Fotografia de Nelson Correia Borges (BORGES, 2013: 51).

Na documentação do final do séc. XVII encontrou o autor referência quer à compra de caixas (Maio de 1694) – “comprámos 19 caixas grandes para o presente das nossas Santas Rainhas”, quer de tigelinhas (Novembro de 1691) – “compramos de tigelinhas para doce…” (BORGES, 2013: 77-78).
A quem gosta de conhecer a história da doçaria ou de experimentar novas “velhas” receitas aconselha-se a compra do livro. Estudar e divulgar a doçaria portuguesa é uma forma de preservar a nossa memória colectiva. Parabéns ao autor.

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Nevadas (antigamente designados palermos cobertos), fabricadas na Pastelaria O Mosteiro, em Lorvão. Fotografia de IMF. 19.10.2012

Se ficou com água na boca, nada melhor do que sair do mosteiro, atravessar a rua e entrar na pastelaria «O Mosteiro», onde poderá saborear os palermos cobertos, hoje designados nevadas. Mas aí encontrará outra doçaria de inspiração conventual como os queijinhos (doce de ovo e amêndoa), os pastéis de Lorvão (com amêndoa) e os mimos (com amêndoa sem pele).

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Bibliografia

BORGES, 2013
Nelson Correia Borges – Doçaria Conventual de Lorvão. Penacova: Câmara Municipal, 2013.

DICCIONARIO, 2001
Diccionario de la lengua española. 2 vol. 22.ª ed. Madrid: Espasa Calpe, 2001.

FERNANDES, 2012
Isabel Maria Fernandes – Doçaria de Guimarães: sua história. In Doçaria de Guimarães: sua história. Guimarães: Despertar Memórias, 2012. P. 9-73.

HOUAISS, 2003
Dicionário Houaiss. Vol. 1. Lisboa: Círculo dos Leitores, 2003.